Associação Internacional dos Trabalhadores

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A Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), também conhecida como Primeira Internacional, foi uma organização internacional fundada em setembro de 1864 e foi a primeira organização operária a superar fronteiras nacionais[1] , reunindo membros de todos os países da Europa e também dos Estados Unidos. A AIT abrigou em seu seio trabalhadores das mais diversas correntes ideológicas de esquerda, de comunistas marxistas até anarquistas bakuninistas e proudhonianos, além de sindicalistas, reformistas, blanquistas, owenistas, lassalianos, republicanos e democratas radicais e cooperativistas[1] [2] .

História[editar | editar código-fonte]

Origens[editar | editar código-fonte]

Em 1862, dois anos antes da fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores, ocorria na Inglaterra a Exposição Internacional de Londres. Na ocasião, foi enviada uma delegação custeada pelo governo, composta por duzentos operários franceses, para estudar a Exposição e redigir relatórios técnicos[1] [3] . Em uma grande festa ocorrida no dia 5 de agosto de 1862, oferecida pelos representantes das trade unions para os trabalhadores franceses, os ingleses leram um manifesto em que expressavam o desejo de uma aproximação entre os operários das diferentes nações, que os franceses responderam propondo que fossem estabelecidos comitês operários para a troca de correspondência sobre as questões internacionais que afetam a indústria[3] .

Já em julho 1863, na ocasião da insurreição polonesa contra o Império russo, os operários ingleses organizaram um comício no St. James's Hall em solidariedade ao povo da Polônia e convidaram os parisienses para enviarem seus delegados[3] . Na ocasião foram discutidos temas que julgavam de fundamental importância para o movimento operário[4] . O texto preparatório do encontro, escrito pelo dirigente sindical George Odger, mais tarde publicado no biebdomadário inglês The Bee-Hive com o tídulo Address of English to French Workmen (Mensagem dos trabalhadores ingleses aos trabalhadores franceses), declarava:

"A fraternidade entre os povos é altamente necessária para a causa do trabalho, pois constatamos que sempre que tentamos melhorar nossa condição social por meio da redução das horas de trabalho, ou pelo aumento dos salários, nossos empregadores ameaçam trazer franceses, alemães, belgas e outros para realizarem nosso trabalho por salário mais baixos. E lamentamos dizer que isso tem ocorrido, embora não em razão de um desejo de nos prejudicar da parte de nossos irmãos do continente, mas pela falta de uma comunicação regular e sistemática entre as classes trabalhadoras de todos os países. Nosso objetivo é elevar os salários dos operários pior remunerados, e não permitir que nossos empregadores nos joguem uns contra os outros e nos empurrem, assim, para a condição mais baixa possível, adequada a sua busca avarenta pelo lucro."
George Odger

Foi proposto então a criação de um fórum internacional de discussão, no qual pudessem ser examinados os principais problemas relacionados aos trabalhadores, sob uma ideologia inicialmente marcada por lemas gerais de caráter ético-humanitário, tais como a fraternidade entre os povos e a paz mundial[4] . Dessa ideia surgiria no ano seguinte a Associação Internacional dos Trabalhadores.

Fundação[editar | editar código-fonte]

Reunião da fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores em 28 de Setembro de 1864.

A Associação Internacional dos Trabalhadores foi fundada no dia 28 de setembro de 1864, em uma reunião no salão do St. Martin's Hall, em Londres. Na ocasião, encontravam-se ali cerca de 2 mil trabalhadores[4] , além de delegados de organizações operárias inglesas, francesas, italianas, alemãs, suíças e polonesas. A proposta de criação de uma associação internacional de trabalhadores veio dos delegados franceses Tolain, Perrachon e A. Limousin, que foi calorosamente aplaudida por todos os presentes no St. Martin's Hall[3] , sendo aprovada por unanimidade. Foi estabelecido um comitê provisório formado por 27 trabalhadores ingleses, 9 franceses, 9 alemães, 6 italianos, 2 suíços e 2 poloneses[5] . O Comitê recebeu a ordem de preparar um projeto de estatutos e de convocar um congresso operário para 1865[3] .

