Abdullah ibn Saad

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Abdullah ibn Saad
Nome completo ‘Abdullāh ibn Sa‘ad ibn Abī as-Sarḥ
Nascimento  ?
Morte 656 ou 657
Nacionalidade Árabe
Progenitores Pai: Saad ibn Abi Sarh
Ocupação Almirante, governador provincial
Religião Islão

Abdullah ibn Saad ou ‘Abdullāh ibn Sa‘ad ibn Abī as-Sarḥ (em árabe: عبدالله بن سعد بن أبي السرح), também transliterado como Abd Allâh ibn Saad ibn Sarh (m. 656 ou 657), foi um almirante árabe do século VII, irmão adotivo do califa Rashidun Otman (Uthman ibn Affan) e filho de Saad ibn Abi Sarh.[nt 1]

Abdullah ibn Saad destacou-se principalmente por, juntamente com o futuro califa omíada Muawiya I, ter criado a primeira marinha de guerra muçulmana, baseada no Egito, que sob o seu comando conquistou várias vitórias navais, das quais a primeira importante foi a da batalha dos Mastros (de Phoenix nos registos bizantinos e Dhat al-sawari nos registos árabes), travada ao largo da costa de Phoenicus, na Lícia, em 655.[1] [nt 1]

Abdullah ibn Saad foi também governador do Egito entre 644 e 656, durante o reinado de Otman,[1] e foi durante o seu mandato que a Líbia passou a fazer parte do Império Islâmico com a captura de Trípoli em 647.[nt 1]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Abdullah nasceu no seio de uma família da tribo dos coraixitas, à qual também pertencia Maomé, o profeta e fundador do Islão.[nt 2]

Durante a vida de Maomé[editar | editar código-fonte]

Abdullah foi discípulo e escriba de Maomé em Medina.[nt 2] Segundo a tafsir de Al-Baidawi Asrar ut-tanzil wa Asrar ut-ta'wil (ou Anwar al-Tanzil wa Asrar al-Ta'wil; "Os Segredos da Revelação e Os Segredos da Interpretação"), Maomé ditou os versos do Alcorão 23:12 e seguintes que começam com «Criámos o homem de um pedaço de barro». Quando Maomé chegou à parte onde se diz «por isso produzimo-lo como outra criatura» (23:14), Abdullah disse «Então que seja Abençoado Deus o Mais Justo dos Criadores!», espantado com os detalhes da criação do homem. O profeta disse: «Escreve-o, pois assim foi revelado.» Abdallah duvidou e disse: «Se Maomé é verdadeiro, então eu recebo a revelação da mesma forma que ele recebe, e se ele é mentiroso, o que eu disse é tão bom como o que ele disse.»[2] [nt 1]

Depois deste incidente, Abdullah repudiou o Islão, deixou Medina e foi para Meca, que então ainda não era muçulmana, onde espalhou que Maomé aceitava sugestões suas durante a escrita do Alcorão. Afirmava que Maomé era um impostor que não era inspirado por Deus, pois, segundo ele, deixava modificar a palavra divina por um simples escriba.[nt 2]

No entanto, os muçulmanos acreditam que este episódio é falso, pois os versos em questão (23:12-14) foram alegadamente revelados em Meca antes da conversão inicial de Abdullah ibn Saad.[2] [nt 1] [carece de fontes?]

Noutra fonte questionável escreve-se que a seguir à conquista de Meca em 629, Maomé ordenou que Abdullah fosse executado, mas Otman o protegeu. Quando as coisas acalmaram, Abdullah foi apresentado a Maomé para lhe pedir perdão e jurar-lhe lealdade. Maomé susteve a mão[nt 3] e manteve-se silencioso. Otman implorou-lhe que perdoasse Abdullah e na terceira tentativa Maomé aceitou o juramento de lealdade de Abdullah, perdoando-o assim. Logo que Abdullah saiu, Maomé virou-se para os muçulmanos que estavam na sala e perguntou: «Não houve um homem sensato entre vós que se chegasse a ele quando ele viu que eu tinha sustido a minha mão de aceitar a sua aliança, e o matasse?» Os companheiros, aterrorizados, responderam: «Nós não sabíamos o que ia no teu coração, Apóstolo de Alá! Porque não nos deste um sinal com os olhos?». Maomé disse: «Não é aconselhável para um Profeta usar truques enganadores com os olhos.» No entanto, este registo também não parece preciso, pois al-Tabari escreveu que embora Abdulllah ibn Saad tenha inicialmente apostatado por razões desconhecidas, ele converteu-se novamente ao Islão antes da conquista de Meca.[2] [nt 1]

Durante os reinados de Abu Bakr e Omar[editar | editar código-fonte]

