Atentado de la Ghriba (2002)

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Atentado de la Ghriba
Sinagoga atacada vista do exterior
Local  Tunísia, Djerba, sinagoga de la Ghriba
Coordenadas 33° 48' 50" N 10° 51' 33" E
Data 11 de abril de 2002 (12 anos)
09:35 (UTC+1)
Tipo de ataque Explosão de camião-cisterna
Arma(s) Explosivos
Mortes 19
Feridos 30
Responsável(is) Nizar Naoua, Khalid Sheikh Mohammed, Christian Ganczarski (al-Qaeda)
Flores em homenagem às vítimas do atentado numa janela da sinagoga em 11 de abril de 2012

O atentado de la Ghriba de 11 de abril de 2002 foi um ataque suicida levado a cabo por um terrorista islâmico na entrada da sinagoga de la Ghriba, em Djerba, sul da Tunísia. O atentado provocou 21 mortos e 30 feridos e foi levado a cabo por Nizar Naoua, um franco-tunisino de 25 anos com ligações à organização terrorista al-Qaeda, que reivindicou a autoria do ataque.

Além de Naoua, estiveram envolvidos no atentado um tio e um irmão do suicida, Christian Ganczarski, um cidadão alemão de origem polaca, o empresário espanhol Enrique Cerda e o empresário paquistanês residente em Espanha Ahmed Rukhsar. Todos eles, à exceção do tio de Nizar Naoua, mantiveram contactos com o célebre dirigente da al-Qaeda Khalid Sheikh Mohammed, preso em Guantánamo por ser suspeito de envolvimento nos ataques de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque.

A sinagoga de la Ghriba é o principal centro espiritual dos judeus de Djerba, uma das mais antigas comunidades judaicas do Norte de África e uma das últimas ainda existente no mundo árabe. Além disso, é um dos mais importantes santuários judaicos do Norte de África e segundo a lenda é uma das mais antigas, senão a mais antiga sinagoga do mundo.[1]

Descrição[editar | editar código-fonte]

O ataque consistiu na explosão dum camião cisterna de gás natural carregado de explosivos diante da sinagoga.[2] Entre os mortos encontravam-se 14 turistas alemães, cinco tunisinos e duas pessoas de nacionalidade francesa.[3]

Inicialmente as autoridades tunisinas apresentaram a explosão como um acidente, contudo um inquérito levado a cabo conjuntamente pelas autoridades da Tunísia, França e Alemanha rapidamente conclui que se tratou dum ataque deliberado organizado por agentes da rede terrorista al-Qaeda de Osama bin Laden,[4] o que, depois de várias reclamações do atentado de credibilidade duvidosa, viria a ser confirmado por uma gravação sonora de Sulaiman Abu Ghaith, emitida pela cadeia de televisão árabe do Catar Al Jazira a 23 de junho. Nessa gravação, Abu Ghaith, conhecido como um dos porta-vozes da al-Qaeda, declarou que o atentado foi uma vingança pelas mortes de palestinianos«[.. o ataque] foi levado a cabo pela rede da al-Qaeda. Um jovem não tolerava ver os seus irmãos mortos na Palestina [... ao mesmo tempo que] via judeus a divertindo-se em Djerba».[5]

Nizar Naouar, um franco-tunisino de 25 anos morto na explosão, foi identificado como o autor suicida do ataque, para o qual teve a ajuda do seu tio Belgacem Naouar.[6] Durante o inquérito apurou-se que ele fez crer aos seus familiares, originários de Ben Gardane, que tinha estudado turismo no Canadá entre 1999 e 2001, quando na realidade frequentava campos de treino da al-Qaeda no Afeganistão.[7] No seu testamento, descoberto no esconderijo dum membro da al-Qaeda em Karachi em setembro de 2002, refere o «seu ódio aos judeus, americanos e aos regimes árabes ímpios que impedem os seus cidadãos de participar na jihad contra Israel» e indica ter agido sozinho.[8]

Consequências[editar | editar código-fonte]

As consequências judiciárias do ataque têm ramificações em diversos países para além da Tunísia, nomeadamente em França, Espanha e Paquistão.

