Autismo

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O autismo causa frieiras nos pés.


Autismo
A fita feita de peças de quebra-cabeça, representando o mistério e a complexidade dessa patologia, é um símbolo mundial da conscientização em relação ao autismo.
Classificação e recursos externos
CID-10 F84
CID-9 299.00
OMIM 209850
DiseasesDB 1142
MedlinePlus 001526
eMedicine med/3202
MeSH D001321
Star of life caution.svg Aviso médico

O autismo é uma disfunção global do desenvolvimento. É uma alteração que afeta a capacidade de comunicação do indivíduo,

Em 2011, no Dia Mundial da Conscientização do Autismo, todo 2 de abril, conforme decretado pela ONU em dezembro de 2007[1] , a revista tornou-se a página oficial do evento[2] no país, reunindo informação de ações de entidades e de pequenos grupos de pessoas em todo o Brasil, em prol da divulgação de informações sobre autismo na luta por mais direitos e menos preconceito[3] . As ações brasileiras para a data conseguiram inclusive iluminar grandes monumentos de azul (cor símbolo do autismo), como o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro[4] , a Ponte Estaiada em São Paulo[5] , os prédios do Senado Federal e do Ministério da Saúde em Brasília[6] , o Teatro Amazonas em Manaus[7] , entre muitos outros.

Relato[editar | editar código-fonte]

O médico José Salomão Schwartzman, referência no Brasil em Neurologia da Infância e Adolescência, relata um caso interessante de autismo:

"Na década de 1970, recebi um paciente, R., com cinco anos de idade, encaminhado por uma amiga psicóloga. Era uma criança estranha, que tinha sido considerada, até pouco tempo antes, como portadora de deficiência mental. Muito embora tivesse apresentado desenvolvimento motor normal, a sua fala e seu comportamento se mostravam muito alterados.

Sua mãe relatava que ele havia ficado totalmente mudo até os 3, 4 anos de idade, quando, de um dia para outro, havia começado a ler manchetes dos jornais. Embora pudesse falar a partir de então, somente o fazia quando queria e quase nunca com a finalidade de se comunicar com os outros. Era isolado e parecia bastar-se, ignorando as pessoas que viviam à sua volta. Por outro lado, era muito inquieto e agitado, estando continuamente em movimento. Uma das poucas atividades que o deixavam mais tranquilo era ficar parado em uma das esquinas mais movimentadas de São Paulo observando os ônibus que passavam. Após uma hora de observação, demonstrava estar satisfeito. Chegando em casa, desenhava todos os ônibus que havia observado, com as cores e as placas corretas.

Reencontrei R. recentemente. É um adulto estranho; não gosta de fixar o olhar no interlocutor; fala de um modo bastante formal. Ao entrar no meu consultório, após todos esses anos, perguntou-me sobre o meu primeiro consultório e demonstrou lembrar-se de inúmeros detalhes de consultas ocorridas há cerca de 30 anos. Contou-me que, quando criança, haviam dito que ele era autista, imagine! Estava muito bem e ganhava o seu dinheiro fazendo ilustrações para cadernos pedagógicos de algumas escolas.

Na ocasião, o caso me pareceu singular na medida em que aquela criança, tida como deficiente mental, era seguramente diferente em vários aspectos de outras crianças com deficiência mental. A equipe que atendia R. achou que a melhor hipótese diagnóstica era a de Autismo, condição muito pouco conhecida e de diagnóstico muito difícil àquela época. O quadro, assim diagnosticado, passou a ser da alçada de psiquiatras e psicólogos. Para mim, então, tratava-se de uma patologia que não envolvia problemas relacionados a funções do sistema nervoso. Os tempos mudaram, e hoje sabemos que o Autismo é uma condição de bases biológicas e bem mais freqüente do que se acreditava. Há, na verdade, quem cite números muito maiores, o que decorre não somente de um maior conhecimento a respeito do assunto e, portanto, de uma identificação mais freqüente, mas também de um conceito que tem se expandido nos últimos anos, permitindo que quadros que anteriormente não receberiam este diagnóstico possam ser assim rotulados."[8]

Tratamentos do Autismo[editar | editar código-fonte]

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Existem diversas abordagens de tratamentos para o autismo, mas é um consenso entre elas que é importante a participação da família no tratamento independente da abordagem.[9]
Criança autista aprendendo a reconhecer animais. A terapia com animais é uma forma de levar a criança autista a reconhecer que outros seres vivos tem suas próprias reações e requerem compreensão, atenção e afeto.[10]
Mães das crianças com autismo apresentam estresse e depressão significativamente mais elevados, além de intimidade marital menor do que as mães de crianças com desenvolvimento típico.[9] [11]
A equoterapia ajuda na percepção do outro e no desenvolvimento de jogo social, mímica, postura corporal e gestos para iniciar e modular a interação com outro ser vivo.[12] .

