Anta-comum

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Tapirus terrestris
Tapirus terrestris
Estado de conservação
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Perissodactyla
Família: Tapiridae
Género: Tapirus
Espécie: T. terrestris
Nome binomial
Tapirus terrestris
(Linnaeus, 1758)
Distribuição geográfica
Distribuição Geográfica da Anta: Verde - Presente, Preto - Extinta
Distribuição Geográfica da Anta: Verde - Presente, Preto - Extinta
Subespécies
  • T. t. terrestris Linnaeus, 1758
  • T. t. aenigmaticus Gray, 1872
  • T. t. colombians Hershkovitz, 1954
  • T. t. spegazzinii Amhegino, 1916

A anta-comum ou anta-das-terras-baixas (tradução de lowland tapir, em inglês) (nome científico:Tapirus terrestris), vulgarmente conhecido como anta,3 anta-gameleira, anta-sapateira3 é um mamífero da ordem Perissodactyla e da família dos tapirídeos, que são os únicos perissodáctilos da América. Ocorre na América do Sul, principalmente e florestas perto de cursos d'água.

Possui até 300 kg de peso e 108 cm de altura, e é o maior mamífero da América do Sul. Possui uma probóscide, que é usada para coletar alimento. É um animal frugívoro, e tem um papel importante na dispersão de sementes, principalmente na Amazônia. Seus predadores são grandes felinos, como a onça-pintada e a suçuarana, além do homem.

A anta é listada como "vulnerável" pela IUCN. Desapareceu no limite sul de sua distribuição geográfica, da Caatinga e das regiões próximas aos Andes. Isso se deve principalmente à perda de habitat e à caça predatória.

Índice

Etimologia [editar]

"Anta" deriva do termo árabe lamTa.3 "Tapiira", "tapir" e "tapira" derivam do termo tupi tapi'ira, "semelhante à anta".3 "Tapiretê" deriva do tupi tapire'tê, "tapir verdadeiro".3

Taxonomia e evolução [editar]

A anta-comum pertence a ordem Perissodactyla, família Tapiridae e gênero Tapirus, e foi descrita por Carl Linnaeus em 1758.4 São reconhecidas quatro subespécies: T. t. aenigmaticus (ocorre no sudeste da Colômbia, leste do Equador e nordeste do Peru), T. t. colombianus (ocorre no norte da Colômbia), T. t. spegazzinii (ocorre no sul do Brasil, Mato Grosso, leste da Bolívia, Paraguai e norte da Argentina) e T. t. terrestris (ocorre no Suriname, Guiana Francesa, Brasil, Venezuela e na província de Misiones, na Argentina).4

Estudos filognéticos, usando sequências do gene da enzima mitocrondial citocromo c oxidase II, demonstraram que a anta (Tapirus terrestris) é mais aparentada à outra espécie sul-americana, Tapirus pinchaque.5 Essas duas espécies tiveram um ancestral comum, que chegou na América do Sul pelo istmo do Panamá, há cerca de 3 milhões de anos.5

O registro fóssil mostra que o gênero Tapirus surgiu na América do Sul entre 2,5 a 1,5 milhão de anos atrás, na Argentina. Os mais antigos fósseis da anta-comum datam do Pleistoceno e foram encontrados na região do rio Juruá, no Acre, Jacupiranga e Jaupaci.4

Distribuição Geográfica e Habitat [editar]

A anta ocorre desde o sul da Venezuela até o norte da Argentina, habitando também o Chaco paraguaio e todo o Brasil.6 Sua distribuição diminuiu nos limites sul, na Argentina, principalmente por conta da caça e perda de habitat.6 Provavelmente foi extinta na Caatinga e no Chaco seco, de forma que agora ela está praticamente restrita à áreas mais úmidas no Pantanal e Amazônia.2 É provável que suas densidades fossem sempre baixas na Caatinga, ocorrendo em apenas algumas áreas úmidas em zonas de transição desse bioma com outros, como a Mata Atlântica.7

Habita áreas florestadas ou abertas próximas a cursos d'água permanentes.8 Pode ser encontrada até 1 500 m de altude, no Equador, e em outras localidades, até 1 700 m.9 Durante o dia se abriga nas florestas e à noite vão paras descampados forragear.8 Florestas de palmeiras constituem um habita importante.10 Em áreas fragmentadas, a anta pode ser encontrada em campos cultivados e em plantações de Eucalyptus, provavelmente utilizando essas áreas de forma oportunista, seja como corredor entre fragmentos de floresta, seja para procurar comida.11

Descrição [editar]

A probóscide da anta-comum é a menor dentre os tapirídeos.