Abdullah participa da conquista da Síria ocorrida durante os reinados dos califas Abu Bakr (r. 632-634) e Omar (634-644), mas só se torna conhecido quando integra o exército que conquistou o Egito em 642. O comandante da invasão, Amr ibn al-As, tornou-se o governador do Egito, e enviou Abdullah à frente de uma primeira expedição militar à Núbia em 642, a qual não teve grande sucesso.[nt 2]

Quando Otman se tornou califa em 644, após o assassinato de Omar, nomeou Abdullah governador do Egito, substituindo Amr ibn al-As, e Muhammad ibn Hudhaifa[nt 4] como seu ajudante. O governo de Abdullah no Egito foi perturbado por protestos contra o seu governo. Alguns desses protestos parecem ter sido instigados pelo seu ajudante Muhammad ibn Hudhaifa.[nt 1] [carece de fontes?]

Em 647, à frente de um exército de 20 000 homens, Abdullah empreende uma campanha nos territórios bizantinos a oeste do Egito. Estas terras, que atualmente fazem parte da Líbia e da Tunísia, constituíam a província bizantina do Exarcado de Cartago (ou de África), a qual se tinha autoproclamado independente sob o nome de "Império de África" por iniciativa do ex-exarco (governador) Gregório, o Patrício que se intitulou imperador. As tropas árabes de Abdullah começaram por conquistar Trípoli e acabaria por conquistar a capital de Gregório, Sufetula (atual Sbeitla, na região central da Tunísia). Gregório morreu nessa batalha em 648 e com ele extinguiu-se o seu império efémero. São feitos muitos prisioneiros na batalha, a que se juntam os feitos nos muitos raides por toda a região. Respondendo aos apelos dos locais, Abdullah liberta esses prisioneiros contra o pagamento de um avultado resgaste, após o que se retira com o seu exército.[4] O califa concede a Abdullah um quinto do quinto (4%) do espólio saqueado durante a campanha.[5] [nt 2]

De volta ao Egito, Abdullah participa com a sua frota numa expedição contra o Chipre comandada pelo governador da Síria, o futuro califa Muawiya, que resultou no compromisso do pagamento de um tributo anual de 7 200 dinares por parte dos cipriotas.[6] [nt 2]

Em 651, Abdullah organiza uma segunda expedição à Núbia. Assedia a cidade de Dongola e destrói a respetiva igreja, mas perante a incerteza da relação de forças, assina um tratado de paz (Baqt) entre o Egito muçulmano e o reino cristão de Macúria. Esse tratado viria a ser respeitado ao longo de todo o período islâmico inicial, à parte de alguns incidentes ocasionais, e estabeleceu em Assuão a fronteira sul do Egito muçulmano.[7] O rei núbio Kalidouroun comprometeu-se a pagar um tributo anual de 360 escravos aos muçulmanos em troca de cereais, tecidos, cavalos e vinho do Egito.[8] [nt 2]

Em 655, Abdullah é o protagonista de uma vitória naval decisiva sobre a ainda todo-poderosa marinha bizantina do imperador Constante II, a batalha dos Mastros (de Phoenix nos registos bizantinos e Dhat al-sawari nos registos árabes), travada ao largo da cidade de Phoenicus, na Lícia.[1] [9] [nt 2]

Entretanto, a situação política no Egito complicava-se. Muhammad bin Hudhaifa criticou Abdullah, recomendando mudanças no governo, mas Abdullah não reagiu. Depois de muitos esforços, Muhammad acabou por perder a paciência e passou de crítico compreensivo a oponente desiludido, primeiro com Abdullah e posteriormente com Otman por tê-lo nomeado. Abdullah escreveu a Otman reclamando que Muhammad andava a espalhar a insubordinação e se nada fosse feito para o parar a situação iria agravar-se. Otman tentou silenciar os protestos de Muhammad com 300 000 dirhams e presentos caros. O suborno provocou a reação contrária da pretendida, tendo Muhammad levado o dinheiro e os presentes para a Grande Mesquita dizendo: «Vêem o que Otman está a tentar fazer? Está a tentar comprar a minha fé. Ele enviou-me estas moedas e estes bens como um suborno.»[nt 1] [carece de fontes?]

