Anaxímenes de Mileto

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Anaxímenes de Mileto
Pré-socráticos
Anaximenes.jpg
Nome completo Άναξιμένης
Escola/Tradição: Escola Jônica Escola de Mileto
Data de nascimento: ca. 588 a.C.
Local: Mileto
Data de falecimento ca. 524 a.C. (64 anos)
Principais interesses: Astronomia, Física
Trabalhos notáveis Ar como substância primária
Influenciado por: Tales de Mileto, Anaximandro
Influências: Anaxágoras

Anaxímenes de Mileto[1] (Grego: Άναξιμένης; 588-524 a.C.) foi um filósofo pré-socrático do Período Arcaico, activo na segunda metade do século VI a.C..[2] [3] Foi um dos três filósofos da escola milésia, é identificado como dicispulo de Anaximandro.[4] [5] Anaxímenes, tal como outros na sua escola de pensamento, praticou o materialismo monista.[6] [5] Esta tendência para identificar uma específica realidade composta de um elemento material constitui o âmago das contribuições que deu fama a Anaxímenes.

Escreveu a obra “Sobre a natureza”, em prosa. Dedicou-se especialmente à meteorologia. Foi o primeiro a afirmar que a luz da Lua é proveniente do Sol.

Anaxímenes e o arché[editar | editar código-fonte]

Enquanto que os seus predecessores, Tales de Mileto e Anaximandro, propuseram que o arché, a substância primária, era a água e o ápeiron, respectivamente, Anaxímenes afirmava ser o ar a sua substância primária, a partir da qual todas as outras coisas eram feitas.[7] Enquanto a escolha de ar possa parecer arbitrária, ele baseou as suas conclusões em fenómenos observáveis na natureza, como a rarefação e a condensação.[8] Quando o ar condensa, torna-se visível, como o nevoeiro e depois a chuva e outras formas de precipitação, e enquanto o ar arrefece, Anaxímenes supunha que se formaria terra e posteriormente pedra. Em contraste, a água evapora em ar, que posteriormente por ignição produz chamas quando mais rarefeito.[9] Enquanto outros filósofos também reconheciam tais transições em estados da matéria, Anaxímenes foi o primeiro a associar os pares de qualidades quente/seco e frio/molhado com a densidade de um único material e a adicionar uma dimensão quantitativa ao sistema monista milésio.[9] [10]

Simplício em seu livro Física' nos conta: “Anaxímenes de Mileto, filho de Eurístrates, companheiro de Anaximandro, afirma também que uma só é a natureza subjacente, e diz, como aquele, que é ilimitada, não porém indefinida, como aquele (diz), mas definida, dizendo que ela é Ar. Diferencia-se nas substâncias, por rarefação e condensação. Rarefazendo-se, torna-se fogo; condensando-se, vento, depois, nuvem, e ainda mais, água, depois terra, depois pedras, e as demais coisas provêm destas. Também ele faz eterno o movimento pelo qual se dá a transformação.”

“... do ar dizia que nascem todas as coisas existentes, as que foram e as que serão, os deuses e as coisas divinas...”

A cosmologia de Anaxímenes[editar | editar código-fonte]

Tendo concluído que tudo no mundo é composto de ar, Anaxímenes usou depois a sua teoria para desenvolver um esquema que explicasse as origens de natureza da terra e dos corpos celestes ao seu redor.

O ar ---- para criar o disco plano da terra, que dizia ser da forma de uma mesa e que se comportava como uma folha a flutuar no ar. Mantendo a visão aceite de que os corpos celestes eram como bolas de fogo no céu, Anaxímenes propôs que a terra libertasse uma exalação de ar rarefeito (pneuma) que se transformava em fogo, formando no final as estrelas. O sol não seria composto de ar rarefeito, mas sim de terra, assim como a lua. O seu aspecto em ignição não vem da sua composição mas sim do seu movimento rápido.[11] A lua é também considerada como sendo plana, flutuando em fluxos de ar, e quando se oculta abaixo do horizonte não passa por debaixo da terra mas é obscurecida por partes mais elevadas da terra enquanto faz o seu circuito e se torna mais distante. O movimento do sol e dos outros corpos celestiais à volta da terra é similar, diz Anaxímenes, ao modo como um chapéu pode ser rodado na cabeça de uma pessoa.[3] [12]

Outros fenómenos[editar | editar código-fonte]

Anaxímenes usou as suas observações e o raciocínio para providenciar as causas de outros fenómenos naturais. Terremotos, dizia, eram o resultado da falta de humidade, que causa que a terra sofra fracturas de tão seca que está, ou por excesso de humidade, que também causa fractura pelo excesso de água. Em ambos os casos, a terra torna-se fraca pelas fracturas e os montes colapsam, causando terremotos. Os relâmpagos são causados por uma separação violenta, desta vez de nuvens pelo vento, causando uma iluminação brilhante semelhante a fogo. O arco-íris, é formado quando ar densamente comprimido é tocado pelos raios do sol.[13] Estes exemplos mostram como Anaxímenes, como os outros milésios, procuravam uma visão mais completa da natureza, procurando unificar causas para diversos eventos que ocorressem, em vez de tratar cada um por si ou atribuindo as causas a deuses ou a uma natureza personificada.[6]

Obras[editar | editar código-fonte]

Anaxímenes escreveu a obra de nome Peri Physeos (Sobre a Natureza), obra que hoje em dia se encontra perdida. Mas temos referência a ela a partir de Diógenes, que disse dele que escrevia em dialecto jónico e num estilo conciso.

