Abel-François Villemain

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Abel-François Villemain
Abel-François Villemain. Retrato por Ary Scheffer, 1855. Paris, Museu do Louvre.
Nacionalidade França francesa
Data de nascimento 9 de junho de 1790
Local de nascimento Paris
Data de falecimento 8 de maio de 1870 (79 anos)
Local de falecimento Paris
Ocupação escritor, político

Abel-François Villemain (Paris, 9 de junho de 1790 – Paris, 8 de maio de 1870) foi um político e escritor francês, notável professor da Sorbonne e da Escola Normal Superior, e ministro da Educação de 1839 a 1845.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Juventude[editar | editar código-fonte]

Filho de Ignace Jean Villemain, escudeiro, comerciante de seda e dono de terras em Combs-la-Ville (Sena e Marne), e de Anne Geneviève Laumier, filha de burgueses de Paris.

Recebeu suas primeiras aulas em um colégio interno e aos doze anos de idade atuou na tragédia grega Filoctetes, onde desempenhou o papel de Odisseu, sobre quem ele havia lido muito. Em seguida, frequentou o Lycée Louis-le-Grand como excelente aluno. Seu talento logo lhe trouxe muito prestígio e até mesmo seu professor de retórica Luce de Lancival foi substituído temporariamente por ele enquanto se restabelecia de uma doença.

Estreia profissional (1810-1815)[editar | editar código-fonte]

Em 1810, logo após Villemain deixar o ensino médio, Louis de Fontanes o nomeou professor substituto de retórica do Lycée Charlemagne, em seguida, professor de literatura francesa e métrica latina da Escola Normal Superior em Paris. Em 1812 foi autorizado a participar do Concours général (competição anual de maior prestígio acadêmico realizada entre os estudantes do ensino médio) com um discurso em latim, cuja modalidade tinha acabado de ser reintroduzida. Seu discurso impressionou o público pelo consumado estilo latino e o alto raciocínio espirituoso e imaginativo. Em 23 de março de 1812 recebeu um prêmio da Academia Francesa por seu elogio a Michel de Montaigne (também em 25 de agosto de 1816 por seu elogio a Montesquieu). Este sucesso garantiu-lhe proteção de Jean Baptiste Antoine Suard, do Conde de Narbonne e da princesa de Vandemont e foi devido a seu espirituoso talento, apesar de sua aparência pouco atraente e de suas roupas desleixadas, um convidado valorizado nos salões literários, em especial no de Madame de Broglie, filha da famosa escritora Madame Anne Louise Germaine de Staël. Em duas outras competições acadêmicas ele triunfou com a mesma habilidade.[1]

Carreira durante a Restauração[editar | editar código-fonte]

Abel-François Villemain, 1843.

Na Academia Francesa, em 21 de abril de 1814, Villemain foi excepcionalmente autorizado a ler, na presença do rei da Prússia Frederico Guilherme III e do imperador da Rússia Alexandre I, seu ensaio intitulado Avantages et inconvénients de la critique, e fez elogios aos monarcas estrangeiros, pelo qual foi severamente criticado pelos liberais. No final de maio de 1814, foi nomeado, primeiramente, professor assistente de História Moderna, em substituição a François Guizot, e em novembro de 1816, professor de eloquência francesa substituindo Pierre-Paul Royer-Collard em Sorbonne. Neste lugar, por dez anos, com exceção de interrupções muito curtas, Villemain deu uma série de palestras sobre a história da literatura francesa, que foram muito bem frequentadas e recebidas com entusiasmo, e tiveram uma enorme influência sobre seus contemporâneos mais jovens, entre os quais estava Honoré de Balzac de 1816 a 1819.[2]

