Basilisco (imperador)

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Basilisco
Imperador Romano do Oriente
Solidus Basiliscus-RIC 1003.jpg
Soldo do imperador Basilisco.
Governo
Reinado 9 de janeiro de 475
agosto de 476
Consorte Élia Zenonis
Antecessor Zenão I, deposto
Herdeiro Marcos (césar e mais tarde augusto)
Sucessor Zenão I, restaurado
Casa Real Casa de Leão
Vida
Nome completo Flávio Basilisco Augusto
Flavius Basiliscus Augustus
Morte inverno 476–477
Capadócia
Filhos Marcos

Flávio Basilisco (em latim Flavius Basiliscus) foi imperador do Império Romano do Oriente, membro da dinastia leonina, durante um curto período entre 9 de janeiro de 475 e agosto de 476, chegou ao poder depois que o imperador Zenão I foi forçado a abandonar Constantinopla por uma revolta.

Basilisco era irmão da imperatriz Élia Verina, a esposa do imperador Leão I, o Trácio (r. 457-474). Sua relação com o imperador lhe permitiu ter uma carreira militar que lhe trouxe pequenos êxitos, terminando em 468, quando liderou a desastrosa invasão bizantina na África vândala, uma das maiores operações militares da antiguidade tardia.

Basilisco conseguiu o poder em 475, explorando a impopularidade do imperador Zenão, o sucessor "bárbaro" de Leão II. Um complô organizado por Élia Verina provocou a fuga de Zenão de Constantinopla. Todavia, durante seu pequeno mandato, Basilisco ganhou a antipatia da Igreja Católica e do povo de Constantinopla, exaltando o cristianismo em oposição a fé do Concílio de Calcedônia, que recebia maior aceitação. Além disso, sua política de assegurar seu poder mediante a nomeação para cargos importantes de homens leais a si o tornou inimigo de figuras influentes da corte imperial, incluindo sua irmã Élia Verina. Então, quando Zenão tentou recuperar seu império, praticamente não encontrou oposição, entrando em Constantinopla triunfalmente, capturando e matando Basilisco e sua família.

A luta entre Basilisco e Zenão impediu a intervenção do Império Romano do Oriente na queda do Império Romano do Ocidente, que se iniciou no princípio de setembro de 476. Quando o chefe dos hérulos, Odoacro, depôs o imperador do Ocidente, Rômulo Augusto, enviando as insígnias imperiais a Constantinopla, Zenão acabava de recuperar seu trono, e teve que nomear Odoacro duque da Itália, terminando assim o Império Romano do Ocidente.

Origem e começo de carreira[editar | editar código-fonte]

Provavelmente de origem balcânica,[1] Basilisco era irmão de Élia Verina, esposa do imperador Leão I, o Trácio. Tem-se argumentado que Basilisco era tio do chefe dos hérulos, Odoacro. Essa ligação é baseada na interpretação de um fragmento de João I de Antioquia (209.1), que afirma que Odoacro e Armato, sobrinho de Basilisco, eram irmãos.[2] Entretanto, essa interpretação não é aceita por todos os estudiosos, pois as fontes não dizem nada sobre uma origem estrangeira de Basilisco.[3] Sabe-se que Basilisco tinha uma esposa, Zenonis, e pelo menos um filho, Marcos.

A carreira militar de Basilisco começou sob o comando de Leão I. O imperador deu a seu cunhado o título de duque, ou comandante em chefe, na Trácia.[4] Neste país Basilisco liderou uma bem-sucedida campanha militar contra os búlgaros em 463. Não obstante, sucedeu Rusticius no cargo de Magister militum da Trácia (464), e obteve vários sucessos contra os godos e hunos (466 ou 467).[5]

Por estes êxitos, a influência de Basilisco foi crescendo e ganhando uma maior consideração com o imperador Leão. A intercessão de Verina em favor de seu irmão ajudou a carreira militar e política de Basilisco, com a atribuição do cônsul em 465 e, possivelmente o posto de patrício.[6] Sua breve ascensão, no entanto, sofreu um sério revés.[1]

A desastrosa expedição contra os vândalos[editar | editar código-fonte]

Cabo Bon, atual Tunísia, lugar onde a frota bizantina liderada por Basilisco chegou para lançar um ataque contra Cartago, a capital dos vândalos.

