Batalha de Versinikia

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Batalha de Versinikia
Guerras bizantino-búlgaras
Territorial expansion during the reign of Khan Krum (803-814).png
Bulgária sob o khan Krum incluindo suas mais importantes campanhas e batalhas.
Data 22 de junho de 813
Local Próximo de Adrianópolis.
Desfecho Vitória búlgara decisiva
Combatentes
Monogram of Asparuh.svg Primeiro Império Búlgaro Império Bizantino
Comandantes
Krum Miguel I Rangabe
Forças
~12000[1] ~30000[1]
Baixas
Poucas Pesadas

A Batalha de Versinikia (em búlgaro: Битката при Версиникия; em grego: Μάχη της Βερσινικίας) foi um conflito travado em 22 de junho de 813 entre o Império Bizantino e o Primeiro Império Búlgaro, próximo da cidade de Adrianópolis, atualmente na Turquia. Apesar da clara desvantagem numérica os búlgaros se saíram vitoriosos, resultando no destronamento de Miguel I Rangabe (r. 811-813) por Leão V, o Armênio. Ela foi um grande sucesso e fortaleceu ainda mais a posição dos búlgaros após a vitória decisiva sob Nicéforo I, o Logóteta (r. 802-811) dois anos antes. De facto, após o conflito eles tomaram controle de toda a Trácia oriental (até o tratado de 815) com a exceção de um poucos castelos que restaram em controle bizantino. Pela primeira vez na história búlgara, o caminho para Constantinopla estava aberto. Todavia, o grande khan Krum faleceu durante os preparativos para o cerco final da capital bizantina em 13 de abril de 814.

Prelúdio[editar | editar código-fonte]

Após a derrota bizantina na batalha de Pliska, o império encontrava-se em uma situação difícil. O filho e legítimo herdeiro de Nicéforo I, Estaurácio, que foi seriamente ferido na batalha, reinou até outubro do mesmo ano quando abdicou em nome seu cunhado, o curopalata Miguel I Rangabe (r. 811-813). A Bulgária, que havia sofrido pesadas baixas e grande dano material durante a campanha de Nicéforo, necessitou de um ano para reorganizar seu exército e recursos para prosseguir em suas investidas. Seus ataques se concentraram principalmente na Trácia, no vale do Estrimão, onde muitas cidades foram sitiadas e suas populações foram enviadas para o norte da Bulgária através do Danúbio. O pânico generalizado se espalhou entre a população bizantina e muitas cidades, mesmo aquelas não afetadas pelos invasores, foram evacuadas. As tentativas de Miguel para deter os búlgaros foram infrutíferas e quando organizou um exército para atacá-lo, foi forçado a retornar para Constantinopla devido a uma conspiração encabeçada por Nicéforo.[2] [3]

Neste ínterim os búlgaros continuaram seus ataques até que no outono de 812 foi-lhes oferecida a paz. A delegação búlgara liderada por Dobromir[4] [5] não logrou resultados devido às "sugestões de seus assessores indignos", como diz Teófanes. Todavia a razão real foi mais provavelmente o item 3 do tratado de 716 que diz "os refugiados [emigrantes, desertores] de ambos os lados devem ser mutuamente rendidos, se eles estão conspirando contra as autoridades".[6] Esse item foi importante no século VIII para os bizantinos devido ao enfraquecimento da autoridade imperial, todavia, após a crise búlgara nos meados do século VIII, tal item tornou-se inconveniente.[7] Além disso, Teodoro Estudita, grande influência sobre o imperador, foi fundamental para que Miguel se recusasse a aceitar os termos búlgaros, pois considerava errado entregar os refugiados cristãos à mercê de bárbaros.[2] Em resposta à recusa, a Bulgária sitiou a Mesêmbria. Com aporte de excelentes armas de cerco construídas por um imigrante árabe, logo a cidade foi tomada e dentre o butim estavam 36 sifões de cobre usados para lançar o famoso fogo grego e uma grande quantidade de ouro e prata.[8]

Apesar da perda da Mesêmbria, os bizantinos não estavam dispostos a firmar paz.[5] No inverno de 812-813 o khan Krum começou intensos preparativos para um ataque contra o Império Bizantino e Miguel preparou suas defesas. Em fevereiro de 813 inúmeras investidas foram realizadas na Trácia, todavia, os búlgaros não conseguiram nenhuma vitória decisiva e foram forçados a se retirar. Esta retirada foi vista por Miguel como uma vitória "de acordo com a providência de Deus"[9] e encorajou-o a um contra-ataque. Um numeroso exército foi convocado em todos os themata, incluindo os guardas das passagens sírias. Devido a uma inquietação no exército, a campanha foi adiada até maio. A partida foi uma celebração e a população, incluindo a imperatriz, acompanharam as tropas para fora dos muros da cidade. Deram presentes aos comandantes militares e invocaram-nos para guardar o imperador e lutar pelos cristãos.[10]

A batalha[editar | editar código-fonte]

Desenvolvimento da batalha.

