Assomada

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Cidade da Assomada
Vista sobre Assomada.
Vista sobre Assomada.
Cidade da Assomada está localizado em: Cabo Verde
Cidade da Assomada
Localização de Cidade da Assomada (Cabo Verde)
Coordenadas 15° 05' 45" N 23° 40' O
País Cabo Verde
Concelho: Santa Catarina (sede)
População  
  Cidade (2010) 12.332

Assomada é uma cidade, sede do concelho de Santa Catarina, no interior da ilha de Santiago, no Sotavento de Cabo Verde. Assomada fica a 44 km para norte da cidade da Praia, capital do país.

Na cidade de Assomada vive 14,2% da população do concelho de Santa Catarina. Assomada está subdividida em 22 bairros e tem uma área urbana edificada e loteada total de cerca de 213 hectares. Mantendo-se o actual ritmo de expansão espacial, prevê-se que em 2010 a superfície urbana possa chegar aos 550 hectares.

Assomada é um importante pólo comercial, onde se pode fruir uma atmosfera peculiar, num misto de urbe e campo. O centro da cidade revela uma forte presença de edifícios de estilo colonial português, que testemunham o seu passado histórico. No entanto, partindo desse núcleo urbano, a cidade tem tido um crescimento notável desde a independência de Cabo Verde, em grande parte devido ao investimento na imobiliária pelos emigrantes e o influxo de pessoas vindas do interior e das outras ilhas em busca de trabalho.

Mercado de Assomada. S. Catarina.

O mercado de Assomada, localmente conhecido por pelourinho de Assomada, é tido como o maior e mais concorrido mercado de Santiago, com uma enorme variedade de produtos agrícolas e artigos diversos que se compram e vendem. A isto não será alheio o facto de nos encontramos no coração da maior e mais populosa ilha do arquipélago de Cabo Verde e no concelho de Santa Catarina, o "Celeiro de Cabo Verde".

Em termos culturais, merece especial destaque o Centro Cultural Norberto Tavares, que já foi o Museu da Tabanka. Instalado no edifício da antiga Repartição da Fazenda e dos Correios, considerado património histórico-cultural pelo seu traçado arquitectónico. O actual Centro Cultural da Assomada localiza-se no centro da cidade. O centro cultural organiza exposições temporárias e diversos espectáculos, procurando promover e dinamizar a vida cultural no concelho de Santa Catarina e no interior da ilha de Santiago.

História[editar | editar código-fonte]

Pouco se sabe das origens da cidade de Assomada. O mais compreensivo e citado registo da história de Assomada é o livro "A vila de Assomada" de Henrique Lubrano de Santa Rita Vieira, publicado pela Associação dos Amigos do Concelho de Santa Catarina em 1993.

A palavra assomada é definida no dicionário Houaiss como "acto ou efeito de assomar(-se); lugar que primeiro assoma; cume, cabeça; ponto mais alto; auge, climáx" e a palavra assomar significa subir ao cume ou aparecer em lugar alto. Na verdade quando se vai para Assomada, sobretudo para quem vem da cidade da Praia, tem que subir a montanha e a cidade como que aparece à nossa frente. Essa característica da cidade ficou imortalizada na nos versos "Subi Somada, a bô di diante, a mi ditras" da famosa coladeira "Pomba" de Biloca, cantada por Bana e Cesária Évora.

Sede de concelho[editar | editar código-fonte]

A 17 de Dezembro de 1833 Manuel Martins foi nomeado Governador da Província de Cabo Verde em 17 de Dezembro de 1833. Um dia após a tomada de posse, a 14 de Fevereiro de 1834, "ainda que não tivesse havido, nessa altura, um diploma régio para sancionar a transferência"[1] de Martins, este teve a iniciativa de transferir a sede do Concelho de Santa Catarina de Ribeira Grande para a incipiente povoação dos Picos. "Foi uma medida de grande alcance para o desenvolvimento do interior da ilha de Santiago como, de várias outras, em todo o País que caracterizaram o espírito empreendedor deste controverso personagem", e que contribuiu ainda para o desenvolvimento de infra-estruturas que na altura eram necessárias para a instalação e implantação de organizações administrativas, designadamente nos Picos.

No ano de 1912, sendo Governador da Província Joaquim Pedro Vieira Júdice Biker, que pela portaria nº 146 de 4 de Maio é que efectuou-se a transferência da sede do Concelho do Tarrafal para a povoação de Assomada, como atesta Santa Rita Vieira, "o concelho passou durante um longo período (de 1834 a 1912), na mudança de sede administrativos, até que, pela portaria N.º 146 de 4 de Maio de 1912, Assomada adquiriu definitivamente a posse da sede do Concelho de Santa Catarina"[2] .