Em 468, Leão escolheu Basilisco para que fosse o líder da famosa expedição militar contra Cartago. A invasão do reino dos vândalos foi uma das maiores operações militares registrada na história, com mais de mil navios e cem mil soldados envolvidos. O objetivo da operação era punir o rei vândalo Genserico pelo saque de Roma em 455, no qual a antiga capital do Império Romano do Ocidente havia sido devastada, e a imperatriz Licínia Eudóxia (viúva do imperador Valentiniano III) e suas filhas foram tomadas como reféns.[1] [4]

O plano foi concluído entre o imperador do Império Romano do Oriente, Leão, e o imperador do Império Romano do Ocidente, Antêmio e o general Marcelino que desfrutava de uma certa independência em Ilíria. Basilisco recebeu ordens de navegar diretamente para Cartago, enquanto Marcelino atacava e tomava a Sardenha, e um terceiro exército, comandado por Heráclio de Edessa, desembarcava na costa da Líbia a leste de Cartago, avançando rapidamente. Aparentemente as forças encontraram-se na Sicília, onde as três frotas dividiram-se em períodos distintos.[4]

Historiadores antigos e modernos, fornecem diferentes estimativas sobre o número de navios e tropas sob o comando de Basilisco, bem como sobre o custo da expedição. Ambas eram enormes; Nicéforo Gregoras estima em cem mil navios, enquanto Jorge Cedreno proporciona dados mais confiáveis afirmando que a frota que atacou Cartago consistia em mil cento e treze navios, estando cada navio com cem homens a bordo.[7] A estimativa mais conservadora para as despesas da expedição é de 64 000 libras de ouro, uma quantia que superava a receita de um ano inteiro.[8]

Sardenha e Líbia já haviam sido conquistadas por Marcelino e Heráclio, quando Basilisco chegou no promontorium Mercurii, hoje chamado cabo Bon, a cerca de quarenta milhas de Cartago. Genserico solicitou cinco dias para poder elaborar as condições de uma paz.[9] Durante as negociações, no entanto, Genserico reuniu seus navios e de repente atacou a frota romana. Os vândalos haviam levado muitos de seus navios com materiais combustíveis, e, à noite, estes brulotes foram enviados contra a frota invasora. Por sua vez, os comandantes bizantinos tentaram resgatar alguns navios da destruição, porém suas tentativas foram bloqueadas pelo ataque de outros navios vândalos.[4]

Basilisco fugiu no meio da batalha.[10] Metade da frota romana foi queimada, afundada, ou capturada, e a outra metade fugiu com Basilisco. A expedição foi um fracasso. Heráclio se retirou através do deserto até Tripolitânia, mantendo a posição por dois anos até que foi chamado de volta. Marcelino retirou-se para Sicília, onde foi acompanhado por Basilisco;[11] o general foi, no entanto, assassinado, talvez por instigação de Ricimero, por um de seus próprios capitães. O rei dos vândalos, expressou sua surpresa e satisfação pelo fato de que os próprios romanos se dedicaram a eliminar seus inimigos mais formidáveis.[4]

Depois de voltar para Constantinopla, Basilisco se escondeu na Basílica de Santa Sofia para escapar da ira do povo e da vingança do imperador. Através da mediação de Verina, ele obteve o perdão imperial, e foi punido simplesmente com o exílio para Heraclea Sintica, na Trácia.[12]

Ascensão ao poder[editar | editar código-fonte]

Tremisse com efígie de Élia Verina, esposa e posterior viúva do imperador Leão I, o Trácio. Como irmã de Basilisco, Verina o ajudou tanto em sua carreira política como militar.

Em 471 e 472, Basilisco ajudou Leão I a se livrar da influência germânica em sua corte, ajudando no assassinato do magister militum alano Aspar. A morte de Aspar causou uma revolta na Trácia, liderada pelo ostrogodo trácio Teodorico Estrabão, e Basilisco foi enviado para reprimir a revolta, onde obteve sucesso com a ajuda de seu sobrinho Armato. Em 474, recebeu a patente de caput senatus, "o primeiro entre os senadores".[5]

Com a morte de Leão, Zenão I, que era um "bárbaro" de Isáuria, todavia ao mesmo tempo era casado com uma filha do imperador, subiu ao trono, depois de um curto reinado de seu próprio filho, Leão I (474). As origens "bárbaras" do imperador Zenão causaram uma certa antipatia entre o povo de Constantinopla. Além disso, uma parte significativa do exército era formada por soldados de origem germânica, liderado por Teodorico Estrabão, que detestava os oficiais isáuricos que Leão trouxe para reduzir sua dependência dos ostrogodos. Por último, Zenão fugiu de seu companheiro e general isáurico Illo, que havia sido subornado por Basilisco. No meio da conspiração estava Verina, que promovia uma revolta popular contra o imperador. A revolta, apoiada por Teodorico Estrabão, Illo e Armato, foi bem sucedida, e Verina convenceu o imperador a deixar a cidade. Zenão fugiu para sua terra natal, levando consigo alguns dos isáuricos que viviam em Constantinopla, junto com o tesouro imperial.

Basilisco foi, então, proclamado augusto em 9 de janeiro 475,[13] no palácio Hebdomon, pelos ministros do palácio e do senado.[14] A população de Constantinopla conseguiu a sua vingança contra Zenão, matando quase todos os isáuricos que estavam na cidade.[11] [12]

No início, tudo parecia ir bem para o novo imperador, que inclusive tentou criar uma nova dinastia, conferindo o título de augusta à sua esposa Élia Zenonis e nomeando césar seu filho Marcos e mais tarde augusto;[15] porém, devido à sua má administração como imperador, Basilisco rapidamente perdeu a maioria de seus partidários.