Tunísia[editar | editar código-fonte]

O tio do suicida, Belgacem foi preso no dia seguinte ao atentado e encarcerado numa prisão de Tunes. É interrogado, entre outros, pelo juiz anti-terrorista francês Jean-Louis Bruguière. Os procuradores acusaram Belgacem de ter ajudado o sobrinho a montar uma cisterna cheia de gás no camião. Belgacem confirma que o sobrinho o tinha informado das suas intenções a 9 de abril, ou seja, dois dias antes do atentado. Incorrendo numa pena de morte, acaba por ser condenado a 7 de junho de 2006 a vinte anos de prisão por cumplicidade em assassinato com premeditação, participação em associação criminosa e cumplicidade na posse e fabrico de matérias explosivas.[6]

Belgacem foi interrogado previamente pelo juiz Tarak Braham durante cerca de vinte minutos sem a presença dos seus advogados, que boicotaram o processo depois de terem pedido, em vão, ter conhecimento prévio do conteúdo dos interrogatórios dos juízes alemães. O réu negou as acusações contra si e afirmou ignorar completamente os desígnios terroristas do sobrinho, apenas reconhecendo tê-lo ajudado a comprar um veículo para ser usado num negócio. Em relação ao dinheiro e documentos de identificação de Nizar encontrados na sua posse, alegou ter sido o sobrinho a colocá-los sem o seu conhecimento.[2]

Interior do recinto da sinagoga atacada
Coro juvenil de Jerusalém (Israel) em atuação no recinto da sinagoga em 2007

França[editar | editar código-fonte]

Baseando-se no facto de duas das vítimas mortais no atentado — Paul Sauvage e Mohamed Elkamel Fatmi — terem nacionalidade francesa,[9] foi aberto um processo num tribunal de Paris[10] e a 17 de abril levadas a cabo buscas na casa da família Naouar em Vénissieux, no departamento do Ródano.[7] Três membros da família são interrogados pelo juiz Bruguière, que dirige a instrução do processo.[10] Entre esses familiares encontra-se Walid Naouar, o irmão mais novo do suicida, suspeito de ter comprado sob um nome falso, a 12 de março de 2002, um telefone por satélite Thuraya com o qual o seu irmão teria contactado o dirigente terrorista Khalid Sheikh Mohammed, para obter luz verde para cometer o atentado.[2] Além disso, teria arranjado ao irmão um modem e documentos de identificação falsos.[10] Tendo começado por negar esses factos, Walid acabou por confessar após a descoberta do telefone na Tunísia e foi preso a 12 de novembro. Foi encarcerado na prisão de Fresnes, nos arredores de Paris, onde terminou o ensino secundário e iniciou estudos superiores de história.[7]

Considerado pelos investigadores um dos personagens centrais do processo, Christian Ganczarski é um cidadão alemão de origem polaca convertido ao Islão em 1986 que passou várias estadias no Paquistão e Afeganistão entre 1999 e 2001.[6] Suspeito de ser um membro importante da al-Qaeda,[2] supõe-se que foi ele quem planeou a operação, tendo dado a sua "bênção espiritual" a Nizar Naouar durante uma chamada telefónica na manhã do atentado — ambos os homens encontraram-se em várias ocasiões a partir de 2000.[6] [10] Ganczarski foi interrogado a 3 de junho de 2003 no aeroporto de Paris-Roissy, após ter sido expulso da Arábia Saudita.[9] No final do inquérito, Ganczarski e Khalid Cheikh Mohammed são processados por cumplicidade em assassinato relacionado com terrorismo. Khalid é objeto dum mandato de captura internacional, pois é considerado o comandatário e financiador da operação; Naouar ligou-lhe para o Paquistão antes de contactar Ganczarski.[2]

A 5 de janeiro é iniciado o julgamento dos três homens, acusados de "cumplicidade e tentativas de assassinato com relação com uma iniciativa terrorista" num tribunal especial de Paris.[11] Cheikh Mohammed não comparece, pois está preso pelos americanos em Guantánamo, onde está a ser julgado pelo seu papel nos ataques de 11 de setembro de 2001.[2] A 28 de fevereiro o tribunal decide julgar o seu caso separadamente.[12] No final do julgamento, Ganczarski e Naouar são condenados, respetivamente, a 18 anos e 12 de prisão, penas inferiores às pedidas pela acusação (30 e 15 anos de reclusão).[13]

Cerimónia de homenagem às vítimas em 11 de abril de 2012; da esquerda para a direita: Moncef Marzouki, presidente da república da Tunísia, Horst-Wolfram Kerll, embaixador da Alemanha na Tunísia, e Boris Boillon, embaixador de França na Tunísia

Espanha[editar | editar código-fonte]

