Altruísmo eficaz

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O altruísmo eficaz é um tópico da ética aplicada, que visa avaliar a melhor forma de ajudar os outros. O altruísmo eficaz distingue-se do altruísmo tradicional ou da caridade por ter o objectivo de ajudar o máximo de pessoas ou animais, tanto quanto possível, mesmo que isso implique acções que são menos intuitivas ou emocionalmente evidentes.[1] O filósofo Peter Singer é um notável apoiante do altruísmo eficaz.

Princípios[editar | editar código-fonte]

Custo-eficácia[editar | editar código-fonte]

Aplicada a intervenções de caridade, o custo-eficácia refere-se à quantidade de bem obtido por cada Euro gasto. Por exemplo, o custo-benefício das intervenções de saúde pode ser medido em anos de vida ajustados para a sua qualidade (QALY — Quality Adjusted Life Year). Os defensores do altruísmo eficaz acreditam que é obrigatório doar em intervenções com melhor custo-eficácia para produzir o máximo benefício.[2]

A doação eficaz é um componente importante do altruísmo eficaz porque algumas instituições de caridade são muito mais eficazes do que outras.[3] Algumas instituições de caridade simplesmente não conseguem atingir os seus objectivos.[4] Entre as que têm êxito, algumas atingem resultados muito maiores com menos dinheiro. A doação de 10.000 dólares para a Nurse-Family Partnership vai ajudar uma criança a melhorar na escola e evita o comportamento criminoso, enquanto que uma doação de 2.500 doláres para a Against Malaria Foundation pode salvar a vida de uma criança.[5] [6]

Substituibilidade[editar | editar código-fonte]

Os defensores do altruísmo eficaz estão preocupados com o benefício marginal de uma acção, de modo que buscam acções que têm um impacto único. Por exemplo, se alguém assume um trabalho altruísta para o qual há muita concorrência, o impacto marginal é menor do que o impacto total do trabalho se outra pessoa o tivesse feito. Os defensores do altruísmo eficaz argumentam que a menos que sejamos significativamente melhores do que a concorrência, ocupar esse trabalho não é o ideal. Uma alternativa é desempenhar uma profissão com uma elevada remuneração e doar os lucros para financiar o trabalho altruísta dos outros. Esta opção tem uma utilidade marginal alta, uma vez que estamos a criar postos de trabalho que não existiriam de outra forma.[7] [8] Por isso,os altruístas eficazes acreditam que algumas carreiras — como investigação, finanças e advocacia — oferecem muito mais oportunidades do que outras.[9]

Imparcialidade[editar | editar código-fonte]

Os defensores do altruísmo eficaz acreditam que a nossa própria vida não tem valor moral maior que a vida dos outros. Por exemplo, acreditam que uma pessoa num país em desenvolvimento tem valor igual a uma pessoa na nossa própria comunidade. Peter Singer diz:

Não faz diferença se a pessoa que eu posso ajudar é o filho de um vizinho a dez metros de mim ou um bengalês cujo nome eu nunca saberei, a dez mil quilómetros de distância. [...] O ponto de vista moral obriga-nos a olhar para além dos interesses de nossa sociedade. Anteriormente [...], isso pode não ter sido viável, mas agora é bastante viável. Do ponto de vista moral, a prevenção da fome de milhões de pessoas fora da nossa sociedade deve ser considerada pelo menos tão premente como o respeito das normas de propriedade dentro de nossa sociedade.[10]

Muitos altruístas eficazes acham que as gerações futuras têm igual valor moral aos seres humanos que existem actualmente, por isso se concentram na redução de riscos para existência da humanidade. Outros reconhecem que os interesses dos animais não-humanos devem ser considerados iguais aos interesses semelhantes de seres humanos e trabalham para evitar o sofrimento dos animais.[11]

Thomas Pogge argumenta contra essa visão, dizendo: "O que importa moralmente não é apenas como afectamos as pessoas, mas como as tratamos através das regras que impomos."[12] Thomas Nagel apresenta um argumento semelhante, referindo-se à terminologia de Derek Parfit quanto às razões do "agente-neutro" e do "agente-relativo".[13]

Raciocínio contrafactual[editar | editar código-fonte]

Altruístas eficazes argumentam que o raciocínio contrafactual é importante para determinar qual o curso de acção que maximiza o impacto positivo. Muitas pessoas assumem que a melhor maneira de ajudar as pessoas é através de métodos directos, como trabalhar para uma instituição de caridade ou de prestação de serviços sociais.[14] [15] Como as instituições de caridade e prestadoras de serviços sociais geralmente encontram pessoas dispostas a trabalhar para elas, a quantidade de bem que alguém faz numa carreira de "ajuda" convencional deve ser comparado com quanto bem teria sido feito se o segundo melhor candidato tivesse sido contratado para o cargo. Assim, o impacto da escolha de uma carreira de "ajuda" muitas vezes é menor do que parece. Mesmo carreiras que alguns podem considerar como não éticas, podem ter um grande impacto positivo se o raciocínio contrafactual é aceite. Por exemplo, se confrontado com uma escolha entre um trabalho bem remunerado numa empresa prejudicial e um trabalho mal remunerado numa empresa benéfica, pode fazer sentido escolher o emprego na empresa prejudicial. Se você não escolhe o emprego na empresa prejudicial, alguém o faria, e essa pessoa teria provavelmente menos preocupação do que você com as questões éticas. Além disso, a maior remuneração permite-lhe fazer doações a instituições de caridade eficazes que, caso contrário, não seriam feitas.[8]

