Alcides Ghiggia

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Alcides Ghiggia
Alcides Ghiggia.jpg
Informações pessoais
Nome completo Alcides Edgardo Ghiggia
Data de nasc. 22 de dezembro de 1926 (87 anos)
Local de nasc. Montevidéu, Uruguai
Informações profissionais
Posição Ponta-direita
Clubes profissionais
Anos Clubes Jogos (golos)
1946–1947
1947–1948
1948–1953
1953–1961
1961–1962
1962–1968
Uruguai Atlante
Uruguai Sud América
Uruguai Peñarol
Itália Roma
Itália Milan
Uruguai Danubio
 ? (?)
? (?)
? (8)
201 (19)
4 (0)
Seleção nacional
1950–1952
1957–1959
Flag of Uruguay.svg Uruguai
Flag of Italy.svg Itália
12 (5)
5 (1)
Times que treinou
1980 Uruguai Peñarol[1]

Alcides Edgardo Ghiggia (Montevidéu, 22 de dezembro de 1926) é um ex-futebolista uruguaio.

Ghiggia celebrizou-se como o iluminado que fez o gol do título do Uruguai sobre o Brasil em pleno Maracanã na Copa do Mundo de 1950.[2] Ele é o único jogador daquela partida ainda vivo. Teria disputado também a Copa do Mundo de 1954, mas a Roma, clube que defendia na época, não o liberou.[3]

Ele jogou também pela Itália, terra de suas raízes e pela Azzurra poderia também ter disputado a Copa do Mundo de 1958, mas o país não se classificou. Seu sobrenome italiano, de acordo com a língua italiana, pronuncia-se corretamente "Guídja",[4] mas a pronúncia mais popular no Brasil é à portuguesa, "Jíjia". No dia 13 de Junho de 2012, o jogador sofreu um grave acidente automobilístico, vindo a fraturar a perna e sofrer traumatismo craniano.

Carreira em clubes[editar | editar código-fonte]

Ghiggia começou a carreira no pequeno Atlante, em 1946, mudando-se para o um pouco maior Sud América no ano seguinte. Deu seu grande passo ao ser contratado em 1948 por um dos grandes times do Uruguai, o Peñarol.

No Peñarol, faturou o campeonato uruguaio em 1949, grande campanha do time, que terminou invicto, com 16 vitórias, 2 empates, 62 gols a favor e 17 contra,[5] Isso fez com que seis jogadores da equipe compusessem a base da Seleção Uruguaia na Copa do Mundo de 1950: Roque Máspoli, Obdulio Varela, Juan Alberto Schiaffino, Óscar Míguez, Ernesto Vidal e ele. Destes, apenas Vidal não participaria da partida decisiva contra o Brasil, devido a uma lesão, cedendo lugar a Rubén Morán.[6]

Ghiggia venceu ainda os campeonatos uruguaios em 1951 e 1953. Seu "currículo" chamou a atenção da Roma, que lhe contratou ainda em 1953. Ghiggia ficaria oito anos no clube da capital, mas apenas em sua última temporada conseguiu um título não-amistoso: a Taça das Cidades com Feiras, precursora da Copa da UEFA e da posterior Liga Europa da UEFA. Curiosamente, foi a única temporada em que atuou na Roma ao lado de seu ex-colega de Peñarol e Seleção Uruguaia Schiaffino: foi vendido ao Milan, onde Schiaffino se destacara.

No clube rossonero, Ghiggia foi finalmente campeão italiano, mas atuou apenas quatro vezes na campanha e não marcou. Sem espaço, retornou a Montevidéu como jogador do Danubio. Jogou neste clube até aposentar-se em 1968, aos 42 anos de idade.

Seleção(ões) nacional(is)[editar | editar código-fonte]

A Seleção Uruguaia posando antes da partida decisiva contra o Brasil em 1950. Ghiggia é o primeiro jogador agachado, da esquerda para a direita

Ghiggia estreou pela Seleção Uruguaia em 1950, a tempo de figurar na Copa do Mundo daquele ano. O Uruguai veio ao Brasil com um ambiente turbulento: o técnico Juan López fora escolhido apenas um mês antes do torneio, após a Celeste Olímpica obter resultados ruins contra os próprios brasileiros, o que incluía duas derrotas para a Seleção Brasileira pela Copa Rio Branco, uma derrota para o Brasil de Pelotas e, em Montevidéu, dois empates contra o Fluminense.[5] Estreou justamente em vitória por 4 x 3 sobre o Brasil pela Copa Rio Branco,[7] que ficou com os brasileiros após estes vencerem as outras duas partidas por 3 x 2 e 1 x 0.

