Aldeia Maracanã

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Aldeia Maracanã

Aldeia Maracanã, situada na área conhecida como Antigo Museu do Índio[1] , foi uma aldeia indígena urbana localizada no prédio antigo do Museu do Índio, no bairro Maracanã, Rio de Janeiro, Brasil. O prédio antigo do Museu do Índio situa-se próximo ao Estádio Mário Filho, e corre risco de demolição por parte do Governo do Estado do Rio de Janeiro.

A polêmica em torno da manutenção da aldeia, considerada uma referência para o movimento político, mobilizou diversos movimentos populares da esquerda carioca, sendo a aldeia considerada um símbolo da oposição ao governo de Sérgio Cabral Filho.

Características arquitetônicas[editar | editar código-fonte]

O prédio, que destoa em muito da paisagem do bairro, tem a aparência de um castelo. De acordo com o parecer do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural, o edifício é um "...imponente exemplar da arquitetura eclética do início do século XX."[2]

Histórico[editar | editar código-fonte]

O prédio onde funcionava o Museu do Índio foi construído pelo Duque de Saxe[3] em 1862[4] e doado em 1910[1] ao Serviço de Proteção aos Índios, órgão estatal comandado pelo Marechal Rondon[1] , quando de sua criação, em 1910.[1] O objetivo é que o espaço fosse uma área de preservação da cultura indígena brasileira. Inicialmente, o prédio abrigou a sede do órgão federal, e posteriormente, entre 1953 e 1977, abrigou o Museu do Índio, criado por Darcy Ribeiro.[5] Após essa data, o museu foi transferido[5] para Botafogo e o prédio ficou abandonado.[6]

Em 2006, o local foi ocupado por um grupo de cerca de vinte indígenas[6] de diversas etnias[7] , e chamaram o assentamento de Aldeia Maracanã.

Mais tarde, o local foi comprado do Governo Federalem agosto de 2012[8] pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, que anunciou que devido às obras para a Copa do Mundo de 2014, o Antigo Museu do Índio seria demolido para facilitar a saída de torcedores do Estádio do Maracanã.[7] Também teriam o mesmo destino, a Escola Municipal Friendenreich e o Estádio de Atletismo Célio de Barros. As três propostas de demolição causaram comoção em uma parcela da sociedade civil, e setores mais ligados à esquerda, principalmente o PSOL e parte do PT, passaram a fazer forte oposição às três propostas de demolição, demonstrando solidariedade aos grupos que sentiram-se prejudicados pelas decisões.

Inicialmente, o governo alegou que a demolição do prédio antigo do museu seria necessária para atender às exigências da FIFA, o que foi negado pela entidade máxima do futebol, a nível mundial.[7] O governo argumentou também que o imóvel não teria qualquer valor histórico.[7] Como reação, os vereadores Reimont Otoni, Eliomar Coelho e Leonel Brizola Neto apresentaram em 2013 o projeto de lei 1536, prevendo o tombamento do prédio.[9]

A proposta de demolição foi muito criticada por especialistas[5] [3] , que alegaram que com os 60 milhões pagos pelo governo estadual ao governo federal pela compra do imóvel, somados ao 568 mil reais que seriam pagos por sua demolição, haveria dinheiro suficiente para recuperá-lo.[5] Também foi especulada a possível intenção de utilizar o terreno para a construção de um grande estacionamento.[5] [3] A Ministra da Cultura, Marta Suplicy, chegou a pedir ao governador em exercício do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, que o prédio fosse mantido.[4] Ainda em janeiro de 2013, o Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural deu paracer unânime pela manutenção do prédio, mas pela primeira vez um parecer do órgão não foi seguido pelo prefeito Eduardo Paes, aliado de Sérgio Cabral.[4] Cabral, na ocasião, disse que chamar a comunidade que habitava o terreno de aldeia indígena "é um deboche"[4] , por ser aquela "uma ocupação recente", qualificada ainda pelo governador como de cunho político.[4]

Após uma polêmica que já durava cinco meses, ainda em janeiro, após os índios obeterem uma liminar na justiça impedindo a demolição[8] , o Governo do Estado voltou atrás e admitiu não mais demolir o prédio, mediante a saída dos índios do local, que seria reformado e mantido intacto com saus características originais. No entanto, não houve a definição de um cronograma para a reforma, nem foi informado o destino do prédio. A proposta de acordo foi rechaçada pelos líderes da aldeia, por esse motivo.[8]

O projeto de tombamento do antigo museu foi derrotado na Câmara do Rio, com apoio da base governista, em março por 17 votos a 13, com 20 abstenções.

