Amblypygi

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Trichodamon froesi

Trichodamon froesi
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Arthropoda
Classe: Arachnida
Ordem: Amblypygi
Famílias
Charinidae
Charontidae
Phrynichidae
Phrynidae

Paracharontidae

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Amblypygi - amblipígio em português, whip spider (aranha chicote) em inglês - é uma ordem de aracnídeo que está incluída na classe  Arachnida, a mesma classe das aranhas, escorpiões e carrapatos. Atualmente se conhece cerca 128 espécies em cinco famílias distribuídas por todas as partes do mundo (distribuição cosmopolita)[1] . No Brasil tem-se aproximadamente 13 espécies em três famílias (Charinidae, Phrynidae e Phrynichidae)[2] ,que se distribuem da região do Mato Grosso do Sul para a região norte brasileira, com representantes também em Ilha Bela. Ocupam florestas tropicais e subtropicais, sendo que algumas espécies são adaptadas a vida em ambientes áridos, como desertos; também são encontrados em cavernas[3] .

Características e ciclo de vida[editar | editar código-fonte]

Podendo atingir até 4,5 cm de comprimento e achatado dorso-ventralmente, o corpo dos amblipígios é dividido em cefalotórax (prossoma), coberto por uma carapaça única e rígida, pedicelo e abdômen segmentado. O primeiro par de pernas desse animal é extremamente alongado e possui funções sensorial e de comunicação intraespecífica; essas pernas são chamadas pernas anteniformes e não são utilizadas para caminhar. Os amblipígios não possuem glândula de veneno, portanto não oferecem perigo aos humanos. Na região anterior da carapaça, possuem um par de quelíceras bissegmentadas e subqueladas que utilizam para capturar presas com o auxílio dos pedipalpos. Algumas espécies exibem dimorfismo sexual, representado por um pedipalpo maior nos machos. Como em grande parte dos aracnídeos, os amblipígios digerem seu alimento extracorporeamente, o ingerem líquido e sua excreção é efetuada através das glândulas coxais. A respiração se dá através de pulmões foliáceos e a reprodução pode ser assexuada, por partenogênese, ou sexuada, por transferência indireta de esperma. Neste último caso, a cópula ocorre da seguinte maneira: o macho engaja a fêmea em uma espécie de "dança nupcial" até ela ceder o suficiente para que o macho se aproxime e deposite o espermatóforo; na ponta desse espermatóforo está um saco de esperma que deve ser apreendido pela fêmea. Assim que este estágio é alcançado, o macho segura a fêmea com seus pedipalpos e a desloca para onde o espermatóforo foi depositado, permitindo que ela capture o saco de esperma com seu gonóporo; dessa forma, acontece a fecundação. Após a fecundação (ou não, no caso dos partenogenéticos), a fêmea carrega seus ovos em um saco de ovos localizado embaixo do seu abdômen (na região ventral). Após três meses de desenvolvimento embrionário, os ovos eclodem e dezenas de filhotes migram para cima do abdômen da mãe onde permanecem sob sua proteção; após a primeira muda, os filhotes devem seguir suas vidas longe dos cuidados maternos, caso contrário acabam virando presa daquela que os trouxe à vida[4] .

Órgãos sensoriais[editar | editar código-fonte]

Amblipígios andam sobre seis pernas, isto acontece porque seu primeiro par de pernas tem função sensorial e não são utilizadas como apoio. Este primeiro par de pernas é chamadas de anteniformes, pois se assemelham a antena dos insetos. Estas estruturas sensoriais recebem uma variedade de estímulos químicos e mecânicos do ambiente e sua perda ocasiona a inabilidade de capturar presas e de se orientar no ambiente. Há vários receptores de sinais mecânicos e químicos nestas pernas como as cerdas, as sensilas, as fendas e os tricobótrios. Existem poucos tricobótrios nas pernas anteniformes, mas muitos nas pernas utilizadas para caminhar. Estes são responsáveis por perceber a aproximação de presas e de possíveis predadores[5] . Amblipígios tem quatro pares de olhos, três laterias e um par central. Contudo, esses olhos não são capazes de formar imagem, sendo úteis somente na distinção de claro e escuro (dia/noite, ambiente exposto/ambiente protegido). Muitas vezes esses olhos podem estar ausentes ou reduzidos, principalmente os olhos medianos (os olhos laterais encontram-se ausentes ou reduzidos na maioria das vezes em espécies troglóbias).