O tratamento do autismo vai depender da gravidade do déficit social, de linguagem e comportamental que o indivíduo se encontra. Existem diversas abordagens, algumas muito melhor embasadas cientificamente que outras. Pais insatisfeitos com os resultados

Em crianças pequenas, a prioridade do tratamento normalmente é o desenvolvimento da fala, da interação social/linguagem, educação especial e suporte familiar. Já com adolescentes, o tratamento é voltado para o desenvolvimento de habilidades sociais necessários para uma boa adaptação, desenvolvimento de habilidades profissionais (terapia ocupacional) e terapia para desenvolvimento de uma sexualidade saudável. Com adultos, o foco está no desenvolvimento da autonomia, ensino de regras para uma boa convivência social e manutenção das habilidades aprendidas.[9]

De um modo geral o tratamento tem 4 objetivos[9] :

  1. Estimular o desenvolvimento social e comunicativo;
  2. Aprimorar o aprendizado e a capacidade de solucionar problemas;
  3. Diminuir comportamentos que interferem com o aprendizado e com o acesso às oportunidades de experiências do cotidiano; e
  4. Ajudar as famílias a lidarem com o autismo.

Os indivíduos com autismo têm uma expectativa de longevidade normal, porém sua agressividade, dificuldade de pedir ajuda e dificuldade em obedecer regras podem ser perigosos. Algumas formas de autismo grave exigem acompanhamento pelo resto da vida para evitar situações de risco.

O autismo é um transtorno que nunca desaparece completamente, porém com os cuidados adequados o indivíduo se torna cada vez mais adaptado socialmente. Intervenções apropriadas iniciadas precocemente podem fazer com que alguns indivíduos melhorem de tal forma que os traços autísticos ficam imperceptíveis para aqueles que não conheceram a trajetória desenvolvimental desses indivíduos. O diagnóstico precoce do autismo permite a indicação antecipada de tratamento.[9]

Um tratamento adequado deve levar em consideração as comorbidades (ou seja, outros transtornos associados a cada caso) para a realização de atendimento apropriado em função das características particulares do indivíduo. Exemplos de comorbidades incluem Transtorno obsessivo-compulsivo e problemas de aprendizagem.

A terapêutica pressupõe uma equipe multi e interdisciplinar – tratamento médico (pediatria e psiquiatria) e tratamento não-médico (psicologia, fonoaudiologia, pedagogia e terapia ocupacional), profissionalizante e inclusão social, uma vez que a intervenção apropriada resulta em considerável melhora no prognóstico.

O sucesso do tratamento depende não só do empenho e qualificação dos profissionais que se dedicam ao atendimento destes indivíduos, como também dos estímulos feitos pelos cuidadores no ambiente familiar. Quanto mais os cuidadores souberem sobre o tratamento do autismo, melhor para o desenvolvimento global da criança. Dentre os fatores mais importantes para o prognóstico do funcionamento social geral e desempenho escolar destacam-se o nível cognitivo da criança, o grau de desenvolvimento na linguagem e o desenvolvimento de habilidades adaptativas, como as de auto-cuidado.[13]

A demora no processo de diagnóstico e aceitação é prejudicial ao tratamento, uma vez que a identificação precoce deste transtorno global do desenvolvimento permite um encaminhamento adequado e influencia significativamente na evolução da criança.

Os atendimentos precoces e intensivos podem fazer uma diferença importante no prognóstico do autismo.

O quadro de autismo não é estático, alguns sintomas modificam-se, outros podem amenizar-se e vir a desaparecer, porém novas características poderão surgir com a evolução do indivíduo. É aconselhável avaliações sistemáticas e periódicas.