O comitê eleito em 28 de setembro de 1864, em sua primeira sessão, nomeou uma comissão encarregada de redigir uma declaração de princípios e os estatutos provisórios. Karl Marx foi designado como um dos membros da comissão; os outros encarregados foram o judeu-polonês italianizado Wolff, o francês Le Lubez e os ingleses Cremer e Weston. Por causa do mal estado de sua saúde, Marx não pôde participar das duas primeiras reuniões da comissão e da segunda sessão do comitê. Na primeira reunião, Wolff apresentou os estatutos das sociedades operárias italianas, propondo que servissem de base para os da nova associação, e Weston apresentou um programa confuso. O comitê, em sua segunda sessão plena, designou uma comissão para corrigir o programa de Weston, como também os estatutos de Wolff. Estes dois projetos foram adotados pela comissão, na ausência de Marx, para serem submetidos ao comitê, cuja terceira sessão plena deveria realizar-se em 18 de outubro. Marx, tendo desaprovado tais projetos, reuniu em sua casa em 20 de outubro Cremer, Fontana e Le Lubez, para começar a discutir os estatutos da Internacional e redigiu um manifesto que mais tarde ficaria conhecido como Mensagem Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores, expondo a situação do operário naquela época, acabou com a declaração de princípios e reduziu para dez os quarenta artigos dos estatutos. Todas as proposições de Marx foram aceitas pela comissão, e na sessão do comitê ocorrida no dia 1 de novembro tanto o manifesto de Marx como seus estatutos gerais foram aprovados de forma unânime [3] .

As organizações operárias que fundaram a Internacional eram muito distintas entre si. O centro motor foi o sindicalismo inglês, e seus dirigentes eram em maioria reformistas, interessavam-se sobretudo por questões de caráter econômico, lutando pela melhoria de condições dos trabalhadores mas sem colocar o capitalismo em discussão. Viam a Internacional como um instrumento favorável a seu objetivo, impedindo a importação de mão de obra estrangeira durante as greves. Outro ramo significativo da organização, inicialmente dominante na França e na Bélgica foi o dos proudhonistas. Seguidores de Pierre-Joseph Proudhon, eram defensores de um sistema cooperativo sobre uma base federalista, não acreditavam na ação política das classes operárias e acreditavam ser possível modificar o capitalismo mediante o acesso igualitário ao cŕedito. Haviam também os comunistas, representados por Karl Marx, ativos principalmente na Alemanha e em algumas cidades suíças, assim como em Londres, os comunistas se opunham ao sistema de produção capitalista, reinvindicando a necessidade da ação política para sua derrubada. Também haviam na AIT à época de sua fundação componentes sem qualquer tradição socialista e inspirados por concepções vagamente democráticas, como alguns grupos de exilados de países do Leste Europeu e os italianos seguidores de Giuseppe Mazzini. Completando o quadro da organização, haviam vários grupos de trabalhadores franceses, belgas e suíços que aderiram à Internacional trazendo consigo as mais diveresas teorias, muitas vezes confusas e baseadas no socialismo utópico de Saint-Simon e Robert Owen, além dos lassalianos da Associação Geral dos Trabalhadores Alemães, partido que ostentava nítida posição antissindical e concebia a ação política exclusivamente nos estreitos limites nacionais[2] .

Foram esses os grupos heterogêneos que fundaram a Internacional, grupos de complexo entrelaçamento de culturas e experiências políticas e sindicais que caracterizou o nascimento da AIT. Construir uma base geral e saber efetuar a síntese política de uma organização tão ampla, não obstante sua forma federativa, apresentou-se uma tarefa muito árdua. Em relação à isso, foi inegável o papel de Karl Marx ao conciliar os interesses de todos esses grupos heterogêneos[4] [3] , garantindo que fosse uma organização firmemente classista e que ambicionava ser de massas e não sectária. Na redação dos Estatutos Gerais da AIT, Marx valorizou as melhores ideias dos vários componentes da organização, ao mesmo tempo que eliminou inclinações corporativas e acentos sectários [6] , tornando-se um órgão de síntese política de todas as tendências presentes nos diversos contextos nacionais[4] .

Estrutura da organização[editar | editar código-fonte]