Sem abrir mão de seu cargo de professor, Villemain foi no ministério de Decazes, em dezembro de 1815, diretor do comércio de livros (Chef de l'imprimerie et de la librairie) no Ministério do Interior e nesta função foi responsável também pela censura à imprensa. Em 4 de novembro de 1818, foi nomeado Maître des requêtes no Conselho de Estado. Estas atividades de gestão já não eram suficientes para ele e logo buscou um mandato eleitoral. Villemain se filiou ao partido dos doutrinários e combateu os ideais políticos do monarquista Jean-Baptiste de Villèle. Em 25 de abril de 1821 Villemain ocupou a cadeira número 17 da Academia Francesa deixada vaga por Louis de Fontanes.[1]

Inspirado pela luta grega para conquistar a libertação contra a ocupação secular pelo Império Otomano, Villemain escreveu dois artigos sobre este tema em 1825: (Lascaris ou les Grecs du XVe siècle e Essai sur l'état des Grecs depuis la conquête musulmane).

O ministro Villèle proibiu temporariamente a realização das palestras de Guizot, Victor Cousin e Villemain em Sorbonne, porque via com preocupação seu contínuo sucesso. Em 1827 Villemain foi o único membro do Conselho de Estado a opor-se à proposta de reintrodução da censura. A Academia Francesa encarregou Villemain, Charles de Lacretelle e François-René de Chateaubriand de redigirem uma petição ao rei Carlos X contra a lei de censura (Lei de 24 de junho de 1827). Villemain desempenhou tão bem a sua tarefa, que Villèle o destituído de seu cargo no Conselho de Estado no mesmo dia. Em suas palestras sobre os escritores do século XVIII, ele aludiu às grandes ideias de liberdade, fez observações veladas e contundentes contra o governo, que sua audiência compreendeu imediatamente tomou-se de alegria.

No início de 1828, Villèle pediu demissão de seu cargo e Villemain foi readmitido em sua função anterior, agora sob o ministério de Martignac. Em seguida, colocou toda a flexibilidade de uma sagacidade mordaz a serviço da causa liberal e demitiu-se do Conselho de Estado em 1829, com o advento do ministério de Polignac. Eleito deputado pelo departamento de Eure em 19 de julho de 1830,[3] ocupou o seu lugar entre os constitucionalistas.

Sob a Monarquia de Julho[editar | editar código-fonte]

Estátua no Hôtel de Ville, Paris.

A Revolução de 1830 lhe garantiu uma posição política proeminente. Fez parte da comissão responsável pela revisão da Constituição e foi favorável à revogação do artigo que declarava o catolicismo a religião do Estado. Nas eleições de 1831, os eleitores de Évreux se recusaram a renovar o seu mandato, mas Luís Filipe o nomeou membro do Conselho Real da Instrução Pública, onde se tornou vice-presidente em 1832, conselheiro de Estado em serviço extraordinário e par de França (11 de outubro de 1832). Foi também eleito secretário perpétuo da Academia Francesa (11 de dezembro de 1834). Em 1841, foi nomeado membro da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres.

Em 30 de janeiro de 1832, casou em Dreux com Louise Desmousseaux de Givré, filha de Antoine Desmousseaux de Givré, prefeito do Império e deputado em 1815.

No Palácio de Luxemburgo, Villemain foi notado pela relativa independência de seu caráter. Ele combateu as leis de setembro (1835), e não hesitou em defender a teoria de que não há crimes de opinião, de onde ele concluiu que a imprensa deve estar sujeita ao direito comum, mesmo que não seja submetida a júri.

Depois da coalizão contra o ministério de Molé, ele se recusou a se juntar a eles, ofereceu assistência para o ministério, e foi nomeado ministro da Educação, em 12 de maio de 1839, durante o segundo ministério de Soult. Deu um novo impulso à publicação de Documents inédits sur l'histoire de France e preparou uma reorganização das bibliotecas. Permaneceu no cargo até 1 de março de 1840, quando renunciou devido a Câmara dos Deputados de forma inesperada e sem debate ter rejeitado o projeto de dotação de recursos do Duque de Nemours.