Analise do Comportamento Aplicada (ABA)[editar | editar código-fonte]

Um dos tratamentos mais populares, eficazes e sem prejuízos é o ABA. ABA é uma sigla que significa, Applied Behaviour Analysis, que em português significa, Análise do Comportamento Aplicada. Análise do Comportamento Aplicada é uma área de pesquisa de novas tecnologias embasadas na psicologia comportamental, sendo uma delas o tratamento do autismo. Essa eficácia levou a uma legislação que obriga os serviços de saúde americanos, que utilizam terapias baseadas em evidências, a disponibilizarem esse tratamento.[14]

Dentre as técnicas da terapia analítico-comportamental utilizadas incluem: Procedimentos de treino incidental, análises de tarefas, encadeamento, tentativas instrucionais embutidas em atividades e treino de tentativas discretas.[15] Mais informações sobre o ABA

Picture Exchange Communication System (PECS)[editar | editar código-fonte]

Um recurso popular para ajudar no desenvolvimento da linguagem é o PECS (Picture Exchange Communication System), um sistema baseado em figuras com figuras que refletem as necessidades e/ou o interesse individuais. Este sistema facilita tanto a comunicação quanto a compreensão, quando se estabelece a associação entre a atividade/símbolos.[16] Mais informações sobre o PECS

Método TEACCH[editar | editar código-fonte]

O método TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Related Communication Handicapped Children) é um técnica muito popular no mundo que combina diferentes estímulos visuais e auditivos com o objetivo de aperfeiçoar a linguagem, melhorar o aprendizado e reduzir comportamentos inapropriados. Áreas, objetos, palavras, recipientes de cores diferentes e a fala do terapeuta são utilizados para instruir as crianças sobre suas atividades diárias de forma a emparelhar o símbolo com o respectivo objeto, local ou atividade no mundo real. O desenvolvimento da criança é avaliado regularmente pelo PEP 3 (Psychoeducational Profile 3) para verificar os resultados da abordagem.Mais informações sobre Teacch

Farmacoterapia[editar | editar código-fonte]

A farmacoterapia continua sendo componente importante em um programa de tratamento, porém nem todos indivíduos necessitarão utilizar medicamento. Medicamentos que atuam na dopamina e na serotonina podem ajudar a reduzir alguns sintomas como redução de estereotipias, retraimento social e comportamento agressivo ou auto-agressivo.[17] mais informações sobre medicamentos para autismo

Escola normal X Educação especial[editar | editar código-fonte]

Existem casos em que crianças com autismo em escola normal tiveram melhor desenvolvimento de habilidades sociais do que as crianças em escolas especiais, porém isso não ocorre na maioria dos casos. É importante que cada caso seja tratado individualmente, focando nas necessidades e potencialidades da criança. Existem inúmeras vantagens de se levar a criança com autismo a conviver com aquelas sem comprometimento e de estimular que ela aprenda com as outras por meio da imitação, mas também não esquecer o risco de que ela seja vítima de bullying dos colegas. Já na escola especial é provável que ela tenha uma atenção especial de profissionais melhor treinados e conheçam outras crianças com problemas semelhantes. Cabe aos pais decidirem qual a melhor opção para seu filho.[9]

Questões Polêmicas[editar | editar código-fonte]

Em 1999, o médico Andrew Wakefield publicou o artigo MMR vaccination and autism, estabelecendo uma suposta relação entre a vacina tríplice e o autismo[18] . Diversos estudos médicos foram conduzidos desde então a fim de se comprovar ou não essa relação, sendo que não houve evidências nesses novos estudos acerca dessa hipótese. Em 2010, o Conselho Médico Geral britânico (em inglês, General Medical Council) considerou que o dr. Wakefield agiu de maneira aética e desonesta ao vincular a vacina tríplice ao autismo e cassou seu registro profissional no Reino Unido em maio de 2010[19] . Ainda de acordo com o Conselho Médico Geral britânico, a sua conduta trouxe má reputação à profissão médica depois que ele coletou amostras de sangue de jovens na festa de aniversário de seu filho pagando-lhes £5. Considera-se também que o sarampo tenha ressurgido no Reino Unido devido ao receio dos pais em aplicarem a vacina tríplice em seus filhos: as taxas de vacinação nunca mais voltaram a subir e surtos da doença tornaram-se comuns[20] . Boatos disseminados na internet acusam a influente indústria farmacêutica de fazer lobby para "abafar" essa informação. Atualmente, Wakefield prossegue com suas pesquisas nos EUA.