Em março de 2003, cinco pessoas acusadas de terem financiado o ataque foram presas em Espanha. Entre os presos encontravam-se o empresário espanhol Enrique Cerda e o paquistanês Ahmed Rukhsar, que foram condenados a cinco anos de prisão a 10 de maio de 2006. Cerda tinha ligações financeiras com vários membros da al-Qaeda, nomeadamente Khalid Sheikh Mohammad, não tendo apresentado qualquer explicação coerente para o facto de diversos terroristas possuírem o seu número de telefone. Rukhsar foi condenado por ter doado mais de dois milhões de dólares à al-Qaeda, incluindo 7 200 na véspera do atentado.[3] [14]

Homenagem em 2012[editar | editar código-fonte]

No décimo aniversário do atentado, a 11 de abril de 2012, foi organizada uma cerimónia de homenagem às vítimas. Esta teve a participação do presidente da república da Tunísia Moncef Marzouki, do embaixador da Alemanha na Tunísia Horst-Wolfram Kerll e do embaixador de França na Tunísia Boris Boillon, que participaram juntos numa marcha silenciosa em memória dos defuntos. O presidente tunisino encontrou-se com as famílias das vítimas que assistiram à cerimónia e pronunciou um discurso em nome do estado tunisino no qual abominou o ato e, em nome do povo tunisino, exprimiu a sua compaixão e solidariedade para com as vítimas e as suas famílias.[15]

Notas e referências

  1. Morris, Peter; Jacobs, Daniel. The Rough Guide to Tunisia (em inglês). 6ª ed. Londres: Rough Guide, 2001. 503 pp. p. 381-382. ISBN 1-85828-748-0
  2. a b c d e f El Malki, El Fadel. Procès-verbal officiel (em francês). Tunes: Direction de la police judiciaire (Sous-direction des affaires criminelles).
  3. a b Goodman, Al (10 de maio de 2006). 2 men convicted in Tunisia bombing (em inglês) cnn.com.. Página visitada em 20 de setembro de 2012.
  4. Gharbi, Samir; Mabrouk, Mabrouk (22 de outubro de 2007). Vingt ans, vingt dates [ligação inativa] (em francês) www.jeuneafrique.com.. Página visitada em 20 de setembro de 2012. Cópia arquivada em 2011.
  5. Al-Qaeda claims Tunisia attack (em inglês) news.bbc.co.uk. (23 de junho de 2002). Página visitada em 6 de novembro de 2012. Cópia arquivada em 23 de julho de 2011.
  6. a b c d Ghorbal, Samy. (11 de janeiro de 2009). "Deux ombres" (em francês). Jeune Afrique: 10-12.
  7. a b c Ghorbal, Samy. (25 de janeiro de 2009). "Attentat de Djerba : les liens du sang" (em francês). Jeune Afrique: 50-51.
  8. Ghorbal, Samy. (11 de janeiro de 2009). "Un mystérieux kamikaze" (em francês). Jeune Afrique: 11.
  9. a b Bordenave, Yves. (6 de janeiro de 2009). "Christian Ganczarski avait été repéré par la police allemande" (em francês). Le Monde. Página visitada em 20 de setembro de 2012.
  10. a b c d Bordenave, Yves. (5 de janeiro de 2009). "Trois hommes jugés à Paris pour l’attentat de Djerba" (em francês). Le Monde.
  11. (5 de janeiro de 2009) "Première journée procédurale pour le procès de l'attentat de Djerba" (em francês). Le Monde.
  12. France Presse. (28 de janeiro de 2009). "Attentat de Djerba: la cour dissocie le cas de Khaled Cheikh Mohammed" (em francês). Jeune Afrique. Página visitada em 20 de setembro de 2012.
  13. France Presse. (5 de fevereiro de 2009). "Attentat de Djerba: 18 ans de réclusion pour l'Allemand Christian Ganczarski" (em francês). Jeune Afrique. Página visitada em 20 de setembro de 2012.
  14. Djerba, Tunisia - Spanish Businessman Guilty Of Helping To Fund Shul Attack (em inglês) www.vosizneias.com. Voz Iz Neias (18 de maio de 2006). Página visitada em 20 de setembro de 2012.
  15. (11 de abril de 2012) "Tunisie: première commémoration officielle de l'attentat contre la synagogue de Djerba" (em francês). Le Nouvel Observateur. Página visitada em 20 de setembro de 2012.