Brumas

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Brumas
 Portugal
2003 • cor • 78 min 
Realização Ricardo Costa
Argumento Ricardo Costa
Elenco Ricardo Costa
Género docuficção
Idioma português
Distribuição Marfilmes

Brumas (2003) é um filme português, de longa-metragem, de Ricardo Costa.

É uma obra de natureza autobiográfica, uma viagem à infância. