Apocalipse de Pedro

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O recuperado Apocalipse de Pedro ou Revelação de Pedro é um exemplo de um texto simples e popular do cristianismo primitivo do século II dC. É mais um exemplo da chamada literatura apocalíptica com tons helenísticos. O texto existe em duas versões incompletas de um original grego perdido, uma em grego koiné[1] e outra em etiópico[2] que divergem bastante. O manuscrito grego era desconhecido até que foi descoberto durante escavações por Sylvain Grébaut na estação de 1886-1887 numa necrópole no deserto em Akhmim, no Alto Egito. O fragmento consiste em folhas de pergaminho de um versão grega cuidadosamente depositada no túmulo de um monge cristão no século VIII ou IX dC. O manuscrito está atualmente no Museu Egípcio, no Cairo. A versão etiópica foi descoberta em 1910. Antes disso, o texto era conhecido apenas pelas frequentes citações em textos cristãos mais antigos. Além disso,alguma fonte perdida comum seria necessária para explicar as similaridades com outros escritos apocalípticos, como o Apocalipse de Esdras, o Apocalipse de Paulo e a Paixão de Santa Perpétua.

Datação[editar | editar código-fonte]

O terminus post quem - o ponto a partir do qual Apocalipse de Pedro foi escrito - é revelado por uma citação de 4 Esdras capítulo 3, que foi escrito por volta do ano 100 dC[3] . O texto, intelectualmente simples e com seus tons helenísticos, pertence ao mesmo gênero que a literatura clementina que era popular em Alexandria. Assim como ela, o Apocalipse de Pedro foi escrito para um grande público popular. O fragmento muratoriano, a lista mais antiga existente de textos sagrados canônicos do Novo Testamento, datado do último quarto do século II dC (ou seja, entre os anos 175 e 200 dC), revela uma lista de obras lidas nas igrejas cristãs similar às do cânon moderno. Porém, ele também inclui o Apocalipse de Pedro, dizendo "...também apenas os Apocalipses de João e Pedro nós recebemos, que alguns de nós não leram nas igrejas". O fragmento Muratoriano é ambíguo sobre se ambos os livros apocalípticos não foram "recebidos" ou apenas o de Pedro.

Conteúdo[editar | editar código-fonte]

O Apocalipse de Pedro está estruturado como um discurso do Cristo ressucitado aos seus fiéis, oferecendo uma visão primeiro do Céu e depois do Inferno a Pedro. Na forma de uma nekya[4] ele prossegue com riqueza de detalhes sobre as punições do Inferno para cada tipo de crime, posteriormente descritos por Hieronymus Bosch, e os prazeres dados no Céu para cada virtude. No Céu, segundo a visão:

  • As pessoas tem uma pele branca como leite, cabelos encaracolados e são geralmente bonitas.
  • A terra está repleta de flores e especiarias.
  • As pessoas vestem roupas brilhantes, feitas de luz, como anjos.
  • Todos cantam suas orações em coro.

Cada uma das punições na visão corresponde às ações pecaminosas passadas, numa versão da noção judaica da lex talionis, ou Olho por olho, em que a punição deve ser adequada ao crime[5] . Algumas das punições no Inferno são:

  • Blasfemos são pendurados pela língua
  • Mulheres que se enfeitam para o adultério são penduradas pelo cabelo sobre um brejo borbulhante. Os homens que tiveram relações adúlteras com elas são pendurados pelos pés, com a cabeça no brejo, perto delas.
  • Assassinos e os que concordam com ele são colocados num poço onde criaturas rastejantes para atormentá-los.
  • Homens que assumem o papel de mulheres de modo sexual, e lésbicas, são "tocados" morro acima por anjos e então jogados ao fundo novamente. Então eles são forçados a subir novamente, num ciclo sem fim, até o seu destino final.
  • Mulheres que tiveram abortos são atiradas num lago formado pelo sangue e vísceras de todas as outras punições, até a altura do pescoço. Elas também são atormentadas pelos espíritos de suas crianças não-nascidas, que atiram um "brilho de fogo" nos seus olhos.
  • Incidentalmente, estas crianças não-nascidas são "entregues aos cuidados de um anjo responsável", por quem elas são educadas e "crescem".
  • Aqueles que emprestam dinheiro e cobram "usura sobre usura" devem permanecer de pé num lago com sangue e podridão até os joelhos.
O Apocalipse de Pedro mostra um incrível relacionamento em idéias com II Pedro. Ele também apresenta notáveis paralelos com o Oráculo Sibilino[6] enquanto sua influência foi conjecturada, quase com certeza, nos Atos de Perpétua e nas visões narradas nos Atos de Tomé e na História de Barlaão e Josafá. Certamente foi uma das fontes do Apocalipse de Paulo. E, direta ou indiretamente, pode ser considerado como o pai de todas as visões medievais dos outros mundos."[7]

.

