Bispo (xadrez)

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O Bispo no modelo Staunton.

O Bispo é uma peça menor do xadrez ocidental de valor aproximado de três peões. Movimenta-se em diagonal, não podendo pular peças intervenientes, e captura tomando o lugar ocupado pela peça adversária. Devido às características de seu movimento tem a deficiência da fraqueza da cor onde seu movimento fica limitado à cor da casa de onde inicia a partida.

Inicialmente, o bispo não fazia parte do Chaturanga e de seu sucessor árabe Shatranj - jogos de tabuleiro orientais que teriam originado o xadrez - tendo sido incluído no jogo somente por volta do século XII, já na Europa. Seu antecessor, o alfil tinha seu nome ligado a palavra Elefante e os historiadores indicam que a mudança do nome decorreu da influência da Igreja Católica na Idade Média e da semelhança da peça abstrata árabe com a mitra utilizados pelos bispos na época.

Na fase de abertura os bispos desempenham funções de defesa dos peões ao centro e no conceito hipermoderno são flanqueados de modo a atacar o centro à distância. No meio-jogo e final seu valor aumenta à medida que as posições tornam-se mais abertas embora não tanto se o jogador não possuir o par. Estudos de finais envolvendo o bispos são amplamente estudados resultando normalmente em um empate quando de cores opostas ou uma vitória caso exista um peão passado cuja casa de promoção seja da cor do bispo e o Rei possa proteger o peão até à sétima fileira.

Evolução e etimologia[editar | editar código-fonte]

Uma miniatura medieval armena representando elefantes de guerra sassânidas na Batalha de Avarair[1]

O predecessor do bispo no Shatranj era o Alfil ou Pīl, que podia se mover duas casas em diagonal, pulando a primeira mesmo quando esta estava ocupada. Como consequência, cada Alfil ficava restrito a oito casas do tabuleiro e não podia atacar o Alfil adversário.[2] O Bispo moderno surgiu primeiro por volta do século XII no Xadrez Courier.[3] Uma peça com este movimento, chamada cocatriz ou crocodilo era parte do Grande Acedrez no livro de jogo compilado em 1283 pelo Rei Afonso X de Castela. O jogo é atribuído como de origem indiana, até então um termo vago.[4]

Aproximadamente meio século depois, Muḥammad ibn Maḥmud al-Āmulī em seu livro Tesouros da ciência descreve uma forma de xadrez expandida com duas peças que "moviam-se como a torre porém obliquamente".[5] Tal peça era denominada dabbabah, o nome empregado para um telhado portátil utilizado por soldados atacando uma muralha protegida por arqueiros, líquidos fervendo, e outros artefatos militares utilizados pelos defensores.[6] Dois livros do final do século XV descrevem a nova movimentação do Bispo: o Libre Del jochs partits dels schachs em nombre de 100 de Francesc Vicent, perdido em 1811 durante um saque dos soldados de Napoleão ao Mosteiro de Montserrat, e o Repetición de amores e arte Del axedres com CL iuegos de partido de Luiz Ramíriz de Lucena, impresso na cidade de Salamanca e dedicado ao recém falecido príncipe Don Juan, filho de Fernando e Isabel de Castela. Ao invés de se mover pulando somente uma casa, poderia percorrer o caminho diagonal desde seu caminho não estivesse impedido.[7]

A origem do nome é obscura. Acredita-se que tenha sido provocada pelo formato abstrato do Pīl, com duas protuberâncias no topo, que originalmente simbolizavam as presas de um elefante, fizesse lembrar a mitra dos bispos.[8] A tradução do nome da peça a partir do árabe, diferente das outras peças, não foi homogênea. Na Espanha, influenciada diretamente pelos árabes, se reteve o nome original "Alfil", enquanto na Itália foi modificado para Alfiere, com o significado de porta-estandarte. Na França a peça foi nomeada inicialmente como Aufin e posteriormente como Fou, com o significado de bobo da corte, que permanece até a atualidade. Na Alemanha e Dinamarca a peça é empregada com o significado de corredor, Läufer e Looper, respectivamente. Em países sob influência nórdica, a peça adquiriu o significado de Bispo, o que provavelmente teve influência da posição da peça ao lado do Rei no tabuleiro e o status da Igreja como principal conselheira da monarquia.[9] [10]

