Barghawata

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Berghouata
Barghawata

Emirado

Umayyad Flag.svg
744 – 1058 Flag of Almohad Dynasty.svg
Localização de Berghouata
Localização do emirado de Barghawata no Marrocos
Continente África
Região Magrebe
País Marrocos
Capital Não especificada
Língua oficial berbere
Religião própria, inspirada no Islão
Governo Emirado
emir ou rei
 • ? - 744 Tarif al-Matghari
Período histórico Idade Média
 • 744 Fundação
 • 1058 Dissolução
Mapa político de Marrocos entre os séculos VIII e XI
  Califado Idríssida (789-985)
  Tamesna (Barghawata ou Berghouata; 744-1058)
  Emirado de Nekor dos Banu Salih (710-1019)
  Emirado de Sijilmassa dos midraridas ou uassulitas ou Banu Midrar (758-1055)

Os Barghawata ou Barghwata ou ainda Berghouata (pronúncia: aprox.: "berguata") foi um confederação de tribos berberes da costa atlântica de Marrocos que pertenciam ao grupo de tribos Masmuda.[1] Depois de se aliarem ao que ficou conhecido como Grande Revolta Berbere ou Revolta de Maysara, dos sufritas carijitas contra os Omíadas, em 744 estabeleceram um reino independente sob a liderança de Tarif al-Matghari, o qual durou até 1058, na área de Tamesma, no zona costeira entre Safim e Salé.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Alguns historiadores acreditam que o termo Barghawata é uma deformação fonética do termo barbati, uma alcunha de Tarif. Pensa-se que ele terá nascido na região de Barbate, próximo de Cádis, Espanha.[2] No entanto, outros historiadores, como Jérôme Carcopino, pensam que o nome é muito mais antigo e que a tribo é a mesma que aquela a que os romanos chamaram Baquates, que até ao século VII viveram perto da cidade romana de Volubilis.[3]

Religião[editar | editar código-fonte]

Apesar de se terem convertido ao Islão no início de século VIII e da Revolta de Maysara (739-742), os Barghawata seguiam uma religião sincrética, que apesar de baseada no islamismo, talvez influenciado pelo judaísmo,[4] tinha elementos dos ramos muçulmanos sunita, xiita, carijita misturados com astrologia e outras crenças tradicionais berberes. Supostamente teriam o seu próprio Alcorão escrito em berbere, que era composto por 80 suras, escrito durante o reinado do segundo elemento da dinastia, Salih ibn Tarif, que também tinha participado na revolta de Maysara e se proclamou profeta e último mahdi. Além disso, Salih dizia que Isa (nome dado pelos muçulmanos a Jesus) seria seu companheiro e que rezaria por ele por detrás dele.[5] Alguns autores acreditam que Salih era um judeu nascido na Península Ibérica.[4]

História[editar | editar código-fonte]

São conhecidos pouco detalhes sobre os Barghawata. A maior parte das fontes históricas saõ muito posteriores à extinção do seu reinado e é frequente apresentarem um contexto contraditório e confuso. No entanto, há uma tradição interessante, originária de Córdova, e o seu autor é o Grande Prior de Barghawata e o embaixador em Córdova Abu Salih Zammur. Esta tradição, datada de meados do século X é considerada a mais detalhada em relação os Barghwata[6] e foi realtada por al-Bakri, Ibn Hazm e Ibn Khaldun, embora as interpretações desses autores apresentem várias divergências de pontos de vista.[7]

Juntamente com os Ghomara e os Miknasa, os Barghawatas lançaram a Grande Revolta Berber de 739-740. A revolta foi inflamada por pregadores sufritas carijitas, uma seita muçulmana que defendia uma doutrina que defendia o igualitarismo total, em oposição à aristocracia coraixita que se tinha tornado mais proeminente sob o Califado Omíada. Os rebeldes elegeram Maysara al-Matghari para liderar a revolta e conseguiram tomar o controlo de quase todo o território que constitui Marrocos atualmente, o que isnpirou outras rebeliões no Magrebe e al-Andalus. Na Batalha de Bagdoura os rebeldes aniquilaram um exército particularmente poderoso enviado pelo califa omíada da Síria. Mas as tropas dos rebeldes acabaram por ser derrotadas nos arredores de Cairuão (atual Tunísia), em 741.

No rescaldo, a aliança rebelde foi dissolvida, mas já antes disso os Barghawatas, como fundadores da revolta, já se ressentiam das tentativas de tomada de controlo da liderança da revolta por parte de aderentes mais tardios, nomeadamente os caudilhos zenatas aliados ao cada vez mais autoritários comissários sufritas. Como o seu principal objetivo — a libertação do seu povo do governo omíada — já tinha sido alcançado, e havia poucas probabilidades dele voltar a ser imposto, os Barghwata viam pouco interesse em continuar em campanhas militares. Em 742 ou 743, Barghwata retiraram-se da aliança rebelde e retiraram-se para a região de Tamesna, na costa atlântica de Marrocos, onde fundaram um novo estado independente e abandonaram o sufrismo.

