Abbott Handerson Thayer

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Abbott Handerson Thayer
Retrato de Abbott Handerson Thayer, do Archives of American Art.
Nascimento 12 de agosto de 1849
Boston, Massachusetts
Morte 29 de maio de 1921 (71 anos)
Dublin, New Hampshire
Nacionalidade Estados Unidos americana
Ocupação pintor
"Uma Virgem" (1892-93), pintura em alusão à "Vitória de Samotrácia"

Abbott Handerson Thayer (Boston, 12 de agosto de 1849 – Dublin, New Hampshire, 29 de maio de 1921) foi um artista, naturalista e professor americano. Como pintor de retratos, figuras, animais e paisagens, ele gozou de certo prestígio durante sua vida, e suas pinturas estão representadas nas principais coleções de arte dos Estados Unidos. É talvez mais conhecido por suas pinturas de 'anjos', alguns dos quais utilizaram seus filhos como modelos.

Durante o último terço de sua vida, trabalhou juntamente com seu filho, Gerald Handerson Thayer, em um importante livro sobre camuflagem na natureza, intitulado Concealing Coloration in the Animal Kingdom: An Exposition of the Laws of Disguise Through Color and Pattern; Being a Summary of Abbott H. Thayer’s Disclosures. Primeiramente publicado pela editora Macmillan Publishers em 1909, e depois relançado em 1918, teve um amplo impacto sobre o uso da camuflagem militar durante a Primeira Guerra Mundial. Contudo, o livro foi severamente ridicularizado por Theodore Roosevelt e outros por sua suposição tendenciosa de que toda a coloração animal é enigmática.[1]

Thayer também influenciou a arte americana através de seu trabalho como professor, dando instrução para muitos aprendizes em seu estúdio em New Hampshire.

Juventude[editar | editar código-fonte]

Thayer nasceu em Boston, Massachusetts. Filho de um médico, sua infância foi passada na zona rural de New Hampshire, perto de Keene, no sopé do monte Monadnock.[2] Nesse cenário rural, tornou-se um naturalista amador[3] (em suas próprias palavras, era um "pássaro louco"), um caçador e um vendedor de peles. Estudou as "Aves da América" de John James Audubon em uma frequência quase que diária, experimentou a taxidermia, e fez seus primeiros trabalhos de arte: pinturas em aquarela de animais.[2]

Na idade de quinze anos foi enviado para a Chauncy Hall School, em Boston, onde conheceu Henry D. Morse, um artista amador que pintava animais. Com a orientação de Morse, Abbott desenvolveu e melhorou as suas habilidades de pintura, com foco em representações de pássaros e outros animais silvestres, e logo começou a pintar retratos de animais em comissão.[4]

Aos dezoito anos mudou-se para o Brooklyn, Nova York, a fim de estudar pintura na Brooklyn Art School e na Academia Nacional de Desenho, sob a orientação de Lemuel Wilmarth.[4] Conheceu muitos artistas emergentes e progressistas durante este período, em Nova York, incluindo a sua futura esposa, Kate Bloede e seu amigo íntimo, Daniel Chester French. Mostrou seus trabalhos para a recém-formada Society of American Artists, e continuou aperfeiçoando sua técnica como pintor de animais e de paisagens.[4] Em 1875, casado com Kate Bloede, mudou-se para Paris, onde estudou por quatro anos na École des Beaux-Arts, com Henri Lehmann e Jean-Léon Gérôme,[2] e onde seu melhor amigo tornou-se o artista americano George de Forest Brush. De volta a Nova York, montou seu próprio estúdio de retratos (que ele dividiu com Daniel Chester French), tornou-se ativo na Society of American Painters, e começou a dar aulas para aprendizes.

Retorno a New Hampshire[editar | editar código-fonte]

Monadnock no Inverno, 1904. Óleo sobre tela.

A vida se tornou insuportável para Thayer e sua esposa no início da década de 1880, quando dois de seus filhos pequenos morreram inesperadamente, num intervalo de apenas um ano.[5] Emocionalmente devastados, passaram os anos seguintes se deslocando de um lugar para outro. Embora ainda não estivesse garantido financeiramente, a crescente reputação de Thayer fez surgirem mais pedidos de retratos do que ele poderia aceitar.[6] Entre seus contratantes estavam Mark Twain e Henry James, mas os temas de muitas de suas pinturas eram os seus três filhos restantes, Mary, Gerald e Gladys.