Alguns, no entanto, contestam esse princípio. Por exemplo, Bernard Williams usa um exemplo semelhante sobre um emprego numa fábrica de armas químicas para argumentar contra o utilitarismo.[16] De acordo com a Williams, o utilitarismo dos actos exige exageradamente que as pessoas ajam de forma a violar a sua própria integridade.[17]

Proponentes notáveis[editar | editar código-fonte]

Peter Singer[editar | editar código-fonte]

O filósofo Peter Singer tem escrito várias obras sobre o altruísmo eficaz, incluindo “A Vida Que Podemos Salvar“ (no qual argumenta que as pessoas devem usar avaliadores de caridades para determinar como fazer mais eficazmeste as suas doações[18] ) e o seu artigo "Famine, Affluence and Morality" (no qual argumenta que temos a obrigação de ajudar aqueles que precisam):

Se está ao nosso alcance impedir que algo de mau aconteça, sem assim sacrificar nada de importância moral comparável, então, moralmente, devemos fazê-lo.[19]

Fundou uma organização sem fins lucrativos, também chamada A Vida Que Podemos Salvar, que promove doações a instituições de caridade eficazes. É um membro da Giving What We Can, uma organização altruísta eficaz e dá 25% do seu rendimento a instituições de caridade.[20] [21]

Toby Ord[editar | editar código-fonte]

Toby Ord é um eticista na Universidade de Oxford. Ele promove a ética consequencialista e está preocupado com a pobreza global e os riscos catastróficos.[22] Fundou a organização Giving What We Can, que incentiva as pessoas ao compromisso de doarem dez por cento do seu rendimento a instituições de caridade. Ele vive com 18.000 libras (27.000 dólares) por ano e doa o resto do seu rendimento para o tratamento da esquistossomose no mundo em desenvolvimento.[23]

Thomas Pogge[editar | editar código-fonte]

Aluno de John Rawls, Pogge aborda o altruísmo eficaz de um ponto de vista menos consequencialista. Pogge é membro da Giving What We Can, bem como do Health Impact Fund, que pretende disponibilizar medicamentos avançados a baixo custo para aqueles que vivem na pobreza,[24] [25] e Academics Stand Against Poverty, uma organização que ajuda os académicos a terem um maior impacto positivo sobre a pobreza no mundo.

O livro de Pogge World Poverty and Human Rights argumenta que as pessoas em democracias ricas estão activamente a prejudicar as dos países em desenvolvimento: "a maioria de nós não deixa apenas as pessoas passar fome, mas também participa nessa privação."[26] Portanto, ao contrário de Singer e Unger, que argumentam que devemos ajudar aqueles que precisam por causa de obrigações positivas, Pogge acredita que a responsabilidade de ajudar os pobres do mundo resulta do facto das pessoas no primeiro mundo, emprestando dinheiro a governos corruptos, estão activamente a prejudicar pessoas.[27]

Peter Unger[editar | editar código-fonte]

No seu Living High and Letting Die, Unger apresenta vários argumentos defendendo que as pessoas no mundo desenvolvido têm uma forte obrigação moral face aos outros. [28] Um exemplo de experiência mental é "O Mercedes Sedan vintage":

Não sendo verdadeiramente rico, o seu único luxo na vida é um Mercedes sedan vintage que, com muito tempo, atenção e dinheiro, você restaurou até ficar “como novo”... Um dia, você para num cruzamento de duas pequenas estradas no campo, ambas com pouco movimento. Ouvindo uma voz gritar por ajuda, você sai e vê um homem ferido e coberto de sangue. Assegurando-lhe que a sua ferida está confinada a uma de suas pernas, o homem também informa que foi estudante de medicina por dois anos. E, apesar da sua expulsão por ter copiado nos seus exames finais do segundo ano, o que explica o seu estado indigente desde aí, ele amarrou inteligentemente a sua camisa perto da ferida para estancar o sangue. Assim, não há qualquer perigo urgente de perder a sua vida, informa-o, mas há grande perigo de perder o seu membro. Isto pode ser evitado, no entanto, se você o levar para um hospital rural a cinquenta milhas de distância. "Como se feriu?" você pergunta. Um ávido observador de pássaros, ele admite que entrou ilegalmente num campo próximo e, por descuido, cortou-se no arame farpado enferrujado. Agora, se você ajudar este invasor, você deverá colocá-lo no seu impecável banco de trás. Mas, então, os seus estofos impecáveis ficarão encharcados de sangue, e restaurar o carro vai custar mais de cinco mil dólares. Assim, você vai-se embora. Resgatado no dia seguinte por outro motorista, ele sobrevive, mas perde a perna ferida.

