Amor fati

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Amor fati (do latim amor, nominativo singular de amor,óris: 'amor a algo' e fati genitivo singular de fatum,i, 'destino') é uma expressão latina que significa 'amor ao destino', 'amor ao fado'. 1 No estoicismo e em Nietzsche, significa aceitação integral da vida e do destino humano mesmo em seus aspectos mais cruéis e dolorosos - aceitação que só um espírito superior é capaz.2

Índice

No estoicismo [editar]

Uma vez que o estoicismo propõe a indiferença em relação ao que é externo ao homem, o amor fati é compreendido como uma atitude de indiferença ao sofrimento e a tudo aquilo que ao homem é acidental, como forma de anular o conflito. Como escreve o Gustavo Bernardo, " o sábio estóico é aquele que consente na sua pertença ao mundo, porque 'o destino guia quem consente e arrasta quem recusa'." 3

No Cristianismo [editar]

De uma perspectiva cristã, Santo Agostinho endossa o ato heróico que constitui este amor pelo peso que o destino possa nos reservar, afirmando em Cidade de Deus que: "o nome fati (fado) nos faz fugir com horror, sobretudo por causa do vocábulo que ninguém se acostumou a entender o sentido verdadeiro."

O amor fati também pode ser utilizado para a aceitação virtuosa e serena do destino (fado no sentido de predição, oráculo) que Deus reservaria a cada um dos seres. Como exemplo ideal em Cristo por sua vida vivida intensamente e dedicada a servir ao próximo, em sua reserva e força para com a paixão e seu fim trágico na crucificação.

Em Nietzsche [editar]

Para Nietzsche, o Cristianismo faz a apologia de um falso amor fati, que, na perspectiva cristã consistiria em suportar - sem amar - os fatos da existência, na esperança de que Deus, enfim, nos livre de todos os fatos, dando-nos uma outra vida "num lugar sem tempo, o paraíso, um lugar sem fatos".4

Nietzsche recupera a idéia estóica do destino. O amor fati (amor ao destino) é uma ideia inseparável do eterno retorno . "Sob a égide do eterno retorno, querer será sempre querer o necessário: amor fati. É aqui que está o segredo da superação do niilismo, assim como a dificuldade final da filosofia de Nietzsche: fazer com que coincidam o querer e o destino, a liberdade e a necessidade".5 .

Para Nietzsche, "amor fati" é amar o inevitável, amar o destino, amar o justo e o injusto, o próprio amor e o desamor. Ou seja, "ser, antes de tudo, um forte", sem reclamar da vida, sendo indiferente ao sofrimento. Uma retomada do antigo pensamento grego dos filósofos estóicos.

O Amor fati foi usado por Nietzche para representar a "fórmula para a grandeza do homem" :

"Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade. Não só suportar o que é necessário, e menos ainda dissimulá-lo (…), mas amá-lo…"

O termo aparece varias vezes em A Gaia Ciência, mas é neste trecho em particular citada de forma mais clara:

"Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: - assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas."

Amor fati (amor ao destino): seja este, doravante, o meu amor. "Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que minha única negação seja ‘desviar o olhar’! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia apenas alguém que diz sim."

Nem conformismo, nem resignação, nem submissão passiva: amor; nem lei, nem causa, nem finalidade: fatum ( destino). Em vez de esperar que um poder transcendente justifique o mundo, o homem tem de dar sentido à própria vida; em vez de aguardar que venham redimi-lo, deve amar cada instante como ele é. E não há afirmação maior da existência que a afirmação de que tudo retorna sem cessar.

O amor fati, como afirmação incondicional do que acontece, contrapõe-se à resignação cristã e configura portanto uma atitude dionisíaca diante da existência:6

Estado mais alto que um filósofo pode atingir: ter para com a existência uma atitude dionisíaca: minha fórmula para isso é amor fati... Para isso, devem-se considerar os aspectos renegados da existência não somente como necessários, mas como desejáveis (Nietzsche, F. Fragmentos Póstumos 13: 16 [32] verão de 1888).

Referências

  1. FERRATER-MORA, José. Dicionário de filosofia. Volume 1, p.114.
  2. Dicionário Houaiss
  3. BERNARDO, Gustavo A ficção cética. São Paulo: Anna Blume, 2004, p.220.
  4. Amor Fati, por Paulo Ghiraldelli Jr., 7 de janeiro de 2011.
  5. MOURA, Carlos Alberto Marcondes de. Nietzsche: civilização e cultura, p. 283.
  6. Helenismo e crítica da modernidade: a relação com a Antigüidade no pensamento de Nietzsche, por Alexandre Alves. Revista Trágica: estudos sobre Nietzsche, vol.1, nº2, 2º semestre de 2008, pp.1-17.