Santa Rita Vieira relata que várias localidades desempenharam a função da sede no concelho, nomeadamente: Ribeira da Barca em 1845; Casa Grande nos Picos, em 1845 e entre 1851 a 1857; Flamengos entre 1846 e 1849; Achada Falcão (em Cabeça Carreira) – 1859; e Mangue no Tarrafal, em 1869.

Portaria n.º 146 de 4 de Maio de 1912[editar | editar código-fonte]

"Visto o que dispõe a organização administrativa da Província designado para a sede do Concelho de Santa Catarina, a freguesia do mesmo nome e precedendo autorização de sua excelência o Ministro das colónias, a quem este governo ponderou sobre as circunstancias que acolhem e permitem actualmente a instalação dos serviços concelhios e do julgado municipal na povoação já importante e central, da Assomada, a qual ficara em breve servida por uma estrada carreteira, ligando a com o porto da Ribeira da Barca; hei por conveniente determinar a transferência da sede do Concelho referido da vila do Tarrafal para a dita povoação de Assomada, o que deverá efectuar-se logo que esteja resolvida a possível instalação ali dos serviços administrativos, concelhios, do Estado e Municipais".

Governo da Província de Cabo Verde na Cidade da Praia, 3 de Maio de 1912

– Joaquim Pedro Vieira Júdice Biker, Governador.

Cidade de Assomada[editar | editar código-fonte]

O notável desenvolvimento do Concelho de Santa Catarina, e em particular de Assomada, fez com que a 13 de Maio de 2001, 167 anos após a fundação do concelho de santa Catarina e 89 anos depois de tornar-se a sede do concelho, foi elevada à categoria de Cidade, tornando-se assim na primeira cidade de Cabo Verde do pós-independência e satisfazendo sucessivas pretensões de seus cidadãos.

O Decreto-Lei nº7/2001 de 26 de Março foi o instrumento que formalizou a elevação de Assomada a cidade. O texto do Decreto-Lei começa por fazer referência à Portaria de Júdice Biker que criou o concelho de Santa Catarina. Faz menção às duas tentativas de elevação da vila a cidade, efectuadas anteriormente no Parlamento. Também recorda a contribuição e o papel de Santa Catarina e sua gente na história e desenvolvimento de Cabo Verde. O documento foi visto e aprovado em Conselho de Ministros por José Maria Pereira Neves, Carlos Duarte de Burgo e Maria Cristina Fontes Lima. A promulgação pelas mãos do então Presidente da Republica António Mascarenhas Monteiro foi em 16 de Março de 2001 e referendado pelo Primeiro Ministro José Maria Neves no mesmo dia.

Decreto-Lei nº7/2001 de 26 de Março[editar | editar código-fonte]

1. Desde Maio de 1912, e por força da Portaria nº 146 de 04 de Maio, dimanada do Governador Judice Bicker, Assomada é sede do Concelho de Santa Catarina que, na altura, englobava as freguesias de Santa Catarina, São João Baptista, São Salvador do Mundo, São Miguel e Santo Amaro Abade. Antes a sede do Concelho fora sucessivamente Picos, Achada Falcão e Tarrafal;

2. Com a transferência da sede do Concelho da Cidade de Ribeira Grande – actual Cidade Velha -, para a então incipiente povoação dos Picos, na freguesia de São Salvador do Mundo, em 14 de Fevereiro de 1834, deu-se origem ao Concelho de Santa Catarina. Data de 1838, a designação do primeiro Presidente da Câmara de Santa Catarina, António Furtado;

3. Neste ano de 2001, 167 anos após a fundação desse importante Concelho de Santiago de Cabo Verde, e 89 anos após a elevação de Assomada à categoria de sede do Concelho, o Governo propõe a elevação de Assomada à categoria de Cidade, a qual constitui uma aspiração das suas gentes, principalmente da sua juventude, já sonhada, já sentida, já expressa por duas vezes na Assembleia Nacional, sendo a última vez, em Junho de 1999.

4. A revolta dos Engenhos de 1822, a revolta da Fonteana de 1835, a revolta de Ribeirão Manuel de 1910, a petição dirigida ao Senhor Governador da Colónia em 1946 por onze ilustres filhos daquele Concelho, a petição então dirigida ao Ministro do Ultramar por cidadãos de Santa Catarina em Agosto de 1962, a luta dos estudantes no verão de 1970 para que se instalasse um Ciclo Preparatório na Vila de Assomada, a adesão de jovens estudantes e de vários emigrantes e camponeses à causa da luta de libertação nacional, são sinais do espírito de entrega das mulheres e dos homens de Santa Catarina às causas nobres – a luta pela liberdade, pela democracia e pela dignidade humana, o que foi, desde sempre, e continua a ser, a divisa dos santacatarinenses.

