Auto-hemoterapia

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Auto-hemoterapia é uma prática terapêutica isoterápica[1] , que consiste na extração de sangue venoso de uma pessoa, e sua reinjeção na mesma pessoa, por via intramuscular.[2]

A técnica[editar | editar código-fonte]

A técnica consiste na prévia extração de sangue venoso do paciente com o alegado propósito terapêutico, seguida de sua injeção intramuscular na mesma pessoa , o que — segundo advertem oficialmente as autoridades sanitárias[3] e a comunidade científico-médica[4] — pode ocasionar abscessos na pele, dores, edemas, hematomas, infecções, além de evoluir para quadros clínicos mais severos, como a coagulação intravascular disseminada, sangramento generalizado, entre outros efeitos.

Os que defendem a auto-hemoterapia dizem que a técnica estimula o aumento do percentual de macrófagos, aumentando também as defesas do organismo e eliminando as bactérias, os vírus, as células cancerosas (neoplásicas) e a fibrina, que é o sangue coagulado. Esse aumento de produção de macrófagos pela medula óssea se dá porque o sangue no músculo funciona como um corpo estranho a ser rejeitado pelo Sistema Retículo Endotelial (SRE). Enquanto há sangue no músculo, o Sistema Retículo Endotelial mantém-se ativado. Essa ativação máxima termina ao fim de cinco dias. A taxa normal de macrófagos é de 5% no sangue e, com a auto-hemoterapia, eleva-se para 22% durante cinco dias. Do quinto ao sétimo dia declina, voltando aos 5%. Daí a razão de recomendarem que a aplicação seja repetida de sete em sete dias. Segundo o médico Luiz Moura, o uso da auto-hemoterapia resulta num estímulo imunológico poderosíssimo.[5]

Perigos, críticas e ilegalidade[editar | editar código-fonte]

A auto-hemoterapia encontra-se rodeada em polémica.[6] O argumento de vários defensores da prática baseia-se em relatos de pessoas que garantem ter atingido a cura graças ao uso da auto-hemoterapia,[7] [8] enquanto que os seus críticos apontam para a inexistência de estudos que demonstrem a sua eficácia e segurança.[9] A falta de respaldo científico é reconhecida pelos próprios defensores do método.[10]

Segundo a legislação brasileira, apenas o médico especialista em hematologia ou hemoterapia (ou o profissional devidamente reconhecido para este fim pelo Sistema de Saúde) pode responsabilizar-se por procedimentos hemoterapêuticos.[11] O Conselho Federal de Medicina proíbe aos médicos brasileiros a utilização de outras práticas terapêuticas não reconhecidas por essa comunidade científica,[9] como é presentemente o caso da auto-hemoterapia, que, assim, não pode ser considerada um tratamento médico no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo e a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) consideram que a auto-hemoterapia apresenta riscos à saúde.[12]

Considera-se que auto-hemoterapia seja um tipo de transfusão sanguínea autóloga (para si próprio), e assim, como qualquer outra transfusão, traz em si um risco,[11] seja imediato ou tardio, pelo que, deve ser criteriosa e competentemente indicada. A ausência de indicações comprovadas é parte do motivo pelo qual, no Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) considera o uso da auto-hemoterapia uma infração sanitária, e, em consequência, sujeita os envolvidos (ativa ou passivamente) às penalidades previstas na lei. Apesar disto, muitos médicos utilizam estas técnicas, como a PRP [13]

Doutro lado, alguns dos defensores da auto-hemoterapia afirmam que, por trás do seu não reconhecimento, estariam interesses prejudicados da indústria farmacêutica, já que o tratamento com a auto-hemoterapia dispensaria o uso de diversos medicamentos, argumento esse que, pelas autoridades e especialistas, tem sido considerado apenas mais uma expressão de Teoria da Conspiração do que da realidade.

O Jornal do Conselho Federal de Medicina nº 168 traz "Nota de esclarecimento" afirmando que "Em face de falha na redação do artigo 'Auto-hemoterapia não tem eficácia comprovada' no Jornal Medicina (XXII, 167, DEZ/2007, p.11), esclarecemos que o procedimento terapêutico denominado 'tampão sanguíneo peridural' é cientificamente amparado por relevante literatura médica e remetemos o leitor ao texto que trata dessa matéria no Parecer CFM 12/07." Trata-se da permissão do uso desse tipo de auto-hemoterapia pelos anestesiologistas. Da mesma forma que é usada e permitida atualmente a auto-hemoterapia na forma de "plasma rico em plaquetas - PRP".[14]

