Aloysius Stepinac

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Beato Aloysius Stepinac
Aloysius Stepinac
Cardeal-arcebispo de Zagreb; Mártir
Nascimento 8 de maio de 1898 em Krašić, Croácia
Morte 10 de fevereiro de 1960 (61 anos) em Krašić, Croácia
Veneração por Igreja Católica
Beatificação 3 de outubro de 1998, Marija Bistrica, na Croácia por Papa João Paulo II
Festa litúrgica 8 de maio
Gloriole.svg Portal dos Santos
Coat of arms of Alojzije Stepinac.svg

Alojzije Viktor Stepinac (Krašić, 8 de maio de 1898Krašić, 10 de fevereiro de 1960) foi um arcebispo e cardeal croata, venerado como beato pela Igreja Católica.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Stepinac era o quinto de nove filhos do segundo casamento de seu pai, Josip, com Bárbara Penic, com quem se casara tão logo lhe falecera a primeira esposa, Marija Matko, com quem já havia tido três filhos. Fez os primeiros estudos na escola local e o secundário em Zagreb, ao término do sexto ano ingressou no liceu da arquidiocese com o intento de ordenar-se sacerdote.

Durante a Primeira Guerra Mundial foi convocado e serviu como tenente na frente italiana comandando um unidade de bósnios. Nesta ocasião caiu prisioneiro sendo recolhido ao campo de prisioneiros de Mestre, em Veneza, até 6 de dezembro de 1918. Algum tempo após o final da I Guerra Mundial ingressou na Pontifícia Universidade Gregoriana onde terminou os seus estudos de filosofia e teologia com dois doutorados. Foi ordenado sacerdote em Roma em 26 de outubro de 1930 e designado sacerdote em Zagreb.

Trabalhou auxiliando o arcebispado na Catedral de Zagreb, foi administrador temporário das paróquias de Samobor e de São João de Zelina. Foi nomeado arcebispo-coadjutor de Zagreb e titular de Nicopsis em 24 de junho de 1934, na época o jornal L'Osservatore Romano o dava como o bispo mais novo do mundo.

Em 7 de dezembro de 1937 assumiu a direção da diocese de Zagreb da qual permaneceu titular até a sua morte em 1960. Foi criado Cardeal em 12 de janeiro de 1953 pelo Papa Pio XII. A sua nomeação como cardeal fez com que o governo do ditador comunista Josip Broz Tito rompesse relações com a Santa Sé. Foi impedido pelo governo comunista local de participar do conclave de 1958.

Segunda Guerra[editar | editar código-fonte]

Durante a Segunda Guerra Mundial, Stepinac multiplicou suas iniciativas em favor dos perseguidos. Em 1941, durante a ocupação alemã, foi proclamado o Estado independente da Croácia. No princípio o arcebispo acolheu favoravelmente o novo governo, confiava em que se asseguraria os direitos dos cidadãos e a soberania nacional. Mas logo se desenganou, quando começaram as perseguições contra as minorias.

Em abril de 1941 apresentou ao Ministério do Interior um protesto formal contra as primeiras leis racistas que proibiam os casamentos mistos. Em maio apresentou um protesto diretamente ao presidente da Croácia, Ante Pavelic, contra a perseguição dos sérvios ortodoxos. Em julho voltou a escrever-lhe de protesto. Em 16 de outubro pronunciou-se abertamente contra as leis racistas do alto do púlpito da Catedral de Zagreb exigindo o fim das perseguições raciais e religiosas.

Falecimento[editar | editar código-fonte]

Basílica de N. Sra. Maria Bistrica, onde Stepinac foi beatificado

Durante o regime comunista, em 1959 Stepinac enviou uma carta ao governo iugoslavo na qual fazia constar os maus tratos que estava submetido, onde concluía: Eu, com a graça de Deus, seguirei adiante até o final, sem odiar a ninguém, mas sem temmer a ninguém. Falecido em 10 de fevereiro de 1960, para que se evitasse encontrar provas de envenenamento teve as vísceras do seu cadáver destruídas. Em 1996 seus restos mortais foram exumados e analisados e encontrados vestígios de veneno nos seus ossos. Por este motivo foi declarado mártir cristão em 11 de outubro de 1997.[1]

Por ocasião de seu falecimento o Papa João XXIII celebrou, pessoalmente, em 17 de fevereiro de 1960 missa em seu sufrágio na Basílica de São Pedro em Roma. Na homilia disse: Era muito querida à nossa alma esta figura simples e insígne de pai e pastor da igreja de Deus; sua grande tribulação de quinze anos de desterro na sua mesma pátria e a dignidade serena e confiada de seu contínuo sofrimento lhe há granjeado a admiração e a veneração universal.[2]

Reabilitação[editar | editar código-fonte]

O Parlamento Croata, em 1992, após o fim do comunismo iugoslavo, decidiu reabilitar a sua memória declarando que: foi condenado, apesar de inocente, porque havia se recusado a realizar o cisma eclesial que lhe haviam ordenado os governantes comunistas e porque atuou contra a violência e os crimes dos governantes comunistas, como havia feito durante a II Guerra Mundial para proteger aos perseguidos, com independência da origem étnica e das convicções religiosas.