Há também uma seção bastante controversa que explica que no fim, Deus salvará todas as almas pecadoras dos sofrimento do Inferno:

Meu Pai dará a eles toda a vida, a glória e o reino eterno...É por causa deles que acreditaram em mim que eu vim. E é por causa deles que acreditaram em mim que, a seu pedido, eu terei pena do homem..."[8]

Assim, os pecadores serão finalmente salvos pelas orações dos que estão no Céu. Pedro então ordena seu filho Clemente a não falar sobre esta visão pois Deus havia pedido a Pedro para mantê-la secreta:

[e Deus disse]...tu não deves contar o que ouvistes aos pecadores pois eles transgredirão mais, e pecarão.[9]

Carreira do Apocalipse de Pedro[editar | editar código-fonte]

Clemente de Alexandria parece ter considerado o Apocalipse de Pedro como sagrada escritura. Eusébio de Cesareia, em História Eclesiástica (VI.14.1) descreve um trabalho perdido de Clemente, os Hypotyposes, que forneciam "relatos resumidos de todas as escrituras canônicas, sem omitir nem mesmo aquelas que estão sob disputa, como a Epístola de Judas e as outras epístolas em geral. Assim como a Epístola de Barnabé e a chamada Revelação de Pedro."[10] . Portanto, aobra deve ter existido na primeira metade do século II dC, que também é a data aceita para a canônica Segunda Epístola de Pedro[11] . Ainda que as numerosas referências atestem uma enorme popularidade e grande circulação, o Apocalipse de Pedro não foi finalmente aceito como sendo Cânon bíblico.

O Apocalipse Gnóstico de Pedro[editar | editar código-fonte]

Outro texto, cujo nome moderno é Apocalipse Gnóstico de Pedro foi encontrado na Biblioteca de Nag Hammadi.

Referências

  1. O texto grego de Akhmim foi publicado por Lods, A.. L'evangile et l'apocalypse de Pierre: Mémoires publiés par les membres de la mission archéologique au Caire (em francês). [S.l.]: M.U. Bouriant, ed., 1892. 2142-46 pp. vol. 9.; os fragmentos gregos foram publicados por M.R. James. ({{{mês}}} 1910/11). "A new text of the Apocalypse of Peter II" (em inglês). JTS (12): 367-68..
  2. O texto etiópico, numa tradução francesa, foi publicado por S. Grébaut. ({{{mês}}} 1910). "Littérature éthiopienne pseudo-Clémentine" (em francês). Revue de l'Orient Chrétien, new series (15): 198-214, 307-23.
  3. Para a data da versão etiópica, veja C. Mauer in E. Henecke, E. Schneemelcher and R. Wilson, New Testament Apocrypha (Philadelphia/Westminster) 1964.
  4. O Apocalipse de Pedro foi apresentado como uma nekya, viagem pelos domínios dos mortos, por Dieterich, A. Nekyia (em inglês). Stuttgart: [s.n.], 1969.); Dieterich, que conhecia apenas o texto grego de Akhmim, postulou um contexto cultural geral órfico por conta da atenção devotada à casa dos mortos.
  5. Mostrado em detalhes por David Fiensy. (Abril de 1983). "Lex Talionis in the 'Apocalypse of Peter'" (em inglês). The Harvard Theological Review (76.2): 255-258.), que afirmou que "É possível que não exista correspondência lógica, com a punição vinda de uma tradição órfica e que foi ligada de forma desajeitada a um vício por um redator judeu"(p. 257).
  6. Especificamente sobre o Oráculo Sibilino ii., 225ff.
  7. Roberts-Donaldson. Apocalipse de Pedro (em inglês) EarlyChristianWritings.com. Visitado em 21/08/2010.
  8. [1], [2], [3]
  9. Idem
  10. Clement 41.1-2 48.1 corresponde com a o texto etiópico de James, M. R.. Apocalypse of Peter. The Apocryphal New Testament: Introduction to Translation and Introduction (em inglês). Oxford: Clarendon Press, 1924.)
  11. Perrin, Norman. The New Testament: An Introduction (em inglês). [S.l.: s.n.]. 262 pp.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]