Anglos

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O Império Romano de Adriano (117-138), mostrando a localização dos anglii, que então habitavam a península da Jutlândia (atual Dinamarca).

Anglos é um termo moderno que se refere a um povo germânico cujo nome deriva da antiga região de Ânglia, que atualmente é um distrito localizado em Schleswig-Holstein, Alemanha. Os anglos foram um dos maiores grupos que se fixaram na Britânia após a queda de Roma, fundando vários dos reinos da Inglaterra anglo-saxã e instalando-se na Ânglia Oriental, Mércia e na Nortúmbria no século V. Seu nome deu origem ao nome "Inglaterra".

Etimologia[editar | editar código-fonte]

O nome dos anglos (em alemão: Angeln , "peixe"; em inglês: englas; em latim: anglus (singular) ou anglii (plural)) foi primeiramente registrado em latim (anglii) no livro Germania de Tácito. O nome é derivado de um topônimo da antiga palavra alemã "anguz", ("eng" no atual alemão) que significa "estreito" ou "angular" (devido ao diminuto formato da península da Ânglia, dentro da península da Jutlândia). O papa Gregório, em uma epístola, simplificou a palavra anglii para angli, que se tornou a forma preferida da palavra. O país continuou se chamando Anglia em latim. Na tradução da obra do historiador Paulo Orósio pelo rei da Inglaterra Alfredo, ele usa Anglecynn (-kin) para falar sobre a Inglaterra e os ingleses, já Beda, usa Anglefolc (-folk). Há também formas como Engel, Englan (população), Englaland e Englilisc, todas apresentam variações de vogais.

A Britânia meridional e oriental foi posteriormente chamada de Engla-lond ("terra dos anglos", em inglês antigo), e mais tarde England, o termo em inglês para Inglaterra.

História greco-romana[editar | editar código-fonte]

Estrabão e Plínio[editar | editar código-fonte]

Dois importantes geógrafos, Estrabão e Plínio, o velho, não mencionam os anglos. Isto se deve por eles considerarem a costa sul do Báltico como a terra incógnita, "terra desconhecida". Porém, tanto Estrabão quanto Plínio descrevem essa terra. Como os anglos tem nomes derivados do lugar, provavelmente são citados com nomes sem relação com a geografia.

Estrabão menciona a Batalha da Floresta de Teutoburgo no final do reinado de Augusto, no século I. Estrabão declara que os cimbros ainda viviam na península de Jutlândia (onde sempre viveram, mesmo alguns sendo nômades). A população que habitava o litoral além do Rio Elba era desconhecida nas obras de Estrabão, mas ao sul deles vivem os suevos do Elba aos getas (godos). Estrabão trabalhou ao leste do Reno.

Plínio, por sua vez, trabalhou de leste a oeste. Sua descrição vai do Mar Negro, atravessa as montanhas Ripaei até a costa norte e segue a oeste até Cádis. Primeiramente, há a Cítia, onde estão os samaritanos, vênedos e esciros, além do rio Vístula. Após isso, há os Ingaveones ("povo de Yngvi'), Bornholm, que é um ilha oposta à Cítia. Cylipenus (provavelmente é a Baía de Kiel) é descrita em sua obra, e lá existe um golfo chamado Lagnus, que se situa na fronteira com os cimbros. Sua localização não é exata, porém, é provável que esteja na região de Ânglia.

Para Plínio, os Ingaveones eram formados pelos cimbros e pelos teutões (pelos caúcos também, mas eles não habitavam a região). Se Lagnus se situava na fronteira com os cimbros e depois de Kiel, os anglos deviam estar nos territórios teutões. Talvez eles não se chamassem "anglos" na época; contudo, as terras dos teutões incluíam a Pomerânia Ocidental ao sul de Elba (sobretudo Holstein), representando o vasto contingente territorial dos anglos em fontes posteriores.

Tácito[editar | editar código-fonte]

O mapa mostra a península de Ânglia (ao leste de Flensburg e Schleswig) e a península de Schwansen (ao sul de Schlei).