Dez anos após a publicação do artigo o periódico publicou uma completa retratação[21] após as declarações do Conselho Médico Geral britânico.

Nos últimos dez anos uma dezena de pesquisas realizadas na tentativa de encontrar uma correlação entre a vacina tríplice e autismo não acharam nenhuma evidência que comprovasse os dados preliminares do artigo de Wakefield.[22] . Várias famílias foram influenciadas pela polêmica criada pela mídia logo após a publicação do artigo de Wakefield e hoje, no Reino Unido e nos Estados Unidos, doenças consideradas extintas devido a aplicação de vacinas regulares voltaram a matar crianças em famílias que resolveram não vacinar seus filhos[23] .

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Na ficção[editar | editar código-fonte]

"Adam": com Hugh Dancy

"Bolo de Neve" com Sigourney Weaver

"Parenthood"

"The black ballon" de Elissa Down

Referências

  1. Mônica Villela Grayley. ONU marca 1º Dia Mundial sobre Autismo. Rádio ONU.
  2. Event Schedule 2011 (em inglês). Site oficial do WAAD - World Autism Awareness Day (Março de 2011).
  3. Paiva Junior (26 de Fevereiro de 2010). Eventos do Dia Mundial de Conscientização do Autismo 2011. Revista Autismo.
  4. Paulo Marcio Vaz (1 de Abril de 2011). Autistas iluminam Cristo Redentor de azul para cobrar mais atenção à causa. Jornal do Brasil.
  5. João Batista Jr. (6 de Abril de 2011). ONG Autismo & Realidade ilumina marcos da cidade de azul. Veja São Paulo.
  6. 2 de abril: Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Conselho Nacional de Saúde (1 de Abril de 2011).
  7. Teatro Amazonas será iluminado de azul para comemorar Conscientização do Autismo. Globo.com - Portal Amazonia.com (27 de Março de 2011).
  8. SCHAWARTZMAN, José Salomão, médico especialista em Neurologia da Infância e Adolescência
  9. a b c d e f Cleonice Alves Bosa. Autismo: intervenções psicoeducacionais. Rev Bras Psiquiatr. 2006;28(Supl I):S47-53 http://www.scielo.br/pdf/%0D/rbp/v28s1/a07v28s1.pdf
  10. FINE, A. Handbook on Animal – Assisted Therapy: Theoretical Foundatios and Guidelines for Practice. San Diego: Academic Press, 2000.
  11. Fisman SN, Wolf LC, Noh S. Marital intimacy in parents of exceptional children. Can J Psychiatry. 1989;34(6):519-25.
  12. [1]
  13. Venter A., Lord C, Schopler E. A follow-up study of high-functioning autistic children. J Child Psychol Psychiatry. 1992;33(3):489-507.
  14. Howlin P. Practitioner review: psychological and educational treatments for autism. J Child Psychol Psychiatry. 1998;39(3):307-22.
  15. [2]
  16. Quill K. Instructional considerations for young children with autism: the rationale for visually cued instruction. J Autism Dev Disord. 1997;27(6):697-714.
  17. [3]
  18. WAKEFIELD, Andrew J.. . "MMR vaccination and autism". The Lancet 354 (9182): 949 - 950. DOI:10.1016/S0140-6736(05)75696-8. Página visitada em 31/05/2010.
  19. PAIVA JUNIOR (16 de Setembro de 2010). Polêmica entre vacina e autismo termina em cassação de médico. Revista Autismo, edição de setembro de 2010.
  20. Artigo que associa vacina a autismo é condenado. Estadão (03 de fevereiro de 2010). Página visitada em 31/05/2010.
  21. Autismo, vacinas e The Lancet. New Yorker (2 de fevereiro de 2010). Página visitada em 24/11/2010.
  22. Immunizations and autism: a review of the literature.. New Yorker (02 de fevereiro de 2010). Página visitada em 24/11/2010.
  23. A broken trust: lessons from the vaccine–autism wars.. PLoS Biol. (2009). Página visitada em 24/11/2010.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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