Unger salienta que a maioria das pessoas respondem que este comportamento é moralmente condenável, e que você deve estar disposto a aceitar o custo monetário excessivo dos novos estofos do seu carro se isso vai salvar a vida do homem. Ele contrasta isso com as nossas respostas ao "The Envelope":

Na sua caixa de correio, há algo do (Comité dos EUA para a) UNICEF. Após a leitura, você acredita correctamente que, a menos que você envie imediatamente um cheque de 100 dólares, então, em vez de cada uma viver muitos mais anos, mais de trinta crianças vão morrer em breve.

Unger argumenta que reagir de forma diferente nesta experiência mental é moralmente inconsistente, e daí a nossa obrigação de doar à UNICEF ser tão forte quanto a nossa obrigação face ao invasor hipotético no " Mercedes Sedan vintage". Unger diz que uma pessoa relativamente abastada, "como você e eu, deve contribuir para grupos extremamente eficazes, como a Oxfam e a Unicef, com a maioria do dinheiro e propriedades que tem agora e a maioria do que venha a ter no futuro próximo.[28] [29]

Shelly Kagan[editar | editar código-fonte]

Shelly Kagan argumenta no The Limits of Morality que não temos opções morais para agir de uma forma que produza um resultado menor que óptimo. Ele inicia o livro com a alegação de que "a moralidade requer que você execute — daqueles actos que não forem proibidos — aquele acto que possa ser susceptível de conduzir às melhores consequências globais."[30] Ele tenta defender esta afirmação com uma análise detalhada dos diferentes pontos de vista possíveis sobre opções morais e constrangimentos morais, e como estas poderiam ser defendidas. Ele observa que há uma conexão entre a crença na existência de opções morais e uma crença na existência de restrições morais; uma pessoa que acredita que existem opções para agir abaixo do óptimo quase certamente irá também apoiar algumas restrições sobre como nos podemos comportar.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. http://thelifeyoucansave.com/idea
  2. The moral imperative towards cost effectiveness. Giving What We Can.
  3. Your dollar goes further when you fund the right program. GiveWell.
  4. Giving 101: The basics. GiveWell. Página visitada em 2013-02-28.
  5. Your dollar goes further overseas. GiveWell. Página visitada em 2013-02-28.
  6. Karnofsky, Holden. Hunger here vs. hunger there. GiveWell. Página visitada em 2013-02-28.
  7. Todd, Benjamin (28 February 2012), The Road Less Travelled: Replaceability and Neglected Causes, 80,000 Hours, http://80000hours.org/blog/30-the-road-less-travelled-replaceability-and-neglected-causes, visitado em 2013-03-07 
  8. a b .. , .
  9. What kind of job helps the most people?. 80,000 Hours. Página visitada em 2013-02-28.
  10. Singer 1972, pp. 231-232, 237.
  11. Effective Animal Activism.
  12. doi: 10.1111/j.1747-7093.2002.tb00398.x
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  13. Nagel, Thomas. The Limits of Objectivity. [S.l.: s.n.], 1979.
  14. Best jobs for saving the world (November 2011). Página visitada em 2013-02-28.
  15. Hosler, Aimee (14 June 2011). 10 "helping" professions and how to train for them. Schools.com. Página visitada em 2013-02-28.
  16. Williams, Bernard. Utilitarianism: For and against. Cambridge, UK: Cambridge University, 1973. 97–99 p.
  17. Integrity. Stanford Encyclopedia of Philosophy (2013). Página visitada em 2013-03-07.
  18. Singer, Peter. A Vida Que Podemos Salvar: Agir agora para pôr fim à pobreza no mundo. Lisboa: Gradiva, 2011.
  19. Famine, Affluence, and Morality (PDF) (1972). Página visitada em 2011-05-23.
  20. List of Members. Página visitada em 2012-11-22.
  21. FAQ on Singer's webpage at Princeton. Princeton.edu. Página visitada em 2011-05-23.
  22. Ord, Toby. Academic Site. A Mirror Clear. Página visitada em 2 March 2013.
  23. Geoghegan, Tom. "Toby Ord: Why I'm giving £1m to charity", 13 December 2010. Página visitada em 2 March 2013.
  24. Predefinição:Cite AV media
  25. Pogge, Thomas; Hollis, Aidan. In: Thomas. The Health Impact Fund: Making New Medicines Accessible for All. [S.l.]: Incentives for Global Health, 2008.
  26. Predefinição:Cite isbn
  27. doi: 10.1023/B:ETTA.0000004700.20750.0d
    Esta citação será automaticamente completada em poucos minutos. Você pode furar a fila ou completar manualmente
  28. a b Predefinição:Cite isbn
  29. Martha Nussbaum. "If Oxfam ran the world", 9/4/1997. Página visitada em 7 March 2013.
  30. doi: 10.1093/0198239165.001.0001
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Outras leituras[editar | editar código-fonte]

Ligações Exteriores[editar | editar código-fonte]