Abuso sexual de menores por membros da Igreja Católica

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O abuso sexual de menores por membros da Igreja Católica refere-se aos actos de abuso sexual de crianças por clérigos (cerca de 2% a 4% dos clérigos nos EUA foram acusados)[1] [2] da Igreja Católica. Foram feitas denúncias de abuso sexual de menores em muitas partes do mundo, com os casos mais notórios a chegarem às primeiras páginas no Brasil,[3] [4] Portugal,[5] Alemanha[6] , Austrália,[7] Espanha,[8] Bélgica,[9] França,[10] Reino Unido,[11] Irlanda,[12] Canadá[13] e Estados Unidos da América.[14] [15]

Os escândalos sucessivos levaram, em março de 2010, o próprio Papa Bento XVI a proferir respostas como a de que Deus guiará "no caminho da coragem que precisamos para não nos deixarmos intimidar pelas fofoquinhas da opinião dominante e nos dar coragem e paciência para apoiar os outros", enquanto em Londres católicos se juntavam na frente da Abadia de Westminster pedindo a sua saída, e para que "não feche os olhos". Na Suíça, na mesma época, a presidente Doris Leuthard defendeu a criação de um "cadastro de padres pedófilos", como medida cautelar e, nos EUA, o jornal The New York Times acusava o Papa de ter diretamente se omitido nos casos de pedofilia ocorridos naquele país e na Alemanha, na década de 1980.[16]

Casos e fatos[editar | editar código-fonte]

Vários grandes processos foram arquivados em 2001, alegando-se que padres tinham abusado sexualmente de menores.[17] Alguns sacerdotes se demitiram, outros foram afastados ou presos[18] e acordos financeiros atingindo centenas de milhões de dólares foram feitos com muitas vítimas.[17] Os casos se tornaram notícia nacional recorrente nos Estados Unidos com as acusações feitas contra Paul Shanley e John Geoghan e publicadas pelo Boston Globe em 2002.[19] [20] [21] [22] [23] [24] [25] [26] [27] [28] No mesmo ano, a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos aprovou uma política de "tolerância zero" para os acusados dessa infração.[29] [30] [31] A Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos encomendou um estudo que constatou que quatro por cento de todos os sacerdotes que tinham servido nos Estados Unidos de 1950 a 2002 enfrentaram algum tipo de acusação sexual.[32] [33] De acordo com esse relatório, as ações comuns incluíam tocar adolescentes do sexo masculino por baixo de suas roupas e a remoção de suas roupas, mas atos mais graves foram cometidos em muitos casos.

A Igreja foi muito criticada quando foi descoberto que alguns bispos sabiam sobre as alegações e transferiam os acusados, em vez de removê-los,[17] [34] embora administradores escolares procedam de forma semelhante quando lidam com professores acusados,[35] assim como escoteiros. [36] Alguns bispos e psiquiatras anotaram que a psicologia atual sugere que as pessoas poderiam ser curadas de tal comportamento através de aconselhamento.[34] [37] Muitos dos sacerdotes abusadores tinham recebido aconselhamento antes de serem transferidos.[33] [38]

Tecnicamente, cada diocese opera independentemente das suas vizinhas, ao passo que as ordens religiosas de cada diocese não respondem ao bispo local nem se encontram sob o seu controlo. Conseqüentemente, as suspeitas sobre o comportamento de padres seculares (os que pertencem a uma diocese) nem sempre são transmitidas às outras dioceses ou a hospitais e escolas geridos pelas ordens religiosas, ao passo que os abusos dos padres religiosos (padres pertencentes a uma ordem religiosa) nem sempre eram transmitidos pela ordem respectiva às dioceses e às suas escolas.

Um famoso exemplo desses factos envolveu o Frei Brendan Smyth, um padre da Ordem Norbertina na Irlanda, cujas actividades (conhecidas desde 1945) não foram relatadas ao clero diocesano e muito menos à polícia. Em 1994, Brendan Smyth deu-se como culpado de uma amostra de dezessete acusações de abuso sexual de crianças em Belfast, retirada de uma lista muito maior. Várias dioceses, o Cardeal Arcebispo de Armagh e a ordem de Smyth culparam-se uns aos outros publicamente, sem assumir as suas próprias responsabilidades pelo fracasso em pôr travão a Smyth, ao longo de 47 anos.