Tanto no curso de sua existência como nas décadas sucessivas, a Internacional foi representada como uma organização vasta e financeiramente poderosa. O número de seus membros sempre foi superestimado: o promotor público que, em junho de 1870, processou alguns dos dirigentes franceses da Internacional, declarou que a organização possuía mais de 800 mil membros na Europa[7] ; um ano mais tarde, após a derrota da Comuna de Paris, o jornal The Times afirmou que esse número era de 2,5 milhões; ao passo que seu principal estudioso à época, Oscar Testut, chegou mesmo a especular que em torno de 5 milhões de membros faziam parte da associação[8] . Uma estimativa, ainda que apenas aproximada, da consistência efetiva da Internacional foi sempre uma questão complexa, tanto para seus dirigentes como para seus estudiosos, pois apenas uma parte mínima das organizações integradas à Internacional (como os sindicatos ingleses e partidos alemães) possuía um registro exato dos próprios escritos, além de a maior parte dos trabalhadores ter ingressado na AIT não por meio de inscrições individuais mas sobretudo mediante adesões de associações coletivas (como por exemplo, as sociedades de resistência), tornando quase impossível uma contagem precisa de seus membros, além do fato de que em diversos países a Internacional foi ilegal por alguns anos, e a clandestinidade dos membros não permite avaliar acuradamente seu número[4] . Porém com bases em pesquisas realizadas, historiadores especulam que durante o seu período de maior afirmação (entre 1871 e 1872), o número máximo de adesões tenha superado 150 mil, mas especificamente 50 mil na Inglaterra, mais de 30 mil na França e na Bélgica, 6 mil na Suíça, cerca de 30 mil na Espanha, cerca de 25 mil na Itália e mais de 10 mil na Alemanha (a maioria militante do Partido Social-Democrata dos Trabalhadores da Alemanha), mais alguns milhares dispersos em outros países europeus e cerca de 4 mil nos Estados Unidos[4] .

Contudo, analisando o contexto da época e levando em consideração a existência de pouquíssimas organizações efetivas da classe trabalhadora, essas cifras devem ser avaliadas como extremamente relevantes. Além disso, é importante levar em conta que excetuando-se a Inglaterra, Suíça, Bélgica e Estados Unidos, a Internacional era considerada uma organização ilegal na maior parte da Europa, inclusive em países onde teve uma presença consistente, como na França, Itália e Espanha, sendo obrigados a agir em clandestinidade. Também foi notável a capacidade agregadora da organização: depois de apenas dois anos de vida, havia conseguido federar centenas de sociedades operárias[4] , e a partir de 1868, graças à propaganda de Mikhail Bakunin e seus seguidores, a ela se agregaram seções na Itália, Holanda, Dinamarca e Portugal. O desenvolvimento da Internacional foi muito irregular; enquanto crescia em alguns países, mantinha-se estável ou regredia sob repressão[9] .

Em relação à totalidade dos trabalhadores da época, porém, os membros da Internacional foram uma parcela reduzida da classe operária. Em Paris, por exemplo, o número de membros jamais ultrapassou 10 mil, e em grandes cidades como Roma, Viena e Berlim seu número foi ainda mais exíguo. A qualificação dos operários que aderiram à Internacional constitui outra prova evidente de seus limites: ela deveria ser a organização dos operários assalariados, mas apenas um número muito exíguo destes tornou-se membro. O principal influxo veio do setor da construção, na Inglaterra, da indústria têxtil, na Bélgica, e de vários tipos de artesãos, na França e Suíça[4] .

Na Inglaterra, com a exceção dos operários siderúrgicos, a força da Internacional entre os trabalhadores da indústria sempre foi limitada[10] , e estes jamais se tornaram a maioria da Associação, mesmo após a expansão da organização nos países da Europa meridional. Outra grande limitação da Internacional foi a de não ter conseguido abarcar os trabalhadores não qualificados[10] , embora esforços nessas direções tenham sido realizados desde a preparação para o primeiro congresso da organização. Além disso, a Internacional permaneceu sempre uma organização formada exclusivamente por trabalhadores ocupados, e os desempregados jamais fizeram parte dela, e seus dirigentes, salvo algumas exceções, eram em maioria artesãos ou intelectuais[4] .

A situação financeira da Internacional era cronicamente instável[4] [9] .. A taxa de inscrição individual era de um xelim, enquanto cada um dos sindicatos devia contribuir, como sujeito coletivo, com três pence por membro. Em muitos países, no entanto, os filidados individuais foram sempre poucos e, na Inglaterra, as contribuições devidas pelos sindicatos foram, constantemente, tão incertas e limitadas que o Conselho Geral acabou por liberar estes últimos para contribuírem com o que podiam. As somas recolhidas pela organização jamais superaram poucas de libras esterlinas anuais[9] , que mal bastavam para pagar o salário de quatro xelins por semana do secretário geral e o aluguel da sede.

