Apneia de sono

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Apneia de sono
Classificação e recursos externos
CID-10 G47.3
CID-9 780.51780.53780.57)
MeSH D012891, Apnea&field=entry#TreeC10.886.425.800.750 C10.886.425.800.750
Star of life caution.svg Aviso médico

Apneia do sono, apneia noturna (FO 1943: apnéia) ou Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS), segundo a American Academy of Sleep Medicine (AASM), é definida como uma condição clínica caracterizada por episódios repetitivos de obstrução da via aérea superior durante o sono, resultando frequentemente em dessaturação de oxigénio e microdespertares[1] . Estão identificados vários eventos respiratórios na SAOS, sendo os mais comuns a apneia obstrutiva, a hipopneia e o RERA (respiratory effort-related arousal - em português "Aumento da Resistência das Vias Aéreas Superiores"). A actualização mais recente do Manual of the Scoring of Sleep and Associated Events da AASM, define a apneia obstrutiva como uma redução de 90% do fluxo aéreo, durante pelo menos dez segundos, com o esforço respiratório mantido ou aumentado[2]

Epidemiologia[editar | editar código-fonte]

Entre a população geral casos de apneia-hipopneia variam de 1% a 8% em homens e de 1,2% a 2,5% em mulheres, subindo para 10% da população acima de 65 anos e para 46% entre motoristas profissionais[3]

Características[editar | editar código-fonte]

A falta de fluxo de ar adequada geralmente resulta em dessaturação da oxihemoglobina e, no caso de eventos prolongados, em aumento progressivo da pressão parcial de dióxido de carbono no sangue arterial (PaCO2). Na maior parte das vezes, as apneias não são suficientes para despertar a pessoa, mas há uma alteração no padrão de sono, passando do sono profundo para um sono mais superficial. Como este sono não é repousante, as manifestações típicas são uma sensação de "noite mal dormida" ao despertar, assim como fadiga e sonolência durante o dia. O diagnóstico é confirmado através da polissonografia ou por um estudo cardio-respiratório, comummente conhecido como "estudo do sono".

Níveis clinicamente significativos de apneia do sono são definidos como cinco ou mais episódios por hora de qualquer tipo de apneia, através do estudo do sono. Existem três formas distintas de apneia do sono: central, obstrutiva e mista ou complexa (i.e., uma combinação da central e obstrutiva). Na apneia do sono do tipo central, a respiração é interrompida pela "falta de esforço respiratório"; na apneia do sono do tipo obstrutivo, a respiração é interrompida por um bloqueio físico ao fluxo aéreo "apesar de esforço respiratório". Na apneia do sono complexa (ou mista), há uma transição de características centrais para obstrutivas durante os eventos.

Em qualquer um dos tipos, o indivíduo com apneia do sono está raramente consciente de que tem dificuldade para respirar, mesmo depois de acordado. Apneia do sono é, muitas vezes identificada como um problema por outras pessoas que testemunham o indivíduo durante os episódios (durante o sono) ou porque apresentam sintomas típicos da patologia. Os sintomas podem estar presentes por anos (ou mesmo décadas) sem identificação.

Causas[editar | editar código-fonte]

Dos fatores predisponentes incluem-se:

  • Sexo masculino (duas vezes mais comum em homens)[4]
  • Aumento da idade (mais comum após os 35 anos)[5]
  • Aumento do Índice de Massa Corporal (IMC) (quanto maior o peso maior o risco)[5]
  • Obesidade central (abdomen >94 cm nos homens e >80 cm nas mulheres indicam risco) [3]
  • Hormônios estrogênios e androgênios. [6]
  • Hereditariedade (entre 22 e 84% maior risco entre parentes sanguíneos). [7]

Aumento da complacência das vias aéreas superiores por:

Na infância:

Comorbidades comuns[editar | editar código-fonte]

Apneia e hipopneia estão frequentemente correlacionados com:

  • Diabetes - 50% dos diabéticos têm apneia do sono.
  • Obesidade - 70% das pessoas com apneia ou hipopneia do sono estão obesas [3] e 70% dos obesos tem apneia ou hipopneia, subindo para 80% entre obesos mórbidos [5] .
  • Hipertensão - 35% dos hipertensos têm apneia do sono.
  • Insuficiência cardíaca - 50% dos pacientes com insuficiência cardíaca têm apneia do sono.
  • Infarto - 30% a 50% dos pacientes infartados têm apneia do sono.
  • Arritmia cardíaca.
  • Fibrilação atrial - 50% dos pacientes com fibrilação atrial têm apneia do sono.
  • AVC - 50% dos pacientes com AVC (Acidente Vascular Cerebral) têm apneia do sono.
  • Síndrome do ovário policístico (SOP) - mulheres com SOP tem 30 vezes mais risco que a população normal de desenvolver apneia.[9]

Logo, é recomendado fazer um exame de polissonografia para diagnóstico de apneia do sono nos pacientes com diabetes, obesidade, hipertensão, insuficiência cardíaca, infarto, fibrilação atrial, AVC ou acidente vascular cerebral (derrame cerebral). Especialmente após os 60 anos em pessoas acima do peso.

Fisiopatologia[editar | editar código-fonte]

Entre um e quatro subseguimentos da faringe colapsam sobre a via respiratória impedindo o fluxo de ar.

O fechamento parcial das vias aéreas superiores é definido como hipopneia, enquanto que o fechamento total constitui uma apneia. Nos fechamentos parciais, temos como principal manifestação o ronco, devido à produção de som pelo turbilhonamento alterado do ar expirado. Existe um espectro de doença desde o ronco normal e assintomático até o quadro completo de SAHOS. O ronco pode preceder e evoluir para SAHOS, sendo que a obesidade e o envelhecimento contribuem para isso.

Ocorrem frequentemente durante o sono REM e nos estágios 1 e 2 do sono NREM. As que ocorrem durante o sono REM costumam ser mais graves e duradouras.[3]

Diagnóstico[editar | editar código-fonte]

O diagnóstico da apneia do sono é feito através de polissonografia.

O principal sintoma da apneia do sono é a sonolência intensa durante o dia. Esta sonolência pode levar a acidentes de automóvel ; ao sono intenso em horas inadequadas, como no trabalho ou na sala de aula. As outras manifestações da doença incluem o ronco (com pausas respiratórias, as apneias); e dificuldade de manter a concentração e a atenção pela sonolência diurna. Ao dormir, têm também movimentos muito frequentes, durante toda a noite, associados às pausas respiratórias (apneias). (CAPLES, 2005; REIMÃO, 1996)

As apneias podem ser classificadas como obstrutivas, centrais ou mistas:

  • Apneias obstrutivas: O diagnóstico clínico dos maiores especialistas do mundo é considerado correto em 50% dos casos, considerando uma prevalência de 5% da doença. O único método de diagnóstico conhecido é a polissonografia, que mede o número total de eventos de apneia + hipopneia por hora, o índice de apneia e hipopneia (IAH). Para um evento ser considerado como obstrutivo, é necessário haver aumento do esforço respiratório reflexo. Se o IAH for maior ou igual a cinco o paciente é considerado portador da síndrome da apneia obstrutiva do sono.
  • Apneias centrais: Ao contrário das apneias obstrutivas, não há esforço respiratório reflexo durante as apneias ou hipopneias, e sua etiologia também parece ser bem distinta.
  • Apneias mistas: Possuem componentes tanto obstrutivos quanto centrais.

A gravidade da SAHOS é classificada conforme o índice de apneia e hipopneia (IAH - número de hipopneias e apneias por hora):

  • de 5-15: leve;
  • de 15-30: moderado;
  • mais que 30: grave.

Tratamento[editar | editar código-fonte]

Continuous Positive Airway Pressure (CPAP), um dos possíveis tratamentos.

Medidas gerais:

  • Redução do peso corporal [10] ;
  • Redução do consumo do álcool;
  • Tratamento de congestão nasal, rinite, sinusite;
  • Higiene do sono: antes de dormir evitar cigarro, álcool, bebidas com cafeína, exercícios intensos, refeições pesadas, medicamentos sedativos, evitar dormir de barriga para cima, dormir em horário constante.