5. Desde a sua fundação, Assomada conheceu um desenvolvimento constante, particularmente no domínio agrícola e comercial. O seu mercado municipal, um dos principais centros comerciais da ilha de Santiago, foi construído em 1931, para dar vazão à dinâmica agrícola e comercial de então. Hoje, Assomada é um importante pólo comercial de produtos agro-pecuários, sendo a sua rede de estabelecimentos comerciais bastante larga e diversificada no qual operam centenas de comerciantes retalhistas e mais de duas dezenas de importadores.

6. Nos anos pós independência, Assomada conheceu um desenvolvimento assinalável, ainda que distante das aspirações das suas gentes. Foram construídos pelo Estado, nomeadamente, o Liceu, a Agência do BCA, a sede concelhia dos Correios de Cabo Verde, um moderno Centro de Telecomunicações, o Hospital Regional, o Centro Cultural – Museu da Tabanca, a Escola Técnica, o Lar de Estudantes, e várias estradas de penetração que ligam Assomada aos principais centros populacionais e urbanos do Concelho e da Ilha. Em Assomada funcionam ainda Tribunal de Comarca de Santa Catarina, com dois Juízos, e todos os serviços desconcentrados do Estado, encontrando-se em fase de construção ou de negociação importantes infraestruturas como o Palácio da Justiça, o novo Hospital Regional, o plano sanitário e o programa de electrificação;

Na Assomada estão sediados importantes equipamentos colectivos privados das mais diversa áreas (capela, pavilhão gimnodesportivo, jardins-de-infância, jardim público, farmácia, três agências bancárias, duas residenciais, restaurantes, cafés e bares discotecas, campo de futebol, escolas secundárias, minimercados, várias colectividades no âmbito dos sectores desportivo, cultural e recreativo), o que propicia uma boa qualidade de vida.

Tem uma distribuição de água e de energia eléctrica razoável, o que, contudo, deverá ser melhorado. É significativo o aumento do núcleo urbano da vila de Assomada, caracterizado por um crescimento da população e com um elevado número de jovens a chegar à idade adulta.

Assomada é, assim, hoje, um importante centro de encontro de pessoas que a procuram para estudar, para demandar os serviços do Hospital Regional, para vender ou comprar produtos agro-pecuários, ou então conhecer a cultura e as gentes desta importante parcela do território nacional, cujos filhos escreveram já heroicamente lindas páginas da história deste País.

7. No início do III Milénio e do Século XXI, as mulheres e os homens de Santa Catarina desejam ardentemente um desenvolvimento auto-sustentável, com qualidade de vida, melhor distribuição dos rendimentos e equilíbrio ambiental. A elevação da Vila de Assomada à categoria de Cidade deve ser entendida neste contexto: como um passo decisivo, um elemento indutor do desenvolvimento do Concelho e do interior de Santiago e um estímulo á atracção de investimentos nos sectores hoteleiro e turístico, que são áreas ainda muito carenciadas no Concelho;

Essa elevação é decisiva na modelação do plano sanitário, visando a melhoria da qualidade ambiental e de vida, designadamente através do tratamento e reutilização das chamadas água negras; um estímulo à atracção de investimentos para o desenvolvimento de pequenas indústrias agro-alimentares, bem como à atracção de quadros, tão necessários para a dinâmica de desenvolvimento que se quer imprimir.

8. A elevação de Assomada à categoria de Cidade, se acompanhada de outras medidas de política, para além das acima mencionadas, tais como ampliação e modernização das vias depenetração e acesso às outras localidades do Concelho, melhoramento do aprovisionamento e distribuição de água e energia, construção dos cais de pescas de Ribeira da Barca e de Rincão e a criação de infra-estruturas de frio para a conservação do pescado, fomento e apoio à pecuária e à instalação de indústria de tratamento e transformação da carne, a captação de águas superficiais, designadamente através de construção de barragens, o fomento e o apoio à produção avícola, maximé através da criação de circuitos comerciais para o escoamento da produção deverá suscitar uma dinâmica de desenvolvimento auto-sustentado que todos desejamos para Santa Catarina.

9. O nº 3 do artigo 4º do Decreto-Lei nº 93/82, de 6 de Novembro, preceitua que a categoria de cidade só poderá ser conferida a vilas com significativo desenvolvimento industrial ou comercial, servidas de vias de comunicação e dotadas de instalações de urbanas de água e electricidade.