Entre as funções da Associação Internacional dos Trabalhadores, segundo Karl Marx, estava "a tarefa de combinar e generalizar movimentos espontâneos das classes trabalhadoras, mas não ditar um sistema doutrinário, seja ele qual for"[11] . Não obstante a notável autonomia concedida às federações e seções locais singulares (pelo menos até a cisão da Internacional em 1872), a organização conservou sempre um lugar de direção política. Seu Conselho Geral constituía o órgão em que se efetuava a síntese entre as várias tendências políticas e do qual se emanavam as linhas diretivas da organização. De outubro de 1864 a agosto de 1872, o Conselho Geral se reuniu, com grande regularidade, por 385 vezes, em que eram discutidas questões como as condições de trabalho dos operários, os efeitos da introdução da maquinaria, as greves que deveriam ser apoiadas, o papel e a importância dos sindicatos e a questão de como construir a "sociedade do futuro". O Conselho Geral também foi o organismo que se ocupou da elaboração dos documentos da Internacional. Circulares, cartas e resoluções foram os meios frequentemente empregados, enquanto manifestos, mensagens e apelos foram documentos exepcionais, utilizados em circustâncias particulares[12] .

Refundação[editar | editar código-fonte]

Entretanto, as organizações bakuninistas, constituídas pelas federações operárias do Jura suíço, da Itália e da Espanha continuaram em contato. Estes grupos refundaram a AIT em 1922[13] , num congresso realizado de 25 de dezembro a 2 de janeiro 1923 Berlim. Nele se aprova os princípios e os estatutos da AIT-IWA, o quais se mantêm até hoje, com algumas poucas mudanças.

A A.I.T teve seu II Congresso na Holanda, na primavera de 1925. A organização se consolidou. Tomou claramente posição frente as outras tendências dentro do movimento dos trabalhadores.

Digna de nota é a resolução da clausula do III Congresso, celebrado em 1928, em Lieja (Bélgica), na que se dizia:

“O proletariado deve, em efeito, recordar constantemente que sua libertação não será possível mais que no desaparecimento da ordem social existente e que unicamente quando haja conquistado os meios de produção, de distribuição e de troca poderá instaurar o verdadeiro socialismo, permitindo ao indivíduo expandir livremente.”

Vinte e cindo países estiveram representados no IV Congresso, celebrado em Madri, em Junho de 1931. Congresso de intenso trabalho e de fundamental importância, fixo normas de organização das Federações Internacionais de Industria e se pronunciou pesadamente contra as doutrinas nacionalistas e contra o fascismo.

O V Congresso, celebrado em Paris no verão de 1935, o estudo se centrou sobre a situação que se havia criado com a vitória do fascismo e a contra-revolução na América Latina, Áustria, Alemanha, Itália, Portugal e outros países.

Aquela preocupação e comprovação do perigo crescente que representava e adoção de medidas defensivas necessárias não impediu que, a sua vez, fossem examinadas questões de ordem interna, introduzindo algumas modificações em seus estatutos.

Depois do VI Congresso (Paris 1938), as atividades da Internacional haviam de sofrer uma momentânea redução. O conflito mundial desencadeado pelo nazi fascismo em 1939 rompeu em grande parte as relações do Secretariado Internacional (radicado na Suécia) com as respectivas seções.[14]

Referências

  1. a b c Associação Internacional dos Trabalhadores (em português) Mundo Educação.
  2. a b Musto, Marcello. Trabalhadores, uni-vos!: Antologia Política da Primeira Internacional (em português). [S.l.]: Boitempo, 2014. p. 21-22.
  3. a b c d e f g A Internacional dos Trabalhadores - De sua fundação até o Congresso da Basileia (em português) Anarkismo.net.
  4. a b c d e f g h i j k Musto, Marcello. Trabalhadores, uni-vos!: Antologia Política da Primeira Internacional (em português). [S.l.]: Boitempo, 2014.
  5. A Primeira Internacional (em português) Fundação de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais Dinarco Reis.
  6. Bravo, Gian Mario. Marx e la Prima Internazionale (em italiano). [S.l.]: Laterza, 1979.
  7. Testut, Oscar. L'Association internationale des travailleurs (em francês). [S.l.]: Aimé Vingtrinier, 1870.
  8. Testut, Oscar. Le livre blue de l'Internationale (em francês). [S.l.]: Lachaud, 1871.
  9. a b c Julius Braunthal. History of the International (em inglês). [S.l.]: Nelson, 1966.
  10. a b COLLINS, Henry, e ABRAMSKY, Chimen. Karl Marx and the British Labour Movement (em inglês). [S.l.]: MacMillan, 1965.
  11. Instruções para os delegados do Conselho Geral Provisório (em português) Marxists.org.
  12. Haupt, Georges. L'Internazionale socialista dalla Comune a Lenin (em italiano). [S.l.]: Einaudi, 1978.
  13. Artigo da en.wiki International Workers Association
  14. tradução do texto espanhol da FORA-AIT http://fora-ait.com.ar/ait/index.php?text=historia

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]