Agressão

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Agressão é um ato em que um indivíduo prejudica ou lesa outro(s) de sua própria espécie intencionalmente. Ainda é um tema controverso se esse comportamento de causar danos em alguém é devido à existência de um instinto ou se é resultante de múltiplas determinações motivacionais e circunstanciais. Na espécie humana, além da agressão capaz de causar lesão corporal, existem vários tipos de agressão: dirigida, verbal, deslocada, etc. definidas por critérios de classificação jurídicos ou oriundos de diversas disciplinas científicas. A agressão distingue-se da predação por corresponder ao instinto de combate do animal e do homem dirigido contra o seu próprio congénere [1] .

Segundo definição da Organização Mundial da Saúde, considera-se violência como o uso de força ou poder, real ou apenas ameaçado, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação (OMS, 2002)[2]

Machos elefantes em combate

Concepção psicanalítica[editar | editar código-fonte]

Na concepção psicanalítica, a agressividade designa uma tendência especificamente humana marcada pelo carácter ou vontade de cometer um acto violento sobre outro. Pode, também, ser definida como uma tendência ou conjunto de tendências que se actualizam em condutas reais ou fantasmáticas, as quais visam a causar dano a outro, destruí-lo, coagi-lo, humilhá-lo etc. (Laplanche e Pontalis[3] ).

Se manifesta a partir de uma experiência que é subjetiva por sua própria constituição, subjetividade esta que não pode ser objetada por falta de mensuração, ao rejeitar como observável os resultados da introspecção e comunicação verbal, pois são visíveis seus resultados assim como o são muitos fenômenos físicos dos quais só conhecemos os efeitos. [4]

Estudo da Agressão[editar | editar código-fonte]

Os estudos da agressão ou violência assim como o da sexualidade são tidos como próprios para uma abordagem interdisciplinar, pois o seu enquadramento em qualquer uma das disciplinas científicas revela-se insuficiente. Já aceitamos com naturalidade a expressão sexologia como uma espécie de interciência que reuniu: psicologia; antropologia e diversas especialidades médicas (ginecologia; urologia; psiquiatria; endocrinologia) além das disciplinas básicas que cuidam da descrição anatômica e pesquisa das funções do aparelho reprodutor humano (fisiologia), sendo ainda mais comuns estudos com o enfoque clínico visando ao tratamento das disfunções sexuais e da da infertilidade e/ou da contracepção fundamentados em critérios sociológico–demográficos.

Os estudos da agressão, já denominados agressiologia (Agressiologie na França em 1983), [5] parecem seguir a mesma tendência de agregação multidisciplinar, situando-se, porém, o enfoque dominante na área jurídica – a criminologia - e não na área médica. São inúmeras as contribuições das ciências sociais, psicologia e ciências biológicas, em especial a etologia, e, mais recentemente, da Saúde Pública face à elevação da agressão como causa de morte em populações.[6]

Classificando a agressão humana[editar | editar código-fonte]

Muitas são as possibilidades ou critérios para classificar a agressão, especialmente humana, como por exemplo o que a própria linguagem ou os idiomas e culturas o fazem, aparentemente designando a intensidade da ação ou sentimento, a saber temos na língua portuguesa: irritação, ira, raiva, fúria etc. As categorias jurídicas de classificação de crimes por sua vez tomam como parâmetros a intensidade do dano provocado (ofensa moral, lesão corporal, morte), a motivação e forma de execução, os crimes hediondos por exemplo, se caracterizam por motivos fúteis e realização por meios cruéis. Explorando ainda as possibilidades linguísticas e forma de manifestação da agressão temos:

Combatividade (belicosidade)

É o conjunto de confrontos adaptativos para o indivíduo ou espécie contra seus congêneres em situações de competição por objeto de motivação comum, podendo ainda se distinguir formas mais ofensivas ou defensivas. [7]

Hostilidade (agressão hostil)