Pelo exposto, ficou demonstrado que a sede do Concelho de Santa Catarina tem um potencial de desenvolvimento que justifica e fundamenta a elevação da vila de Assomada à categoria de cidade, prestando justiça e homenageando os seus filhos e residentes.

Urge portanto reconhecer a vila de Assomada como cidade, o que se materializa com o presente diploma.

Nestes termos, ouvida a Câmara Municipal de Santa Catarina; e

Ao abrigo do nº 3 do artigo 4º do Decreto-Lei nº 93/82, de 6 de Novembro, e No uso da faculdade conferida pela alínea a) do nº 2 do artigo 203º da Constituição, o Governo decreta o seguinte:

Artigo 1º

A vila de Assomada, sede da freguesia e concelho de Santa Catarina, Ilha de Santiago, é elevada à categoria de cidade.

Artigo 2º

O presente diploma entra em vigor no dia 13 de Maio de 2001.

Visto e aprovado em Conselho de Ministros.

José Maria Pereira Neves — Carlos Duarte de Burgo — Maria Cristina Fontes Lima.

Promulgado em 16 de Março de2001.

Publique-se.

O Presidente da República, ANTÓNIO MANUEL MASCARENHAS GOMES MONTEIRO.

Referendado em 16 de Março de 2001.

O Primeiro Ministro, José Maria Pereira Neves.

Divisão Administrativa[editar | editar código-fonte]

O censo 2010 INE do sub-dividiu a cidade de Assomada em 21 localidades: Achada Riba Atrás de Banco Bolanha Centro (Cidade) Cha De Santos Covão Covão Ribeiro Cruz Vermelha Cumbém Cutelo Cutelo Torre Espinho Branco Leiria Lém Vieira Matinho Nhagar Pedra Barro Ponta Fonte Lima Portãozinho Tarafalinho Traz D'Empa

Demografia[editar | editar código-fonte]

De acordo com dados de 2005, a cidade de Assomada tinha 11.900 habitantes.

População da cidade de Assomada (1990–2010)[3]
1990 2000 2005 2010
3414 7067 11900 12332[4]

Segundo dados do censo 2010 publicados pela INE a população de Assomada a presentava a seguinte distribuição:

Sexo População residente Agregados por sexo do representante Idade
Menos de 15 anos Entre 15 e 64 Mais de 65
Total 12332 2711 3760 7965 605
Masculino 5900 1435 1814 3850 234
Feminino 6432 1276 1946 4115 371

Personalidades nascidas em Assomada[editar | editar código-fonte]

  • Orlanda Amarílis (1924-), Escritora.
  • José Maria Neves (1960-), Primeiro Ministro de Cabo Verde (2001-).
  • Henrique Lubrano de Santa Rita Vieira[5] (17 de Novembro de 1912 - 6 de Augosto de 2001), Médico.
  • Fernando dos Reis Tavares (Toco) (13 de Abril de 1940-), Combatente da Liberdade da Pátria.

Localidades com o nome Assomada[editar | editar código-fonte]

Em Portugal há duas localidades com o nome Assomada. Uma fica na ilha da Madeira[6] , a outra localidade fica na ilha de Santa Maria nos Açores.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Vieira, Henrique Lubrano de Santa Rita, A Vila de Assomada, editado pela Associação dos Amigos do Concelho de Santa Catarina, 1993, p. 14
  2. Vieira, Henrique Lubrano de Santa Rita, A Vila de Assomada, editado pela Associação dos Amigos do Concelho de Santa Catarina, 1993
  3. Fonte: City Population, citando o Instituto Nacional de Estatísticas.
  4. Censos 2010 - POPULAÇÃO RESIDENTE E AGREGADOS FAMILIARES POR ZONAS E LUGARES
  5. Henrique Lubrano de Santa Rita Vieira - Antepassados e parentes de Jorge e Garda Brito
  6. Paróquia da Assomada
Ilha de Santiago
Aglomerados urbanos
Achada | Achada Banana |Achada Fazenda | Achadinha de Baixo | Água do Gato | Assomada | Boa Entrada | Cachoeiras | Calheta de São Miguel | Cancelo | Chão Bom | Cidade Velha | Curral do Gado | Figueira da Naus | João Varela | Mangue de Setes Ribeiras | Pedra Badejo | Pico | Ponta Rincão | Porto Formoso | Porto Gouveia | Porto Mosquito | Praia | Principal | Ribeira da Barca | Ribeira da Prata | Rui Vaz | Santa Ana | São Domingos | São Francisco | São Jorge dos Órgãos | Tarrafal | Trás os Montes
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Segundo o Prof. Doutor Eduardo Adilson Camilo Pereira, no seu livro Política e cultura: As Revoltas dos Engenhos (1822), Achada Falcão(1841) e de Ribeirão Manuel (1910),José Conrado Carlos de Chelmicki foi o primeiro estudioso a questionar as reais motivações que levaram as elites políticas locais a proporem a transferência da sede do governo da ilha de Santiago para as demais ilhas. Segundo este, a formação de povoações propiciava não só o aumento da produção, como também a divulgação dos valores da agricultura “provincial”. Destaca ainda que o caráter litorâneo das primeiras povoações, centradas na vila da Praia e na Ribeira Grande, atrasou muito os planos do governo colonial para a criação de povoações agrícolas no interior. A vila da Praia era a única vila existente na ilha de Santiago, sendo, por isso, imprescindível a criação de uma nova vila num local onde o clima era mais agradável. O local mais adequado seria a achada de Santa Catarina (actual cidade de Assomada), onde o clima, segundo este, era mais saudável. (...) O sitio mais conveniente é a achada de Santa Catharina. N´uma planice reputada por mui saudavel, abundante d’agua e rica em vegetação, no centro da ilha, não tardaria de se formar em breve uma povoação, uma Villa agradável. Grandes porções de terreno ainda incultas daríamos a agricultura e por este meio conseguiríamos o nosso fim (...). O nome inicial era Matto Engenho ou Assomada do Engenho, pois passou, em 1832, a ser a sede administrativa do morgadio dos Engenhos. Em outros termos, significa a parte mais alta do morgadio dos Engenhos. Esta vila surgiu da proposta do então prefeito de Cabo Verde, Manoel António Martins, como parte do projecto de separação das ilhas em relação ao império colonial português.