Villemain retornou as funções em 29 de outubro de 1840, durante o terceiro ministério de Soult. Cansado das fortes críticas, sua saúde se deteriorou e somado também às grandes preocupações domésticas, por algum tempo ele passou por um estado de desespero, beirando à loucura. Sentia-se perseguido pelos jesuítas. Apesar de se recuperar fisicamente, aparentava estar bastante triste. Em 30 de dezembro de 1844 Villemain renunciou ao seu cargo de ministro da Educação e recusou uma pensão a ele oferecida de 15.000 francos. Em 1845, após sua total recuperação, retomou a sua função como secretário permanente da Academia Francesa e em 1846 retornou como orador da Câmara dos Pares, onde opinou sobre a questão dos refugiados políticos e da formação educação médica.

Durante todo o período da Monarquia de Julho Villemain foi um patrono importante da literatura na França.

Depois de 1848[editar | editar código-fonte]

A Revolução de 1848 fez com que Villemain deixasse a carreira política para se ocupar de seus estudos favoritos. Não retomou sua cátedra em Sorbonne, renunciou ao seu título de professor em 1852, e se dedicou exclusivamente à publicação de vários livros novos e à reedição de seus antigos trabalhos e discursos. Em 1860, publicou La France, l'Empire et la Papauté, um livro em que defendeu o poder temporal do Papa e que causou pouca polêmica. Sua Histoire de Grégoire VII, um dos seus melhores trabalhos, foi publicada em 1873 depois de sua morte em 1870.

Obras[editar | editar código-fonte]

A obra-prima de Villemain é seu Cours de littérature française (1828-1829, 5 volumes; edição de 1864, 6 volumes), incluindo o Tableau de la littérature au Moyen Âge en France, en Italie, en Espagne et en Angleterre (1846, 2 volumes) e o Tableau de la littérature au XVIIIe siècle (1864, 4 volumes). Entre suas outras obras podem ser mencionadas em especial: Souvenirs contemporains (1856, 2 volumes) e Histoire de Grégoire VII (1873, 2 volumes).

  • Carmen. Adolescentes discipuli queruntur suum a barbatis discipulis invadi Parnassum, Parisiis, typis Fain, sd (v. 1806-1810)
  • Discours prononcé devant LL. MM. l'empereur de Russie et le roi de Prusse, (21 de abril de 1814)
  • Le roi, la charte et la monarchie, Paris, Impr. de F. Didot
  • Histoire de Cromwell, d'après les mémoires du temps et les recueils parlementaires, Paris, 1819, 2 volumes
  • Lascaris ou les Grecs du XVe siècle, Paris, 1825
  • Essai sur l'état des Grecs depuis la conquête musulmane, Paris, 1825
  • Considérations sur la langue française, servindo de prefácio para a 6.ª edição do Dictionnaire da Academia Francesa, Impr. de Firmon-Didot frères, sd (1835)
  • Notice sur Pascal, considéré comme écrivain et comme moraliste, em Pensées de Blaise Pascal, Paris, A. Ledoux, 1836
  • Essai sur l'oraison funèbre, em 'Oraisons funèbres de Bossuet, Fléchier et autres orateurs, Paris, 1837
  • Rapport sur l'« Histoire des enfants trouvés » fait à l'Académie française, dans la séance du 9 août 1838, em Nouvelles considérations sur les enfants trouvés par J.-F. Terme et J.-B. Monfalcon, Lyon, Impr. de J.-M. Bajat, 1838
  • Essai biographique et littéraire sur Shakespeare, em Chefs-d'œuvre de William Shakespeare, Paris, 1839
  • Tableau de l'état actuel de l'instruction primaire en France : rapport présenté au Roi par M. Villemain, ministre de l'Instruction publique, le 1 novembre 1841, Paris, J. Renouard, 1841
  • Fénelon, considéré comme écrivain, em Morceaux choisis de Fénelon, Paris, L. Hachette, 1842
  • Notice et jugement sur Plutarque, em Vie de Thémistocle, Paris, 1847
  • Tableau de l'éloquence chrétienne au IVe siècle, Paris, Didier, 1849[4]
  • De M. de Feletz et de quelques salons de son temps, Paris, Aux bureaux, 1842
  • Le Patriarche d'Alexandrie, loué par l'archevêque de Constantinople, an de notre ère 326-379, fragment historique, Paris, Aux bureaux de la Revue contemporaine, 1852
  • Saint Ambroise, Paris, impr. de Firmin-Didot frères, 1852 (extraído da Nouvelle biographie universelle)
  • Souvenirs de la Sorbonne en 1825. Démosthène et le général Foy, Paris, Impr. de J. Claye, 1853 (extraído da Revue des Deux Mondes, texto incluído no Souvenirs contemporains d'histoire et de littérature)
  • Souvenirs contemporains d'histoire et de littérature, Paris, Didier, 1854
  • La Tribune moderne. Première partie. M. de Châteaubriand, sa vie, ses écrits, son influence littéraire et politique sur son temps, Paris, M. Lévy frères, 1858
  • Essais sur le génie de Pindare et sur la poésie lyrique dans ses rapports avec l'élévation morale et religieuse des peuples, Paris, Firmin-Didot frères, fils et Cie, 1859
  • La France, l'Empire et la Papauté : question de droit public, Paris, C. Douniol, 1860
  • Notice sur L. Annaeus Florus, em Velleius Paterculus. Florus, Paris, Garnier Frères, 1864
  • Histoire de Grégoire VII, précédée d'un Discours sur l'histoire de la papauté jusqu'au IXe siècle, Paris, 1873, 2 vol.