É um tipo de agressão emocional e geralmente impulsiva. É um comportamento que visa a causar danos ao outro, independentemente de qualquer vantagem que se possa obter. Estamos face a uma agressão hostil quando, por exemplo, um condutor bate propositadamente na traseira do automóvel que o ultrapassou. Este comportamento só trouxe desvantagens para o próprio: tem de pagar os danos do seu carro, do carro do outro condutor, podendo ainda vir a ter problemas com a justiça. O termo raiva pode designar esse sentimento em oposição à agressão premeditada. A agressão sem motivo algum denomina-se agressão gratuita e é conhecida legalmente como constrangimento ilegal.

Agressão instrumental

É um tipo de agressão em que visa a um objecto, que tem por fim conseguir algo independentemente do dano que possa causar. É, frequentemente, planejada e, portanto, não impulsiva sendo uma forma de combatividade ofensiva. Podemos apontar, como exemplo de agressão instrumental, o assalto a um banco: pode ocorrer no decurso da acção uma agressão, mas não é esse o objectivo. O seu fim é conseguir o dinheiro, a agressão que possa surgir é um subproduto da acção.

Agressão directa

O comportamento agressivo dirige-se à pessoa ou ao objecto que justifica a agressão. Na agressão sexual o objeto almejado confunde-se com o motivo da agressão na categoria acima descrita. Os motivos fúteis opõem-se à defesa da vida como critério de gravidade do ato agressivo. Nessa categoria, podem, ainda, ser incluídos os crimes de ódio, sadismo ou agressão sociopática.

Agressão deslocada

O sujeito dirige a agressão a um alvo que não é responsável pela causa que lhe deu origem. Em animais também se observa esse mecanismo de controle dos impulsos agressivos.

Autoagressão

O sujeito desloca a agressão para si próprio. Ver o verbete Suicídio.

Agressão aberta (aversão)

Este tipo de franca agressão, que se pode manifestar pela violência física ou psicológica, é explicita, isto é, concretiza-se, por exemplo, em espancamentos, ataques à autoestima, humilhações.

Agressão dissimulada

Este tipo de agressão recorre a meios não abertos para agredir. O sarcasmo e o cinismo são formas de agressão que visam a provocar o outro, feri-lo na sua autoestima, gerando ansiedade. A teoria psicanalítica tem, como explicação desta forma de agressão, a motivação inconsciente.

Agressão inibida

Como o próprio nome indica, o sujeito não manifesta agressão para com o outro, mas dirige-se a si próprio. O sentimento de rancor é um exemplo desta forma de expressão da agressão. Algumas teorias psicológicas têm a agressão inibida como causa de diversas doenças psicossomáticas. O grau mais severo do rancor pode ser designado por ódio contudo ainda não existe um consenso para essa terminologia.

Causas da Agressão[editar | editar código-fonte]

De acordo com Wierviorka, 1997, os problemas da violência estão ligados a representações sociais que os codificam positiva ou negativamente. Associado ao conceito de violência voluntária surgem os conceitos de abuso, agressão e agressividade. A agressividade, com base nos estudos de Winnicott, representa um instinto próprio a todo ser humano, necessário para a sua existência. Opinião da qual partilha o etólogo Konrad Lorenz.

A agressividade é sinônimo da motilidade, algo vital que o bebê adquire nos seus primeiros meses de vida em seu contato com o ambiente. O comportamento agressivo faz parte da vida humana, devendo ser encarado como normal. Winnicott ilustra sua definição através do comportamento da criança. A princípio, ela esgota os seus pais, mesmo sem saber, depois os esgota sabendo e, por fim, esgota-os furiosamente, com cansaço. [carece de fontes?]

