A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo

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Die Protestantische Ethik
und der Geist des Kapitalismus
A ética protestante e o "espírito" do capitalismo
Die protestantische Ethik und der 'Geist' des Kapitalismus original cover.jpg
Capa da edição alemã de 1934
Autor (es) Max Weber
Idioma alemão
País Alemanha
Assunto sociologia, religião
Lançamento 1904-1905

A ética protestante e o "espírito" do capitalismo (no original em alemão Die protestantische Ethik und der 'Geist' des Kapitalismus) é uma obra produzida por por Max Weber (1864-1920), considerado um dos fundadores do pensamento sociológico. Trata-se do seu livro mais lido e mais conhecido. Nele ele investiga a relação existente entre certa forma de conduta econômica e suas raízes religiosas. O livro foi traduzido pela primeira vez para o ingles por Talcott Parsons em 1930.[1]

== Histórico ==

Normalmente considerado um livro, o texto possui, na verdade, uma história complexa. Sua primeira parte, intitulada "o problema" foi publicada como artigo em abril de 1904. Logo após Weber deslocou-se para o Congresso de St. Louis nos Estados Unidos. A viagem durou 11 meses e marcou profundamente a visão do autor sobre o papel da religião na vida econômica. Na volta ele retomou seus trabalhos e a segunda parte do estudo, intitulada "a ideia de profissão do protestantismo ascético", foi publicada em setembro de 1905. Em princípio, portanto, o escrito em questão é composto, na verdade, de dois artigos independentes. Também em 1906, logo depois de retornar de sua viagem ao continente americano, ele escreveu ainda o texto "Igrejas e Seitas na América do Norte" que foi mais tarde modificado e intitulado "As seitas protestantes e o espírito do capitalismo".

Já naquela época o estudo de Weber desencadeou uma intensa polêmica científica e foi criticado por Karl Fischer e Friedrich Rachfahl. Weber reagiu asperamente a estas críticas e publicou várias réplicas a estes ataques. Atualmente estes comentários foram reunidos em uma única publicação chamada de "Anticríticas" e que contém os seguintes textos:

* Observações críticas sobre as observações críticas precedentes.

* Observações sobre a "réplica" do Senhor K. Fischer

* Novamente Calvinismo e capitalismo

* Anticrítica conclusiva

Max Weber voltou ao seu estudo em 1920 com a intenção de inseri-lo em um conjunto maior de estudos intitulados "Ensaios Reunidos da Sociologia da Religião" que, além do protestantismo, tratava de diversas outras religiões. Com esse propósito ele escreveu uma "Introdução" ao escrito para explicar de que forma eles se integravam e combinavam. Na primeira tradução inglesa do livro, feita por Talcott Parsons, em 1930, esta introdução foi incorporada ao texto, dando-nos a falta impressão de que ela pertence ao corpo da Ética Protestante, o que não procede. A introdução foi escrita para explicar os objetivos dos seus Ensaios e não para a Ética Protestante propriamente falando. Nesta segunda fase, Weber não deixou o texto inalterado, pois acrescentou (sem retirar nada) diversos trechos novos, tanto no corpo do texto quanto em suas inúmeras notas de rodapé.

== Conteúdo ==

A obra é composta de cinco capítulos, distribuídos em duas partes.

O capítulo inicial discute a relação entre "confissão religiosa e estratificação social". Partindo de diversos estudos estatísticos, Weber verifica uma relação positiva entre crença religiosa e tipo de atividade econômica. Ele constatou que proprietários do capital, empresários e mão de obra qualificada, eram, em regra, de origem protestante. No campo da educação, por sua vez, católicos tinham inclinação para uma educação humanística, enquanto os protestantes preferiam uma educação de tipo técnico. Qual a razão para essa inclinação para o racionalismo econômico dos protestantes?

Visando explicar a razão desse fenômeno, no capítulo seguinte, Weber apresenta sua definição de "espírito do capitalismo". É aqui que ele define seu objeto de pesquisa, considerado por ele uma "individualidade histórica". Evitando dar definições abstratas, ele escolhe como exemplo desta forma de comportamento as máximas de Benjamin Franklin: tempo é dinheiro, crédito é dinheiro, dinheiro é fértil por natureza, o bom pagador sempre terá crédito, as mínimas ações afetam o crédito, etc. Nestas regras ele vê a manifestação de um certo espírito moral ou ethos: a ideia da profissão como dever e da necessidade de se dedicar ao trabalho produtivo como fim em si mesmo. Essa forma de encarar diferenciava-se claramente do tradicionalismo econômico, pois aqui o indivíduo apena se dedicava ao trabalho enquanto necessário, mas não como um valor intrínseco. O tradicionalismo foi o grande inimigo do espírito do capitalismo. Ao final do capítulo Weber distingue claramente entre a "forma" e "espírito" do capitalismo, afirmando que vai tratar apenas do primeiro desses elementos. Ele também negou qualquer tipo de ligação necessária (ou seja, que não fosse histórica) entre a forma do capitalismo e o seu espírito.

