Awá (Guajá)

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Awá (Guajá)
População total

365[1]

Regiões com população significativa
Maranhão e Pará, no Brasil
Línguas
língua guajá
Religiões

Os Guajá, autodenominados Awá (termo que significa "homem, gente, pessoa"[2] ), são um grupo indígena brasileiro que habita o noroeste do estado do Maranhão (nas terras indígenas de Caru, Awá, Alto Turiaçu e Araribóia) e o sudeste do estado do Pará (TI Alto Rio Guamá)[3] . São nômades e coletores. São considerados semicontatados, tendo havido contatos com a Fundação Nacional do Índio desde 1973. Entretanto, acredita-se que ainda haja grupos Awá não contatados no sul do Maranhão.[4]

História[editar | editar código-fonte]

Acredita-se que os Awá (Guajá) sejam originários da região do Baixo Tocantins, onde teriam sido parte de um grupo maior, juntamente com as etnias caapor, tembé e guajajara. Há relatos da presença dos Awá na região desde o século XVII.[5] Com a expansão luso-brasileira sobre essa região, teria havido uma separação entre esses grupos. A partir da Cabanagem (1835-1840), os Awá teriam migrado para o Maranhão [2]

Oficialmente, o primeiro contato com não índios foi registrado em 1979, quando a política indigenista do governo brasileiro era promover a atração dos grupos classificados como 'arredios', com o objetivo de fixá-los em uma área específica de modo a não só facilitar o atendimento médico e a segurança alimentar do grupo mas também evitar conflitos nas áreas dos grandes projetos governamentais da época, tais como a Estrada de Ferro Carajás.[5]

Nos anos seguintes, mais seis contatos foram realizados, e deles resultaram a criação de duas aldeias Awá que, juntas, reúnem atualmente 400 índios. Há, porém, outros grupos que, para evitar o contato com as frentes de atração, embrenharam-se cada vez mais na mata. O número de indivíduos nessas condições é impreciso, mas, segundo a Funai, há pelo menos dois grupos familiares que ainda vagam pela região, sob condições de sobrevivência cada vez mais difíceis. A partir dos anos 1980, a política indigenista brasileira mudou e já não visa o aldeamento forçado mas o respeito ao modo de vida tradicional das etnias. Para isso, demarca-se um território suficiente para que possam viver isoladas, se assim o quiserem. "O contato [com os brancos] traz, historicamente, uma média de perda de 50% da população", segundo o chefe da Coordenação Geral de Índios Isolados da Funai, Carlos Travassos. [5]

Estilo de vida[editar | editar código-fonte]

Os Awá ainda mantêm o estilo de vida tradicional, sobrevivendo de caça e coleta de frutos. Acredita-se que, ao se tornarem nômades, tenham perdido a habilidade da agricultura. Apenas após o contato com a Funai voltaram a cultivar lavouras de mandioca, através de um difícil processo de readaptação.[4]

O manejo do alimento é moldado por resquícios de crenças ancestrais. A caça é a principal forma de obtenção de alimentos. É uma atividade grupal, envolvendo também as mulheres e as crianças, que aprendem desde cedo a manejar armas - arcos, flechas e também espingardas.[4] Um estudo de 2009 realizado pelo Instituto de Biociências (IB) da USP demonstrou que o número de bugios e macacos-prego abatidos pelos índios estava acima da capacidade de reposição populacional das espécies. O aumento da população indígena e o uso de armas de fogo são causas prováveis do problema. Em 1993 havia 94 pessoas na comunidade Awá. Em 2009, na época do estudo, eram 150. Segundo o biólogo Helbert Medeiros Prado, no final dos anos 1980 havia somente duas armas de fogo na comunidade. Em 2009, cerca de 70 indígenas possuíam armas.[6]

Conflitos de terras[editar | editar código-fonte]

Os Awá têm sido vítimas constantes de invasão de seu território por pecuaristas, agricultores e madeireiros,[7] com quem entram em conflitos violentos[8] [9] .[10]

Em 2012, a organização Survival International classificou a tribo como a mais ameaçada do mundo.[11]

"A situação da etnia é de vulnerabilidade extrema. É o processo mais próximo do que se pode chamar de genocídio, hoje, no Brasil", segundo o indigenista Carlos Travassos.[5]

Antes do contato com os brancos, os Awá eram mais de mil. Segundo Sarah Shenker, ativista da Survival International, que há 40 anos acompanha a situação dos indígenas no Brasil, com atenção especial aos Awá, "quando a ferrovia atravessou a terra dos Awá, muitos não indígenas massacraram famílias inteiras. Outros morreram de doenças que não existiam quando viviam isolados".[12]