A manifestações das pulsões agressivas enquanto perversões ou substratos das neuroses e psicoses vai depender do modo como a criança interage com o amor de seus pais na formação de sua identidade e superação do complexo de édipo. Do "mapa" que a psicanálise oferece das pulsões, sem dúvida, as associadas à fase anal sádica são as mais temíveis. Examinando casos clínicos associados à crueldade humana, a resistência à cura no processo de terapia e a natureza da guerra, Sigmund Freud propôs a concepção de instinto de morte (Tânato), o que corresponde à fonte das motivações agressivas humanas nos termos da psicologia.[8]

Actualmente, face à hipótese da catarse, ainda existem dúvidas acerca do impacto da violência veiculada através da televisão e do cinema na sociedade ocidental. Alguns especialistas julgam que esse tipo de exposição poderá aumentar a propensão da audiência a desenvolver algum tipo de agressividade subsequente na vida real. Além disso, as taxas de criminalidade e violência parecem também estar relacionadas com a programação da tevê. As constantes manifestações de agressividade com a qual a criança convive (família, televisão e sociedade) contribuem de forma acentuada para a reprodução desses comportamentos aprendidos.

Uma das teorias mais divulgadas sobre o comportamento agressivo foi proposta por psicólogos da Universidade Yale em 1939, por psicólogos de Yale (John Dollard, Leonard Doob, Neal Miller, O. Hobart Mowrer e Robert Sears). Seu postulado básico é a suposição de que a agressão é sempre uma consequência da frustração ou seja a resposta emocional a um bloqueio de uma resposta orientada para um objectivo numa sequência de comportamentos. Variando a intensidade ou força da agressão de acordo com a quantidade de frustração.[9] Sabe-se hoje da considerável variação individual quanto à tolerância à frustração, interpretadas por sua vez em distintas teorias psicológicas.

Do ponto de vista da genética, apesar de ser nítido, em algumas espécies e/ou nas variedades de uma espécie (cães, por exemplo), a predominância de comportamentos agressivos na sua adaptação, ainda não há consenso sobre a existência de genes para agressão e mesmo sobre doenças genéticas que possuam a agressividade como característica patognomônica, a exemplo da Síndrome XYY e Epilepsia do lobo temporal,[10] especialmente quanto à determinação genética dessa última. A gênese da sociopatia e personalidades sádicas e agressivas têm que ser consideradas de natureza multifatorial, envolvendo tanta características da origem psicossocial como biológica.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Medo e Raiva em cães segundo Lorenz, K.
Wikcionário
O Wikcionário possui o verbete agressão.
Commons
O Commons possui imagens e outros ficheiros sobre Agressão

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. LORENZ, Konrad. A agressão. SP, Martins Fontes, 1973
  2. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Relatório mundial sobre violência e saúde. Brasília: OMS/OPAS, 2002. p.5
  3. LAPLANCHE, Jean; PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. sp, Martins Fontes, 2001
  4. LACAN, Jacques. A agressividade em psicanálise. in: LACAN, Jacques. Escritos. RJ, Zahar, Campo Freudiano Brasil, 1998, p.105
  5. LABORIT, HENRI. Os mecanismos da agressividade. Correio da UNESCO ano 12, n3, 25-29, março de 1983
  6. DAHLBERG, L.L.; KRUG, E.G. Violência: um problema global de saúde pública. Ciênc. saúde coletiva vol.11 suppl.0 Rio de Janeiro 2006. Disponível em .pdf (Dez.2010)
  7. CANEGHEM, Denise van. Agressividade e combatividade. RJ, Zahar, 1980
  8. FREUD, S. Além do Princípio de Prazer. In: Obras psicológicas completas: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, (1920) 1996
  9. MEGARGEE, Edwin I.; HOKANSON, Jack E. (org.) A dinâmica da agressão: análise de indivíduos, grupos e nações. SP, EPU, EDUSP, 1976
  10. SAKAMOTO, Américo C. Expressão das crises límbicas em adultos. Escola Latino Americana de Verão de Epilepsia Material didático (Dez. 2010)