O cardeal Angelo Sodano, ao fazer a homilia da celebração eucarística dos 40 anos da sua morte na Igreja de São Jerônimo dos Croatas, afirmou: "Com a sua profunda formação cristã, não se deixou abater nem mesmo quando em outubro de 1946 chegou a dura condenação a dezesseis anos de trabalhos forçados. Por ser fiel à sua missão de pai e pastor do seu povo, o Arcebispo de Zagabria havia condenado com a sua célebre carta pastoral de 20 de novembro de 1945, o assassinato de 243 padres católicos, a expropriação dos bens eclesiásticos, as graves restrições infligidas a atividade da Igreja. Paralelamente, com o seu profundo sentido eclesial, tinha afastado todas as solicitações para dar vida a uma igreja nacional separada de Roma. Ao contrário, em muitas ocasiões o venerado cardeal Franjo Kuharic afirmou que foi isto o principal motivo da sua condenação, o ter-se recusado a dar vida a uma pseudo-igreja nacional croata. Por isto, ainda, o Arcebispo emérito de Zagabria, cardeal Stepinac pode ser justamente considerado como um mártir da unidade da Igreja." (...) "Com intrepida fortaleza, ele sentia-se assim animado a continuar a sua missão, assim como havia feito nos primeiros anos do episcopado, de 1934 seguidamente, assim como fez durante a ocupação nazista, condenando abertamente a violação dos direitos humanos perpetrada contra os hebreus, os romenos, os sérvios e os eslovenos".[3]

Bento XVI[editar | editar código-fonte]

No dia 5 de junho de 2011, o Papa Bento XVI por ocasião de sua visita à Croácia, disse na celebração na Catedral de Zagreb, dedicada a "Maria Santíssima Assunta e Santo Estêvão, Rei da Hungria":

Esta tarde, queremos comemorar com devoção e em oração o beato Alojzije Stepinac, valoroso pastor, exemplo de zelo apostólico e firmeza cristã, cuja vida heróica ilumina também hoje os fiéis das dioceses croatas, sustentando assim a fé e a vida eclesial. Os méritos deste inolvidável bispo derivam essencialmente de sua fé: ele teve em sua vida o olhar fixo sempre em Jesus, e sempre se configurou com Ele, até o ponto de converter-se em uma imagem viva de Cristo, também em seus sofrimentos. Precisamente por sua firme consciência cristã, soube resistir a todo totalitarismo, fazendo-se defensor dos judeus, ortodoxos, e todos os perseguidos no tempo da ditadura nazista e facista, e depois, no período do comunismo, "advogado" de seus fiéis, especialmente de tantos sacerdotes perseguidos e assassinados. Sim, chegou a ser "advogado" de Deus nesta terra, pois defendeu tenazmente a verdade e o direito do homem viver com Deus.[4]

Beatificação[editar | editar código-fonte]

O cardeal Stepinac foi beatificado em 3 de outubro de 1998 pelo Papa João Paulo II, no santuário mariano de Marija Bistrica, durante uma visita apostólica à Croácia[5] . É considerado pela Igreja Católica um mártir perseguido pelo então regime comunista iugoslavo de [Josip Broz Tito|[Tito]].

Na cerimônia de beatificação dele disse João Paulo II:

O Beato Alojzije Stepinac não derramou o sangue no sentido estrito da palavra. A sua morte foi causada pelos longos sofrimentos a que o submeteram: os últimos 15 anos da sua vida foram um contínuo suceder-se de vexações, no meio das quais expôs com coragem a própria vida, para testemunhar o Evangelho e a unidade da Igreja. Para usar as próprias palavras do Salmo, ele pôs nas mãos de Deus a sua própria vida (cf. Sl 16[15], 5). ... O Cardeal Arcebispo de Zagrábia, uma das figuras mais salientes da Igreja católica, depois de ter sofrido no próprio corpo e na própria alma as atrocidades do sistema comunista, é agora entregue à memória dos seus compatriotas com as fúlgidas insígnias do martírio. [6]
Imagem de Stepinac na Catedral de Zagreb.

Em 4 de outubro em Salona, num encontro com catequistas e representantes dos movimentos eclesiais disse sobre o novo Beato: "Um exemplo extraordinário de testemunho cristão foi oferecido pelo Beato Alojzije Stepinac. Ele cumpriu a missão de evangelizador sobretudo sofrendo pela Igreja, e selou a sua mensagem de fé com a morte. Preferiu o cárcere à liberdade, para defender a liberdade da Igreja e a sua unidade. Não teve medo das cadeias, para que não fosse acorrentada a palavra do Evangelho."[7]

Em audiência de 7 de outubro de 1998 João Paulo II voltou a se referir a ele: "In Te, Domine, speravi": era este o lema do Cardeal Alojzije Stepinac, junto de cujo túmulo me detive em oração logo que cheguei a Zagrábia. Na sua figura sintetiza-se a inteira tragédia que atingiu a Europa no decurso deste século, marcado pelos grandes males do fascismo, do nazismo e do comunismo. Nele refulge em plenitude a resposta católica: fé em Deus, respeito pelo homem, amor para com todos confirmado no perdão, unidade com a Igreja guiada pelo Sucessor de Pedro.