Os bizantinos marcharam para norte mas não tomaram qualquer ação para retomar Mesêmbria. Em 4 de maio um eclipse solar provocou receio e reduziu a moral bizantina. Saqueando o próprio império, eles acamparam nas cercanias de Adrianópolis.[9] No mesmo mês Krum também partiu para Adrianópolis.[10] Em junho ambos os exércitos acamparam próximo da pequena fortaleza de Versinikia ao norte da cidade. O registro histórico (João Escilitzes em Synopsis Historion, etc.) afirma que o exército bizantino era 10 vezes (ou mesmo 20 vezes segundo alguns historiadores) maior do que aquele dos búlgaros. Embora superestimado, é evidente a superioridade numérica bizantina. Portanto, os búlgaros mantiveram-se na defensiva. Apesar de numérica, logística e estrategicamente superior, o exército bizantino não confrontou o adversário. Ambos os exércitos mantiveram-se em impasse por 13 dias até que, em 22 de junho, o estratego da Macedônia João Aplaces dirigiu-se a Miguel e disse: "Quanto é que vamos esperar e morrer? Eu vou atacar primeiro em nome de Deus e você seguirá minha bravura. E a vitória será nossa porque nós somos dez vezes mais que eles [os búlgaros]".[11]

A batalha foi curta: na manhã do mesmo dia os bizantinos atacaram e o pelotão de Aplaces foi o primeiro a enfrentar os búlgaros. Ele conseguiu infligir algumas baixas neles mas depois a maioria dos bizantinos estavam tão assustados que não mais lutaram com seus inimigos. Eles não puderam resistir nem mesmo o primeiro contra-ataque búlgaro e quando Krum avançou com sua cavalaria pesada contra o flanco oriental bizantino ele bateram em retirada. O pelotão anatólio foi o primeiro a fugir seguido pelo exército inteiro. Os soldados de Aplaces foram deixados para trás e a maior parte deles pereceu, incluindo seu comandante. Perante o avanço da cavalaria de Krum, muitos pereceram em combate, enquanto outros se esconderam em fortalezas que foram tomadas ou então partiram para Constantinopla. Os comandantes-chefe do exército bizantino, incluindo o imperador Miguel I Rangabe e Leão, o Armênio, foram os primeiros a abandonar o campo de batalha. Os búlgaros tomaram o acampamento bizantino e um rico prêmio incluindo ouro e armas.[12]

Cronógrafos bizantinos posteriores como José Genésio[13] e Theophanes Continuatus[14] acusaram Leão, o Armênio como principal responsável pela derrota, alegando que deliberadamente ordenou a fuga das unidades que ainda não haviam combatido. Esta visão é aceita por um grande número de estudiosos (J. B. Bury, Steven Runciman, George Ostrogorsky, Romilly Jenkins, Warren Treadgold et al.), enquanto outros (Vasil Zlatarski e um grupo de estudiosos gregos) rejeita a responsabilidade de Leão,[a] apontando para uma história alternativa daquela de Genésio[15] e Theophanes Continuatus[16] também inclusa em seus textos.

Rescaldo[editar | editar código-fonte]

Os búlgaros aniquilando o exército bizantino em Versinikia. Miniatura do Escilitzes de Madrid.
A batalha de Versinikia em uma cópia búlgara do século XIV da Crônica Manasses.