Isso o leva às raízes religiosas dessa forma de ação e ideia do "conceito de vocação em Lutero". Analisando a tradução que Lutero fez da Bíblia e do termo "profissão" ou "vocação" (em alemão Beruf) ele diz estar aí presente uma ideia nova: a de uma missão dada por Deus. Lutero teve um papel fundamental na origem do espírito do capitalismo ao levar a ascese dos monges para a prática cotidiana. Dessa forma Lutero confere um valor religioso ao trabalho. O senso de dever e disciplina que o monge pratica fora do mundo (ascese extramundana) passou a ser exigida de todo e qualquer leigo cristão dentro do mundo (ascese intramundana). Mas, em Lutero o tipo de profissão exercido pelo indivíduo ainda era concebido de forma tradicionalista. De qualquer forma, sua mudança religiosa é a origem de consequências não premeditas por ele (a origem do capitalismo), o que leva Weber a averiguar qual a "afinidade eletiva" entre a moral protestante e a conduta capitalista.

Na segunda parte do livro "Os fundamentos religiosos da ascese intramundana" ele analisa os principais ramos do protestantismo posterior a Lutero também chamado de "protestantismo ascético" ou "puritanismo". De um lado estão as seitas que aceitam a tese da predestinação (Deus escolhe quem será salvo, independente dos méritos e conhecimentos dos indivíduos), como é o caso do calvinismo, do pietismo e do metodismo. Um segundo portador importante do puritanismo são os grupos anabatistas que apregoam a necessidade de separar puros e impuros e, por isso, rebatizar todos os cristãos adultos. Em ambos os casos o indivíduo tinha que provar sua qualificação religiosa com base no trabalho árduo, sério, honesto e disciplinado.

As consequências econômico-sociais de todo esse processo são analisadas no último capítulo chamado de "ascese e capitalismo". Aqui ele mostra como essas crenças religiosas modificaram a visão religiosa se tinha da riqueza. Ela nunca poderia ser um fim em si mesma, mas agora ela era considerada como uma comprovação da honestidade e idoneidade religiosa da pessoa. Nunca a riqueza tinha sido vista de forma tão positiva. A partir dessa crença a dedicação ao esporte, as artes e outras atividade era considerada uma falha com a principal obrigação da vida: trabalhar. A religião protestante contribui assim para formar o moderno homem de negócios e mesmo o trabalho dos tempos atuais: "ela fez a cama para o homem econômico moderno" (p.158). Apesar de atualmente estar apagada, a motivação religiosa está por detrás do impulso aquisitivo que está na base da conduta capitalista.

== Impacto ==

O livro A ética protestante e o espírito do capitalismo possui uma dimensão histórica e outra sociológica.

Do ponto de vista histórico, Weber não foi o primeiro a sugerir uma ligação entre ideias protestantes e práticas econômicas. Muitos observadores como William Petty, Montesquieu, Henry Thomas Buckle, John Keats e outros tinham já comentado a afinidade entre o protestantismo e o desenvolvimento do espírito comercial. Esta conexão também tinha sugerida em sua época por autores como Werner Sombart, Eberhard Gotheim e Georg Jelinneck (1851-1911). O que Weber fez foi aprimorar ainda mais esta linha de argumentação.

Também não seria possível resumir a lista de autores que negam a hipótese apresentada por Weber e não veem nenhuma ligação entre protestantismo e capitalismo. Já na época de Weber o tema foi criticado por seus colegas da Escola Histórica como Werner Sombart e Franz Brentano. A eles se se seguiram muitos outros pensadores e estudos. O livro também foi abertamente criticado pelo pensamento marxista que via em Weber um defensor do idealismo, pois ele estaria negando a determinação em última instância dos fatores econômicos. Contudo foi o próprio Weber que afirmou que seu estudo tratava apenas de um lado da conexão causal entre interesses materiais e interesses ideais.

Na sociologia, um dos primeiros a destacar a dimensão sociológica do texto de Weber foi James Coleman.

Deve-se notar que Weber afirmou que apesar de as ideias religiosas puritanas terem tido um grande impacto no desenvolvimento da ordem econômica na Europa e nos Estados Unidos, eles não foram o único fator responsável pelo desenvolvimento. Outros factores, relacionados, seriam o racionalismo na ciência, a mistura da observação com a matemática, a jurisprudência, a sistematização racional da administração governativa e o empreendimento econômico. O protestantismo ascético, como já enfatizado, influenciou apenas um único elemento formador do capitalismo: seu espírito.

Na segunda versão da obra (revisada em 1920), Weber inseriu no texto a expressão "desencantamento do mundo". Dessa forma ele queria mostrar que o protestantismo também tinha contribuído para eliminar a magia como meio de salvação. Diferente do catolicismo e do luteranismo que valorizavam os sacramentos, o puritanismo da seitas valorizava apenas o trabalho ascético e a disciplina moral como formas de assegurar a certeza interior da salvação. Dessa forma elas tinham esvaziado completamente o papel dos sacramentos. O que importava era comprovar, do ponto de vista prático, a fé religiosa. Isso levou a uma forma prática de conduta chamada de racionalismo da dominação do mundo

A obra é considerada por muitos intelectuais contemporâneos como o livro do século. Em 1998 a International Sociological Association listou esta obra como o quarto livro sobre sociologia, mais importante do século XX.[2]

Referências

  1. The Protestant ethic and the "spirit" of capitalism and other writings. [S.l.]: Penguin, 2002. ISBN 978-0-14-043921-2. Visitado em 21 August 2011.
  2. ISA - International Sociological Association: Books of the Century International Sociological Association (1998). Visitado em 25-07-2012.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]