Bereshit

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Bereshit (do hebraico בראשית, Bereshít, "no início", "no princípio", primeira palavra do texto) é o nome da primeira parte da Torá. Bereshit é chamado comumente de Gênesis pela tradição ocidental e trata-se praticamente do mesmo livro apesar de algumas diferenças, principalmente no que lida com interpretações religiosas com outras religiões que aceitam o livro de Gênesis. Este artigo pretende mostrar as origens do livro e suas implicações dentro principalmente do judaísmo.

Origem do nome do livro[editar | editar código-fonte]

O termo Bereshit (No princípio) trata-se da primeira palavra do livro, e é o costume judaico dividir seus livros e citar como nome do capítulo o nome de sua primeira palavra. O livro foi chamado na Septuaginta e por Filo de Alexandria de Γένεσις (κόσμου) = "origem" (do mundo), e o termo Gênesis é uma criação posterior usual entre os não judeus.

Origens do texto[editar | editar código-fonte]

Do ponto de vista judaico, a tradição passada ao largo de milhares de anos ensina que o texto foi entregue por D-us a Moshê no Monte Sinai durante a revelação ao povo hebreu, dias após a saída do Egito, o Êxodo.[1] Esta visão é conhecida como Criticismo Inferior.[2]

Os estudiosos da Alta crítica geralmente atribuem a autoria a um período posterior, provavelmente no retorno do Exílio Babilônico onde teria havido uma fusão de diversas lendas mitológicas dos povos do Levante com a cultura judaica. Muitos elementos mitológicos presentes no texto serão base para textos posteriores que seriam considerados apócrifos como o Livro de Enoque. Como exemplo deste caso temos a polêmica sobre os Nefilim.

Os estudiosos do Alta crítica creem que a Torá e subsequentemente Bereshit é resultado de diversas tradições que evoluiram em conjunto através da história do antigo povo de Israel. Neste ponto de vista seria confirmado pelas duplicidades nas diversas histórias narradas:

  • Duas criações do mundo;
  • Duas alianças de D-us com Avraham;
  • Duas histórias do nome de Yitzhak;
  • Duas histórias do nome de Ya'acov;
  • Além das porções que utilizam o nome Elohim (tradição Eloísta) e que parecem desconhecer totalmente o nome de YHWH (tradição Yavista) como no caso da criação do mundo.[3]

Texto[editar | editar código-fonte]

Bereshit tem como princípio descrever as origens deste mundo e da linhagem humana até o pacto do Criador com o povo de Israel, descrevendo principalmente a vida dos Patriarcas bíblicos. Também apresenta as origens dos principais mandamentos da vida judaica como a brit milá, o shabat e mandamentos para toda a humanidade como as Leis de Noé.

O texto é comumente dividido em doze parashot (porções) cuja divisão servem para a leitura semanal do texto nas sinagogas acompanhadas das haftarot. As doze porções, simbolizam as Tribos de Israel. Assim a narrativa de Bereshit está divida em:

Bereshit (בראשית)[editar | editar código-fonte]

Gustave Doré Adão e Eva expulsos do paraíso.

A parashá Bereshit ("No início", "no princípio") é a primeira porção da Torá e busca narrar a criação do mundo por D-us, assim como a origem de todas as coisas—dos animais, do primeiro homem (Adam ou Adão - cujo nome provêm de adama, "terra avermelhada") e sua mulher, assim como de sua descendência através de dez gerações. Mostra a corrupção do gênero humano (incluindo o primeiro assassinato) e o subseqüente castigo de D-us através do Dilúvio, do qual somente se salvaria Noach (Noé) e sua família.

Esta porção apresenta a origem do shabat (que seria o dia de descanso de D-us após a criação) e apresenta—de acordo com Maimônides -- o primeiro mandamento positivo: "Crescei e frutificai".

A haftará que acompanha esta porção é:

Nôach (נח)[editar | editar código-fonte]

Esta parashá toma o nome de Noach (Noé) que ao contrário da restante da humanidade teria permanecido justo diante da maldade do ser humano e graças a isto teria sobrevivido junto com sua família do cataclismo causado pelo Dilúvio juntamente com animais selecionados para garantir a sobrevivência das espécies. Após a cessação do Dilúvio, Noach e sua família teriam repovoado a terra e dado origem à todos os povos da atualidade. A descendência de Noach no entanto seria alvo de um castigo divino ao tentarem mover uma guerra contra D-us ao construir a Torre de Babel. Tendo seus idiomas confundidos, os povos foram dispersos pela face da terra.

