Bugio

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Como ler uma caixa taxonómicaBugio1 2
Bugio-ruivo fotografado no Espírito Santo.
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Primates
Subordem: Haplorrhini
Infraordem: Simiiformes
Família: Atelidae
Subfamília: Alouattinae
Trouessart, 1897 (1825)
Género: Alouatta
Lacepede, 1799
Espécie-tipo
Simia belzebul
Linnaeus, 1766
Espécies

Alouatta arctoidea
Alouatta belzebul
Alouatta caraya
Alouatta coibensis
Alouatta discolor
Alouatta guariba
Alouatta juara
Alouatta macconnelli
Alouatta nigerrima
Alouatta palliata
Alouatta pigra
Alouatta puruensis
Alouatta sara
Alouatta seniculus
Alouatta ululata

Sinónimos
  • Mycetes Illiger, 1811
  • Stentor É. Geoffroy, 1812

Bugio é uma denominação comum a primatas da família Atelidae e gênero Alouatta. Possuem uma ampla distribuição geográfica, desde o México até o norte da Argentina. São animais de porte relativamente grande e de dieta predominantemente folívora. Vivem em grupos de em média 10 indivíduos em um sistema poligínico de acasalamento. Possuem vocalizações características, que podem ser ouvidas a quilômetros de distância.

Índice

Taxonomia e Evolução [editar]

Estudos com análise de DNA mitocondrial corroboram a hipótese de que o gênero é um grupo monofilético, que pode ser dividido em dois grandes clados: um clado representa as espécies encontradas na América do Sul e outro, as espécies encontradas no México e América Central.3 4 O gênero se separou de Brachyteles há cerca de 12,9 milhões de anos atrás, e sofreu uma grande diversificação de espécies de forma recente e rápida (há menos de 4 milhões de anos).5 Várias subespécies foram elevadas a categoria de espécie.2 6

Relações filogenéticas do gênero Alouatta.3
Atelidae

Atelinae

Ateles




Brachyteles



Lagothrix





Alouattinae


Alouatta pigra




Alouatta palliata



Alouatta coibensis







Alouatta guariba



Alouatta belzebul





Alouatta caraya




Alouatta seniculus




Alouatta sara



Alouatta macconnelli









Este trabalho confirma o monofiletismo do gênero, e sua divisão em dois clados biogeográficos: Alouatta palliata, Alouatta pigra e Alouatta coibensis forma um grupo monofilético, e são espécies que ocorrem exclusivamente na América Central e México, ao passo que o restante das espécies formam outro grupo monofilético exclusivamente sul-americano.3 4

Espécies [editar]

São reconhecidos 23 táxons do gênero, distribuídos em três grandes grupos:7 8 2

Distribuição Geográfica e Hábitat [editar]

Os macacos do gênero Alouatta são encontrados desde o Estado de Vera Cruz, no México, até o estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, e a província de Corrientes, na Argentina.2 A ampla distribuição geográfica do bugio faz com que ele seja encontrado em inúmeros biomas e ecossistemas da América do Sul e Central, desde formações florestais da Mata Atlântica e Amazônia até formações abertas, como o Cerrado, no Brasil.2

Descrição [editar]

São animais maciços, de maior porte com relação aos outros primatas sul-americanos (pesam em média 7kg); possui uma longa pelagem, maior na mandíbula e lados da face, formando uma barba que esconde o volume do osso hióide, que é muito volumoso nesse gênero (até 50 cm³).9 Esse osso é bem maior nos machos e funciona como uma caixa de ressonância, o que permite uma vocalização bem desenvolvida, embora, com pouca variedade de sons.9 A face é negra e nua e os bugios possuem uma longa cauda preênsil com uma palma.9 O dimorfismo sexual é bastante acentuado, principalmente em Alouatta caraya, Alouatta guariba e Alouatta belzebul, com as fêmeas sendo, geralmente, 70% menores que os machos.9 10 Em algumas espécies existe uma grande variação na coloração da pelagem, o que dificulta a identificação do sexo e da espécie, como no caso de Alouatta seniculus.2

Ecologia e comportamento [editar]

Vocalizações [editar]

Bugios-preto (Alouatta caraya) vocalizando.

Por conta do enorme volume do osso hióide, os bugios emitem vocalizações poderosas, que podem ser ouvidas à quilômetros de distância. Tais vocalizações são emitidas, na maioria das vezes, em contextos de relações inter-grupos.11 12 13 14 De fato, a maior parte das vocalizaçõe se dão quando ocorrem contato visual entre os grupos de bugios12 , e "simulações" da presença de intrusos significativamente aumentam essas vocalizações, principalmente por parte do macho dominante, que realiza buscas em torno do local que estão sendo emitidas as vocalizações simuladas.14 11 As vocalizações acabam por impedir que outros grupos se aproximem, evitando encontros agressivos diretos.

