A História do Declínio e Queda do Império Romano

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Edward Gibbon,
por Henry Walton[1]

A História do Declínio e Queda do Império Romano (no original em inglês The History of the Decline and Fall of the Roman Empire) é uma obra monumental de Edward Gibbon. É considerada um marco no campo da história e é frequentemente considerada a primeira obra "moderna" de história. Foi publicado em seis volumes. O primeiro volume foi publicado em 1776 e o último volume em 1788. Gibbon devotou grande parte da sua vida a esta obra.

Gibbon, como muitos historiadores antes do estabelecimento da ciência da arqueologia, dependia de fontes literárias. Ele recorreu muito raramente a fontes secundárias de historiadores ou literatos já falecidos, preferindo recorrer a contemporâneos ou quase-contemporâneos. Uma razão importante para que a obra de Gibbon tenha prevalecido no tempo foi o seu julgamento prudente e esclarecido quanto à fidelidade das fontes e ainda o seu esforço diligente na sistematização das afirmações de outros historiadores. Um livro que Gibbon certamente consultou foi Grandeur et décadence des Romains (seu título menos utilizado, por extenso: Considérations sur les causes de la grandeur des Romains et de leur décadence) por Montesquieu.

A obra é considerada a primeira da história "moderna" porque procura explicações para eventos históricos em termos de sociedade, cultura e política, em vez de seguir uma lógica de um plano divino. Autores cristãos prévios quase sempre explicaram acontecimentos em termos religiosos e não procuraram as explicações "neste mundo". Gibbon manteve-se fiel a um cepticismo crítico e escreveu uma versão bem diferente da história.

Após a sua publicação inicial, provocou uma considerável controvérsia. Não apenas rejeitou a atribuição do curso da história a um plano divino, mas também escreveu extensivamente sobre a cristandade no seu início, em termos que apesar de serem historicamente precisos e detalhados, nem sempre são favoráveis aos cristãos da antiguidade.

Controvérsia: capítulos XV, XVI[editar | editar código-fonte]

O volume I foi originalmente publicado em seções, como era comum para grandes trabalhos na época. As duas primeiras foram bem recebidas e muito elogiadas. A quarta seção do volume I, especialmente os capítulos XV e XVI, foram altamente controversos, e Gibbon foi atacado como "pagão". Gibbon desafiou a história ao estimar números de mártires cristãos bem menores do que o tradicionalmente aceito. Devido ao fato de que a Igreja Católica tinha o virtual monopólio e suas próprias interpretações latinas eram consideradas sacrossantas, o resultado foi que os escritos da Igreja raramente foram questionados antes. Para Gibbon, porém, os escritos da Igreja eram fontes secundárias, e ele as preteriu em favor de fontes primárias contemporâneas do período estudado. Esta é a razão de Gibbon ser considerado "o primeiro historiador moderno".

Ele comparou o reinado de Diocleciano (284305), e Carlos V (15191556) e o eleitorado do Sacro Império Romano-Germânico, construindo o argumento de que os dois eram surprendentemente similares. Ambos imperadores foram assolados por guerras contínuas e taxação excessiva; ambos escolheram abdicar como imperadores aproximadamente com a mesma idade; e ambos escolheram uma vida tranquila após a aposentadoria.

O excerto que se segue, do capítulo XV, é o último parágrafo do volume I. Este excelente exemplo demonstra o estilo da escrita de Gibbon, o seu uso da ironia e de humor e o seu cepticismo acerca da história da cristandade num parágrafo:

"Mas como deveremos perdoar a negligência indiferente do mundo pagão e filosófico que foram apresentadas, não para seu julgamento mas para os seus sentidos? Durante a época de Cristo e seus apóstolos, e dos seus primeiros discípulos, a doutrina que eles professavam era confirmada por inúmeros prodígios. Os coxos caminhavam, os cegos viam, os doentes eram curados, os mortos ressuscitavam, demónios eram esconjurados e as leis da Natureza eram frequentemente suspensas em benefício da igreja. Mas os sábios de Roma e da Grécia desinteressaram-se deste horrível espetáculo e, prosseguindo as suas ocupações normais da vida e do estudo, pareciam inconscientes de quaisquer alterações na moral e no governo material do mundo. Sob o reinado de Tibério, o mundo inteiro, ou pelo menos a celebrada província do Império Romano, estava envolvido na obscuridão sobrenatural. Mesmo este evento miraculoso, que deve ter apelado à curiosidade e devoção da humanidade, passou sem grande notícia numa época de ciência e de história. Aconteceu durante a vida de Séneca e de Plínio o Velho, que devem ter experimentado os efeitos imediatos ou recebido a informação mais privilegiada do prodígio. Qualquer um destes filósofos recolheu detalhadamente os fenómenos da natureza, tremores de terra, cometas e eclipses que a curiosidade infatigável pode recolher. Quer um quer outro omitiram uma menção ao maior fenómeno que algum mortal testemunhou desde a criação do globo."

A data de 476 d.C., ano da deposição do último imperador de Roma (Rômulo Augusto) pelo hérulo Odoacro é apontada como Edward Gibbon como o ano da queda do Império Romano do Ocidente, o que é convencionalmente aceito e considerado como o fim da Antiguidade e início da Idade Média.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. National Portrait Galery (em inglês). National Portrait Galery - Edward Gibbon (2009). Página visitada em 07 de janeiro de 2010.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • GIBBON, Edward. Declínio e queda do Império Romano. Edição abreviada. São Paulo: Companhia da Letras: Círculo do Livro, 1989.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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