A causa da perseguição e do ridículo processo contra ele foi a firme rejeição, por ele oposta, às insistências do regime para que se separasse do Papa e da Sé Apostólica e se constituísse chefe de uma «igreja nacional croata». Ele preferiu permanecer fiel ao Sucessor de Pedro. Por isto foi caluniado e depois condenado.

Na sua beatificação reconhecemos a vitória do Evangelho de Cristo sobre as ideologias totalitárias; a vitória dos direitos de Deus e da consciência sobre a violência e a prepotência; a vitória do perdão e da reconciliação sobre o ódio e a vingança. O Beato Stepinac constitui assim o símbolo da Croácia que quer perdoar e reconciliar-se, purificando a memória do rancor e vencendo o mal com o bem.[8]

Citações[editar | editar código-fonte]

Stepinac foi citado por João Paulo II na viagem à Croácia em outubro de 1998:

  • (...)"recomendava aos jovens do seu tempo: ""Estai atentos a vós próprios e continuai a maturar, porque sem pessoas maduras e sólidas do ponto de vista moral nada se faz. Os maiores patriotas não são aqueles que mais gritam, mas os que cumprem a lei de Deus de maneira mais conscienciosa"" (Homilias, Discursos, Mensagens, Zagrábia 1996, pág. 97)." [9]
  • "Nunca percais o vosso entusiasmo juvenil, alimentado por uma profunda relação com Deus. A este propósito, o próprio Cardeal Stepinac recomendava aos sacerdotes: ""Afastai da nossa juventude, como a peste, qualquer forma de pusilanimidade, porque é indigna dos católicos, os quais se podem orgulhar dum nome tão grande, que é o nome do nosso Deus"" (Cartas da Prisão, Zagrábia 1998, pág. 310)."[10]

Citado por Bento XVI na visita à Croácia em 2011:

  • (...)"Um dos maiores males do nosso tempo é a mediocridade nas questões de fé. Não tenhamos ilusões... Ou somos católicos ou não o somos. Se o somos, é preciso que isto se manifeste em cada âmbito da nossa vida" (Homilia na Solenidade de São Pedro e São Paulo), 29 de junho de 1943).[11]

Representação nas artes[editar | editar código-fonte]

Coci Michieli realizou um filme sobre a sua vida em 1954.

Controvérsias[editar | editar código-fonte]

Stepinac é apontado por alguns críticos como do regime Ustaše,[12] liderado por Ante Pavelić, que promoveu o assassinato de centenas de milhares de não-croatas (sérvios, ciganos, judeus etc.). O filósofo judeu Alain Finkielkraut, professor na École polytechnique, afirma no Le Monde (7 de outubro de 1998) que as acusações contra o cardeal Stepinac de haver colaborado com o regime ustaše são falsas. Para ter ciência disto, basta ter em conta o que dizem historiadores anglo-saxões e os próprios judeus da Croácia. "Tais informações permitem saber que, desde abril de 1941, o arcebispo de Zagreb protestou contra a legislação antissérvia e antijudaica promulgada pelo regime; que organizou a fuga de crianças judias para a Hungria e para a Palestina; que escondeu muitos outros e que suas homilias eram bastante audaciosas para ser recolhidas e difundidas pela rádio de Londres."[13]

Já o escritor Avro Manhattan, em seu controverso livro "O Holocausto do Vaticano" acusa Stepinac de [14] de coloborar com a Ustaše. supostamente aprovando conversões forçadas ao catolicismo e assassinatos e que Stepinac teria sido morto posteriormente na ditadura comunista de Josip Broz Tito, pela posição anticomunista do Vaticano.

Referências

  1. Aceprensa (em espanhol). Visitado em 12.11.2008
  2. Homilía do Papa João XXIII nas exéquias do cardeal Stepinac
  3. Homilia do Cardeal Angelo Sodano (em italiano)., na igreja de São Jerônimo dos Croatas em honra do beato Cardeal Alojzije Stepinac (10 de Fevereiro de 2000) ns. 2 e 3
  4. Vatican Information Sevice - VIS 06.06.2011- AñoXXI - Num. 105
  5. Textos da visita de João Paulo II à Croácia em 1998.
  6. [1] Homilia de João Paulo II na Missa de Beatificação do Cardeal Stepinac - visitado em 16.10.2007
  7. Discurso em Salona
  8. Referências feitas por João Paulo II visitado em 16 de outubro de 2007
  9. Encontro de João Paulo II com a população e com os jovens." Zagrábria, 2 de Outubro de 1998
  10. Ibdem
  11. Na celebração das Vésperas na catedral de Zagrábia in L'Osservatore Romano n. 24, 11 de junho de 2011, pg.7.
  12. cúmplice
  13. Alain Finkielkraut no Le Monde (7-X-98) transcrito no sítio da Embaixada da Croácia na França
  14. colaborar

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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