Antes da escolha da Associação Uruguaia de Futebol por López, o Peñarol chegara a vetar a convocação de seus jogadores: a AUF desprezava o técnico da equipe aurinegra, o húngaro Emérico Hirschl, desejado pela torcida e mídia.[5] Com pouco tempo para entrosar o time, López chamou exatamente os jogadores que disputaram a Copa Rio Branco.[5]

Copa do Mundo de 1950[editar | editar código-fonte]

Na estreia, o Uruguai realizou a maior goleada da Copa, um 8 x 0 sobre a Bolívia, com Ghiggia marcando o último gol. Foi o único jogo do grupo dos dois países, composto apenas por eles, em razão das desistências das classificadas seleções de Escócia e Turquia.[8] Classificado para a fase final, decidida em um grupo de quatro seleções, o Uruguai começou ela empatando com a Espanha, com ele marcando novamente o primeiro gol do empate em 2 x 2 com sua jogada mais repetida na partida: recuava até o meio-de-campo para atrair seu marcador, o meia adversário Antonio Puchades, para Julio Pérez lançar a bola para o ataque pelas costas da defesa espanhola.[9]

As atuações de Pérez e Ghiggia foram bastante elogiadas pela imprensa uruguaia, que os classificou respectivamente de "o arco e a flecha".[10] Ghiggia foi saudado pela crônica esportiva brasileira após a partida seguinte, em uma vitória difícil de virada sobre a Suécia por 3 x 2, em que ele fez o primeiro gol: foi avaliado como "muito perigoso, se lhe for dado espaço para correr".[11] A última partida do grupo, que acabaria decidindo o torneio, seria contra o Brasil.

Por diversos fatores, como o conturbado ambiente pré-Copa do Uruguai, incluindo resultados ruins contra o próprio Brasil e equipes de futebol brasileiras, o fato de enfrentar o anfitrião, e precisando da vitória para ganhar a Copa - ao Brasil, bastava apenas o empate, por ter somado mais pontos ao ter vencido os mesmos adversários na fase final -, os brasileiros eram apontados como francos favoritos. Principalmente pelas vitórias brasileiras contra suecos e espanhóis terem saído em exibições espetaculares com vitórias, respectivamente, por 7 x 1 e 6 x 1. O clima generalizado entre os brasileiros de que o Brasil já era campeão - o que incluiria um discurso do prefeito do Rio de Janeiro, Ângelo Mendes de Moraes, nos autofalantes do Maracanã, antes da partida.[12]

A euforia brasileira aumentou com o gol de Friaça no primeiro minuto do segundo tempo. Instigados pelo capitão Obdulio Varela, os uruguaios correram atrás e esfriaram os brasileiros, o que já funcionara no primeiro tempo, em que a Celeste soubera anular a principal jogada adversária: a troca de passes entre Jair da Rosa Pinto, Ademir e Zizinho.[13]

Aos 21 minutos do segundo tempo, com o Uruguai recomposto, Ghiggia participou da jogada de empate: recebeu a bola de Obdulio Varela na intermediária brasileira, junto à linha lateral, escapando do carrinho de Bigode e correndo sozinho por vinte metros.[14] Ao ultrapassar a linha lateral da grande área, a três metros da linha de fundo, fez um passe rasteiro para o desmarcado Juan Alberto Schiaffino, que acertou no canto esquerdo de Barbosa.[14]