Após investigações levadas a cabo nos Estados Unidos da América e no Reino Unido, ficou provado que alguns bispos trasferiram diversas vezes os padres suspeitos de abuso em detrimento de medidas mais drásticas.[39] As dioceses defendem-se indicando que tais transferências deveram-se apenas à procura de tratamento adequado aos casos em questão. Outro facto importante é que em 1962 o papa João XXIII enviou uma carta a todos os bispos católicos em que indicava expressamente que as investigações de atos de abusos sobre menores dentro da Igreja deveriam ser mantidas em segredo. As vítimas, no entanto, não estavam abrangidas por essa ordem. [40] É de se ressaltar que nem essa carta nem o código de direito canônico sugeriam aos bispos que deixassem de informar os casos às autoridades. [41]

Pedofilia, pederastia e efebofilia[editar | editar código-fonte]

Um estudo nacional encomendado pela Conferência Americana de Bispos Católicos ao John Jay College of Criminal Justice (Universidade John Jay de Justiça Criminal) revelou que a maioria dos casos de abuso sexual de menores praticados por padres católicos não envolviam casos de abuso sexual de crianças, mas sim de jovens pubescentes ou pós-pubescentes, podendo caracterizar de efebofilia[42] (preferência sexual por adolescentes[43] ) e mais especificamente como pederastia (relação homossexual masculina entre adulto e adolescente[44] ). A pedofilia se refere a uma preferência sexual por crianças pré-púberes e é considerada uma doença mental pela OMS.[45]

O relatório da Universidade John Jay indica que de 80% a 90% dos padres que abusaram sexualmente de menores nos últimos 52 anos envolveram-se na verdade com garotos adolescentes, enquanto o percentual restante se refere ao abuso sexual de crianças pré-púberes. Em resposta ao relatório, o médico Dr. Rick Fitzgibbons, principal elaborador da declaração Homossexualidade e Esperança (Homosexuality and Hope), da Associação Médica Católica dos EUA, defende uma reforma completa nos seminários católicos para incluir no programa ensinamentos sobre a moralidade sexual.[46]

Críticos dessa posição defendem que estudos científicos demonstram que o facto de alguém ter abusado sexualmente de menores do mesmo sexo não está relacionado com a orientação sexual da pessoa adulta[47] e, como tal, essa medida é ineficaz e até abusiva[48] .

Resposta da Igreja ao escândalo[editar | editar código-fonte]

Face às crescentes denúncias e ao escândalo descoberto, o cardeal português José Saraiva Martins afirmou que "não devemos estar muito escandalizados se alguns bispos sabiam dos casos, mas mantiveram segredo. É isso que acontece em qualquer família, não se lava roupa suja em público", acrescentando que as denúncias que vêm ocorrendo derivam de interesse financeiro e que são parte de um complô contra a Igreja.[49]

Contrariando o tom do cardeal Saraiva Martins, o Papa Bento XVI escreveu, em Março de 2010, uma carta pastoral condenando mais uma vez a pedofilia, que já era condenada pela doutrina católica. Nesta carta, o Papa Bento XVI, que foi acusado de encobrir vários casos de padres pedófilos, expressou a sua profunda "vergonha" pelos crimes de pedofilia cometidos pelos clérigos católicos, "pediu desculpa às vítimas" e disse ainda "que os culpados devem responder “diante de Deus e dos tribunais”". O Papa ainda "“assinalou erros graves de julgamento e falhas de liderança”" dentro da Igreja e pediu a continuação dos "“esforços para remediar os erros passados e prevenir situações idênticas através do direito canónico e da cooperação com as autoridades civis”". [50] [51]

O cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, não negou as denúncias de pedofilia mas criticou as tentativas de órgãos de imprensa de responsabilizar o papa Bento XVI por todos os males da instituição.[52]

