Bardanes, o Turco

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Bardanes, o Turco
Nascimento fl. 795 — 803
Nacionalidade Império Bizantino Império Bizantino
Etnia Arménio ou cazar
Cônjuge Domnica
Filho(s)
Ocupação General e patrício
Principais trabalhos
Religião Cristianismo

Bardanes, alcunhado Tourkos ("o turco"; em grego: Βαρδάνης ὁ Τοῦρκος; em armênio/arménio: Վարդան; transl.: Vardan; fl. 795 — 803) foi um general bizantino de origem arménia que ficou conhecido por ter liderado uma rebelião fracassada contra o imperador Nicéforo I, o Logóteta (r. 802–811) em 803.

Apesar de ter sido um dos principais apoiantes da imperatriz bizantina Irene de Atenas (r. 797–802), pouco depois desta ter sido destronada, Bardanes foi nomeado por Nicéforo como comandante em chefe dos exércitos da Anatólia. Foi nessa posição que lançou uma revolta em julho de 803, provavelmente por discordar das políticas económicas e religiosas de Nicéforo. As suas tropas marcharam para Constantinopla mas não obtiveram apoio popular. Entretanto, alguns dos seus principais apoiantes abandonaram-no e, relutante em enfrentar as forças lealistas em batalha, Bardanes decidiu render-se. Retirou-se como monge para um mosteiro que tinha fundado, onde foi cegado, possivelmente por ordens de Nicéforo.

Origem e início de carreira[editar | editar código-fonte]

Nada se conhece sobre a juventude de Bardanes. A generalidade dos historiadores modernos consideram-no um arménio baseados no seu nome, o qual é uma forma helenizada de Vardan, enquanto que a sua alcunha "Tourkos", posta após a sua revolta, provavelmente de forma depreciativa, pode indiciar origem cazar.[1] [2]

Bardanes é provavelmente o patrício Bardanios que aparece na crónica de Teófanes, o Confessor escrita em meados de da década de 790. Em 795, esse Bardanios era doméstico das escolas e foi enviado para prender o monge Platão de Sacúdio por este se opor ao segundo casamento do imperador Constantino VI (r. 780–797) com Teódote, sobrinha de Platão. Em 797, como estratego (governador militar) da tema (região militar) Tracesiano, o mesmo Bardanios apoiou a imperatriz-mãe Irene de Atenas quando ela usurpou o trono ao seu filho Constantino VI.[3] [4] [5] Na segunda-feira de Páscoa, 1 de abril de 799, é referido como um dos Patrícios que, juntamente com Nicetas Trifílio, Sisínio Trifílio e Constantino Boilas, conduziu os cavalos da carruagem da imperatriz numa procissão triunfal desde o palácio até à Igreja dos Santos Apóstolos.[6] [7]

Irene foi destronada e enviada para o exílio pelo logóteta geral (ministro das finanças) Nicéforo em 31 de outubro de 802. Por essa altura, Bardanes era patrício e estratego dos tracesianos, mas em breve foi transferido para o comando da poderosa Tema Anatólico. Ao que parece, nos anos seguintes o imperador Nicéforo nomeou Bardanes para o posto de monoestratego ("general único", ou seja e na prática, comandante em chefe) das cinco temas terrestres da Anatólia, um título só conferido em casos excecionais. A motivação de Nicéforo seria provavelmente a de preparar uma campanha contra os árabes após ter-se recusado continuar a pagar o tributo anual ao Califado Abássida.[2] [8] [9] [10] De salientar que não há certeza que essa nomeação tenha realmente acontecido, pois Bardanes só é mencionado como monoestratego por fontes posteriores, enquanto as fontes quase contemporâneas só o mencionam como estratego do Tema Anatólico. É possível que os autores posteriores tenham interpretado erroneamente o seu título como significando "general de todo o Oriente" (Anatole).[11]

Revolta[editar | editar código-fonte]

Soldo de ouro de Nicéforo I, o Logóteta e do seu filho Estaurácio

Em julho de 803, um exército abássida comandado por al-Qasim, um filho do califa Harun al-Rashid (r. 786–809), começou a avançar para a fronteira bizantina. Devido a Nicéforo ter fraturado o pé no início de maio, coube a Bardanes comandar o exército bizantino contra os árabes, para o que reuniu as tropas das várias temas da Anatólia.[12] Em meados de julho (a data varia conforme os historiadores como 16, 18 ou 19 de julho), Bardanes foi proclamado imperador pelas tropas reunidas dos temas Anatólico, Tracesiano, Opsiciano e Bucelário. O Tema Armeníaco não se juntou à revolta, possivelmente devido à sua tradicional rivalidade com o Anatólico ou devido a ainda não se ter reunido ao resto do exército. Também tem sido posta a hipótese de Bardanes ter participado na supressão da revolta dos Armeníacos de 793, deixando uma memória hostil em relação a si entre as tropas daquele tema.[12] [13] [14]

