Augusto Pestana

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa


Augusto Pestana
Augusto Pestana
Primeiro Prefeito de Ijuí, Rio Grande do Sul
Mandato 31 de janeiro de 1912 a 11 de julho de 1912
Vida
Nascimento 22 de maio de 1868
Rio de Janeiro
Falecimento 29 de maio de 1934 (66 anos)
Rio de Janeiro
Partido Partido Republicano Rio-Grandense (PRR)
Profissão Engenheiro e político

Augusto Pestana (Rio de Janeiro, 22 de maio de 1868Rio de Janeiro, 29 de maio de 1934) foi um engenheiro e político brasileiro. Radicou-se em fins da década de 1880 no Rio Grande do Sul, onde se destacou como líder republicano, administrador público e especialista em transportes ferroviários.

Índice

[editar] Origens e formação

Assinatura de Augusto Pestana.

Augusto Pestana nasceu no bairro de São Cristóvão, na então capital imperial, em uma família de servidores públicos de origem portuguesa. Seu pai, Manuel José Pestana, era funcionário da Casa Imperial[1]. Sua mãe, Januária de Abreu Pestana, era filha de um agente portuário do Ministério da Fazenda.

Órfão de pai aos quinze anos de idade, Pestana recusou a bolsa de estudos oferecida pela Princesa Isabel no Colégio Pedro II e na Faculdade de Direito de São Paulo[2]. Na resposta que endereçou à princesa, disse não poder aceitar favor da Coroa por ser republicano convicto[3]. Ávido leitor dos enciclopedistas e de Auguste Comte, passou a lecionar Português, Matemática, História e Geografia para ajudar a família e custear seus próprios estudos no Colégio Pedro II e, a partir de 1885, na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Formou-se engenheiro geógrafo em 1886 e civil em 1888[4], o mais jovem de sua turma. Em paralelo aos estudos universitários, Pestana lecionou gratuitamente para alunos carentes na Associação Protetora da Instrução, fundada pelo senador e ex-chanceler Manuel Francisco Correia[5].

[editar] Engenheiro no Rio Grande do Sul

Em 1888, pouco depois de sua formatura, aceitou convite para trabalhar como engenheiro da Comissão de Estudos e Construção da Estrada de Ferro Porto Alegre-Uruguaiana, função que lhe permitiria conhecer em profundidade o interior do Rio Grande do Sul, assim como acompanhar o desenrolar da Revolução Federalista (1893-1895) e a consolidação no Estado da ditadura castilhista, com a qual estava ideologicamente alinhado. Em 1897, a convite do Governador Júlio de Castilhos, assumiu a chefia da Comissão de Estudos do Rio Jacuí, em Porto Alegre. Após breve período como engenheiro da Estrada de Ferro de Baturité, no Ceará, foi designado em agosto de 1898 para a direção das linhas telegráficas do Rio Grande do Sul[6], função onde permaneceria por apenas quatro meses.

[editar] Diretor e Prefeito de Ijuí

Vista oeste de Ijuí.

Em dezembro de 1898, Pestana foi nomeado pelo governo do Rio Grande do Sul para o comando da colônia de Ijuí, criada em 19 de outubro de 1890 e que vivia grave crise, resultado de má gestão pública e de desentendimentos entre colonos de mais de dez diferentes nacionalidades. Logo após sua chegada a Ijuí, em janeiro de 1899, Pestana promoveu reunião entre os líderes das comunidades imigrantes, no local hoje conhecido como Alto da União, e obteve sua conciliação. Racionalizou a política de assentamentos rurais, privilegiando famílias com experiência agrícola na distribuição de terras e reservando oportunidades no núcleo urbano aos imigrantes com vocação industrial ou comercial. Deu ênfase aos investimentos em infraestrutura e educação, criando as bases para a diversificação da economia da colônia[7].