A derrota em Versinikia agravou ainda mais a situação do Império Bizantino e deu ao khan búlgaro uma oportunidade de lançar ataques nas cercanias da capital bizantina. Também selou o destino de Miguel I Rangabe, que foi forçado a abdicar e retirar-se para um mosteiro. O trono bizantino foi tomado por Leão, o Armênio (r. 813-820) que distinguiu-se de seu predecessor como um homem energético e de caráter forte. Imediatamente tomou rápidas precauções para a defesa da capital bizantina devido à expectativa de um assalto búlgaro.[17]

O caminho para Constantinopla estava aberto e o exército búlgaro foi direto para a cidade sem enfrentar qualquer resistência. Havia ainda várias fortalezas na Trácia que permaneceram em mãos bizantinas, particularmente Adrianópolis, que foi sitiada pelo irmão de Krum. Em 17 de julho de 813 ele próprio atingiu os muros da cidade e assentou seu acampamento sem obstáculos.[18] Dentro da visão dos cidadãos, Krum, que era também um sumo sacerdote, fez um sacrifício ao deus búlgaro Tengri, realizando alguns rituais pagãos. Em seguida os búlgaros construíram trincheiras ao longo de todo comprimento das muralhas da cidade e, de repente, Krum ofereceu a paz.[17]

Leão aceitou as negociações mas ele pretendia matar traiçoeiramente Krum e eliminar a ameaça sobre o Império Bizantino. Durante as negociações, os bizantinos atiraram flechas na delegação búlgara matando alguns deles, incluindo o kavhan ou outro alto oficial, mas o khan permaneceu ileso.[19] Enfurecido pela traição, Krum ordenou que todas as igrejas, mosteiros e palácios fora de Constantinopla fossem destruídos, os bizantinos capturados fossem escravizados e as riquezas dos palácios fossem enviadas para a Bulgária em carrinhos. Após isso todas as fortalezas do império nos arredores da cidade e do mar de Mármara foram sitiadas e arrasadas. Os castelos e assentamentos no interior da Trácia Oriental foram saqueados e a região inteira, devastada.[20] Então Krum retornou para Adrianópolis e fortaleceu as forças sitiantes. Com a ajuda de manganelas e arietes, forçou a cidade a se render.[21] Os búlgaros capturaram 10 000 pessoas que foram realocadas na Bulgária através do Danúbio.[22] Textos litúrgicos e hagiográficos bizantinos comemoram o martírio de 377 cativos. No Inverno Krum retornou para a Bulgária onde começou a preparar seu exército para o assalto final ao império, todavia veio a falecer em 13 de abril de 814.[23]

Local da batalha[editar | editar código-fonte]

A localização exata da fortaleza Versinikia é desconhecido. De acordo com Teófanes o castelo estava situado a 60 km do acampamento de Miguel I Rangabe em Adrianópolis.[24] Neste distância ao norte está localizada a vila de Malomirovo em cujas redondezas foi descoberta uma antiga inscrição búlgara do reino de Krum. É sobre a divisão de um exército búlgaro durante a campanha em 813 - o flanco esquerdo sob o kavhan Irtais foi concentrado na costa em Anquialo (Pomorie) e Sozopol, e o flanco direito estava na área de Beroe (Stara Zagora) sob o comando do Ichirgu-boil Tuk.[25] O centro sob o comando pessoal de Krum provavelmente estava situado na área da contemporânea cidade de Elhovo que é próxima de Malomirovo. É provável que o exército bizantino tomou posição ao longo das colinas Derventski que estão situadas na atual fronteira búlgaro-turca.[26] [27]

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ Para um resumo útil da controvérsia sobre a responsabilidade de Leão ver KORRES, Theod. "Leo V and his age". ed. Vanias, Salonica 1996 (texto grego).

Referências

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Angelov, D. E. Colektiv. História da Bulgária. [S.l.: s.n.], 1981.
  • Besheliev, V.. Título não preenchido. Favor adicionar. [S.l.: s.n.], 1981.
  • Continuatus, Theophanes. Patrologia Graeca. [S.l.: s.n.], 1863. Capítulo: Chronographia.
  • Curta, F.. Southeastern Europe in the Middle Ages. [S.l.]: Cambridge University Press, 2006. ISBN 0521815398.
  • Genésio, José. Patrologia Graeca. [S.l.: s.n.], 1863. Capítulo: Vasiliai. Historia de Rebus Constantinopolitanis.
  • Haldon, John. The Byzantine Wars. [S.l.: s.n.], 2001. ISBN 0-7524-1795-9.
  • Hamartolos, Jorge. Chronicon. [S.l.: s.n.], século IX.
  • Kazhdan, Alexander Petrovich. The Oxford Dictionary of Byzantium. Nova Iorque e Oxford: Oxford University Press, 1991. ISBN 0-19-504652-8.
  • Scriptor Incertus. Historia. [S.l.: s.n.], 811.
  • Teófanes, o Confessor. Chronographia. [S.l.: s.n.], 1863.
  • Zlatarski, Vassil. História do estado búlgaro na Idade Média. [S.l.: s.n.], 1971. vol. 1. ISBN 9789547399297.
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