Os Barghawatas governaram a região de Tamesna durante mais de três séculos. O reino tribal foi consolidado pelos sucessores de Salih ibn Tarif, Ilyas ibn Salih (792-842), Yunus (842-888) e Abu Ghufail (888-913). Depois de inicialmente manterem boas relações com o Califado de Córdova, houve uma quebra de relações no final do século X com os omíadas. Nesse período, o reino sofreu duas incursões omíadas (em 977-978 e 998-999) e ataques do Califado Fatímida (982–983), os quais foram repelidos. A partir do século XI, houve uma intensa guerra de guerrilha com os Banu Ifran, alaidos dos omíadas, que chegaram a conquistar o reino de Tamesna.[1] Apesar de muito enfraquecidos,[8] os Barghawata foram ainda capazes de repelir os ataques dos almorávidas — o líder espiritual destes, Ibn Yasin foi morto em batalha contra os Barghawata em 1058.[1] De cerca de 1060 até 1078 ou 1079, os Barghawata governaram a taifa de Ceuta[carece de fontes?] e só em 1149 é que foram eliminados pelos almóadas como grupo político e religioso.[1]

Reis Barghawatas[editar | editar código-fonte]

  • Salih ibn Tarif (744-?)[9] — Declarou-se profeta e fundou uma nova religião; retirou-se com 47 anos, prometendo regressar no reinado do sétimo rei.[5]
  • Ilyas ibn Salih (792?-842) — Diz-se que, conforme as instruções do pai, professava o Islão publicamente e a religião do pai em segredo. Morreu no 50º ano do seu reinado.
  • Yunus ibn Ilyas (842?-888) — Oficializou a nova religião e matou todos os que recusaram converter-se (segundo Ibn Khaldun foram mortas 7 770 pessoas nestas condições num local chamado Tamlukeft). Curiosamente, também se diz que fez o Hajj (peregrinação a Meca). Morreu no 44º aniversário do seu 44º ano do seu reinado.
  • Abu Ghafir Muhammad (888-917) — Também pode ter-se intitulado profeta, segundo um poema citado por Ibn Khaldun, e que teve 44 mulheres e ainda mais filhos. Morreu no 29º ano do seu reinado.
  • Abu Mansur Isa (961?-?) — Subiu ao trono com 22 anos.

Notas e referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c d "Barghawatah". (em inglês) Encyclopædia Britannica. Consultado em 1 de fevereiro de 2012. 
  2. Gozalbes Cravioto, Enrique. Tarif, el conquistador de Tarifa (em inglês) www.tarifaweb.com Revista de Estudios Tarifeños. Visitado em 1 de fevereiro de 2012. Cópia arquivada em 16 de julho de 2011.
  3. Azayku, Ali Sadki (1987). L’interprétation généalogique de l’histoire nord-africaine pourrait-elle être dépassée? (em francês) www.mondeberbere.com Hespéris-Tamuda, vol. XXV. Visitado em 1 de fevereiro de 2012. Cópia arquivada em 18 de julho de 2011.
  4. a b Kitab Al-Istibsar ,trad. E. Fagnan, L'Afrique Septentrionale au XII siécle de notre Ere (em inglês). Argel: [s.n.], 1900. p. 157.
  5. a b Talbi* salienta que não há registo contemporâneo dele ser outra coisa que não sufrita kharijita e que a sua autoproclamação como profeta pode ter sido um mito propagado por Yunus.
  6. No entanto, Talbi* acredita que há alguma dose de mito ou propaganda nessa versão.
  7. Moutaoukil, Fatima. Barghwata - Un royaume amazigh (berbère) méconnu (em francês) www.mondeberbere.com Parimazigh n°2. Visitado em 1 de fevereiro de 2012. Cópia arquivada em 11 de setembro de 2010.
  8. Al-Bakri vai ao ponto de afirmar que os Barghawata foram aniquilados em 1029, mas isso é inconsistente com o que ele próprio afirma noutros locais em relação às batalhas com os almorávidas.
  9. Os anos com ponto de interrogação foram estimados com base em fontes secundárias;[necessário esclarecer] as restantes informações são de Ibn Khaldun.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Aabidi, Brahim Khalf El. Les Barghwata au Maroc (em francês). Casablanca: Presse universitaire, 1983.
  • Camps, G. Les Berbères, mémoire et identité (em francês). Paris: Errances, 1987.
  • Charles-André, Julien. Histoire de l'Afrique du Nord des origines à 1894 (em francês). Paris: Payot, 1994.
  • Haarmann, Ulrich. Geschichte der Arabischen Welt (em alemão). Munique: C.H. Beck, 2001.
  • Iskander, John. (2007). "Devout Heretics: The Barghawata in Maghribi Historiography" (em inglês). The Journal of North African Studies 12: 37–53.
  • Marçais, G. La Berbérie musulmane et l'Orient (em francês). Paris: [s.n.], 1948.
  • Ronart, Nandy. Lexikon der Arabischen Welt (em alemão). [S.l.]: Artemis Verlag, 1972.
  • Talbi, Mohammed. (1973). "Hérésie, acculturation et nationalisme des berbères Bargawata" (em francês). Premier congrès des cultures Méditerranéennes d'influence arabo-berbère: 217-233.