Para este naturalista português, a falada insalubridade climática da Ribeira Grande, sem fundamento, pintada com cores negras em Portugal, causava grande prejuízo a administração da colônia, tendo em vista que os portugueses partiam de Portugal com uma idéia pré-estabelecida acerca da cidade, vista como uma sepultura dos europeus. A tão proclamada insalubridade da Ribeira Grande prejudicou a administração da cidade. As informações que circulavam na Corte sobre o seu clima provocou muitos receios naqueles que para lá eram mandadas. Para este autor, as tão faladas carneiradas, que dizimavam tripulações inteiras na costa africana, eram fantasmagóricas. O projecto de transferência da sede do governo para o planalto de Santa Catarina foi incentivado pelo então prefeito, Manoel António Martins, interessado na separação das ilhas em relação ao império colonial português. Porém, o referido projecto foi duramente contestado pelo deputado Teófilo Dias, o qual destacou a necessidade defendida pela elite política local quanto a criação de “uma povoação no seu centro, e em sitio sádio e que hade ser a necessaria e prompta consequencia de se fixar lá a sede do Governo durante os mezes doentios na Villa da Praia”, representadas pelas localidades dos Picos e Orgãos. Questionou a prioridade na criação de uma povoação no centro da ilha de Santiago. Além da grande distância que o separa da vila da Praia, as grandes despesas com o transporte dos serviços, a inacessibilidade ao interior da ilha no periodo chuvoso (junho a outubro), que sempre dificultou o transporte dos “artigos de primeira necessidade” para a vila da Praia, seria uma “desgraça” decretar a sede do governo nos Picos, pois o governo não poderia demandar sobre assuntos que exigiam decisões rápidas. Também destacou que para tal seriam precisos mobilizar avultados recursos financeiros, além do total isolamento da referida localidade em relação à vila da Praia. Quanto às vias de acesso, notou que “considerem bem (…) o transito de mais de dez leguas, por caminhos completamente escabrados, sujeitos ao ardentissimo sol quando marchassem de dia-á perigoza cacimba quando andassem de noite”. Em parte, para este governador, tornava-se “absurdo” fixar a residência do governo no interior da ilha de Santiago, tendo em vista os avultados recursos financeiros necessários para a construção e manutenção de uma estrada que a ligasse à vila da Praia. Em contrapartida, defendeu o investimento deste capital financeiro na edificação de “habitações para o Governo, Bispo e Repartições publicas” numa outra ilha do arquipélago, no caso em Mindelo. Pode-se constatar que a fundação da nova cidade esteva diretamente ligada a crença de que os rendeiros do interior de Santiago não eram capazes de auto-governar-se. Segundo o mesmo professor da UniCV,A tabanca e o batuco São as principais manifestações culturais de Santa Catarina, utilizados no ritual da revolta de escravos e de rendeiros contra a opressão colonial portuguesa (1822-1910). Dentre outras razões, merece atenção a perpetuação de uma cultura de resistência na ribeira dos Engenhos. Fundadas não só no cultivo da terra, pelo processo de “djunta mon” e parceria , como também em atividades culturais como o batuco e a tabanca, propiciavam também a reunião dos rendeiros em volta dos seus problemas, dentre os quais destacam as sucessivas ameaças de expulsão das terras feitas pelo morgado a aqueles que não pagassem as suas rendas em’ dia. Porém, não é menos verdadeiro que as festas representavam momentos propícios para as reivindicações políticas. Por outro lado, além do processo de entre-ajuda, registrava-se a influência da tradição de festas, identificada no batuco, nos reinados da tabanca e na festa de Corpo de Deus. Tais festas propiciavam a união dos rendeiros à volta dos principais problemas da comunidade de trabalhadores rurais. Uma das testemunhas confirma a espontaneidade das práticas festivas, observando a sua sociabilidade: (...) em quanto ao ajuntamento esse he Costume nesta Ilha (Santiago) fazer-se huma festa, e que por isso entra em brincadeiras, Tambores e Bandeiras (...). Durante a semana do cortejo das tabancas, os seus membros fazem festas que vão noite afora, com muita grogo (aguardente). Estas festas eram pontuadas pelo batuco e