Após a eclosão dos ovos, a mãe carrega sues filhotes sobre o abdômen. Na foto, fêmea de Charinus vulgaris com sua prole.

Ecologia[editar | editar código-fonte]

Amblipígios são basicamente predadores de "senta e espera". Quando as pernas anteniformes entram em contato com uma possível presa, essas se retraem e o amplipígio se aproxima da presa. Quando perto o suficiente, o amblipígio abre seus pedilpalpos espinhados e ataca a presa. Esta é puxada pelos pedipalpos e as quelíceras a maceram. Como os amblipígios não possuem glândulas de venenos, a presa pode continuar viva nos momentos iniciais do processo de alimentação[6] . Espécies grandes, como por exemplo as dos gêneros Heterophrynus e Trichodamon, se posicionam sobre troncos ou rochas e predam insetos ou pequenos vertebrados. Amblipígios menores, como as espécies do gênero Charinus, possuem comportamento mais ativo (forrageamento). Na maioria das vezes, os amblipígios saem para caçar durante o período da noite. Em situações de perigo, os amblipígios conseguem soltar uma das pernas de seu próprio corpo para distrair o predador, o que facilita a fuga. Uma vez que a perna é quebrada na articulação patela-tíbia, pode haver regeneração da mesma. Aumenta o número de artículos do apêndice a cada regeneração, sendo que é possível quantificar o número de regenerações da vida de um amblipígio através da contagem destes artículos. Os amblipígios também se envolvem em disputas territoriais, onde sucedem-se lutas ritualizadas de demonstração de poder. Normalmente, o tamanho do pedipalpo é a medida de força nestes embates.

História Evolutiva e Filogenia[editar | editar código-fonte]

Embora ainda seja um assunto bastante debatido, acredita-se que os primeiros amblipígios tenham surgido na Terra durante o período Devoniano[7] . Os primeiros amblipígios de que se tem conhecimento foram encontrados na Inglaterra e na América do Norte. A disseminação destes animais teve início antes da separação da Pangea e da Gondwana. Hoje, os amblipígios possuem distribuição circumtropical, muito embora diferentes subgrupos sejam encontrados em diferentes continentes[8] . A linhagem dos amblipígios forma, juntamente com o grupo Araneae (aranhas), um grande grupo denominado Pantetrapulmonata; este grande grupo é monofilético, o que significa que todos os animais representantes dele surgiram a partir de um único ancestral comum. Estudos mais recentes afirmam que amblipígios também possuem relações de parentesco bem próximas a outros dois grupos de animais, Thelyphonida e Schizomida[9] . Amblipígios estão divididos em duas subordens, Paleoamblypygi e Euamblypygi. Paleoamblypygi é composta por apenas uma única espécie extinta, anteriormente distribuída pela África; Euamblypygi engloba quatro famílias, 16 gêneros e cerca de 150 espécies distribuídas pelo mundo todo. Dados mais recentes indicam que o número de espécies extintas foi elevado para 9, com registros na Europa, América do Norte e Brasil[10] .

Diversidade[editar | editar código-fonte]

Charinidae Quintero, 1986 (Cosmopolita)

  • Catageus Thorell, 1889 (1 espécie - Catageus pusillus)
  • Charinus Simon, 1892 (48 espécies); 8 no Brasil
  • Sarax Simon, 1892 (16 espécies)

Charontidae Simon, 1892 (Sudeste Asiático e Norte da Austrália)

  • Charon Karsch, 1879 (5 espécies)
  • Stygophrynus Kraepelin, 1895 (7 espécies)

Phrynichidae Simon, 1900 (África, Ásia e América do Sul)

  • Damon C. L. Koch, 1850 (11 espécies)
  • Musicodamon Fage, 1939 (1 espécies - Musicodamon atlanteus)
  • Phrynichodamon Weygoldt, 1996 (1 espécie - Phrynichodamon scullyi)
  • Euphrynichus Weygoldt, 1995 (2 espécies)
  • Phrynichus Karsch, 1879 (16 espécies)
  • Trichodamon Mello-Leitão, 1935 (2 espécies); ambas no Brasil
  • Xerophrynus Weygoldt, 1996 (1 espécie - Xerophrynus machadoi)

Phrynidae Blanchard, 1852 (América do Sul, América Central, América do Norte e Indonésia)