É o maior mamífero netropical, medindo até 108 cm de altura e 300 kg de peso.6 É distinguível dos outros tapirídeos por possuir uma crina, que vai desde o pescoço até a fronte da cabeça, que fica em cima de uma crista sagital, que faz parte do topo do crânio.12 13 14 Essa crista sagital possui um padrão único no desenvolvimento, emergindo do topo do crânio, e não a partir de cristas parassagitais no osso temporal, como nas outras três espécies de tapirídeos.15 O desenvolvimento dessa crista está relacionado ao tamanho do músculo temporal, que é muito desenvolvido e extenso em sua origem, mesmo em recém-nascidos.15 Fêmeas podem chegar até 221 cm de comprimento e machos até 204 cm.4 A pele é mais grossa na nuca, e abaixo da epiderme há uma camada de tecido fibroso.4 Os adultos possuem uma cor marrom escura, ao passo que os juvenis são marrons com listras horizontais brancas.4

A fórmula dentária é 3/3, 1/1, 4/3-4, 3/3, totalizando entre 42 e 44 dentes.8 Os incisivos possuem forma de talhadeira: o terceiro incisivo superior se parece com um canino e o terceiro incisivo inferior é reduzido.8 Os caninos são cônicos e separados dos pré-molares por um diastema.8 Os pré-molares são muito semelhantes aos molares.8 Os molares são lofodontes, visto ter uma dieta frugívora.14 Trata-se de uma dentição não especializada em se alimentar de gramíneas, como se observa nos cavalos.9

Possui uma probóscide, usada para pegar frutas e folhas.12 14 A probóscide não tem parte óssea e nem cartilaginosa, e nem uma musculatura intrínseca.16 Em contrapartida, o tecido do lábio superior é adaptado de tal forma que permite o surgimento de uma estrutura móvel e flexível.16 Os músculos envolvidos na movimentação da probóscide são os músculos levantador do lábio superior, levantador nasolabial, levantador do ângulo da boca e nasal lateral.16 A probóscide da anta-comum é a mais curta dentre todos os tapirídeos.16

É um ungulado não-ruminante, possuindo um intestino típico de animais fermentadores, como o cavalo, com um ceco bastante desenvolvido.17 Como os outros perissodáctilos, perdeu o primeiro dígito dos membros anteriores, e apoiam o peso do corpo apenas no terceiro dedo.9 O segundo e terceiro dedos são menores, e o quinto dedo não toca o chão, a menos que caminhe em ambientes arenosos ou demasiadamente lamacentos.9

Foi constatada a presença de ectoparasitas, como carrapatos do gênero Amblyomma, que são bastante comuns no Neotrópico. No Peru, as espécies encontradas no pelo da anta foram: Amblyomma coelebs, Amblyomma incisum, Amblyomma latepunctatum, Amblyomma oblongoguttatum, Amblyomma ovale, e Amblyomma scalpturatum.18

Comportamento e ecologia [editar]

A anta é uma boa nadadora.

A anta é o último elemento da megafauna na Amazônia e constitui-se em um importante dispersor de sementes.19 20 É um grande mamífero não-ruminante e frugívoro.19 20 Isso se deve principalmente porque a anta defeca na água, o que faz com que o padrão de dispersão também seja único.19 21

É um animal tipicamente crepuscular e solitário, sendo visto aos pares quando no período de estro das fêmeas e em unidades familiares (sem machos adultos) quando estão com filhote.6 14 Em ambientes perturbados pelo homem, pode se tornar estritamente noturno.9 É capaz de nadar muito bem, inclusive em rios amplos, como o rio Amazonas.9 Quando anda de forma lenta, sua postura é característica, com a cabeça abaixada, mas quando corre a mantém levantada.4

Foram reportadas quatro tipos de vocalizações, emitidas em contextos específicos: um guincho estridente e flutuante é emitido durante dor e medo; guinchos de baixa frequência e curta duração são emitidos durante comportamento exploratório; sons parecidos com "cliques" parecem usados em contextos de contato social e bufos violentos são sons de ameaça durante encontros agonísticos.22 A marcação com cheiro também é uma importante forma de comunicação entre os indivíduos, utilizando tanto a urina, como secreções em duas glândulas localizadas na face para fazer isso.4

Seus predadores são grandes felinos como a onça-pintada e a suçuarana, que predam principalmente os filhotes.23