Os cronistas bizantinos que relataram a revolta de Bardanes estão de acordo em relação às motivações das tropas serem principalmente de índole económica. Nicéforo tinha iniciado uma política orçamental de austeridade para consolidar as finanças do império, a qual incluiu a revogação da isenção de impostos sucessórios para os soldados. Além disso, ao que parece houve períodos em que os soldados ficaram sem receber salário. Por seu lado, Bardanes tinha boa reputação nesse domínio, pois repartia com os soldados o produto das pilhagens das campanhas contra os árabes.[12] [14] [15]

Mapa das temas (regiões militares) terrestres da Trácia e Anatólia e da fronteira bizantina-árabe ca. de 780, vinte anos antes da revolta de Bardanes

As motivações de Bardanes são menos claras. Segundo os cronistas bizantinos, ele aceitou a aclamação com relutância, depois de insistir com soldados para que o autorizassem a ir-se embora. Mas de acordo com outra versão, antes da revolta, Bardanes, acompanhado dos seus principais associados, Tomás, o Eslavo, Leão, o Arménio e Miguel, o Amoriano, visitou um homem santo em Filomélio para saber as possibilidades de sucesso da revolta. O monge profetizou corretamente que a rebelião fracassaria, que Tomás também viria a iniciar outra revolta e que Leão e Miguel reinariam como imperadores. Se isto for mesmo verdade e não uma invenção posterior, pode indicar que Bardanes planeou a sua revolta antecipadamente.[12] [14] [15] [16]

Além da sua ambição pessoal, Bardanes era também um membro da aristocracia rural e um devoto iconófilo, que apoiava o regime da imperatriz Irene, sendo por isso visto pelas elites tradicionais como um representante da oposição às políticas de Nicéforo, tanto no campo religioso, onde o imperador mantinha uma atitude cautelosamente neutra em relação a iconoclastas e iconófilos, como no campo sócio-económico, onde novos impostos relacionados com a propriedade de terras e a expropriação de propriedades da igreja feriam os seus interesses.[17] O historiador Warren Treadgold vai mais longe e sugere que a revolta foi uma reação contra a usurpação de Nicéforo e tinha como objetivo, pelo menos aparente, a reposição de Irene no trono. Contudo, a morte desta em Lesbos a 8 de agosto, retirou aos rebeldes qualquer crédito de legitimidade.[18]

A revolta teve lugar provavelmente em Amório, a capital do Tema Anatólico. Daí, o exército rebelde, constituído por quase metade das forças militares do império, marchou para norte e para oeste, seguindo a estrada militar para Nicomédia e depois para Crisópolis, a cidade situada na margem do Bósforo em frente da capital imperial, Constantinopla. Bardanes esteve aí acampado durante oito dias, esperando um possível levantamento contra Nicéforo no interior da capital em resposta à sua própria rebelião. Dado que isso não aconteceu e a populaça se mostrou pouco entusiástica, ele retirou para a grande base militar em Malagina, no norte da Bitínia. Ali, dois dos seus associados, Miguel, o Amoriano, e Leão, o Arménio, abandonaram-no e foram por isso bem recompensados por Nicéforo. Miguel tornou-se "Conde da Tenda" e Leão foi nomeado comandante do regimento dos federados.[13] [19] [20] [21]

Esta deserção desencorajou Bardanes ainda mais e, relutante em enfrentar o exército lealista em batalha, optou por negociar a rendição através da mediação de José, o hegúmeno (abade) do mosteiro de Kathara, que tinha feito o segundo casamento de Constantino VI. Bardanes recebeu uma carta assinada pelo patriarca Tarásio e vários senadores proeminentes que garantia que nem ele nem qualquer dos seus subordinados seria punido se se rendessem. Como prova adicional de boa fé, Nicéforo enviou a sua cruz de ouro juntamente com a carta.[15] [22] [23] [24] A 8 de setembro de 803, Bardanes deixou o seu exército em Malagina e dirigiu-se ao mosteiro de Herakleios, em Cio (Prusias ad Mare), no Mar de Mármara, e daí embarcou num navio enviado por Nicéforo para o mosteiro que ele próprio tinha fundado na ilha de Prote (atualmente Kınalıada), onde ingressou como monge.[24]

Rescaldo e consequências[editar | editar código-fonte]

Depois da retirada de Bardanes, Nicéforo demitiu-o formalmente dos seus cargos e confiscou grande parte das suas propriedades. Os outros generais dos temas que participaram na revolta foram igualmente demitidos dos seus postos, bem como vários bispos proeminentes da Anatólia Ocidental, enquanto os soldados ficaram sem receber salário durante um ano.[25] [26] [27] [28]

Gravura da crónica Escilitzes de Madrid representando Tomás, o Eslavo, um dos comandantes de Bardanes que se autoproclamou imperador no início da década de 820, a negociar com os árabes vestido como imperador