  • Heterophrynus Pocock, 1894 (12 espécies); 4 no Brasil
  • Acanthophrynus Kraepelin, 1899 (1 espécie - Acanthophrynus coronatus)
  • †Electrophrynus Patrunkevich, 1971 (1 espécie; Oligoceno Tardio – Mioceno Inferior - Electrophrynus mirus)
  • Paraphrynus Moreno, 1940 (19 espécies)
  • Phrynus Lamarck, 1801 (31 espécies, Oligoceno - Recente); 1 Brasil

'''Paracharontidae''' Weygoldt, 1996 (Oeste da África)

  • †Graeophonus Scudder, 1890 (2-3 espécies, Carbonífero)[8]
  • Paracharon Hansen, 1921 (1 espécies - Paracharon caecus)

Incertae sedis

  • †Sorellophrynus Harvey, 2002 (1 espécie, Carbonífero Superior - Sorellophrynus carbonarius)
  • †Thelyphrynus Petrunkevich, 1913 (1 espécie, Carbonífero Superior - Thelyphrynus elongatus)

Curiosidades[editar | editar código-fonte]

No quarto filme da série de filmes de Harry Potter, Harry Potter e o Cálice de Fogo (filme), há uma cena onde o professor Alastor "Olho Tonto" Moody (Mad Eye, em inglês) pega em suas mãos o que claramente é um amblipígio. O animal aparece no filme em uma das aulas de bruxaria, provavelmente devido a sua aparência exótica e seu caráter desconhecido e pouco estudado. No entanto, há um erro em uma das frases proferidas pelo professor: "But if she bites... she's lethal!"(mas se ela picar...ela é letal). Os amblipígios não possuem veneno e, portanto, não oferecem perigo ao ser humano.

Pesquisadores[editar | editar código-fonte]

Um dos maiores especialistas do mundo no grupo foi (e ainda é) o alemão Peter Weygoldt que produziu uma centena de artigos sobre taxonomia, comportamento e filogenia desses animais. Além dele, no âmbito internacional, Frederic Henry Gravely (Inglaterra), Diomedes Quintero (Panamá), Luis de Armas (Cuba), Mark Harvey (Austalia) e Chayo Rahmadi (Indonesia) produziram e alguns ainda produzem grandes contribuições ao conhecimento dos Amblypygi. No Brasil, além de diversas contribuições de pesquisadores internacionais, alguns cientistas do próprio país produziram a respeito da taxonomia de amblipígios, como Cândido Firmino de Melo-Leitão, Ricardo Pinto da Rocha, Renner Carqueira Baptista e Alessandro Ponce de Leão Giupponi, atualmente o maior especialista do grupo no Brasil.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  1. Harvey, M.S., 2003. Catalogue of the Smaller Arachnid Orders of the World – Amblypygi, Uropygi, Schizomida, Palpigradi, Ricinulei and Sollfugae. Csiro Publishing, Collingwood, Australia, 385 pp.
  2. Miranda, G.S. & Giupponi, A.P.L. (2011) A new synonthropic species of Charinus Simon, 1892 from Brazilian Amazônia and notes on the genus (Arachnida: Amblypygi: Charinidae). Zootaxa, 2980, 61–68.
  3. Saturnino, R., Tourinho, A. L. Sinop – Mato Grosso, 2011. Apostila curso de treinamento em “Aracnologia: Sistemática, Coleta, Fixação e Gerenciamento de Dados”.
  4. Weygoldt, P., 2000. Whip Spiders (Chelicerata: Amblypygi). Their Biology, Morphology and Systematics. Apollo Books, Stenstrup, Denmark, 163 pp.
  5. Foelix, R. & Hebets, E., 2001. Sensory biology of whip spiders (Arachnida, Amblypygi). andrias 15: 129-140
  6. Foelix, R. & Hebets, E., 2001. Sensory biology of whip spiders (Arachnida, Amblypygi). andrias 15: 129-140
  7. Dunlop, J.A. March–May 2010. Geological history and phylogeny of Chelicerata. Arthropod Structure & Development, Volume 39, Issues 2–3, páginas 124–142
  8. Weygoldt, P., 1996. Evolutionary morphology of whip spiders: towards a phylogenetic system (Chelicerata: Arachnida: Amblypygi)* J. Zoo. Syst. Evol. Research 34 185-202 pp.
  9. Weygoldt, P., 1996. Evolutionary morphology of whip spiders: towards a phylogenetic system (Chelicerata: Arachnida: Amblypygi)* J. Zoo. Syst. Evol. Research 34 185-202 pp.
  10. Dunlop, J.A. March–May 2010. Geological history and phylogeny of Chelicerata. Arthropod Structure & Development, Volume 39, Issues 2–3, páginas 124–142