Na origem do descontentamento de que Muhammad bin Hudhaifa fazia eco, estava a determinação de Abdullah de desviar fundos do Egito para o califa em Medina, o que provocou grande oposição entre os muçulmanos, que entendiam que esse rendimento era seu como recompensa da conquista. O descontentamento aumentou com a chegada de mais colonos árabes, que colocaram mais pressão nos recursos locais.[7]

Otman enviou muitas cartas apaziguadoras para Muhammad, mas ele continuou a incitar a agitação contra Abdullah. Em 656 os líderes do Egito decidiram enviar uma delegação a Medina para pedir a destituição de Abdullah. Este também foi a Medina para se defender na corte do califa. Durante a sua ausência, Muhammad ibn Hudhaifa liderou uma rebelião em janeiro de 656 e tomou conta do governo. Os apoiantes de Hudhaifa, eram principalmente participantes das primeiras conquistas que, como o próprio Hudhaifa, não eram líderes tribais árabes e encaravam Abdullah como um risco para os monopólios que tinham ganho com a conquista.[7]

De acordo com uma história muito divulgada a delegação enviada ao califa Otman era composta por 400 pessoas, às quais o califa garantiu que os seus pedidos seriam aceites. No entanto, no caminho de volta ao Egito, essa delegação intercetou um mensageiro portador de uma mensagem de de Otman para Abdullah, que estava então em Elath,[nt 5] na qual o califa ordenava a Abdullah que pusesse cobro à revolta. Furiosos com o aparente logro por parte de Otman, os protestantes teriam voltado a Medina onde tiveram um papel importante no assassinato do califa, ocorrido durante o cerco à sua casa (Cerco de Otman).[7]

Abdullah soube do cerco à casa de Otman quando se encontrava em Elath, a caminho de Medina, e a notícia fê-lo decidir voltar para o Egito. Na fronteira foi informado que Muhammad tinha dado ordens para o impedirem de entrar no Egito. Abdullah foi então para a Palestina onde esperou pelo desfecho dos acontecimentos em Medina. Entretanto, Otman foi morto em Medina e quando Abdullah soube disso, deixou a Palestina e foi para Damasco para se refugiar sob a proteção de Muawiyah I.[nt 1] [carece de fontes?]

Outra versão da deposição de Abdullah como governador do Egito é a de que a revolta que colocou Muhammad ibn Hudhaifa ocorreu quando Abdullah se encontrava em Medina onde tinha ido ajudar Otman na guerra civil contra os partidários de Ali ibn Abi Talib. Abdullah deixou um dos seus lugar-tenentes à frente do governo do Egito, o qual foi aprisionado por Muhammad ibn Hudhaifa, que toma o poder no Egito em nome de Ali. Depois do assassinato de Otman, Abdullah tenta reentrar no Egito, mas é impedido de o fazer, sendo intercetado em Ascalão ou Ramla, onde é morto em 656 ou 657.[nt 2] [carece de fontes?]

Notas

  1. a b c d e f g h i j Artigo «Abdullah ibn Saad» na Wikipédia em inglês (acessado nesta versão).
  2. a b c d e f g h i Artigo «Abd Allâh ibn Saad ibn Sarh» na Wikipédia em francês (acessado nesta versão).
  3. "withheld his hand" no original em inglês, uma expressão arcaica que significa "suster a mão",[3] que em textos religiosos tem usualmente o significado de "alguém que pode, deixa de fazer algo".
  4. O pai de Muhammad, Abu-Hudhayfah ibn Utbah, foi um dos primeiros convertidos ao Islão que morreu na batalha de Jarmuque. Muhammad foi criado por Otman e quando atingiu a maturidade participou nas campanhas militares no estrangeiro.[nt 1]
  5. Elath foi uma cidade da Antiguidade mencionada na Bíblia hebraica, que é tradicionalmente associada à cidade jordana de Aqaba, sucessora da Ayla das fontes históricas árabes. O nome bíblico Elath deu nome à cidade israelita vizinha de Eilat.

Referências

  1. a b c ʿAbd Allāh ibn Saʿd ibn Abī Sarḥ (em inglês) www.britannica.com Encyclopædia Britannica. Visitado em 24 de outubro de 2011. Cópia arquivada em 24 de setembro de 2010.
  2. a b c Abdullah Ibn Sad Ibn Abi Sarh: Where Is the Truth? (em inglês) www.islamic-awareness.org. Visitado em 24 de outubro de 2011. Cópia arquivada em 9 de junho de 2011.
  3. Tradução de withhold www.infopedia.pt Porto Editora. Visitado em 25 de outubro de 2011.
  4. Hrbek 1992, p. 120-122
  5. Hussein 1974, p. 78-79
  6. Des Gagniers, p. 121
  7. a b c d Petry 1999, p. 67-68
  8. Renault 1985, p. 19
  9. Journal asiatique 1826, p. 63

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Al-Baidawi. Asrar ut-tanzil wa Asrar ut-ta'wil (ou Anwar al-Tanzil wa Asrar al-Ta'wil; Os Segredos da Revelação e Os Segredos da Interpretação) (em árabe). [S.l.: s.n.], século XIII.
  • al-Baladhuri. Genealogia dos Nobres (Ansab al-Ashraf) (em árabe). [S.l.: s.n.], século IX.