A priori
A priori (do latim, "partindo daquilo que vem antes") é uma expressão filosófica que designa uma etapa para se chegar ao conhecimento, que consiste no pensamento dedutivo. Mais especificamente, o conhecimento proposicional não pode ser adquirido através da percepção, introspecção, memória ou testemunho. É, assim, uma anterioridade lógica e não cronológica que é designada na noção a priori. O conhecimento a priori se complementa com o conhecimento a posteriori, aquele que se adquire com a experiência.
A noção de a priori é uma noção epistémica, que caracteriza o modo como uma proposição é conhecida, o de ser conhecida independentemente da experiência. Ao introduzir a noção de conhecimento a priori, Immanuel Kant equacionou-a com a de necessidade estabelecendo a seguinte equivalência: uma proposição é conhecível a priori se, e somente se, for necessária. Foi preciso esperar por Saul Kripke, alguém que questionou tal conexão. Essa conexão foi praticamente refutada no clássico "Naming and Necessity", 1972. Contudo, ainda permanecem alguns resistentes. Mesmo que não aceitemos os argumentos de Kripke, também não se pode admitir a conexão sem argumentos, como até então se fazia. Em primeiro lugar, é preciso notar que a distinção entre conhecimento a priori e a posteriori é uma distinção epistémica acerca de modos de conhecer, ao passo que a distinção entre necessário e contingente é uma distinção metafísica acerca de tipos de verdade. 1
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Concepção clássica do a priori [editar]
É provável que o termo tenha sido usado pela primeira vez por Alberto da Saxônia, no século XIV. A teoria, todavia, é tão antiga quanto Aristóteles. Na ordem do conhecimento humano, os factos particulares da experiência vêm primeiro, e são a base de leis ou causas gerais. Mas na ordem da natureza as últimas vêm primeiro. Assim, para Aristóteles (como também para Descartes, no século XVII), argumentos a priori são aqueles que vão das leis ou causas aos efeitos, em oposição aos argumentos que chamamos a posteriori, os quais vão dos efeitos às causas.
Racionalismo [editar]
É próprio do racionalismo de filósofos como Descartes e Leibniz defender que o conhecimento se adquire pela razão, não pela experiência. Descartes considerou o autoconhecimento adquirido no cogito como a priori, pois uma pessoa não precisa fazer referência à sua experiência passada ou presente para considerar sua própria existência.
Empirismo [editar]
John Locke, admitindo que a reflexão é parte da experiência, deu uma base para o abandono da noção de conhecimento a priori.
David Hume considerou todo conhecimento a priori como relação de ideias.
Concepção kantiana do a priori [editar]
Desde Kant as expressões "a priori" e "a posteriori" tornaram-se puramente adjectivas, ao invés de adverbiais, como antes eram. A priori é aplicado por Kant a juízos os quais são vistos como independentes da experiência, e pertencentes à essência do pensamento. A posteriori àqueles derivados de observações particulares.
Desde Kant as expressões a priori e a posteriori têm sido aplicadas principalmente a juízos. Todavia, atualmente também se fala em verdades a priori e em justificações a priori, em epistemologia. Para Tyler Burge, por exemplo, a justificação das crenças ou opiniões é a priori ou a posteriori.
Normalmente a distinção entre a priori e a posteriori articula-se com a distinção entre juízos analíticos e juízos sintéticos.
Para Kant, o conhecimento a priori é necessariamente verdadeiro, enquanto o conhecimento a posteriori é contingente. As proposições da lógica, por exemplo, se são verdadeiras, então são necessariamente verdadeiras. Já as proposições das ciências naturais, por exemplo, apresentam algo que é verdadeiro, mas poderia não ter sido.
Apriorismo [editar]
O apriorismo é uma teoria explicativa da origem do conhecimento, inserida nas concepções clássicas (fundadas num modelo fenomenológico), elaborada por Kant.
Define que a elaboração do conhecimento científico é fruto de, numa primeira fase, captação sensorial da realidade - númeno - de forma limitada (pelos nossos próprios sentidos) - fenómeno - através de estruturas a priori no indivíduo (formas a priori da sensibilidade - espaço e tempo) elaborando-se assim percepções, isto é, sensações estruturadas pelas formas a priori. Estas percepções irão depois passar à fase do entendimento, onde, pela ascensão ao longo de 12 categorias (as formas a priori do entendimento), aproximarão esta percepção de um verdadeiro conhecimento científico. De notar que as formas organizadoras não mais são que estruturas do sujeito desprovidas de qualquer valor material, que serão "preenchidas" pelos dados recolhidos pelos sentidos. Estabelece-se igualmente a distinção entre conhecimento científico e razão, visto que este último refere-se a ideias, localizadas num plano eidético, inteligível.
Kripke [editar]
Em Naming and necessity Saul Kripke argumenta, contra Kant, que a aprioridade é uma propriedade puramente epistemológica, e por isso não deve ser misturada com a necessidade, a qual é uma propriedade metafísica. Por exemplo:
- Hesperus e Phosphorus são dois nomes do planeta Vênus. "Hesperus é Phosphorus" é uma verdade necessária, mas a posteriori. Só pela experiência podemos vir a saber disso.
- Podemos dizer, da barra que está em Paris e antigamente servia de padrão para o metro, "Esta barra tem um metro". Trata-se de um conhecimento a priori, mas contingente. Como a barra define o metro, ela tem um metro. Mas as coisas poderiam ter sido diferentes, e a barra em questão poderia não ter sido o padrão do metro.
Concepção jurídica [editar]
Na teoria jurídica alguns afirmam que determinados princípios possam ser tidos como verdadeiros "a priori jurídicos", como, por exemplo, "dar a cada um o que é seu". Mais ainda, o Direito Natural sustenta a ideia de uma justiça superior, anterior e até mesmo independente do ordenamento positivo.
Já no âmbito da prática judiciária, o enunciado incorporou-se ao palavrear característico e nele, curiosamente, "fixou-se na direção de uma certa imprevisibilidade, dúvida ou até mesmo incerteza, denotando o sentido de 'a princípio', 'provisoriamente' ou 'desde que cumpridas certas condições'" (*ver).
Ver também [editar]
Referências
- ↑ Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, org. por João Branquinho e Desidério Murcho. Gradiva, 2001.
a priori tambem cooresponde a kant