Ao Veado d'Ouro

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A Ao Veado d'Ouro foi uma tradicional farmácia sediada na Rua São Bento, no centro histórico da cidade brasileira de São Paulo. Constituiu-se numa referência da cidade por ter permanecido em atividade por cerca de 150 anos, no mesmo logradouro.

História[editar | editar código-fonte]

Foi inaugurada em 1858 pelo farmacêutico alemão Gustav Schaumann. No local existia primitivamente uma loja de miudezas e quinquilharias que pertencia ao também alemão Gustav Gravenhost. Schaumann e Gravenhost formaram uma sociedade, deliberando que o último se deslocaria para a Europa para selecionar e adquirir todo o material necessário à instalação de uma botica. À época, a cidade de São Paulo possuía apenas cerca de 30 mil habitantes, atendidos por três dentistas, doze médicos, quatro farmacêuticos e um oculista.

Após ter embarcado com o material adquirido em um navio rumo ao porto de Santos, Gravenhost veio a falecer durante a viagem.

Schaumann recebeu o material, prosseguindo sozinho com o projeto, utilizando como emblema do seu estabelecimento a escultura de um veado dourado, inscrito em seu brasão de família, e que fora trazido no mesmo navio com o material da botica.

Em 1879, o seu filho, Henrique Schaumann (que dá nome a uma famosa rua paulistana), então com 23 anos, recém-formado em Hamburgo, assumiu o controle do negócio da família. Com ele veio a trabalhar Conrado Melcher, nascido na Alemanha e naturalizado brasileiro. Melcher assumiu a direção do estabelecimento em 1905, quando Henrique Schaumann foi à Europa. Mais tarde viria a tornar-se proprietário da farmácia. Os seus descendentes sucederam-no na propriedade e direção do estabelecimento[1] .

A Botica gozava de um prestígio e credibilidade com poucos paralelos na cidade de São Paulo. Não eram raros os clientes que simplesmente se recusavam a consumir medicamentos de manipulação que não fossem produzidos pelo estabelecimento.

No entanto, no ano de 1998 a farmácia envolveu-se em um famoso e contundente escândalo envolvendo a falsificação do medicamento Androcur (destinado essencialmente ao tratamento de câncer de próstata). Segundo investigações realizadas à época, a Botica produziu algo como um milhão e trezentos mil comprimidos que eram nada mais que placebo. A fabricação de placebo não é ilegal, observadas as quantidades permitidas para cada fabricante bem como, principalmente, o fim a que se destina. Retirados e levados para outro endereço, os comprimidos-placebo eram embalados e recebiam um rótulo (falsificado) do Androcur. Os sócios (Edgar Helbig e Daniel Eduardo Derkatscheff Vera) foram indiciados, acusados, julgados e condenados a 13 anos de prisão. Os sócios defenderam-se alegando que os comprimidos eram produzidos a pedido de um cliente e que, da porta do estabelecimento para fora, desconheciam a destinação dos mesmos. No entanto, sem explicação ficou o fato de que o volume encomendado não gerou suspeitas aos donos da Botica; além do que, a Empresa sequer tinha autorização legal para produzir medicamentos em escala industrial, tanto que a Vigilância Sanitária havia lacrado o estabelecimento já em setembro de 1998 pelo simples fato deste estar produzindo em escala industrial, independente da qualidade dos produtos.[2]

Condenação maior sofreu, entre outros, o empresário de Belo Horizonte (MG), José Celso Machado de Castro. Sua pena foi de 16 anos, por ter sido peça chave na distribuição do medicamento falso no varejo.

Segue trecho da sentença prolatada pelo juiz Sidney Celso de Oliveira em 14-07-2003: "(os réus) revelaram torpeza, perversão, malvadez, cupidez e insensibilidade moral, posto que agiram única e exclusivamente visando o ganho fácil, sem se importarem com o destino de milhares de pessoas”... “(o que) sem dúvida, abreviou a vida dos pacientes”.

As notícias mais recentes dão conta que os condenados jamais pagaram as multas condenatórias nem cumpriram pena de prisão, estando recorrendo em liberdade. Particularmente chama a atenção a situação do empresário José Celso Machado de Castro, peça chave na distribuição do medicamento falso no varejo (como dito anteriormente), a qual revela que vive luxuosamente em Belo Horizonte, após ter transferido 99% de sua nova empresa (Look Distribuidora de Cosméticos e Equipamentos Ltda.) para a sogra, Ireni Nunes Rosa, que vive em Anápolis, Goiás.

Contrariando a velha máxima de que "brasileiro não tem memória", a verdade é que o estigma do escândalo criou raízes na Botica Ao Veado d'Ouro de forma indelével, independente do teor de culpa do estabelecimento no episódio, sendo fato que o evento ainda é lembrado por muitos paulistanos mesmo décadas depois. A administração ficou prejudicada a partir dos anos 90, não totalmente como decorrência do escândalo. Em 2008 a Botica encerrou suas atividades, tendo parte de seus funcionários migrado e sua linha de produtos passado a ser comercializada por uma nova farmácia de manipulação, de nome "Medida Exata" e que está localizada na Rua Cardeal Arcoverde, 1758, bairro de Pinheiros, São Paulo.

Não se tem notícia de nada que desabone o atual estabelecimento, ora sucessor da lendária Botica Ao Veado d'Ouro.

Referências

  1. GOGARTEN, Ulrich. 100 Anos Botica Ao Veado d'Ouro. São Paulo: 1958.
  2. http://www1.folha.uol.com.br/fol/geral/ult240998183.htm