Em 1992, a terra dos Awá foi declarada de posse permanente desse grupo indígena, tendo sido homologada por decreto do presidente Lula em 2005. Foram movidas ações judiciais por proprietários rurais, que foram derrotados. O prazo para desintrusão da área (a retirada dos não índios) já venceu. Cabe agora ao governo federal enviar forças policiais à região para garantir o cumprimento da ordem judicial e fazer com que a terra seja entregue aos cerca de 400 Awá que vivem lá. Os ruralistas têm se mobilizado intensamente contra a demarcação de terras indígenas e, em agosto de 2013, levaram à Comissão da Amazônia da Câmara dos Deputados dezenas de pequenos produtores uniformizados de camisetas amarelas com a frase: "Diga não à demarcação da suposta terra indígena Awá-Guajá". Recrutados nas cidades de Zé Doca e São João do Caru, eles viajaram três dias de ônibus até Brasília para participar de uma audiência pública dominada por parlamentares ruralistas.[13]

Em 2013, cerca de 700 não índios habitavam ilegalmente as terras dos indígenas [12] Em janeiro de 2014, os ocupantes ilegais já eram 1200, quando o governo brasileiro iniciou a desintrusão da Terra Indígena Awá-Guajá.[14] Trata-se de uma das maiores operações dessa natureza já empreendidas. A área de 116 mil hectares, destinada aos Awá desde 1992, está localizada no noroeste do Maranhão, entre os municípios de Centro Novo do Maranhão, Governador Newton Bello, São João do Caru e Zé Doca, na região Noroeste do Maranhão. A partir de 3 de janeiro, o Exército participa somente com a montagem da base principal, em São João do Caru, que dará apoio logístico aos órgão governamentais responsáveis por executar a desintrusão - ou seja, a retirada de não índios da área. Ali, atividades ilegais, como a extração de madeira,[15] já consumiram mais de 40% da cobertura florestal. Os pequenos agricultores que ocupam as terras e que se enquadrarem nos critérios do Plano Nacional de Reforma Agrária serão reassentados pelo governo federal.[16] [17] [18] [19]

Referências

  1. FORLINE, Louis Carlos. Povos indígenas no Brasil. "Guajá". Demografia. Maio de 2005.
  2. a b FORLINE, L. C. Povos indígenas no Brasil. "Guajá. Nome e língua". Acesso em 29 de junho de 2013.
  3. Terra Indígena Alto Rio Guamá
  4. a b c O povo esquecido. Globo Rural, ed. 296, junho de 2010
  5. a b c d Operação na Amazônia visa sobrevivência da etnia mais ameaçada do mundo. Por Najla Passos. Carta Maior, 7 de fevereiro de 2014.
  6. Modelo de caça de índios Guajás no Maranhão não vem sendo sustentável. Agência USP.
  7. Manifestantes interditam rodovia no MA em protesto contra operação do Ibama e do Exército. Por Luciano Nascimento. Agência Brasil, 21 de agosto de 2013.
  8. Folha de S. Paulo. Tribo amazônica Awá-Guajá pode desaparecer, diz ONG. Folha de S. Paulo, 16 de fevereiro de 2011.
  9. Os guajás, uma tribo em perigo, pedem ajuda. Por Gethin Chamberlain. Folha de São Paulo/Observer, 24 de abril de 2012.
  10. Paraíso sitiado - O drama dos índios Awá e a resistência de seu povo que tenta impedir a ação criminosa de madeireiros na Reserva Biológica Gurupi, onde o território indígena já perdeu 30% de sua paisagem original. Reportagem de Míriam Leitão. Fotos de Sebastião Salgado
  11. 'They're killing us': world's most endangered tribe cries for help. Por Gethin Chamberlain. The Guardian/The Observer, 22 de abril de 2012.
  12. a b Expulsão de madeireiros das terras dos índios Awá pode levar a conflito armado. POr Ivana Ebel. Deutsche Welle, 20 de novembro de 2013
  13. Ruralistas fazem pressão contra terras indígenas. Câmara debateu demarcação em áreas dos Awá-Guajá no Maranhão. O Globo, 20 de agosto de 2013.
  14. Funcionários da Justiça Federal começam a desocupação da reserva indígena Awá-Guajá . Rede Globo, 7 de janeiro de 2014
  15. Vídeo. Força-Tarefa encontra provas de exploração ilegal de madeira em reserva no Maranhão. Rede Globo. Jornal Nacional, 8 de janeiro de 2014
  16. Vídeo. Funcionários da Justiça Federal começam a desocupação da reserva indígena Awá-Guajá
  17. Governo cumpre decisão judicial e inicia processo de desintrusão da Terra Indígena Awá-Guajá. Funai, 3 de janeiro de 2014
  18. PNRA II
  19. Desintrusão da TI Awá Guajá: o início da superação de negação dos direitos. Cimi - Conselho Indigenista Missionário, 30 de janeiro de 2014.