Em 22 de março de 2013, a Aldeia Maracanã foi finalmente ocupada por forças policiais que retiraram os indígenas. Na ocasião, houve protestos de diversos segmentos sociais e políticos, tais como o deputado estadual Marcelo Freixo, que saiu com os olhos lacrimejantes após o uso de gás lacrimogêneo e criticou duramente e ação policial.[10] Ainda na ocasião, uma ativista do grupo Femen foi detida após mostrar os seios, como forma de protesto.[11]

A ONG Justiça Global denunciou às Nações Unidas o suposto abuso de poder praticado pelo estado na ocasião.[12] à ocasião da reintegração de posse, o número de indígenas morando na aldeia já era 60[6] , sendo 40 adultos e 20 crianças.[6]

Após a remoção, os moradores da aldeia foram levados para um terreno em Jacarepaguá oferecido pelo Governo.[13] Os reassentados, no entanto, reclamaram da falta de infra-estrutura, localização e das restrições a que passaram a sofrer, como o controle dos horários de entrada e saída, bem como a impossibilidade de receberem visitantes livremente.[13] [14]

Casos relacionados[editar | editar código-fonte]

O mesmo projeto que visava a demolição do Antigo Museu do Índio também causou polêmica por prever a derrubada também da Escola Municipal Friendenreich, do Estádio de Atletismo Célio de Barros e do Parque Aquático Júlio Delamare. As bancadas do PSOL, tanto na ALERJ, quanto na Câmara Municipal do Rio, fizeram forte oposição a todas essas demolições.[15] A demolição da Escola Friendenreich chamou a atenção da mídia por ser esta a sétima melhor escola do Estado do Rio em qualidade de ensino.[16] [17] A comunidade escolar protestou contra a remoção da escola.[18] O mesmo fizeram diversos atletas e aficcionados dos esportes aquáticos e do Atletismo, afetados pelo fim dos complexos esportivos.[19] [20]

Referências

  1. a b c d JFRJ promove audiência pública com grupos indígenas. Página visitada em 06/04/2013.
  2. Prefeitura impede Estado de demolir prédio do antigo Museu do Índio (09/01/2013). Prefeitura impede Estado de demolir prédio do antigo Museu do Índio. Página visitada em 06/04/2013.
  3. a b c ADUFRJ (22 de Janeiro de 2013). Museu está ligado à história indígena. Página visitada em 06/04/2013.
  4. a b c d e Felipe Werneck/A Tarde (24/01/2013). Marta defende preservação do Museu do Índio no Rio. Página visitada em 06/04/2013.
  5. a b c d e Demolição de Museu do Índio no Rio não faz sentido, diz especialista (15/01/2013). Página visitada em 06/04/2013.
  6. a b c d Polícia inicia retirada de índios da Aldeia Maracanã (22/03/2013). Página visitada em 06/04/2013.
  7. a b c d Panela de Pressão. Pela preservação da cultura indígena na Aldeia Maracanã!. Página visitada em 06/04/2013. Cópia arquivada em 06/04/2013.
  8. a b c Estadão (29 de janeiro de 2013). Governo do Rio desiste de demolir Museu do Índio. Página visitada em 06/04/2013.
  9. Câmara Municipal do Rio. PROJETO DE LEI Nº 1536/2012. Página visitada em 06/04/2013.
  10. Flavia Vilela e Akemi Nitahara, Repórteres da Agência Brasil (22/03/2013). Governo do Rio pode enfrentar ação judicial por violência na desocupação do Museu do Índio. Página visitada em 06/04/2013.
  11. G1 (24/03/2013). Copa e Jogos levam líder do Femen no Brasil a se mudar para o Rio. Página visitada em 06/04/2013.
  12. Jornal do Brasil (26/03/2013). ONG leva desocupação da Aldeia Maracanã à ONU. Página visitada em 06/04/2013.
  13. a b O Globo (23/03/13). Índios retirados da Aldeia Maracanã vão para alojamento em Jacarepaguá neste domingo. Página visitada em 06/04/2013.
  14. Jogoslimpos.org (abril de 2013). Após saída da Aldeia Maracanã, grupos indígenas tem destinos diferentes. Página visitada em 06/04/2013. Cópia arquivada em 06/04/2013.
  15. PSOL (18/03/2013). Índios e defensores do Maracanã fazem manifestação contra privatização. Página visitada em 06/04/2013. Cópia arquivada em 06/04/2013.
  16. Escola top 10 do Rio será demolida, afirma edital (25/10/2012). Página visitada em 06/04/2013.
  17. Escola Municipal Friedenreich será transferida para prédio da antiga escola de veterinária do Exército (8/11/12). Página visitada em 06/04/2013.
  18. Globo Esporte (06/11/12). Pais e alunos se mobilizam contra retirada de escola Friedenreich do Maracanã. Página visitada em 06/04/2013.
  19. Sportv (02/04/2013). Após fim do Célio de Barros, Lauter lamenta 'perda' do Engenhão: 'Órfão'. Página visitada em 06/04/2013.
  20. 'Órfão' Demolição do Célio de Barros gera protestos no Rio (02/04/2013). Página visitada em 06/04/2013.