A haftará desta porção é :

Lech Lechá(לך לך )[editar | editar código-fonte]

De acordo com a tradição judaica, desde o princípio do mundo existiram justos servidores ao D-us único, mas a corrupção do gênero humano levou principalmente à adoção da idolatria pela maior parte dos povos da terra. A parashá Lech Lechá inicia-se com o chamado de D-us a Avraham (Abraão), que teria sido um profeta e defensor do monoteísmo. Chamado para peregrinar nas terras de Canaã, a parashá narra diversas aventuras envolvendo o profeta, sua mulher Sarai (Sara) e seu sobrinho Lot. Entre suas peregrinações D-us efetua uma aliança eterna com Avraham e sua descendência simbolizada pelo pacto da brit milá. Esta aliança eterna é a fundamentação do conceito de Povo Escolhido para os judeus, que seriam os descendentes de Avraham. A parashá também descreve o nascimento do filho de Avraham, Ishmael (Ismael) que posteriormente será considerado o pai dos povos árabes.

A haftará desta porção é :

Vayerá (וירא)[editar | editar código-fonte]

Esta parashá narra as promessas de D-us a Avraham e a sua descendência, que deveria ser obtida mediante Yitzhak (Isaac), filho gerado milagrosamente por Sara que era velha e estéril. O nascimento de Yitzhak leva a uma crise com Ishmael (Ismael) e sua mãe Hagar, uma escrava que havia sido dada como concumbina a Avraham. Por recomendação de Sara e D-us, Avraham expulsa o filho e sua mãe. Nesta parashá é também narrada a destruição de Sodoma e Gomorra e a salvação de Lot por dois anjos. Inclui também a provação de D-us à fé de Avraham pedindo que este sacrifique seu filho Yitzhak. Avraham segue a determinação mas D-us impede o sacríficio no último momento.

A haftará desta porção é :

Chayê Sharah (חיי שרה)[editar | editar código-fonte]

Gustave Doré - Eliézer e Rebeca.

Esta parashá inicia-se com a morte de Sara aos 127 anos. Avraham decide encontrar uma esposa para seu filho Yitschac e envia seu servo à sua família, que encontra uma moça, Rivka (Rebeca) que se torna esposa de Yitzhak. Avraham acaba falecendo com a idade de 175 anos e a porção encerra-se com a descrição dos descendentes de Avraham.

A haftará desta parashá é :

Toledot (תולדות)[editar | editar código-fonte]

A parashá Toledot narra a história de Yitzhak e Rivka, e de seus filhos gêmeos, Esav (Esaú) e Yaacov (Jacó). Os dois irmãos competem pela atenção do pai, onde Esav é um caçador, enquanto Yaacov é um rapaz caseiro e estudioso da Torá. Essav mostrado como um libertino e frívolo, vende seu direito de primogenitura para Yaacov. Este ainda passa-se pelo irmão e enganando ao pai recebe as bençãos de seu pai, o que despertando a ira de Esav faz com que Yaacov fuja para Charan junto ao seu tio Lavan.

A haftará desta porção é :

Vayetze (ויצא)[editar | editar código-fonte]

Michael Willmann - O sonho de Jacó.

Yaacov foge para as terras de seu tio Lavan (Labão) e no caminho recebe uma visão de D-us e um pacto com a sua descendência. Ao chegar à família de seu tio apaixona-se por sua prima Rachel (Raquel). Para casar com ela é obrigado à trabalhar sete anos. Ao casar-se, é enganado por seu tio e acaba desposando a irmã mais velha de Rachel, Lea. Para se casar com Rachel Yaakov trabalha mais sete anos. Destas duas mulheres mais suas concumbinas, Yaakov gera onze dos doze filhos que serão os patriarcas das Doze tribos de Israel. Após vinte anos trabalhando e sendo enganado por Lavan, Yaakov e sua família fogem de Lavan , que os persegue mas por fim faz um pacto de paz com eles.

A haftará desta porção é :

Vayishlach (וישלח)[editar | editar código-fonte]

A parashá Vayishlach prossegue o relato da história de Yaakov ao retornar com sua família para a terra de Canaã e seu encontro com Esav. Yaacov julga que Esav pretende batalhar contra ele, e prepara-se para a batalha. Antes de encontrar-se com seu irmão luta contra um anjo disfarçado de homem do qual sai vitorioso embora manco. Do anjo Yaakov recebe o nome de Yisrael (Israel) que será o nome pela qual seus descendentes seriam chamados.