Após a morte de seu pai, a esposa de Thayer caiu em uma depressão irreversível, que a levou ser internada em um manicômio, ao declínio de sua saúde, e posteriormente à sua morte em 3 de maio de 1891 resultante de uma infecção pulmonar. Logo depois, Thayer se casou com sua amiga de longa data, Emmeline "Emma" Buckingham Beach, cujo pai era proprietário do jornal The New York Sun. Ele e sua segunda esposa, passaram o restante de seus anos na zona rural de New Hampshire, vivendo uma existência simples e trabalhando produtivamente. Em 1901, estabeleceram-se permanentemente em Dublin, New Hampshire, onde Thayer havia crescido.[2]

Excêntrico e teimoso, Thayer aparentava ser mais velho do que sua idade real, e seu modo de viver em família refletia suas fortes convicções: os Thayers normalmente dormiam ao ar livre durante todo o ano, a fim de usufruir dos benefícios do ar fresco,[7] e os três filhos nunca foram matriculados na escola.[8] Os dois mais jovens, Gerald e Gladys, compartilharam totalmente o entusiasmo de seu pai, e tornaram-se pintores.[9] Em 1898, Thayer visitou St Ives, na Cornualha, carregando uma carta de apresentação de C. Hart Merrian, o chefe da Reserva Biológica em Washington, D.C., endereçada ao senhor da propriedade de St Ives e Treloyhan, Henry Mornington Arthur Wellesley, o 3.º Conde de Cowley, solicitando permissão para coletar espécimes de aves das falésias de St Ives. Durante esta última parte de sua vida, um de seus vizinhos em Dublin foi George de Forest Brush, com quem (quando não estavam brigando), colaborou em questões relativas à camuflagem.

Realizações artísticas[editar | editar código-fonte]

"Anjo" 1887. Pintura do acervo do Smithsonian American Art Museum.

É difícil falar de maneira simples e conclusiva sobre Thayer como artista. Ele foi muitas vezes descrito como uma pessoa excêntrica, de temperamento instável, e há uma mistura paralela contraditória de tradição acadêmica, espontaneidade e improvisação em seus métodos artísticos. Por exemplo, ele é amplamente conhecido como um pintor de "figuras ideais", no qual retratou mulheres como encarnações da virtude, adornadas em túnicas brancas e equipadas com asas de anjo. Ao mesmo tempo, fez isso usando métodos surpreendentemente não ortodoxos, irrestritos e surpreendentes, como a mistura de sujeira propositadamente na pintura, ou (em pelo menos um caso), usando uma vassoura ao invés de uma escova para diminuir a sensação de rigidez em uma pintura recém-terminada e ainda úmida. Sobreviveu com a ajuda de seus patronos, entre eles o empresário Charles Lang Freer. Algumas de suas melhores obras estão no acervo do Freer Gallery of Art, Metropolitan Museum of Art, Academia Nacional de Desenho, Smithsonian American Art Museum, e Art Institute of Chicago.

Ensino[editar | editar código-fonte]

Thayer era também eficiente em seus ensinamentos, que ele via como algo útil, como uma parte inseparável de seu próprio trabalho em estúdio. Entre seus aprendizes mais dedicados estavam Rockwell Kent, Louis Agassiz Fuertes, Richard Meryman, Barry Faulkner (primo de Thayer), Alexander e William James (filhos do filósofo de Harvard, William James), e os próprios filho e filha de Thayer, Gerald e Gladys.

Em uma carta para Thomas Wilmer Dewing (por volta de 1917, na coleção do Archives of American Art,[10] Smithsonian Institution), Thayer revela que seu método era trabalhar sobre uma nova pintura por apenas três dias. Se trabalhasse mais tempo sobre ela, ele dizia, que poderia não concluí-la ou ainda estragá-la. Assim, no quarto dia, ele iria ao invés fazer uma pausa, ficar o mais distante possível do trabalho, porém, aproveitava esse tempo para ensinar para cada aluno como fazer uma cópia exata daquela pintura de três dias. Então, quando ele voltava para seu estúdio, (em suas palavras) "atacava uma cópia e dava-lhe novamente um empurrão de mais três dias".[11] Em consequência disto, terminaria com versões alternativas do mesmo quadro, em diferentes estágios de conclusão.