Segundo menciona Plínio, o Velho na sua obra Historia Natural (Livro II, Capítulo LXXVI), Anaxímenes foi o primeiro a analisar geometricamente aspectos das sombras para medir as partes e divisões do dia, e desenhou um relógio de sol que denominava Sciothericon. Literalmente: Umbrarum hanc rationem et quam vocant gnomonicen invenit Anaximenes Milesius, Anaximandri, de quo diximius, discipulus, primusque horologium, quod appellant, Lacedaemone ostendit.

Ver também[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Anaxímenes de Mileto

Referências

  1. Filosofia Popular. Anáximenes de Mileto - Filosofia, Política e Educação. Visitado em 14 de janeiro de 2012.
  2. Lindberg, David C. “The Greeks and the Cosmos.” The Beginnings of Western Science. Chicago: University of Chicago Press, 2007. 28.
  3. a b Graham, Daniel W. "Anaximenes". The Internet Encyclopedia of Philosophy. 29.10.2009 [1].
  4. Kirk, G.S., J.E. Raven, and M. Schofield. “Anaximenes of Miletus.” The Presocratic Philosophers. Cambridge: Cambridge University Press, 1984. 143.
  5. a b Guthrie, W.K.C. “The Milesians: Anaximenes.” A History of Greek Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 1962. 115.
  6. a b Lindberg, David C. “The Greeks and the Cosmos.” The Beginnings of Western Science. Chicago: University of Chicago Press, 2007. 29.
  7. UOL Educação. Anaxímenes - Biografia. Visitado em 14 de janeiro de 2012.
  8. Guthrie, W.K.C. “The Milesians: Anaximenes.” A History of Greek Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 1962. 116.
  9. a b Guthrie, W.K.C. “The Milesians: Anaximenes.” A History of Greek Philosophy. Cambridge: Cambridge University Press, 1962. 124-126.
  10. Kirk, G.S., J.E. Raven, and M. Schofield. “Anaximenes of Miletus.” The Presocratic Philosophers. Cambridge: Cambridge University Press, 1984. 146.
  11. Kirk, G.S., J.E. Raven, and M. Schofield. “Anaximenes of Miletus.” The Presocratic Philosophers. Cambridge: Cambridge University Press, 1984. 152-153.
  12. Fairbanks, Arthur. "Anaximenes". The First Philosophers of Greece. K. Paul, Trench, Trübner & co., ltd., 1898. 20.
  13. Fairbanks, Arthur. "Anaximenes". The First Philosophers of Greece. K. Paul, Trench, Trübner & co., ltd., 1898. 18;20-21.

Leitura adicional[editar | editar código-fonte]

  • Barnes, Jonathan. The Presocratic Philosophers. London: Routledge, 1982.
  • Burnet, John. Early Greek Philosophy. 3rd ed. London: Black, 1920.
  • Freeman, Kathleen. Ancilla to the Pre-Socratic Philosophers. [S.l.]: Harvard University Press, 1978. ISBN 0674035003
  • Guthrie, W.K.C.. The Earlier Presocratics and the Pythagoreans. Cambridge: Cambridge University Press, 1962. vol. 1.
  • Hurwit, Jeffrey M.. The Art and Culture of Early Greece, 1100-480 BC. Ithaca, NY: Cornell University Press, 1985.
  • Kirk, G.S.; Raven, J.E.. In: G.S.. The Presocratic Philosophers. 2nd ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1983.
  • Sandywell, Barry. Presocratic Reflexivity: The Construction of Philosophical Discourse, c. 600-450 BC. London: Routledge, 1996. vol. 3.
  • Stokes, M. C.. The One and Many in Presocratic Philosophy. Washington, DC: Center for Hellenic Studies with Harvard University Press, 1971.
  • Sweeney, Leo. Infinity in the Presocratics: A Bibliographical and Philosophical Study. The Hague: Martinus Nijhoff, 1972.
  • Taran, L. (1970). "Anaximenes of Miletus". Dictionary of Scientific Biography 1. New York: Charles Scribner's Sons. 151–152. ISBN 0684101149 
  • Wright, M.R.. Cosmology in Antiquity. London: Routledge, 1995.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • SPINELLI, Miguel. Filósofos Pré-Socráticos. Primeiros mestres da filosofia e da ciência grega. Porto Alegre: Edipucrs, 2ªed., 2003.
Wikiquote
O Wikiquote possui citações de ou sobre: Anaxímenes de Mileto