Em vista da proibição do uso da auto-hemoterapia, os seus usuários invocam a Declaração de Helsinque que, nos seus Princípios Adicionais para Pesquisa Clínica combinada a Cuidados Médicos, da Associação Médica Mundial, afirma que “No tratamento de um paciente, quando métodos profiláticos, diagnósticos e terapêuticos comprovados não existem ou foram ineficazes, o médico, com o consentimento informado do paciente, deve ser livre para utilizar medidas profiláticas, diagnósticas e terapêuticas não comprovados ou inovadores, se no seu julgamento, esta ofereça esperança de salvar vida, restabelecimento da saúde e alívio do sofrimento. Quando possível, estas medidas devem ser objeto de pesquisa, desenhada para avaliar sua segurança ou eficácia. Em todos os casos, as novas informações devem ser registradas e, quando apropriado, publicadas. As outras diretrizes relevantes desta Declaração devem ser seguidas”.[15]

Trabalhos e Pesquisas[editar | editar código-fonte]

A auto-hemoterapia passou a ser defendida mais fortemente em 2004, quando o Dr. Luiz Moura publicou um artigo intitulado “Auto-hemoterapia” [16] no qual explica o funcionamento da técnica, faz um histórico e apresenta informações sobre a sua ação terapêutica. O artigo cita trabalho de pesquisa científica realizado pelo médico Jessé Teixeira - Complicações Pulmonares Pós- Operatórias Autohemotransfusão [17] e texto produzido pelo médico Ricardo Veronese sobre o tema - Imunoterapia: O impacto médico do século [18] . É mostrado também que a auto-hemoterapia foi tema de tese de doutorado em 1924, “A auto-hemoterapia nas dermatoses”, realizada pelo Dr. Alberto Carlos David na Universidade do Porto [19] . Ao contrário do que está colocado em parecer do CFM, não é verdade que essa terapêutica não tenha nenhum fundamento, nem que não haja nenhum trabalho publicado sobre ela na literatura mundial ou nacional, como afirma a SBHH (Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia). Na base de dados Pubmed, do NIH (Instutito Nacional de Saúde americano), considerada a maior base de dados médicos do mundo, existem cerca de 106 estudos científicos publicados sobre auto-hemoterapia, a maioria sendo clínicos [20] .

Referências

  1. , Olney Leite. Farmácia Homeopática - Teoria e prática. São Paulo:Editora Manole, 2001
  2. ABMC - Biblioteca de doenças. Cópia arquivada em 15 de Abril de 2007.
  3. ANVISA: Nota Técnica nº 1 de 13 de abril de 2007 (acessado em 8 de Março de 2008, 08:17 (GMT))
  4. Especialista alerta que Auto-hemoterapia pode causar a morte, perda da cabeça e danos irreversíveis O Jornal de Hoje. Visitado em 19 de setembro de 2010.
  5. Auto-Hemoterapia. Dr. Luiz Moura hemoterapia.org. Visitado em 04 de abril de 2013.
  6. Observatório da Imprensa. Visitado em 11 de agosto de 2008.
  7. Pesquisa virtual sobre auto-hemoterapia. Visitado em 4 de novembro de 2013, 12:01 (GMT).
  8. ABMC - 2. A ação terapêutica da auto-hemoterapia. Cópia arquivada em 12 de Agosto de 2007.
  9. a b SBHH emite comunicado sobre "auto-hemoterapia". Visitado em 8 de Março de 2008, 06:21 (GMT).
  10. Auto-Hemoterapia.. Visitado em 04 de Março de 2013, 12:06 (GMT).
  11. a b ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária. "Resolução RDC nº 153, de 14 de junho de 2004; art. A.3". Acessado em 8 de Março de 2008, 06:55 (GMT).
  12. "Auto-hemoterapia apresenta riscos à saúde, alertam especialistas"
  13. http://www.prpbelem.com.br/noticias/entenda-o-que-e-prp-plasma-rico-em-plaquetas
  14. Processo-Consulta CFM Nº 4.275/07 – Parecer CFM Nº12/07 portalmedico.org.br. Visitado em 9 de fevereiro de 2011.
  15. http://pt.wikipedia.org/wiki/Declara%C3%A7%C3%A3o_de_Helsinque
  16. Auto-hemoterapia.
  17. Complicações Pulmonares Pós- Operatórias Autohemotransfusão.
  18. Imunoterapia: O impacto médico do século.
  19. A auto-hemoterapia nas dermatoses.
  20. Auto-hemoterapia é um tratamento ainda experimental.
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