Apesar das garantias, em dezembro de 803 ou em 804, um grupo de soldados "licónios" (possivelmente paulicianos) desembarcaram em Prote e cegaram Bardanes.[22] Este ato foi altamente simbólico, pois esse era um castigo usual para os rebeldes e heréticos, bem como para imperadores depostos e rivais políticos, para evitar que se tornassem novamente uma ameaça.[29] É muito provável que a punição tivesse sido ordenada pelo próprio imperador, apesar de posteriormente Nicéforo ter jurado publicamente perante o Senado que nada tinha tido a ver com o sucedido. Muitos académicos acreditam no envolvimento direto de Nicéforo, mas Treadgold acredita que os soldados tivessem agido por conta própria, já que Bardanes já não constituía uma ameaça credível para o imperador. Seja como for, apesar das pressões do patriarca e do Senado para punir os soldados e da garantia nesse sentido de Nicéforo, os soldados acabaram por não receber qualquer castigo.[15] [22] [30]

A revolta de Bardanes enfraqueceu temporariamente Bizâncio, principalmente na sua capacidade para lidar com a ameaça árabe a leste, mas a invasão de Qasim teve pouco alcance, e a intervenção em muito maior escala do seu pai Harun al-Rashid pouco depois também não resultou em quaisquer confrontos militares importantes. Harun retirou depois de ter sido acordada uma trégua em troca duma importância modesta. Deste modo, a revolta não afetou seriamente o exército nem a maior parte da Anatólia.[28] [31] No entanto, foi um sinal da insatisfação dos soldados com Nicéforo, que voltaria a manifestar-se em anos subsequentes e seria uma constante fonte de distúrbios ao longo do seu reinado.[32]

Família[editar | editar código-fonte]

Bardanes foi casado com uma mulher chamada Domnica, com quem teve vários filhos. Tecla, esposa de Miguel II, o Amoriano, é frequentemente identificada como uma das filhas, pois as crónicas Teófanes Continuado e de José Genésio relatam que Bardanes casou uma das suas filhas com Miguel e outra com um dos seus ajudantes.[33] [34]

Warren Treadgold identifica a segunda filha com uma mulher chamada ou alcunhada "Barka", que ele identifica como sendo a primeira esposa de Leão V, o Arménio e de quem este se divorciou pouco depois de ascender ao trono imperial em 813, para se casar com Teodósia. Barka teria sido a verdadeira mãe do primogénito de Leão, Simbácio (que reinou como co-imperador com o nome de Constantino).[35] No entanto, não há quaisquer provas de que Leão tenha casado com outra mulher além de Teodósia. Leão é também referido como o "primo" de Bardanes, mas não é claro se isso deve ser levado à letra ou se teria o sentido de "cunhado". Se fossem realmente primos, a relação familiar impediria o casamento. A história é provavelmente uma simples invenção posterior, inspirada pelo casamento de Tecla com Miguel.[11] [36] [37]

Sabe-se da existência de um filho de nome Briênio ou Brienes, que detinha um alto cargo oficial em 813.[38] Há também registo duma filha solteira da qual não se conhece o nome, bem como de vários outros filhos mais pequenos em 803. Juntamente com Domnica, os filhos de Bardanes ficaram com parte da fortuna do pai, tendo outra parte sido dada aos pobres e o resto para fundar um pequeno mosteiro em Constantinopla, para onde se retiraram.[39] [40] [41]

Notas e referências[editar | editar código-fonte]

  1. Kountoura-Galaki 1983, p. 203-204
  2. a b Treadgold 1988, p. 129
  3. Kazhdan 1991, p. 255, 1008, 1864
  4. Kountoura-Galaki 1983, p. 204-205
  5. Winkelmann 1999, p. 255
  6. Treadgold 1988, p. 114
  7. Winkelmann 1999, p. 249
  8. Kazhdan 1991, p. 255, 1008
  9. Kountoura-Galaki 1983, p. 206-207
  10. Kiapidou 2003, cap. 1
  11. a b Winkelmann 1999, p. 253
  12. a b c d Treadgold 1988, p. 131
  13. a b Kiapidou 2003, cap. 2.1
  14. a b c Kaegi 1981, p. 245-246
  15. a b c d Kazhdan 1991, p. 255
  16. Kiapidou 2003, Nota 4
  17. Kountoura-Galaki 1983, p. 207-211
  18. Treadgold 1988, p. 131-132
  19. Kaegi 1981, p. 246
  20. Kountoura-Galaki 1983, p. 212-213
  21. Treadgold 1988, p. 131-133, 197
  22. a b c Kountoura-Galaki 1983, p. 213-214
  23. Treadgold 1988, p. 132
  24. a b Kiapidou 2003, cap. 2.2
  25. Kaegi 1981, p. 246-247
  26. Kountoura-Galaki 1983, p. 213
  27. Treadgold 1988, p. 132-133
  28. a b Kiapidou 2003, cap. 3
  29. Kazhdan 1991, p. 297-298
  30. Treadgold 1988, p. 134-135
  31. Treadgold 1988, p. 133
  32. Kaegi 1981, p. 256
  33. Garland 2006, p. 7
  34. Treadgold 1988, p. 198, 369, 414
  35. Treadgold 1988, p. 196–199, 414–415
  36. Winkelmann 2000, p. 499
  37. Treadgold 1988, p. 415
  38. Treadgold 1988, p. 369
  39. Garland 2006, p. 7-8
  40. Treadgold 1988, p. 132, 369
  41. Winkelmann 1999, p. 251-254

Bibliografia[editar | editar código-fonte]