Provavelmente, o primeiro exemplo de registro dos anglos na história é na obra "Germania" de Tácito, na qual ele cita os Anglos em uma lista de tribos germânicas. Ele não dá indicação precisa de sua posição geográfica, mas declara que, com mais seis tribos, eles veneravam uma deusa chamada Nerthus, cujo santuário se localiza em "uma ilha no Oceano". As outras tribos são: Reudígnos, Aviones, Varnos, Eudúsios, Suardones e Nuitones,[1] que juntos são descritos como povos defendidos por rios e bosques,[2] i.e., não sendo possível atacá-los. Como os eudúsios são os jutos, esses nomes provavelmente se referem a localidades na Jutlândia ou na costa do Báltico, cujos habitantes seriam os cimbros ou os teutões para Plínio. A região apresenta estuários, baías, rios, ilhas, pântanos e mangues suficientes para se tornar inacessível àqueles que não estão familiarizados com o terreno, como os romanos, que o consideraram um país desconhecido e inacessível.

Grande parte dos estudiosos acreditam que os "Anglii" viviam na costa do Báltico, provavelmente ao sul da península de Jutlândia. Essa visão é baseada em partes nas antigas tradições inglesas e dinamarquesas em se tratando das pessoas e eventos do século IV, e a outra parte no fato de que as notáveis afinidades ao culto de Nerthus, descritas por Tácito, encontram-se na religião da Escandinávia pré-cristã, principalmente na Suécia e Dinamarca.

Investigações nesse assunto levaram à provável conclusão de que a ilha de Nerthus é a Sjælland (Zelândia), na Dinamarca. Os reis de Wessex traçaram sua ancestralidade até um certo Scyld, que pode ser claramente identificado como Skiöldr, o mitológico criador da Família Real Dinamarquesa (Skiöldungar). Na cultura inglesa, eles são relacionados com "Scedeland" (pl.), i.e. Escandinávia, enquanto na cultura escandinava ele é associado à antiga residência real em Lejre em Sjælland.

Os relatos de Germania são incoerentes com os de Plínio e Estrabão em grande parte. Tácito chamava o Báltico de "Mar Suevo"e via as sete tribos que incluíam os Anglii como Suebi (Suevos). Para Plínio,os suevos estavam entre as tribos dos hermiones no centro da Alemanha. Para Estrabão, os suevos estavam ao sul da costa. O idioma dos suevos se tornou o alto-alemão antigo, enquanto os anglos e jutos estavam entre os falantes do saxão antigo.

Ptolomeu[editar | editar código-fonte]

Ptolomeu, em Geographia, meio século mais tarde, apresenta uma visão mais complexa. Os saxões estão situados no baixo Elba, área à qual eles só conseguiram chegar graças à uma extensão da aliança saxã. A leste, estavam os teutões e uma desassimilação deles,os Teutonoari, que denota "homens" (wer); isto é, "os homens teutões." Esses teutões estiveram em Ânglia e suas redondezas.

Os anglos, como tais, não são mencionados. No lugar, estão os Syeboi Angeilloi, latinizados para Suevi Angili, localizados ao sul do meio Elba. Devido à incerteza dessa passagem, houve muita especulação a respeito da orgiem do nome dos anglii. Uma teoria é a de que eles ou parte deles habitaram ou se mudaram entre outros povos costeiros, talvez confederados até a bacia do Saale (na região do antigo cantão de Engilin) nos vales do Unstrut, abaixo de Kyffhäuserkreis, região onde se acredita que os Lex Angliorum et Werinorum hoc est Thuringorum chegar. O nome étnico dos frísios e dos varnos estão em nomes dessas terras saxãs ou suevas.

Outra possibilidade é que os anglos de Ptolomeu não são exatamente os de Schleswig. Segundo Julius Pokorny o "Angri-" de Angrivários,o "-angr" de Hardanger e o "Angl-" de Anglii tem a mesmo origem, que significa "dobrar",porém, tem sentidos diferentes. Em outras palavras, a semelhança entre os grupos é meramente coincidência e não reflete nenhuma unidade étnica além da germânica. Os suevi angeli habitavam a Baixa Saxônia ou um local próximo e, assim como os suevos sêmnones de Ptolomeu, estavam entre os suevos.

História Medieval[editar | editar código-fonte]

Manuscrito de Beda

Beda diz que os Anglii, antes de chegarem à Grã Bretanha, viviam numa terra chamada Angulo, "que desde então até hoje permanece um deserto — entre as províncias dos jutos e dos saxões ". Evidência similar é encontrada em Historia Brittonum. O rei Alfredo, o Grande e o historiador Æthelweard identificaram esse local com o atual distrito de Angeln, na província de Schleswig (Slesvig) (embora possa ter sido de extensão maior), e essa identificação vai ao encontro das declarações de Beda.