Governo[editar | editar código-fonte]

Corrupção e fogo de Constantinopla[editar | editar código-fonte]

O problema mais urgente que enfrentava o imperador era a escassez de recursos deixados no cofre imperial. Basilisco se viu obrigado a aumentar os impostos, e retornar à prática de leiloar os cargos públicos, obviamente causando um descontentamento na população. Também extorquiu dinheiro da igreja, com a ajuda do prefeito Epinicus, um dos favoritos de longa data de Verina.[11]

No começo de seu reinado, Constantinopla sofreu um enorme incêndio, que destruiu casas, igrejas, e incendiou completamente a grande biblioteca construída pelo imperador Juliano, o Apóstata.[16] O fogo foi visto como um mal presságio para o governo de Basilisco.[12]

Tensões com seus colaboradores[editar | editar código-fonte]

Basilisco havia confiado o apoio de algumas das mais importantes figuras da corte em sua oferta para alcançar o trono. No entanto, rapidamente perdeu a maioria deles. Primeiramente, Basilisco perdeu o apoio de sua própria irmã Verina, após a execução de Patrício, o magister officiorum. Patrício era o amante de Verina, a imperatriz havia planejado elevá-lo ao posto imperial e se casar com ele: a própria revolta contra Zenão tinha sido organizada para tornar Patrício o novo imperador. Basilisco mandou matar Patrício, devido ao cargo político que ocupava era o candidato natural para derrubar o novo imperador, como consequência, mais tarde Verina conspirou contra Basilisco, por causa da execução de seu amante.[17]

Além disso, Teodorico Estrabão, também se afastou do novo imperador, após ter sido um dos principais pilares da sua ascensão através do ódio pelo isáurico Zenão. Basilisco havia elevado Armato seu próprio sobrinho, que segundo boatos foi também o amante da esposa de Basilisco, para o posto de magister militum, o mesmo que ocupava Estrabão. Por último, o apoio de Illo foi bastante instável, devido ao massacre dos isáuricos que Basilisco havia permitido.[4] [11]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Commons
O Commons possui multimídias sobre Basilisco
Precedido por
Zenão I
Imperador bizantino
475 - 476
Sucedido por
Zenão I


Referências

  1. a b c Elton.
  2. Krautschick.
  3. Macgeorge.
  4. a b c d e f Smith.
  5. a b Martindale.
  6. Martindale. É também possível que o grau de patrício tenha sido atribuído em 471/472, para ajudar Leão a livrar-se da influência germânica na sua corte, mas há uma referência anterior a Basilisco como patrício" em 468.
  7. Georgius Cedrenus, through Smith.
  8. Boardman.
  9. Procópio de Cesareia sugere que Genserico apoiou seu pedido de uma trégua com um suborno.
  10. O lugar-tenente de Basilisco, Joannes, quando vencido pelos vândalos, recusou o perdão que foi prometido a ele por Genso, o filho de Genserico, vestiu uma grande armadura e afogou-se no mar. Suas últimas palavras foram que ele não podia suportar render-se aos "cães ímpios" dos vândalos — os vândalos, de fato, eram arianos (Procópio).
  11. a b c d Friell.
  12. a b c Bury.
  13. Existe um horóscopo feito no dia da coroação de Basilisco — 12 de janeiro de 475, às 9 da manhã — provavelmente por um partidário de Zenão I. O horóscopo, preservado com os horóscopos de outros dois usurpadores do trono de Zenão através de fontes árabes, corretamente prediz o fim do governo de Zenão em dois anos. Ver Barton, Tamsyn. Power and knowledge: Astrology, physiognomics, and medicine under the Roman Empire. [S.l.]: University of Michigan Press, December-2002.  60 p. ISBN 0-472-08852-1
  14. A tradição permitia que o senado reconhecesse o usurpador como imperador, então Basilisco tornou-se o novo governante. Entretanto, foi primeira sucessão de base militar nos últimos cem anos (Friell).
  15. Basílico também cunhou moedas celebrando o governo conjunto com Marcos;[1] Também moedas de ouro e bronze foram cunhadas em honra de Aelia Zenonis, Augusta[2] As moedas tinham a inscrição AVGGG, com os três "G" referindo-se aos três "augustos". Ver Yonge Akerman, John. A Descriptive Catalogue of Rare and Unedited Roman Coins. [S.l.]: Adamant Media Corporation, 2002.  383 p. ISBN 1-4021-9224-X
  16. Esta biblioteca, a qual foi estabelecida numa basílica próxima à cisterna construída por Justiniano I, continha 120.000 volumes, incluindo o famoso pergaminho, de 35 m (115 pé) de comprimento, no qual era escrita a Ilíada e a Odisseia de Homero em letras douradas.
  17. Bury. De acordo com Candidus, depois da morte de Patrício, Verina fez intrigas a favor de Zenão, mas seu plano foi descoberto por Basílico, e somente a interseção de Armato salvou sua vida.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes primárias[editar | editar código-fonte]

Fontes secundárias[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]