Contribuições sobre camuflagem[editar | editar código-fonte]

Thayer é por vezes referido como o "pai da camuflagem".[2] Isso não é inteiramente falso, porque, apesar de não ter inventado a camuflagem, ele foi, sem dúvida, um dos primeiros a realizar uma extensa pesquisa sobre o tema e escreveu sobre certos aspectos da coloração disruptiva,[2] sobre mimetismo, como quando uma borboleta imita uma folha (embora aqui ele tenha sido precedido por Bates, Wallace e Poulton) e, especialmente sobre contrailuminação.

Em particular, a partir de 1892, escreveu sobre a função da coloração como forma de proteção em um animal ou inseto, caracterizado pelo colorido mais escuro em áreas expostas à luz e pelo colorido mais claro em áreas que estão normalmente mais na sombra fazendo com que as formas se pareçam menos redondas e menos sólidas através do sombreado invertido. Este achado é amplamente aceito atualmente, e às vezes é chamado de Lei de Thayer.[2] Porém, ele tornou-se obcecado com a ideia de que todos os animais são camuflados, prejudicando sua tese ao afirmar que as aves como pavões e flamingos eram de fato enigmaticamente coloridas. Foi vigorosamente atacado por isto em um longo artigo escrito por Theodore Roosevelt.[1]

Ele começou a se envolver com camuflagem militar em 1898, durante a Guerra Hispano-Americana, quando ele e seu amigo George de Forest Brush propuseram o uso da coloração de proteção nos navios americanos, utilizando a contrailuminação.[2] Apesar da guerra não ter durado tempo suficiente para que suas ideias fossem colocadas em prática, os dois artistas obtiveram uma patente por suas descobertas em 1902, intitulada "Processo de Tratamento das Laterais de Navios, etc., para Torná-los Menos Visíveis", na qual seus métodos são descritos como tendo sido baseados na coloração de uma gaivota.[12]

Os experimentos de Thayer e Brush na camuflagem continuaram durante a Primeira Guerra Mundial, tanto de forma colaborativa como individualmente. Logo no início dessa guerra, por exemplo, Brush desenvolveu um avião transparente, enquanto que Thayer continuou com seu interesse em camuflagem disruptiva ou altamente diferenciada, que não era diferente do que o projetista britânico de camuflagem para navios, Norman Wilkinson chamaria de camuflagem Dazzle (um termo que pode ter sido inspirado nos escritos de Thayer, que se refere aos padrões de ruptura na natureza como "razzle dazzle" - uma expressão em inglês, que não tem tradução perfeita para o português, mas que representa algo como agir ou se comportar de forma a chamar a atenção de outras pessoas, confundir.)

Gradualmente, Thayer e Brush passaram seus trabalhos sobre camuflagem para a responsabilidade dos seus filhos. Concealing Coloration in the Animal Kingdom (1909), que demorou sete anos para ser concluído, foi creditado ao filho de Thayer, Gerald. Na mesma época, Thayer novamente propôs um trabalho sobre camuflagem dos navios da Marinha dos Estados Unidos (que mais uma vez não foi aceito), desta vez trabalhando sem a colaboração de Brush, mas com o filho deste, Gerome.

Em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, Thayer apresentou propostas para o Departamento de Guerra britânico, tentando sem sucesso persuadi-lo a adotar um uniforme de guerra camuflado, no lugar do tradicional monocromático cáqui.[2] Enquanto isso, a proposta de Thayer e Gerome Brush para o uso da camuflagem em navios americanos foi aprovada, e um punhado de entusiastas de Thayer (entre eles Barry Faulkner) recrutaram centenas de artistas para se juntarem ao American Camouflage Corps.