No conto norueguês do aventureiro viking Ottar de Hålogaland de uma viagem de dois dias do fiorde Oslo a Schleswig, ele relatou as terras em seu navio, e Alfredo adicionou a nota "nestas ilhas habitaram os Engle antes deles virem para cá".[3] Isto é confirmado pelas tradições inglesas e dinamarquesas relacionando a dois reis chamados Wermund e Offa de Angel, de quem a família real de Mércia alega ser descendente e cujos feitos estão conectados a Angeln, Schleswig, e Rendsburg. A tradição dinamarquesa preservou o registro de dois governantes de Schleswig, pai e filho, a serviço deles, Frowinus (Freawine) e Wigo (Wig), de quem a descendência é alegada pela família real de Wessex. Durante o século V, os anglii invadiram a Grã Bretanha e, após a invasão, seu nome não foi mais registrado no continente, exceto no título de Suevi Angili.

Os anglos são tema de uma lenda sobre o papa Gregório I, que viu, por acaso, um grupo de crianças anglas de Deira à venda como escravos no mercado de Roma. Como a história viria a ser contada posteriormente pelo monge e historiado anglo-saxão Beda, Gregório se impressionou com a aparência diferente dos escravos e perguntou sobre suas origens. Quando lhe foi dito que eles eram conhecidos por "anglii" (anglos), ele respondeu com um trocadilho em latim: “Bene, nam et angelicam habent faciem, et tales angelorum in caelis decet esse coheredes” ("É bom para eles que tenham um rosto angelical, tal povo deve ser co-herdeiro dos anjos no céu").Supostamente, esse encontro inspirou o papa a lançar uma missão de catequizar seus conterrâneos.[4]

Arqueologia[editar | editar código-fonte]

A província de Schleswig provou-se rica em objetos pré-históricos que datam aparentemente do século IV - V D.C. Um cemitério de cremação foi encontrado em Borgstedterfeld, entre Rendsburg e Eckernförde, e ele rendeu muitas urnas e broches muito semelhantes aos encontrados em túmulos pagãos na Inglaterra. De importância maior ainda, estão os grandes depósitos no pântano de Thorsberg (em Angeln) e Nydam, que continha grande quantidade de armas, ornamentos,peças de vestuário, ferramentas agrícola etc., e em Nydam até mesmo navios. Pela ajuda dessas descobertas, a civilização angla no tempo anterior à invasão à Britânia pôde ser montada.

Reinos anglos na Inglaterra[editar | editar código-fonte]

Anglos e saxões na Inglaterra.

De acordo com as fontes, como a História de Beda, após a invasão à Grã Bretanha, os anglos se dividiram e formaram os reinos de Nord Angelnen (Reino de Nortúmbria), Ost Angelnen (Reino da Ânglia Oriental), e Mittlere Angelnen (Reino de Mércia). H.R. Loyn observou nesse contexto que "uma viagem marítima é perigosa à instituições tribais,"[5] e que aparentemente os reinos tribais se formaram na própria Inglaterra. Em tempos antecedentes, havia dois reinos do norte (Bernícia e Deira) e doi reinos centrais (Ânglia Média e Mércia). Como resultado da influência dos saxões do oeste, as tribos eram chamadas genericamente de anglo-saxões pelos normandos, os reinos saxões conquistaram, unificaram e fundaram o Reino da Inglaterra por volta do século X. A região da Ânglia Oriental e Nortúmbria ainda hoje são conhecidas por esses nomes. Nortúmbria estendeu-se ao norte até onde hoje é o sudeste da Escócia, incluindo Edimburgo, e ao sul até Humber.

O resto da população permaneceu na terra natal dos anglos, no nordeste do atual estado alemão de Schleswig-Holstein, na península de Jutlândia. Lá, uma pequena península ainda é chamada "Angeln" (Ânglia) e é formada por um triângulo que vai de Flensburg no Fiorde de Flensburger para a cidade de Schleswig e, finalmente, a Maasholm, na entrada Schlei.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Tacitus, Germania, 40, Medieval Source Book. Code and format by Northvegr.[1]
  2. Tacitus (1877), Germania, 40; translation from The Agricola and Germania, A. J. Church and W. J. Brodribb, trans., London: Macmillan, pp. 87-110(?), as recorded in the Medieval Sourcebook [2]
  3. Orósio do Rei Alfredo, ed. H. Sweet (Early English Text Society) 1883:19, noted in H.R. Loyn, Anglo-Saxon England and the Norman Conquest, 2nd ed. 1991:24.
  4. História Eclesiástica do Povo Inglês, livro 2 por Beda
  5. Loyn, Anglo-Saxon England and the Norman Conquest, 2nd ed. 1991:25.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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