Escreveu inúmeros artigos para a Revue des deux Mondes, o Journal des savants, a La Revue contemporaine, etc.

As obras de Villemain foram reunidas sob o título Discours et mélanges littéraires (Paris, Didier, 1846, pp 399.), Études d'histoire moderne (Paris, Didier, 1846, pp. 349), Études de littérature ancienne et étrangère (Paris, Didier, 1846, pp. 391.).

Condecorações[editar | editar código-fonte]

  • 1820: Cavaleiro da Legião de Honra
  • 20 de outubro de 1843: Grande Oficial da Legião de Honra

Notas

  1. a b Encyclopædia Britannica (1911) entrada para 'Villemain, Abel François (em inglês), volume 28, página 80
  2. Graham Robb, Balzac a biography, Norton & Company, Nova York, 1994, p. 48 978-0-393-03679-4
  3. 207 votos de 373 eleitores e 418 inscritos
  4. ícone Commons Pierre Larousse. « Éloquence chrétienne au IVe siècle (tableau de l’) », Grand dictionnaire universel du XIXe siècle. [S.l.: s.n.], 1870. 387-388 p. vol. 7.

Referências

  • Este artigo incorpora texto da Encyclopædia Britannica (11ª edição), publicação em domínio público.
  • Wikisource  "Villemain, Abel François". Encyclopædia Britannica (11th). (1911). Cambridge University Press. 
  • Pierre Moreau: Villemain, Abel François. Em: Dictionnaire des lettres françaises au XIXe siècle. p. 511ff.
  • Villemain, Abel François. Em: Meyers Konversationslexikon. 4.ª edição 1885-92, volume. 16, p. 210.
  • Villemain, Abel François. Em: Nouvelle biographie générale. volume. 46, 1865, p. 193-199.
  • Gabriel Vauthier – Villemain 1790-1870 : essai sur sa vie, son rôle, ses ouvrages. 1913.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]


Cargos Políticos
Precedido por
Narcisse Parant
Ministro da Educação
1839-1840
Sucedido por
Victor Cousin
Precedido por
Victor Cousin
Ministro da Educação
1840-1845
Sucedido por
Narcisse-Achille de Salvandy
Membro da Academia Francesa
Precedido por
Louis de Fontanes
11º acadêmico da cadeira 17
1821-1867
Sucedido por
Émile Littré