pelas cantigas próprias da tradição local, isto é, do interior da ilha de Santiago. Segundo Roger Chartier, à cultura dos costumes próprios de uma determinada comunidade, as revoltas associam violência e “práticas festivas e folclóricas”, utilizando inclusive ritos próprios. Devemos ter presente que a tabanca é uma aldeia de assistência mútua, tendo em vista que ajuda seus membros em caso de necessidade. Além do mais, agrega várias manifestações culturais e festivas tanto em casamentos quanto em batizados e funerais, tendo como centro a veneração do santo padroeiro protetor. Cada localidade tem a sua tabanca e, conseqüentemente, normas próprias. Fazem parte da tabanca todos os moradores de uma povoação local, que contribuem para a manutenção de um fundo que é usado nos festejos em honra ao padroeiro. Como instituição de socorros mútuos, a tabanca implica em solidariedade dentro da comunidade por meio do compadrio, como também organiza o trabalho na forma de “djunta mon” durante o ano agrícola e na edificação de moradias, o que atesta a sua dinanvidade para além do tempo dos festejos. O seu papel social é notório entre os seus membros, pois, aprende-se a rezar, a amar, a trabalhar e, principalmente, a viver em comunidade. Para tal, a tabanca tem as suas normas que, por sua vez, organiza a vida da comunidade, distribuindo papéis a cada membro da comunidade, o que é presenciado com mais nitidez quando começam os cortejos em busca do santo roubado. Por outro lado, a tabanca estabelece regras de decoro para cada situação concreta, como: nos funerais e nas rezas coletivas. Reforçam determinados valores morais e religiosos, como a compaixão e devoção, pelos quais a vida em comunidade é regida. Se de um lado, as práticas de entre-ajuda e de solidariedade entre os membros são incentivadas, de outro, quem não os segue, é multado, preso ou excluído da comunidade. Por exemplo, quando um membro da comunidade morre, todos os outros ajudam não só com o custo do funeral, como passam várias noites rezando na casa do falecido. Quem não retribui o gesto é automaticamente punido. A tabanca representa a sociedade e, como tal, tem o rei e a rainha da festa, além de representar as profissões mais influentes da sociedade, como sejam governadores, ministros, médicos, enfermeiras, policiais, ladrões, soldados e conselheiros. Os mais velhos, como guardiões da tradição, têm a missão de passar os ensinamentos aos mais jovens. Cabe aos reis e rainhas de agasalho das tabancas receber os participantes do cortejo em sua casa, agasalhar e proteger os seus integrantes, dando de comer e beber, para além de fazer oferendas ao santo padroeiro. Os cortejos são momentos em que as pessoas mostram ao mesmo tempo a sua ligação com a comunidade e com o santo padroeiro. É assim que as comunidades vizinhas entram em contato umas com as outras. Quando a tabanca vai, em cortejo, à casa do seu rei do agasalho que, por vezes, mora numa outra localidade, o que se registra é a apresentação ritual de uma determinada comunidade de trabalhadores rurais. A imagem a seguir apresenta o cortejo da tabanca para a casa do rei de agasalho na ribeira dos Engenhos. Quanto ao batuco, está presente nos casamentos, batizados e funerais, em todas as comunidades de trabalhadores rurais do interior da ilha de Santiago, nutrindo não só os laços de compadrio, como os a boa vizinhança. Estes momentos propiciam reunião de todos os membros da comunidade, tanto homens como mulheres, em “banquetes”, em cânticos e em danças coletivas. A sintonia manifesta-se através da coordenação do cântico e da dança do batuco. Todos os membros começam a cantar e a bater nas pernas, segundo o ritmo e a intensidade imprimidos pelo líder. Segundo Conrado Carlos de Chelmick, primeiro a escrever sobre o ritual do batuco em Cabo Verde, a manifestação consiste no seguinte: (...) Para baptizados e cazamentos, etc juntam-se para o batuque quantos há, homens e mulheres em todo o circuito d’algumas léguas. Toda esta negraria senta-se em circulo numa casa ou á porta, e no meio entra a balhadeira, vestida á moda do paiz, largando somente o pernno dos hombros e apertando bem o da cintura. O coro começa mui lentamente nas cantigas, graduando e ora cantando com certa languidez ora gritando apressadamente; todos accompanham