Cerca de quinze minutos depois, a jogada ameaçou repetir-se: Schiaffino entrou pela área novamente desmarcado enquanto Ghiggia vinha pela direita - razão pela qual Barbosa, antevendo um novo passe para Schiaffino, afastou-se um pouco da trave esquerda.[14] Porém, Ghiggia, no momento em que Juvenal chegava para tentar interceptar, resolveu chutar de onde estava, conseguindo fazer a bola passar entre Barbosa e a trave.[14] O Brasil não conseguiu empatar e a taça ficou com os uruguaios, que calaram as duzentas mil vozes presentes nas arquibancadas do Maracanã. As imagens do gol de Ghiggia pela câmera colocada atrás do gol brasileiro e a perplexidade da multidão ficariam entre as mais emblemáticas das Copas e do futebol brasileiro e uruguaio.[15]

Ghiggia terminou a Copa campeão e marcando em todas as partidas que disputou, feito que só seria igualado por Jairzinho, na Copa do Mundo de 1970.

Cquote1.svg "Apenas três pessoas calaram o Maracanã: o Papa João Paulo II, Frank Sinatra e eu"[4] [16] Cquote2.svg
Ghiggia sobre seu lance mais famoso

Após a Copa[editar | editar código-fonte]

Ghiggia fez sua última partida pelo Uruguai em 1952. No ano seguinte, transferiu-se para a Roma. A moradia na Itália acabou atrapalhando a continuação de sua trajetória na Seleção Uruguaia. Quando a Celeste convocou seus jogadores para a Copa do Mundo de 1954, para a qual estava automaticamente classificado por ser o detentor do título, a Associação Uruguaia de Futebol chamou-o, mas a Roma não lhe liberou, mesmo com o torneio sendo disputado na vizinha Suíça.[3]

Três anos depois, Ghiggia voltava a defender a seleção, desta vez a da Itália. Mesmo aos 31 anos, foi chamado em meio às eliminatórias para a Copa do Mundo de 1958. Sua convocação veio em uma reformulação no elenco da Squadra Azzurra após uma humilhante derrota de 1 x 6 para a Iugoslávia, em um amistoso, voltando a jogar ao lado de Schiaffino.[17] Schiaffino também tinha dupla cidadania e jogava no país, onde defendia o Milan.

A Seleção Italiana disputava uma vaga no mundial da Suécia em um triangular com Portugal e Irlanda do Norte e, antes do vexame contra os iugoslavos, vencera os norte-irlandeses em Roma. Ghiggia estreou no primeiro jogo contra os portugueses, em derrota por 0 x 3 em Lisboa. Como os lusitanos haviam empatado contra a Irlanda do Norte anteriormente, os italianos ficariam em boa situação se conseguissem empatar contra os britânicos em Belfast. O empate (em 2 x 2) foi alcançado e Ghiggia marcou o que seria seu único gol pela Itália nessa partida,[18] mas ela fora tornada previamente como não-oficial por pressão dos italianos, pois o jogo seria apitado por um árbitro local em função da neblina no aeroporto de Londres, que impediria o voo do juiz escalado para a partida (o húngaro István Zsolt) de chegar a tempo.[17] Uma nova partida em Belfast, desta vez válida pelas Eliminatórias, foi marcada para janeiro.

Antes dela, os italianos enfrentaram os portugueses em Milão e devolveram os 3 x 0 que tomaram em Lisboa. Desta forma, eles reembarcaram para Belfast necessitando apenas do empate: tinham 4 pontos e os norte-irlandeses, três, naquela época em que a vitória valia dois pontos. O trio de ataque italiano foi totalmente sul-americano: Schiaffino, Ghiggia e seu colega de Roma, o brasileiro Dino da Costa.[17] Acabou não dando certo: em meia-hora os norte-irlandeses abriram 2 x 0 e, logo após Da Costa conseguir diminuir a onze minutos do fim, Ghiggia foi expulso.[17] A Irlanda do Norte conseguiu manter os 2 x 1, terminou classificada e a Itália, fora do mundial. Curiosamente, Ghiggia experimentava um pouco do veneno que dera aos brasileiros: perdera por 1 x 2 quando possuía vantagem do empate. Foi a última vez que os italianos ficaram de fora de uma Copa, e a única em que isso se deu em razão de queda nas Eliminatórias (todos os participantes Copa do Mundo de 1930, a outra em que a Itália esteve de fora, vieram por convite).