Nos quase treze anos e meio da gestão de Augusto Pestana em Ijuí, a população da colônia passou de 6 mil para 28 mil habitantes. A rede de transportes ganhou cerca de 300 quilômetros de estradas e pontes nos principais rios e arroios. Na educação, 16 escolas públicas e 16 particulares foram abertas, com quase 2 mil crianças matriculadas. A colônia, que mal conseguia manter agricultura de subsistência ao final do século XIX, ostentava em 1912 mais de 100 fábricas de alimentos, 70 casas comerciais, 32 moinhos de cereais, 42 engenhos de cana-de-açúcar, 17 serrarias, uma tipografia e quatro hotéis. Mais da metade da produção local era exportado para o restante do Rio Grande do Sul e do Brasil, com destaque na pauta para madeiras, móveis, fumo, milho e banha[8].

O rápido crescimento econômico e populacional permitiu a elevação de Ijuí a município em 31 de janeiro de 1912, emancipado de Cruz Alta. Augusto Pestana foi o primeiro Intendente (o equivalente hoje a Prefeito) da cidade. Exerceu o cargo entre 31 de janeiro e 11 de julho daquele ano[9].

[editar] Deputado federal e fundador da Viação Férrea do Rio Grande do Sul

Estação Ferroviária de Ijuí, na nevasca de 1965.

Nomeado Diretor da Estrada de Ferro Oeste de Minas pelo Presidente Hermes da Fonseca em 1913, Pestana retornou ao Rio Grande do Sul no ano seguinte.[10] Elegeu-se deputado federal pelo Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) em 30 de janeiro de 1915 e 30 de janeiro de 1918. Na Câmara dos Deputados, notabilizou-se como defensor da ampliação e modernização dos transportes ferroviários do Brasil, criticando o modelo de concessões a grupos estrangeiros, sem qualquer consideração aos interesses nacionais. Seu principal alvo foi a Compagnie Auxiliaire de Chemins de Fer au Brésil, empresa sediada em Bruxelas, Bélgica, e controlada pelo megaempresário norte-americano Percival Farquhar, que explorava as ferrovias gaúchas desde 1905. Em 1920, em articulação com o Presidente Epitácio Pessoa, Pestana conseguiu que a União aprovasse a estatização da Auxiliaire e a criação da Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS), controlada pelo governo gaúcho e sediada em Santa Maria, principal centro ferroviário do Estado à época[11].

Presidente da VFRGS de 1920 a 1924 e Secretário Estadual de Viação e Obras Públicas entre 1926 e 1928[12], Pestana recuperou as linhas ferroviárias gaúchas e adquiriu novas composições. Apesar das circunstâncias adversas da Revolução de 1923, o transporte ferroviário de passageiros no Rio Grande do Sul subiu de 1,1 milhão em 1920 para 2 milhões em 1928, enquanto os números de carga saíram de 640 mil toneladas para 1 milhão de toneladas nesse mesmo período[13]. Pestana estabeleceu modelo de gestão, investimento e planejamento que asseguraria o bom funcionamento do transporte ferroviário gaúcho até sua absorção pela Rede Ferroviária Federal (RFFSA) em 1959 e seu posterior sucateamento nas décadas de 1960 e 1970[14].

Eleito novamente para a Câmara dos Deputados em 28 de abril de 1928, Pestana não participou das articulações da revolução de 1930 e preferiu não integrar o governo de seu correligionário e amigo Getúlio Vargas. Seu último cargo público foi o de diretor do porto de Porto Alegre em 1932. Faleceu no Rio de Janeiro em 29 de maio de 1934, em decorrência de complicações após cirurgia contra o câncer[15].

[editar] Legado e família

Monumento a Augusto Pestana, Praça da República, Ijuí.

Influenciado pela doutrina positivista de Comte, Pestana foi típico integrante da geração que definiu os rumos da República Velha. Contribuiu de modo decisivo para o desenvolvimento de Ijuí e do noroeste gaúcho, e defendeu, ao longo de toda a sua trajetória profissional, a implementação de políticas públicas robustas nas áreas de educação e infraestrutura, que considerava basilares para o desenvolvimento econômico e social do Rio Grande do Sul e do Brasil[16]. Deixou a imagem de administrador honesto, eficiente e conciliador, ainda que marcada pelo mesmo estilo autoritário e personalista dos governos de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros[17].

Museu Antropológico Diretor Pestana, Ijuí.