ao tacto, battendo com as palmas das mãos nas pernas. A balhadeira ao compasso desta vozaria faz no meio movimentos com o corpo, voluptuosos, lascivos, desenvolvendo grande elasticidade e mobilidade dos músculos, p.e. (pára e) lentamente abaixam-se sem inclinar o corpo até tocar com os joelhos no chão (...) Estas reuniões também têem lugar nos interros; morrendo algum parente ou amigo, mandam por elle mantenhas (...) Mas geralmente succede no enterro um banquete, mesmo reza-se o terço e ladainhas em língua creola ao pé do cadáver (...) às vezes prolongam-se estes banquetes até outro dia. Pelos depoimentos prestados por Manoel Francisco Coxo, pode-se constatar que, em dezembro de 1822, o rendeiro André Semedo fora à casa do acusado convocá-lo para ir a Cham Coelho, uma das localidades da ribeira dos Engenhos, para poderem chegar a um acordo sobre a melhor forma de requererem contra os roubos e extorsões que o Domingos Ramos Monteiro fazia aos seus rendeiros, ao não devolver as jóias penhoradas, colher os frutos da terra, em especial o milho, tomar os animais, tais como vacas e porcos, pela força e expulsar os rendeiros devedores. No caminho de sua casa para Cham Coelho questionaram diversos rendeiros sobre o facto, fazendo-lhes “consultas”, e assim tomaram a decisão de fazer uma carta ao morgado. A revolta pode ser entendida enquanto subversão da ordem sociopolítica vigente no interior da ilha de Santiago, na qual os morgados detinham não só os monopólios da terra como também roubavam e extorquiam os bens dos seus rendeiros. O pânico entre os rendeiros devia-se também às informações divulgadas pelos líderes locais, segundo as quais o morgado mandou publicitar que todos os seus rendeiros passariam a pagar as rendas num valor bem superior ao que vinham pagando e que expulsaria todos os rendeiros com rendas em atraso, fixando o dia 1º de janeiro de 1822 como a data limite para que todos os rendeiros liquidassem as suas dívidas. A grande dimensão cultural e política dessa mobilização estava também relacionada ao amplo número de rendeiros que o morgado planejava expulsar de suas terras, o que violava o contrato oral de arrendamento da terra. O medo aumentou mais ainda quando o morgado mandou desmanchar a casa de um rendeiro e colher os seus mantimentos, prometendo fazer o mesmo com os restantes. Foi assim que em 12 de Fevereiro de 1824, Luiz Royer, administrador da fazenda de Faveta, na freguesia dos Picos, queixou-se ao então governador geral de Cabo Verde, João da Matta Chapuzet, que o seu rendeiro de nome Manoel Gonçalves tinha estado a fazer “maquinações” com outros rendeiros para que se revoltassem contra ele e então não pagariam as rendas estipuladas. Quando o administrador foi à casa do referido rendeiro para receber as rendas em atraso, este não só não consentiu sua entrada nas terras como buscou o seu manduco para espancar o cobrador. Por sua parte, o administrador agarrou a mulher do referido rendeiro para se proteger da tentativa de agressão do referido rendeiro. Os autos da devassa sobre a constituição do partido pró-Brasil, de 16 de Maio de 1823, transcreveram uma Carta atribuída de Manoel Francisco Coxo a Manoel Ramos Semedo, onde não só reiterou o plano de não receber o governador vindo de Lisboa, como também que os responsáveis pela revolta nos Engenhos eram influentes políticos residentes na vila da Praia. A carta ainda aponta a existência do projeto revolucionário na ribeira dos Engenhos, destacando as alianças políticas com as elites do interior da ilha de Santiago. A revolta dos Engenhos, além de uma mera contestação fundiária contra as arbitrariedades dos morgados, deve ser também compreendida como produto de mobilizações políticas. O próprio documento destaca a importância de se declarar a “revolução política”, em função da qual a revolta deverá ser compreendida. Na ilha de Santiago, temendo que a capital seguisse o mesmo exemplo, tendo em vista que os habitantes encontravam-se numa “terrivel anarquia”, o governador geral reuniu-se com as principais autoridades locais, temendo pela “unidade desta Capitania”. Vários devotos da Freguesia dos Picos, interior da ilha de Santiago, para mobilizar os rendeiros descontentes, consideravam os sucessivos governadores mandados para a província até o momento