Tratamento mecânico:

Tratamento cirúrgico:

História[editar | editar código-fonte]

Os primeiros relatos na literatura médica do que hoje é chamado de apneia obstrutiva do sono datam de 1965, quando foi independentemente descrito por pesquisadores franceses e alemães. Entretanto, o quadro clínico dessa condição já era reconhecido há bastante tempo como um traço pessoal, sem uma compreensão do processo patológico. O termo Síndrome de Pickwick, que é algumas vezes usado para a síndrome, foi cunhado pelo médico famoso do século 20 William Osler, que deve ter sido um leitor de Charles Dickens. A descrição de Joe, "o garoto gordo" no romance de Dickens "The Pickwick Papers", é uma figura clínica acurada de um adulto com síndrome da apneia do sono obstrutiva.

Os primeiros relatos na literatura médica descreviam indivíduos que eram muito gravemente afetados, frequentemente se apresentando com hipoxemia grave, hipercapnia e insuficiência cardíaca congestiva. Traqueostomia era o tratamento recomendado e, ainda que pudesse salvar a vida do paciente, as complicações no estoma eram frequentes nesses indivíduos muito obesos e de pescoço curto.

O manejo da apneia obstrutiva do sono foi revolucionado com a introdução do CPAP, primeiramente descrito em 1981 por Colin Sullivan e associados em Sydney, Austrália. Os primeiros modelos eram volumosos e barulhentos, mas o design foi rapidamente melhorado e, no final da década de 1980, CPAP foi amplamente adotado. A disponibilidade de um tratamento efetivo estimulou uma busca agressiva por indivíduos afetados e levou ao estabelecimento de centenas de clínicas especializadas dedicadas ao diagnóstico e tratamento de distúrbios do sono. Embora muitos tipos de problemas do sono sejam reconhecidos, a vasta maioria de pacientes que procuram esses centros têm problemas com sono relacionados à respiração.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. (Aug 1999) "Sleep-related breathing disorders in adults: recommendations for syndrome definition and measurement techniques in clinical research. The Report of an American Academy of Sleep Medicine Task Force.". Sleep 22(5): 667-89.
  2. Berry RB; Budhiraja R, Gottlieb DJ, Gozal D, Iber C, Kapur VK. (2012). "Rules for Scoring Respiratory Events in Sleep: Update of the 2007 AASM Manual for the Scoring of Sleep and Associated Events: Deliberations of the Sleep Apnea Definitions Task Force of the American Academy of Sleep Medicine.". J Clin Sleep Med. 8(5): 597-619.
  3. a b c d Andrea Barral Martins, Sérgio Tufik, Sonia Maria Guimaraes Pereira Togeiro Moura (2007). Síndrome da apnéia-hipopnéia obstrutiva do sono. http://www.scielo.br/pdf/jbpneu/v33n1/a17v33n1.pdf
  4. Bixler EO, Vgontzas AN, Lin H, Have TT, Rein J, Vela-Bueno A, et al. Prevalence of sleep-disordered breathing in women - effects of gender. Am J Respir Crit Care Med. 2001;163(3 Pt 1):608-13
  5. a b c DALTRO, Carla H. da Cunha et al. Síndrome da apnéia e hipopnéia obstrutiva do sono: associação com obesidade, gênero e idade. Arq Bras Endocrinol Metab [online]. 2006, vol.50, n.1 [cited 2013-01-04], pp. 74-81 . Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-27302006000100011&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0004-2730. http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27302006000100011.
  6. Zhou XS, Rowley JA, Demirovic F, Diamond MP, Badr MS. Effect of testosterone on the apneic threshold in women during NREM sleep. J Appl Physiol. 2003;94(1):101-7.
  7. Redline S, Tishler PV. The genetics of sleep apnea. Sleep Med Rev. 2000;4(6):583-602.
  8. Pack AI. Obstructive sleep apnea. Adv Intern Med. 1994;39:517-67.
  9. Vgontzas AN, Legro RS, Bixler EO, Grayev A, Kales A, Chrousos GP. Polycystic ovary syndrome is associated with obstructive sleep apnea and daytime sleepiness: role of insulin resistance. J Clin Endocrinol Metab. 2001;86(2):517-20.
  10. World Health Organization. Obesity: Preventing and managing the global epidemic. Geneva: WHO; 1997.
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