O município de Augusto Pestana, antigo distrito de Ijuí, recebe o seu nome, bem como o Museu Antropológico Diretor Pestana, o Colégio Evangélico Augusto Pestana, ambos em Ijuí, e estações ferroviárias e vias públicas em inúmeras cidades do Rio Grande do Sul.

Augusto Pestana casou-se em 1892 com Virgínia da Fontoura Trindade, filha de Miguel Cândido da Trindade, militar e político em Cachoeira do Sul, e neta do líder farroupilha Vicente da Fontoura, Ministro da Fazenda na República Rio-Grandense e negociador da paz de Ponche Verde, que pôs fim à Guerra dos Farrapos. O casal teve dez filhos, todos nascidos e criados no Rio Grande do Sul[18], entre os quais Clóvis Pestana (1904-2001), prefeito de Porto Alegre e Ministro dos Transportes nos Governos Dutra e Quadros, Cyro Pestana (1898-1982), Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul entre 1952 e 1968 e Presidente do Tribunal Regional Eleitoral em 1961-1962, e Celso Pestana (1900-1933), oficial da Marinha e ajudante-de-ordens da Presidência da República, morto no acidente com o carro que conduzia o Presidente Getúlio Vargas do Rio de Janeiro a Petrópolis, na noite de 20 de abril de 1933[19]. Augusto Pestana é bisavô da economista e militante socialista Vera Sílvia Magalhães (1948-2007), uma das principais lideranças da resistência armada à ditadura militar de 1964-1985, e de Carlos Pestana Neto, atual Secretário-Chefe da Casa Civil do Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

[editar] Ligações externas

O Commons possui uma categoria com multimídias sobre Augusto Pestana

Referências

  1. Almanaques Laemmert de 1869 a 1883, disponíveis em http://www.crl.edu/pt-br/brazil/almanak (Manuel José Pestana foi diretor da Biblioteca e do Gabinete Mineralógico do Palácio de São Cristóvão)
  2. FLORES, Moacyr. "Dicionário de História do Brasil". Porto Alegre, EDIPUCRS, 2008.
  3. ROCHA ALMEIDA, Antônio da. "Vultos da Pátria, volume I". Porto Alegre, Editora do Globo, 1961.
  4. SPALDING, Walter. "Construtores do Rio Grande". Livraria Sulina, Porto Alegre, 1969.
  5. FISCHER, Martin. "Augusto Pestana: o homem e sua obra". Ijuí, Museu Antropológico Diretor Pestana, 1968.
  6. FISCHER, Martin.Op.cit..
  7. LAZZAROTTO, Danilo. "História de Ijuí". Ijuí, Museu Antropológico Diretor Pestana, 1977.
  8. LAZZAROTTO, Danilo. op.cit.
  9. Página da Prefeitura Municipal de Ijuí (http://www.ijui.rs.gov.br/prefeito/ex), 2011.
  10. SPALDING, Walter. op.cit.
  11. LOVE, Joseph L. "O Regionalismo Gaúcho e as Origens da Revolução de 1930". São Paulo, Perspectiva, 1975.
  12. SPALDING, Walter. op.cit.
  13. Mensagens à Assembleia dos Representantes do Rio Grande do Sul pelo Presidente do Estado, Antônio Augusto Borges de Medeiros, 1920 a 1928, disponíveis em http://www.crl.edu/pt-br/brazil/provincial/rio_grande_do_sul
  14. PESTANA, Clóvis. Artigo no "Correio do Povo" sobre o centenário de Augusto Pestana. Porto Alegre, 22 de maio de 1968.
  15. "Correio da Manhã". Obituário de Augusto Pestana. Rio de Janeiro, 30 de maio de 1934.
  16. FISCHER, Martin. Op.cit.
  17. CREMONESE, Dejalma. "Capital social e padrões de participação político-social em Ijuí", disponível em http://br.monografias.com/trabalhos915/capital-social-padroes/capital-social-padroes.shtml
  18. ROCHA ALMEIDA, Antônio da. op.cit.
  19. Fundação Getúlio Vargas. "Verbete sobre Getúlio Dornelles Vargas", disponível em http://cpdoc.fgv.br/
Ferramentas pessoais
Espaços nominais
Variantes
Ações
Navegação
Colaboração
Imprimir/exportar
Ferramentas
Noutras línguas