Em janeiro de 2014, o Vaticano anunciou a expulsão de 400 padres por denúncias de pedofilia. Segundo Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, em 2012 foram por volta de 100, enquanto em 2011 foram cerca de 300.[53]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Ativistas divulgam nome de padres acusados de pedofilia Brasil
  2. Relatório da Igreja revela mais 11 mil casos de abuso sexual
  3. BBCBrasil.com. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  4. Scandal of sexual abuse by priests shocks Brazil's 125 million Catholics. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  5. [1]
  6. Jesuit Priest Admits Molesting Youth: Germany Shaken By 'Systematic' Sexual Abuse at Berlin Catholic School - SPIEGEL ONLINE - News - International. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  7. Acusado de pedofilia, arcebispo de Sydney pede afastamento. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  8. BBCBrasil.com. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  9. Report on Pedophilia Exposes Deep Rifts in Belgium - NYTimes.com. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  10. Bispo é processado por não denunciar padre pedófilo. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  11. Comissão britânica sugere normas anti-pedófilos para a Igreja. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  12. Predator in the badlands. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  13. Breaking the faith. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  14. BBC Brasil. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  15. BBC Brasil. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  16. Agência Reuters (28/3/2010). Após escândalo de pedofilia na Igreja, Papa Bento XVI diz que não será intimidado por críticas O Globo.. Página visitada em 26/5/2010.
  17. a b c Bruni, A Gospel of Shame (2002), p. 336
  18. Newman, Andy. "A Choice for New York Priests in Abuse Cases", The New York Times, 2006-08-31. Página visitada em 2008-03-13.
  19. [2] acessado em 21 de março de 2009
  20. [3] acessado em 21 de março de 2009
  21. [4] acessado em 21 de março de 2009
  22. [5] acessado em 21 de março de 2009
  23. [6] acessado em 21 de março de 2009
  24. [7] acessado em 21 de março de 2009
  25. [8] acessado em 21 de março de 2009
  26. [9] acessado em 21 de março de 2009
  27. [10] acessado em 21 de março de 2009
  28. [11] acessado em 21 de março de 2009
  29. [12] acessado em 21 de março de 2009
  30. [13] acessado em 21 de março de 2009
  31. [14] acessado em 21 de março de 2009
  32. Pope calls for continuous prayer to rid priesthood of paedophilia Times Newspapers Ltd (7 de janeiro de 2008). Página visitada em 31 de março de 2008.
  33. a b John Jay Report John Jay College of Criminal Justice (2004). Página visitada em 9 de fevereiro de 2008.
  34. a b Steinfels, A People Adrift (2003). pp. 40–6
  35. Sexual Misconduct Plagues US Schools The Washington Post (2007). Página visitada em 12 de abril de 2008.
  36. Scout's Honor: Sexual Abuse in America's Most Trusted Institution, Patrick Boyle, 1995
  37. Report says clergy sexual abuse brought 'smoke of Satan' into church Catholic News Service (2004). Página visitada em 10 de março de 2008.
  38. Frawley-ODea, Perversion of Power: Sexual Abuse in the Catholic Church (2007), p. 4
  39. Paedophile priest was given post at school for the deaf. Página visitada em 29 de Dezembro de 2010.
  40. Paedophile priest was given post at school for the deaf, Guardian Unlimited. Acessado 13 de agosto de 2007
  41. Vatican Statement on the “Murphy Case”
  42. Looking at Ephebophilia through the Lens of Clerical Sexual Abuse Cimbolic, Peter; Cartor, Pam. Sexual Addiction and Compulsivity, Vol. 13, No. 4, out-dez. 2006, pp. 347-359 (13) (Ed. Routledge). Acesso em 13-junho-2009.
  43. GLBTQ Glossary – Ephebophilia
  44. GLBTQ.com – Pederasty
  45. (em inglês) ICD-10 (2007) – Pedophilia (clicar em F65.4)
  46. Seminar Reform Needed in Wake of Sex Abuse Study 01 Maio 2004, Zenit.org
  47. De Sousa, J.F.S. (2006). Imaginário Gay e Estilos de Vida Homossexuais: Uma Abordagem Biológica. Porto. citado aqui
  48. Comunicado de Imprensa - Homossexualidade e Pedofilia: Basta de Confusão
  49. Vaticano rebate acusações de que acobertou casos de pedofilia d Igreja dos EUA O Globo. (25/3/2010). Página visitada em 26/5/2010.
  50. Papa pede desculpa às vítimas de pedofilia através de carta pastoral, Euronews, 20 de Março de 2010 (acessado a 3 de Outubro de 2010)
  51. PAPA BENTO XVI (2010). Carta Pastoral do Santo Padre Bento XVI aos Católicos na Irlanda (em português) Santa Sé. Página visitada em 3 de Outubro de 2010.
  52. Cardeal defende papa em relação à pedofilia O Hoje. (01/04/2010). Página visitada em 26/5/2011.
  53. Vaticano anuncia ter expulsado 400 padres por denúncias de pedofilia G1. (18/01/2014). Página visitada em 18/01/2014.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]