Hábitos Alimentares [editar]

Os bugios são primatas predominantemente folívoros, ingerindo principalmente brotos e folhas jovens.9 7 15 16 17 Não é raro frutos terem uma porcentagem maior da dieta, como observado em Alouatta pigra e Alouatta discolor.18 19 São animais seletivos, se alimentando na maior parte das vezes de algumas poucas espécies de plantas.15 16 As atividades de alimentação consomem cerca de 24% do tempo, visto que a maior parte do tempo os bugios estão descansando (cerca de 60%).18

Reprodução e Acasalamento [editar]

Filhote de bugio-preto.

O ciclo estral das fêmeas é de cerca de 16,3 dias, e a gestação é de cerca de 186 dias, como mostrado em animais em liberdade de Alouatta palliata.20 Os filhotes nascem em média a cada 22,5 meses por fêmea, e atingem a maturidade sexual entre 36 e 42 meses de idade.20 Na Argentina, em que existe uma sazonalidade no regime de chuvas e de disponibilidade de alimentos, foi constatado um período específico para acasalamento e nascimento, que coincide com os meses mais secos do ano: a maturidade sexual dos juvenis acaba se dando em meses mais chuvosos e com maior disponibilidade de alimentos.21 A invasão por outros machos, tal como mudanças na composição de adultos no grupo e no status de machos já residentes ao território, provoca a ocorrência de infanticídios, como observado em Alouatta seniculus e Alouatta pigra.22 23

Conservação [editar]

As espécies do gênero Alouatta possuem boas perspectivas na sobrevivência em ambientes humanizados no Neotrópico. Cerca de 35% dos táxons que compõe o gênero estão em categorias que denotam algum risco de extinção: trata-se de um número baixo em relação a outros gêneros de primatas sul-americanos como Ateles e Brachyteles.7 A pouca exigência com questão a alimentação e área de vida, assim como a ampla distribuição geográfica, faz com que somente perturbações muito drásticas do ambiente, como total desmatamento de uma área ou a construção de uma usina hidrelétrica e a caça desenfreada afetem a integridade das populações.7 Entretanto, algumas subespécies encontram-se em grave risco de extinção, como o A. guariba guariba, considerado como "Criticamente em Perigo", segundo a IUCN.24


Referências

  1. Groves, C.. In: Wilson, D. E., and Reeder, D. M. (eds). Mammal Species of the World. 3rd edition ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 16 de novembro de 2005. Capítulo: Order Primates, 148–152 p. ISBN 0-801-88221-4 (OCLC 62265494)
  2. a b c d e f GREGORIN,R.. (2006). "Taxonomia e variação geográfica das espécies do gênero Alouatta Lacépède (Primates, Atelidae) no Brasil". Revista Brasileira de Zoologia 23 (1): 64-144.
  3. a b c Chaterjee, H.J.; Ho, S.Y.; Barnes, I.; Groves, C.. (2009). "Estimating the phylogeny and divergence times of primates using a supermatrix approach". BMC Evolutionary Biology 9: 1-19. DOI:10.1186/1471-2148-9-259.
  4. a b Cortés-Ortiz, L. et al. (2003). "Molecular systematics and biogeography of the Neotropical monkey genus, Alouatta". Molecular Phylogenetics and Evolution 26: 64-81.
  5. BONVICINO, C.R.; LEMOS, B.; SEUÁNEZ, H.N.. (2001). "Molecular phylogenetics of howler monkeys (Alouatta, Platyrrhini)A comparison with karyotypic data". Chromosoma 110 (3): 241-246. DOI:10.1007/s004120000128.
  6. BONVICINO, C.R.; FERNANDES, M.E.B.; SEUÁNEZ,H.N.. (1995). "Morphological analysis of Alouatta seniculus species group (Primates, Cebidae). A comparison with biochemical and karyological data". Human Evolution 10 (2): 169-176. DOI:10.1007/BF02437539.
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  8. MEIRELES, C.M.; et al. (1999). "Phylogenetic relationships among Brazilian howler monkeys, genus Alouatta (Platyrrhini, Atelidae), based on γ¹-globin pseudogene sequences". Genetics and Molecular Biology 22 (3): 337-344.
  9. a b c d e AURICCHIO, P.. Primatas do Brasil. São Paulo - Brasil: Terra Brasilis Comércio de Material didático e Editora LTda - ME, 1995. 168 p. ISBN 85-85712-01-5
  10. Neville, M. K., Glander, K. E., Braza, F. and Rylands, A. B. The howling monkeys, genus Alouatta. Em: R. A. Mittermeier, A. B. Rylands, A. F. Coimbra-Filho an G. A. B. da Fonseca (orgs.), The Ecology and Behavior of Neotropical Primates, Vol. 2. Washington - DC: World Wildlife Fund, 1988. 349-453 p.
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  15. a b LUDWIG, G.; et al. (2008). "Comparison of the diet of Alouatta caraya (Primates: Atelidae) between a riparian island and mainland on the Upper Parana River, southern Brazil". Revista Brasileira de Zoologia 25 (3): 419-426.
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