Movimento e valor relativo[editar | editar código-fonte]

Começo de um tabuleiro de xadrez. a b c d e f g h
8 círculo preto em a8 8
7 círculo preto em b7 círculo preto em h7 7
6 círculo preto em c6 círculo preto em g6 6
5 círculo preto em d5 círculo preto em f5 5
4 bispo preto em e4 4
3 círculo preto em d3 círculo preto em f3 3
2 círculo preto em c2 círculo preto em g2 2
1 círculo preto em b1 círculo preto em h1 1
a b c d e f g h Fim do tabuleiro de xadrez.
Movimentação do Bispo, os circulos denotam onde o movimento é permitido.[11]

No início de uma partida, cada jogador tem um par de bispos dispostos em c1 e f1 para as brancas e c8 e f8 para as negras. Seu movimento é oblíquo, movimentando-se em linhas retas nas diagonais do tabuleiro. O número de casas que pode atacar num tabuleiro vazio varia de 7 a 13, sendo mais efetivo no centro do tabuleiro.[12] Não pode pular peças de mesma cor ou adversária e seu movimento de captura consiste em ocupar a casa da peça adversária.[11] Conforme estabelece a FIDE, o Bispo deve ser representado pela letra B nos países lusófonos nas notações algébricas de xadrez que devem ser utilizadas em torneios oficiais. Em periódicos e na literatura, recomenda-se a utilização de figuras ou diagramas (Chess blt45.svg e Chess bdt45.svg)[13]

Usualmente, o valor relativo do Bispo é estimado entre 3 e 3,5 pontos em relação ao valor de referência de um Peão, embora seja considerado que são mais valiosos em par. Um par de bispos é em média meio ponto mais valioso, o que é suficiente nas considerações de valor e posição, e o suficiente para impressionar a maioria das considerações posicionais. Esta superioridade é surpreendentemente negligenciada por Grandes Mestres que muitas vezes abrem mão do par de bispos na abertura pela oportunidade de dobrar um peão ou ganhar um pouco de desenvolvimento, que são fatores não tão valiosos quanto meio ponto.[14]

Estratégia envolvendo o bispo[editar | editar código-fonte]

Bispo bom e bispo ruim[editar | editar código-fonte]

Chess piece - White bishop.JPG
Wfm lewis chessmen bishop.JPG
Exemplos de bispos em conjunto Staunton (esquerda) e peças de Lewis (direita).

Um enxadrista com apenas um bispo deve geralmente colocar seus peões em casas de cor opostas ao bispo de modo que este possa se mover entre a estrutura de peões podendo assim controlar mais casas e atacar os peões adversários nas casas controladas pelo bispo. Quando o bispo pode manter sua mobilidade é denominado bispo bom.[15]

Em situações que os peões situam-se em casas da mesma cor do bispo, este é denominado bispo ruim ou peão alto uma vez que sua mobilidade fica comprometida pela cadeia de peões, sendo inferior a um cavalo no final de uma partida.[16] Entretanto, um bispo ruim não é necessariamente uma desvantagem especialmente se estiver a frente da cadeia de peões e além disso, um bispo ruim pode ser vantajoso em um final com bispos de cores opostas. Mesmo quando restrito a posições passivas, um bispo pode ser útil em funções defensivas, o GM Mihai Şubă afirma que "Bispos ruins protegem peões bons".[17] [18]

Bispo de cores opostas[editar | editar código-fonte]

Quando um jogador tem somente um bispo e o oponente também de modo que estes estão em casas de cores opostas, estas peças não podem lutar diretamente pelo controle das casas devido a fraqueza da cor. Na fase final, esta desvantagem pode ser decisiva pois mesmo se um dos jogadores tiver dois peões a mais não conseguirá vencer.[19]

Comparativo com o cavalo[editar | editar código-fonte]