como sendo “rattos que vinha os roubando o povo”. Os governadores também foram vistos como “monstros” enviados de Lisboa para roubar o povo. Segundo os autos da devassa, as estratégias empregadas pelo partido para mobilizar os rendeiros do interior da ilha de Santiago em torno da “revolução” consistiam em cinco fases: depôr e substituir a junta governativa; declarar-se a favor do Brasil; não receber o governador e impedir a força o desembarque da infantaria vinda de Lisboa; e enviar uma “deputação” ao Rio de Janeiro para pedir “socorros e proteção”. Na Igreja de São Salvador do Mundo, Joze Pereira de Carvalho convocou os “povos” para assinarem qual dos governos era de sua preferência, se o de Lisboa ou o do Brasil. As elites locais buscaram apoio dos rendeiros do interior da ilha de Santiago para fazerem uma “revolução” a favor do Brasil, recusando a receber o governo que viesse de Portugal, mobilizaram também tanto para depôr a junta governativa, elegendo uma nova em seu lugar quanto para impedir o desembarque de tropas vindas de Portugal. Quanto a revolta de Achada Falcão (1841) foi motivada não só pela reivindicação por contratos escritos de arrendamento da terra, quanto para pressionar o governo geral a garantir o livre acesso às terras cultivadas. A subversão política revestia-se de instrumento para fazer face às injustiças sociais, decorrentes das estratégias empregues pelos morgados para tornar os rendeiros cada vez mais endividados, com destaque para concessão de crédito e aumento exorbitante das rendas. Além disso, merece realce o descontentamento das elites políticas devido ao menosprezo da Coroa portuguesa às autoridades locais, face à crise decorrente das fomes. Não por acaso, incitaram os rendeiros a se rebelarem contra a existência de grande concentração de terras por parte dos morgados. As pressões políticas decorrentes da expulsão do arquipélago dos adversários políticos eram justificadas, por serem contrários às liberdades políticas consagradas na Carta constitucional. A extrema exploração dos rendeiros foi articulada às confrontações políticas, por meio das quais se salienta o fato da compra das colheitas ser feita em gêneros, como tecidos e mantimentos. O arquipélago era administrado para responder conspirações e agitações políticas que o partido Liberal pró-Brasil fazia em relação às determinações da Coroa portuguesa, o que impossibilitava qualquer reforma política. A revolta pode também ser analisada em função das denúncias, segundo as quais os deputados às Cortes haviam renunciado ao compromisso com as reformas políticas propostas. Cabe ainda ressaltar que a reestruturação de cargos no governo geral visava extinguir as discórdias partidárias. Receava-se uma possível revolta dos rendeiros do interior da ilha de Santiago contra a dominação colonial local, revolta essa vinda por meio do assalto à vila da Praia, o que levou os liberais moderados a propor a transferência da sede do governo para a ilha de São Vicente. Por último, a revolta de Ribeirão Manuel, em 1910, motivada pelos sucessivos roubos de colheitas e aguardente, dos quais os rendeiros eram alvo, no decorrer da moagem da cana-de-açucar. Também eram obrigados a concederem seis dias de trabalho gratuito ao morgado, bem como pagar rendas exorbitantes. Os rendeiros, para honrar as rendas das terras, vendiam o gado aos morgados pelo preço fixado por estes. Também tinham de vender suas colheitas por um preço muito baixo. Tais medidas agravavam a dependência do rendeiro em relação ao seu morgado, assim como sua indignação dando ensejo a assaltos de vários morgadios. Note-se o fato de que, pelo morgado ter recusado a dividir as sementes de purgueira com os seus rendeiros, desencadeou-se uma rede de roubos. O mesmo ocorreu com o milho. Por sua vez, com o apoio dos rendeiros dos Engenhos, passaram aos ataques à polícia rural, a quem cabia recolher o imposto de trabalho. Em resposta, a polícia rural, a mando dos morgados, invadiu as casas dos rendeiros, prendendo as suas mulheres. Cabe ainda salientar que os líderes da revolta eram mulheres na sua maioria. Para mais informações, vide o livre 'Política e Cultura:As Revoltas dos Engenhos (1822), de Achada Falcão (1841) e de Ribeirão Manuel (1910)' do prof. Doutor Eduardo Adilson Camilo Pereira.