Ars subtilior

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Partitura do rondeau Belle, bonne, sage, de Baude Cordier.

Ars subtilior (Arte mais sutil) foi um estilo musical do final do século XIV caracterizado por complexidades de ritmo, harmonia e notação, desenvolvido nos centros de Paris, Avinhão, sul da França, norte da Espanha, alguns pontos da Itália e Chipre.

Histórico[editar | editar código-fonte]

A produção da Ars subtilior é altamente refinada, complexa e difícil de executar, e provavelmente circulava em ambientes de especialistas e connoisseurs. Tratava de temas profanos em sua grande maioria, como o amor, cavalaria, guerra e elogios a personalidades da época. Por sua técnica avançada constituía a vanguarda da época, e muitas vezes por suas abstrações formais e singularidades técnicas esta escola é comparada com a produção contemporânea de música experimental.

O termo foi cunhado pela musicóloga Ursula Günther nos anos 60 a partir de referências encontradas em tratados da época,[1] e para evitar as conotações negativas da palavra maneirismo para descrever o estilo, que poderia sugerir afetação e superficialidade, mas esta música surgiu como uma evolução natural da crescente elaboração da Ars Nova e constitui uma ponte para a Renascença, que utilizou muitas das técnicas desenvolvidas pela Ars subtilior, indicando que seus compositores, apesar de sua erudição por vezes hermética, eram largamente conhecidos e suas músicas tiveram significativa circulação, ainda que em seu conjunto este estilo não tenha gerado propriamente uma descendência direta.

O centro inicial de difusão foi Avinhão, nesta época sede do papado. Dali se irradiou para Paris, penetrou na Espanha e atingiu Chipre, que era um centro diretamente influenciado pela França. Mais tarde o estilo chegou à Itália e também produziu alguns frutos.

Este estilo nasceu como uma derivação da escola de Machaut, levada a cabo por compositores que trabalhavam com baladas, como Francesco Landini, Franciscus, Grimace, Pierre de Molins, Solage e Jean Vaillant. Alguns exemplos deste grupo, como a balada Fumeux fume par fumée de Solage mostram uma escrita harmonicamente ousada para sua época.

Floreios mais complexos na parte do contratenor e significativa unidade motívica e tonal são encontrados nas obras de Matheus de Sancto Johanne, Goscalch, Jehan Simon Hasprois e Olivier. O rompimento definitivo como os modelos de Machaut, com deslocamentos de notas longas e de seqüências de notas, veio com as peças de Egidius, Johannes de Alte Curie, Philippus de Caserta e Trebor.

O grupo mais tardio, representado por Jacob Senleches, Rodericus e Magister Zacharia, usou maiores complexidades de ritmo e uma organização baseada em proporções matemáticas, trabalhando já com a forma do moteto. O ritmo caracteristicamente sincopado de tantas das obras da escola e exemplos encontrados com notação alternativamente simplificada e floreada levou a alguns especialistas acreditarem que boa parte da produção fosse de improvisos posteriormente anotados.

Notação[editar | editar código-fonte]

Uma das técnicas desenvolvidas pelos seguidores da Ars subtilior envolvia coloração diferenciada de algumas notas para indicar redução em sua duração em 1/3. Se um compasso perfeito fosse escrito todo em vermelho deveria ser executado como se fosse sincopado. Se uma passagem de três compassos tivesse esta marcação resultaria em uma frase de dois compassos, gerando consideráveis complexidades de ritmo que constituem um dos charmes especiais desta produção.

Muitas vezes as partituras eram desenhadas em formas inusitadas, como em forma de coração no caso do rondeau Belle, bonne, sage de Baude Cordier, ou em forma de harpa na peça La harpe de melodie, de Jacob Senleches, ou da partitura circular também de Cordier Tout par Compas, e este apelo visual fazia parte do abstrato refinamento da música subjacente. As obras da Ars subtilior são encontradas em sua maioria em duas fontes principais, o Codex de Chantilly e o Codex de Módena.

Outros compositores da Ars subtilior[editar | editar código-fonte]

Exemplos[editar | editar código-fonte]

Notas e referências

  1. Ursula Günther (1963) derivou o termo de passagens do Tractatus de diversis figuris onde o autor (Philippus de Caserta ?) faz referência à evolução notada em compositores de motetos Ars nova "se post modum subtiliorem comparantes" e desenvolviam uma "Artem magis subtiliter". [1]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]