Batuque (Cabo Verde)

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O batuque (batuku ou batuk em crioulo cabo-verdiano) é um género musical e de dança de Cabo Verde.

Batucadeiras do Bairro 6 de Maio. Damaia.

Como género musical[editar | editar código-fonte]

Como género musical, o batuque caracteriza-se por ter um andamento moderado, um compasso de 6/8[1] ou 3/4, e tradicionalmente ser apenas melódico, isto é, ser apenas cantado, sem acompanhamento polifónico. Comparado com os outros géneros musicais de Cabo Verde, o batuque estrutura-se no canto-resposta, e é o único que apresenta uma polirritmia. De facto, analisando o ritmo, descobre-se que o mesmo é uma sobreposição de um ritmo de 3 tempos sobre um ritmo de 2 tempos.

Modelo rítmico do batuque, ± 112 bpm.

Na sua forma tradicional, o batuque organiza-se como se fosse um crescendo orquestral. Tem dois movimentos (se é que se pode chamá-los assim):

Antigamente, a peça musical começava com uma introdução na cimboa, que fornecia a linha melódica base. Hoje em dia, o uso deste instrumento está praticamente extinto. O primeiro movimento é chamado, em crioulo, de galion. Neste movimento, uma das executantes (chamadas batukaderas), efectua um batimento polirrítmico, enquanto que as restantes executantes efectuam um batimento de dois tempos, batendo palmas ou batendo num pano. A cantora solista (chamada kantadera proféta) entoa uma melopeia que logo a seguir é repetida (chamado ronca baxon) em uníssono pelas restantes cantoras (chamadas kantaderas di kunpanha). Esses versos, provérbios improvisados, que abordam temas diversos do quotidiano desde o louvar a certas personalidades até críticas sociais, são chamados finason. Essa estrutura de canto-resposta continua até o segundo movimento.

O segundo movimento é chamado txabéta. Este movimento corresponde a um clímax orquestral, em que todas as executantes efectuam o mesmo batimento polirrítmico em uníssono, e todas as cantoras cantam o mesmo verso em uníssono, que funciona como refrão.

Modernamente, o batuque tem sido composto de outra forma por compositores recentes. A música apoia-se num suporte polifónico (sequência de acordes), e apresenta uma estrutura similar aos outros géneros musicais de Cabo Verde, em que as estrofes musicais vão alternando com um refrão.

Como dança[editar | editar código-fonte]

Como dança, o batuque tradicional desenrola-se segundo um ritual preciso.

Numa sessão de batuque, um conjunto de intérpretes (quase sempre unicamente mulheres) organizam-se em círculo num cenário chamado terreru. Esse cenário não tem de ser um lugar específico, pode ser um quintal de uma casa ou no exterior, numa praça pública, por exemplo.

A peça musical começa com as executantes (que podem ou não ser simultaneamente batukaderas e kantaderas) desempenhando o primeiro movimento, enquanto que uma das executantes dirige-se para o interior do círculo para efectuar a dança. Neste primeiro movimento a dança é feita apenas com o oscilar do corpo, com o movimento alternado das pernas a marcar o tempo forte do ritmo.

No segundo movimento, enquanto as executantes interpretam o ritmo e o canto em uníssono, a executante que está a dançar muda a dança. Neste caso, a dança (chamada da ku tornu) é feita com um requebrar das ancas, conseguido através de flexões rápidas dos joelhos, acompanhando o ritmo.

Quando a peça musical acaba, a executante que estava a dançar retira-se, outra vem substitui-la, e inicia-se uma nova peça musical. Estas interpretações podem arrastar-se por horas.

História[editar | editar código-fonte]

O batuque é provavelmente o género musical mais antigo de Cabo Verde, mas só há registos escritos acerca do batuque a partir do século XIX. Presentemente só se encontra na ilha de Santiago, e é no Tarrafal onde se vive com mais intensidade este género musical. Todavia, há indícios que já existiu em todas as ilhas de Cabo Verde.[2]

Segundo Carlos Gonçalves[3] , o batuque não seria um género musical transposto do continente africano. Seria a adaptação de alguma dança africana (qual?) que depois teria desenvolvido características próprias em Cabo Verde.

O batuque sempre foi hostilizado pela administração portuguesa, por ser considerado «africano», e pela Igreja, mas foi durante a política do Estado Novo que essa perseguição foi mais forte. O batuque chegou a ser proibido nos centros urbanos, e chegou a estar moribundo a partir dos anos 50. Depois da independência houve um interesse em fazer ressurgir certos géneros musicais. Mas é nos anos 90 que o batuque teve um verdadeiro renascimento, com jovens compositores (Orlando Pantera, Tcheka, Vadú, etc.) fazendo trabalhos de pesquisa e conferindo uma nova forma ao batuque, sendo interpretado por também jovens cantores (Lura, Mayra Andrade, Nancy Vieira, etc.).

Significado[editar | editar código-fonte]

Antigamente, o batuque revestia-se de um significado social. Era desempenhado em dias santos, em certas ocasiões cerimoniais, em festas, antes e durante os casamentos. Há estudiosos que especulam que os movimentos de dança do batuque evocam o acto sexual, e o objectivo seria promover a fertilidade da noiva.

Hoje em dia o batuque perdeu o seu significado original. Foi transformado num espectáculo de palco[3] , e é desempenhado em actos oficiais, em festas ou é utilizado por certos grupos para dar um exemplo do folclore de Cabo Verde.

Exemplos de batuques[editar | editar código-fonte]

  • «Batuco» de Bulimundo
    interpretado por Bulimundo no álbum «Batuco» (Ed. Black Power Records, Rotterdam, Ref. Lp 2233 — 1981)
  • «Maria Júlia» de Gil Semedo
    interpretado por Gil & The Perfects no álbum «Verdadi» (Ed. GIVA, ? — 1996)
  • «Rabóita di Rubõ Manel» de Orlando Pantera
    interpretado por Lura no álbum «Di korpu ku alma» (Ed. Lusáfrica, Paris — 2004)
  • «Dispidida» de Orlando Pantera
    interpretado por Mayra Andrade no álbum «Navega» (Ed. ?, ? — 2006)
  • «Nha kumadri» de Lateral e Rolando Semedo
    interpretado por Nancy Vieira no álbum «Lus» (Ed. HM Música, Lisboa — 2007)

Referências

  1. Brito, M., Breves Apontamentos sobre as Formas Musicais existentes em Cabo Verde — 1998
  2. Lopes da Silva, B, in Claridade, Revista de Artes e Letras, N.º 7 — 1949
  3. a b Gonçalves, C. F., Kab Verd Band — 2006

Ligações externas[editar | editar código-fonte]