Últimos anos[editar | editar código-fonte]

Como ele próprio admitia, Thayer, muitas vezes sofria de uma condição que hoje é chamada de transtorno bipolar. Em suas cartas, descreveu-a como "o pêndulo Abbott", pelo qual suas emoções se alternavam entre os dois extremos (em suas palavras) "euforia" e "desgosto doentio". Esta situação aparentemente agravou-se com a crescente controvérsia sobre seus trabalhos sobre camuflagem (principalmente quando eles foram criticados pelo ex-presidente Theodore Roosevelt). Ao envelhecer, passou a sofrer cada vez mais de ataques de pânico, esgotamento nervoso, e pensamentos suicidas, tanto que ele já não era autorizado a ir sozinho no seu barco à lagoa Dublin.

Aos 71 anos de idade, Thayer sofreu uma série de derrames, e faleceu em casa, em 29 de maio de 1921.

Legado[editar | editar código-fonte]

Em outubro de 2008, um documentário sobre o trabalho e a vida de Thayer estreou no Smithsonian American Art Museum. Intitulado Invisible: Abbott Thayer and the Art of Camouflage, ele apresentou uma ampla seleção de seus desenhos e pinturas, arquivos de fotografias, documentos históricos e entrevista com os humoristas P. J. O'Rourke, Richard Meryman, Jr. (cujo pai foi aluno de Thayer), com o estudioso em camuflagem Roy R. Behrens, com o curador do Smithsonian, Richard Murray, amigos e parentes de Thayer, entre outros.

Notas

  1. a b Roosevelt, Theodore. (1911). "Revealing and concealing coloration in birds and mammals". Bulletin of the American Museum of Natural History 30 (Artigo 8): 119–231.
  2. a b c d e f g h i Behrens, 1988.
  3. Ross Anderson, Abbott Handerson Thayer p. 12. (Everson Museum, 1982). OCLC 8857434
  4. a b c A Finding Aid to the Abbott Handerson Thayer and Thayer Family Papers, 1851-1999 (bulk 1881-1950), in the Archives of American Art. Archives of American Art, Smithsonian Institution.
  5. Anderson 1982, p. 19.
  6. Anderson 1982, p. 19.
  7. Anderson 1982, p. 28.
  8. Anderson 1982, p. 20.
  9. Anderson 1982, pp. 31–32.
  10. Archives of American Art
  11. Anderson 1982, p. 27.
  12. U.S. Patent 715 013

Referências

Fontes não publicadas[editar | editar código-fonte]

Fontes publicadas[editar | editar código-fonte]

  • Ross Anderson (1982). Abbott Handerson Thayer. Syracuse, NY: Everson Museum. OCLC 8857434
  • Roy R. Behrens, "The Theories of Abbott H. Thayer: Father of Camouflage" em Leonardo. volume 21 N.º 3 (1988), pp. 291–296.
  • Roy R. Behrens, "Abbott H. Thayer’s Anticipation of a Computer-Based Method of Working" em Leonardo. volume 34 N.º 1 (2001), pp. 19–20.
  • Roy R. Behrens, “The Meaning of the White Undersides of Animals: Abbott H. Thayer and the Laws of Disguise” em False Colors: Art, Design and Modern Camouflage (Bobolink Books, 2002). ISBN 0-9713244-0-9.
  • Roy R. Behrens. (2009). "Revisiting Abbott Thayer: Non-scientific Reflections About Camouflage in Art, War and Zoology" (em inglês). Philosophical Transactions of the Royal Society B 364: 497–501.
  • Mary Fuertes Boynton (1952) Abbott Thayer and Natural History. St. Catherine Press
  • Nancy Douglas Bowditch, George de Forest Brush (William Bauhan, 1970).
  • Barry Faulkner, Sketches from an Artist’s Life (William Bauhan, 1973).
  • Richard Meryman, "A Painter of Angels Became the Father of Camouflage" em Smithsonian Magazine (abril de 1999), pp. 116–128.
  • Abbott H. Thayer and Gerald H. Thayer, Concealing Colouration in the Animal Kingdom (Nova York: Macmillan, 1909/1918).
  • Nelson C. White, Abbott H. Thayer: Painter and Naturalist (Connecticut Printers, 1951).
  • Nancy Stula com Nancy Noble, American Artists Abroad and their Inspiration (New London: Lyman Allyn Art Museum (em inglês), 2004).

Ligações externas[editar | editar código-fonte]