Yaakov encontra por fim Esav que o aceita em paz embora ambos se separem. A narrativa prossegue com o rapto da filha de Yaakov, Diná e seu consequente estupro por parte de Sechem, príncipe da cidade de Sechem (Siquém). Os filhos de Yaacov enganam os habitantes da cidade, obrigando-os à circuncidarem-se sob o pretexto da aceitação de casamentos mistos e por fim Shimon e Levi matam os habitantes da cidade resgatando Diná. Rachel morre em seguida ao dar a luz ao décimo-segundo filho de Yaakov e este retorna para a casa de seu pai. Yizhak morre com a idade de 180 anos e a porção prossegue com a descrição da genealogia de Esav que seria o ancestral dos habitantes de Edom.

A haftará desta porção é:

Vayêshev (וישב)[editar | editar código-fonte]

José sendo capturado pelos seus irmãos e vendido aos egípcios (pintura de Konstantin Flavitsky).

A parashá Vayêshev descreve inicialmente a afeição de Yaakov por seu filho Yossef (José) o que leva ao ciúme dos outros irmãos. Este ódio aumenta com os sonhos de Yossef que se vê como senhor de seus irmãos. Seus irmãos preparam uma artimanha e vendem seu irmão como escravo no Egito, e enganam seu pai dizendo que Yossef havia sido destroçado por um animal.

No Egito Yossef torna-se um empregado valoroso na casa de Potifar, mas recebe uma falsa acusação de tentativa de assédio sexual por parte da esposa de Potifar. Yossef é preso onde acaba tornando-se encarregado dos prisioneiros. Após dez anos ao interpretar o sonho de dois serviçais de faraó, os eventos posteriores confirmam a interpretação dada por Yossef.

A haftará desta porção é Amós 2:6–3:8.

Miqetz (מקץ)[editar | editar código-fonte]

Mikêts descreve o sonho do faraó sobre sete vacas magras devorando sete vacas gordas, seguido por sete espigas magras de cereal devorando sete espigas saudáveis. Os conselheiros de faraó não conseguem interpretar o sonho, e Yossef recomendado pelo copeiro do rei é chamado para interpretar o sonho. Yossef descreve então que os sonhos confirmam que após sete anos de abundância o Egito e toda a terra seria assolado por grande escassez. Faraó determina então Yossef como vice-rei do Egito com o objetivo de coletar alimentos no período de fartura e armazaná-los para a época da escassez. Yossef então casa-se e tem dois filhos: Menashê e Efraim, e os eventos ocorrem como Yossef predissera. Em Canaã a escassez atinge a família de Yaacov, que envia seus filhos ao Egito para comprar alimento. Encontram Yossef mas não o reconhecem.

Yossef finge então considerá-los espiões e mantém Shimeon refém enquanto os outros irmãos retornam para Canaã com alimento, e exige que retornem com o irmão mais novo. Yaacov não permite mas a escassez obriga-o à liberar Binyamin (Benjamim). Os irmãos retornam ao Egito onde são bem tratados. No entanto Yossef cria uma artimanha para acusar Binyamin de roubo e torná-lo seu escravo no Egito.

A haftará desta parashá é I Reis 3:15–4:1.

Vayigash (ויגש )[editar | editar código-fonte]

Os irmãos de Yossef desesperam-se com a situação e Yehudá (Judá) oferece-se para ficar no Egito no lugar de Binyamin já que a perda deste seria fatal para Yaakov. Yossef incapaz de fingir mais tempo revela-se a seus irmãos e os envia de volta para Canaã para buscarem seu pai e ordem para que toda a família de Yaakov venha habitar no Egito.

A haftará desta porção é Ezequiel 37:15–28.

Vayechi (ויחי)[editar | editar código-fonte]

Jacó abençoa os filhos de José (pintado por Jan Victors).

A parashá Vayechi é a última porção de Bereshit e descreve os últimos anos de vida de Yaakov e sua morte. Antes obriga Yossef a jurar que o enterrará na Terra da Promessa e abençoa a cada um dos seus filhos individualmente. Yaakov morre com 147 anos e é enterrado em M'arat HaMachpelá, onde estão enterrados sua esposa Lea, seus pais Yitzhak e Rivka, e os avós Avraham e Sara.

Yossef perdoa seus irmãos das artimanhas que lhe armaram na juventude e por fim Yossef morre, pedindo que seus ossos sejam levados no futuro para a Terra da Promessa.

A haftará desta parashá é I Reis 2:1–12.

Referências

  1. Chabad Torá.
  2. KOLATCH, Alfred J. Porquês da Torá, Os - São Paulo: Editora Sêfer, 2004
  3. As Camadas do Pentateuco.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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