Começo de um tabuleiro de xadrez. a b c d e f g h
8 torre preta em a8 dama preta em d8 rei preto em e8 torre preta em h8 8
7 peão preto em c7 bispo preto em e7 peão preto em f7 peão preto em h7 7
6 peão preto em a6 cavalo preto em c6 peão preto em d6 cavalo preto em f6 peão preto em g6 bispo branco em h6 6
5 peão preto em b5 5
4 peão preto em d4 peão branco em e4 4
3 bispo branco em b3 peão branco em c3 dama branca em g3 peão branco em h3 3
2 peão branco em a2 peão branco em b2 peão branco em f2 peão branco em g2 2
1 torre branca em a1 cavalo branco em b1 torre branca em f1 rei branco em g1 1
a b c d e f g h Fim do tabuleiro de xadrez.
Exemplo de garfos de bispo ocorre após 12…Cxe4?, quando o garfo 13.Bd5! ganha materia após, por exemplo, Cxg3 14.Bxc6+ Dd7 15.Bxd7+ Rxd7 16.fxg3.

Os bispos têm aproximadamente o mesmo valor relativo dos cavalos, entretanto dependendo da situação na partida podem ter uma vantagem distinta.[20] Enxadristas inexperientes tendem a subestimar o bispo em relação ao cavalo devido a capacidade deste empregar a tática do garfo. Além disso, os cavalos não sofrem da fraqueza da cor o que permite alcançar todas as casas do tabuleiro.[21]

Dois bispos geralmente tem uma força relativa maior na fase final da partida uma vez que restam poucas peças sobre o tabuleiro e mais diagonais ficam disponíveis para eles se movimentarem, podendo ir de um canto ao outro do tabuleiro num só movimento, enquanto o cavalo necessita de mais para fazê-lo, além de não sofrerem da fraqueza da cor. Entretanto, esta característica não é necessariamente uma vantagem, pois depende de outros fatores, como a estrutura de peões. A força do par de bispos foi inicialmente estudada por Louis Paulsen e Wilhelm Steinitz, que em seus jogos buscavam explorar a mobilidade das peças em oposição ao cavalo adversário.[22] A troca de um Cavalo por um Bispo, é denomida qualidade menor, termo cunhado por Siegbert Tarrasch.[23] Em certas posições, um bispo pode também perder um tempo através de um movimento de espera, evitando assim posições de Zugzwang, sendo o cavalo incapaz de realizar esta tática.[24] Por fim, o bispo é capaz de empregar táticas como o espeto e a pregadura, sendo o cavalo incapaz de realizar qualquer delas.[25]

Por outro lado, na fase de abertura e meio-jogo um bispo pode ter seu movimento restrito por seus próprios peões ou do adversário, sendo assim inferior ao cavalo que pode pular sobre as peças tornado-se mais ativo.[26] Oportunidades de aplicar garfos são frequentes para os cavalos, possibilitando muitas vezes o ganho de material, enquanto para o bispo são raras as oportunidades de fazê-lo devido a seu movimento oblíquo. Um exemplo acontece na continuação da Abertura Ruy López: 1.e4 e5 2.Cf3 Cc6 3.Bb5 a6 4.Ba4 Cf6 5.0-0 b5 6.Bb3 Be7?! 7.d4 d6 8.c3 Bg4 9.h3!? Bxf3 10.Dxf3 exd4 11.Dg3 g6 12.Bh6!.

O Sacrifício do par de bispos[editar | editar código-fonte]

Começo de um tabuleiro de xadrez. a b c d e f g h
8 torre preta em a8 torre preta em f8 rei preto em g8 8
7 bispo preto em b7 bispo preto em e7 peão preto em f7 peão preto em g7 peão preto em h7 7
6 peão preto em a6 peão preto em b6 dama preta em c6 peão preto em e6 6
5 peão preto em c5 peão preto em d5 bispo branco em e5 cavalo preto em h5 5
4 peão branco em f4 4
3 peão branco em b3 bispo branco em d3 peão branco em e3 3
2 peão branco em a2 peão branco em c2 peão branco em d2 dama branca em e2 peão branco em g2 peão branco em h2 2
1 torre branca em a1 torre branca em f1 rei branco em g1 1
a b c d e f g h Fim do tabuleiro de xadrez.
Lasker-Bauer (Amsterdan-1899), após 14...Cxh5.