Forrageamento e dieta [editar]

As antas são animais frugívoros muito importantes na dispersão de sementes, engolindo-as e depois liberando elas pelas fezes.24 Forrageiam principalmente em clareiras ou em áreas próximas a cursos d'água.25 Podem se alimentar de até 42 espécies de vegetais, e em fragmentos de floresta da Mata Atlântica sendo as mais frequentes da família Rubiaceae, Melastomataceae e Arecaceae.24 No Cerrado e em zonas de transição dessa vegetação com a Mata Atlântica, a anta se alimenta predominantemente de folhas e brotos.26 Mesmo nessas regiões, pode se alimentar de pequenos frutos de rubiáceas e melastomatáceas, já que são maioria nos estratos mais baixos da floresta.26 Em regiões alagadas do Pantanal e da Amazônia se alimentam de plantas aquáticas.20 No Peru, confirmou-se a predominante frugivoria da anta, já que até 33% da dieta era composta por fruto: é uma porcentagem alta para um não-ruminante.27 Nesse habitat, a anta costuma forragear em florestas de palmeiras, se alimentando principalmente de frutos de Mauritia flexuosa.27 Nesse mesmo estudo, mostrou que os frutos ingeridos pela anta têm entre 1 a 3 mm de diâmetro, alcançando um máximo de 50 mm de diâmetro.27 Na parte brasileira da Amazônia, foi constatado a mesma predominância de frutos e um importante papel na dispersão de sementes.19 A alimentação se constituía principalmente de frutos e sementes de plantas da família Fabaceae, Araceae e Anacardiaceae.19 Estudos na Venezuela mostraram que a anta prefere comer plantas em clareiras ou em floresta secundária, como forma de evitar as defesas das plantas em áreas mais fechadas.21

O reflexo flehmen é observado durante a corte no acasalamento.

Reprodução [editar]

A corte de caracteriza por uma aproximação do macho, que cheira e lambe a vulva da fêmea e exibe o reflexo flehmen.28 O macho tenta se aproximar, mas nas primeiras tentativas a fêmea corre, que é perseguida por ele, que tenta montá-la várias vezes.28 Isso pode durar por até quatro horas.28 A partir do momento em que a fêmea se mantém parada enquanto o macho monta em sua anca, a cópula começa.28 A fêmea abaixa os quadris no momento da cópula, que dura cerca de um minuto.28 Após o coito, a fêmea pode andar calmamente, seguida de perto pelo macho, que eventualmente a toca e podem descansar juntos, mas a fêmea também pode se comportar de forma agressiva ao macho.28 A cópula pode ocorrer tanto dentro, quanto fora da água, em animais em liberdade.4

O sistema de acasalamento da anta não foi devidamente definido. É bem provável que exista uma poliginia, pois existe uma tendência de monopólio de territórios de fêmeas por poucos machos.6 Entretanto, durante o estro, é observada a formação de um par monogâmico.9 A fêmea entre no cio a cada 50 a 80 dias, e ele dura cerca de dois dias.9 A gestação dura cerca de 380 dias, parindo um filhote por vez, que possui uma coloração diferente da do adulto: possui uma série de listras brancas horizontais no corpo, que somem quando se tornam adultos.6 14 O nascimento de filhotes ocorre a cada 15 meses, em cativeiro.9

Conservação [editar]

A espécie é considerada Vulnerável pela lista de espécies ameaçadas da IUCN e não consta na lista do IBAMA, porém, sua população está declinando ao longo de sua área de distribuição geográfica2 29 . Entretanto, regionalmente, sua situação pode variar, sendo considerada extinta em várias regiões do Nordeste Brasileiro e Vulnerável na lista de espécies ameaçadas do estado de São Paulo, mas apresentar uma grande densidade populacional no estado do Mato Grosso6 13 24 . Não existem dados sobre as populações dessa espécie, entretanto, como a destruição de seu habitat ainda continua, elas estão em declínio12 . Mas é notável que em algumas regiões ela ainda pode ser comum, principalmente em matas próximas a rios e lagos. A caça, particularmente em pequenos fragmentos de floresta, é capaz de extinguir a espécie localmente, visto que possui uma baixa taxa de reprodução30 . A conservação de florestas úmidas, a inibição da caça e ações mitigadoras, para diminuir os atropelamentos desse animal em rodovias que passam perto de áreas florestadas são medidas para se evitar a extinção dessa espécie13 .

Referências

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