Ainda assim, Ghiggia foi chamado mais uma vez para defender a Itália, em jogo contra a Espanha em 1959.[7]

Após parar de jogar[editar | editar código-fonte]

Como o futebol na época não era uma atividade que remunerava tão bem quanto os dias atuais, a maior parte dos jogadores procurava exercer alguma outra profissão após deixarem os gramados. Mesmo o título de 1950 não rendeu muitas recompensas financeiras a Ghiggia e ao restante do elenco: a maior parte da premiação pelo título sumiu juntamente com o tesoureiro da delegação, e os jogadores tiveram de reunir o pouco dinheiro que tinham para fazer uma pequena comemoração com sanduíches e cervejas.[4] A maioria deles ingressou no funcionalismo público após deixar os gramados, e Ghiggia não foi diferente, aposentando-se como funcionário do Cassino de Montevidéu.[6] Curiosamente, trabalhou ali ao lado do ex-colega de Peñarol e Seleção Uruguaia Obdulio Varela.[6] Em outubro de 2004, ganhou a Ordem do Mérito da FIFA.[6]

A homenagem que talvez mais lhe emocionaria, porém, veio no estádio que o imortalizou, quase sessenta anos depois: em 29 de dezembro de 2009, deixou a marca de seus pés na calçada da fama do Maracanã. Ghiggia foi o centésimo jogador e o sexto estrangeiro (depois do chileno Elías Figueroa, do paraguio Romerito, do alemão Franz Beckenbauer, do português Eusébio e do sérvio Dejan Petković) a ter a homenagem e disse na ocasião: "Nunca pensei que seria homenageado no Maracanã, estou muito emocionado. Meus sinceros agradecimentos ao público. Agradeço profundamente. Viva o Brasil!".[16] [19]

Referências

  1. http://girasolweb.tripod.com/tecnicos.htm
  2. "A felicidade é celeste", Especial Placar - Os Craques do Século, novembro de 1999, Editora Abril, pág. 76
  3. a b "Oitavas-de-final", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 5 - 1954 Suíça, janeiro de 2006, Editora Abril, pág. 31
  4. a b c "Baú do Esporte: entrevista com Ghiggia, o carrasco do Brasil na Copa de 1950", GloboEsporte.com.
  5. a b c d "Histórias épicas de heroísmo", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 4 - 1950 Brasil, dezembro de 2005, Editora Abril, págs. 44-45
  6. a b c d "Os campeões", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 4 - 1950 Brasil, dezembro de 2005, Editora Abril, págs. 40-41
  7. a b "Alcides Edgardo Ghiggia - International Appearances", RSSSF.
  8. "Surpresas desagradáveis", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 4 - 1950 Brasil, dezembro de 2005, Editora Abril, págs. 10-13
  9. "Jogadas ensaiadas", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 4 - 1950 Brasil, dezembro de 2005, Editora Abril, pág. 35
  10. "Avaliação isenta", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 4 - 1950 Brasil, dezembro de 2005, Editora Abril, pág. 35
  11. "Virada no fim", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 4 - 1950 Brasil, dezembro de 2005, Editora Abril, pág. 35
  12. "'Já ganhou'", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 4 - 1950 Brasil, dezembro de 2005, Editora Abril, pág. 38
  13. "'Silêncio de morte'", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 4 - 1950 Brasil, dezembro de 2005, Editora Abril, pág. 38
  14. a b c d "Os gols da final", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 4 - 1950 Brasil, dezembro de 2005, Editora Abril, pág. 39
  15. "A grande tragédia", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 4 - 1950 Brasil, dezembro de 2005, Editora Abril, págs. 42-45
  16. a b "Carrasco do Brasil na Copa de 1950, Ghiggia coloca os pés na calçada da fama do Maracanã", O Globo.
  17. a b c d "A geopolítica da bola", Max Gehringer, Especial Placar: A Saga da Jules Rimet fascículo 6 - 1958 Suécia, fevereiro de 2006, Editora Abril, págs. 10-15
  18. "Tutte le partite della Nazionale 1957", Solo Calcio.
  19. "Artífice do Maracanazo, Ghiggia é eternizado no Maracanã", Portal Copa 2014.
Bandeira de UruguaiSoccer icon Este artigo sobre futebolistas uruguaios é um esboço. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.