O sacrifício de ambos os Bispos é um recurso utilizado para a abrir colunas sobre o Rei adversário, normalmente executado na ala do Rei.[27] É um sacrifício ativo, no qual o atacante captura os peões das colunas g e h, abrindo espaço para uma sucessão de xeques da Dama e Torres. O primeiro registro ocorreu na partida Lasker-Bauer (Amsterdan-1899).[28]

1.f4 d5 2.e3 Cf6 3.b3 e6 4.Bb2 Be7 5.Bd3 b6 6.Cc3 Bb7 7.Cf3 Cbd7 8.O-O O-O 9.Ce2 c5 10.Cg3 Dc7 11.Ce5 Cxe5 12.Bxe5 Dc6 13.De2 a6?? 14.Ch5 Cxh5 15.Bxh7+ Rxh7 16.Dxh5+ Rg8 17.Bxg7 Rxg7 18.Dg4+ Rh7 19.Tf3 e5 20.Th3+ Dh6 21.Txh6+ Rxh6 22.Dd7 Bf6 23.Dxb7 Rg7 24.Tf1 Tab8 25.Dd7 Tfd8 26.Dg4+ Rf8 27.fxe5 Bg7 28.e6 Tb7 29.Dg6 f6 30.Txf6+ Bxf6 31.Dxf6+ Re8 32.Dh8+ Re7 33.Dg7+ Rxe6 34. Dxb7 Td6 35. Dxa6 d4 36. exd4 cxd4 37. h4 d3 38. Dxd3 e as pretas abandonam.[28]

Referências

  1. Connolly, Peter; et al. The Hutchinson Dictionary of Ancient and Medieval Warfare (em inglês). Inglaterra: Routledge. 28 pp. isbn 978-1-57958-116-9 Página visitada em 26/04/2010.
  2. Hooper (1992), p.134-135
  3. Murray (1913), p.483
  4. Murray (1913), p.348
  5. Murray (1913), p.344
  6. Murray (1913), p.341
  7. Yalom (2004), p.195
  8. Hooper (1992), p.41
  9. Willians (2000), p.20
  10. Golombek (1977), p.30
  11. a b Laws of Chess, Article 3:The moves of the pieces (em inglês) FIDE. Página visitada em 19/01/2010.
  12. Freire (1980), p.7
  13. Appendix:Laws of Chess, itens C.2 e C.3 (em inglês) FIDE. Página visitada em 19/01/2010.
  14. Kaufman, Larry (1999). The Evaluation of Material Imbalances Chess Live.
  15. Seirawan (2006), p. 52
  16. Golombek (1977), p.21
  17. Secrets of Modern Chess Strategy, Advances Since Nimzowitsch por John Watson.
  18. Seirawan (2006), p. 53
  19. Divinsky (1990), p.20
  20. Seirawan (2006), p.79
  21. Seirawan (2006), p.88
  22. Hooper (1992), p.433
  23. Hooper (1992), p.260
  24. Hooper (1992), p.235
  25. Hooper (1992), p.374
  26. Seirawan (2006), p.45-46
  27. Divinsky (1990), p.55
  28. a b Hooper (1992), p.112-113

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • DIVINSKY, Nathan. The Chess Encyclopedia (em inglês). 1ª ed. Reino Unido: The Bath Press, 1990. ISBN 0816026416
  • GOLOMBEK, Harry. Golombek's Encyclopedia of chess (em inglês). 1ª ed. São Paulo: Trewin Copplestone Publishing, 1977. ISBN 0-517-53146-1
  • FREIRE, Cassio de Luna. É Fácil Jogar Xadrez (em português). 1ª ed. São Paulo: Ediouro, 1980. ISBN 8500585854
  • HOOPER, David e WHYLD, Kenneth. The Oxford Companion to Chess (em inglês). 2ª ed. Inglaterra: Oxford University Press, 1992. ISBN 0-19-866164-9
  • SEIRAWAN, Yasser e SILMAN Jeremy. Xadrez Vitorioso: Estratégias. 1ª ed. São Paulo: Artmed, 2006. ISBN 85-363-0651-3
  • MURRAY, H.J.R.. A History of Chess (em inglês). 1ª ed. Oxford: Clarendon Press, 1913. ISBN 0936317019
  • YALOM, Marilyn. The Birth of the Chess Queen (em inglês). 1ª ed. Inglaterra: HarperCollins, 2004. ISBN 978-0060090647
  • WILLIANS, Gareth. Master Pieces (em inglês). 1ª ed. Londres: Quintet Publishing Limited, 2000. ISBN 0670893811

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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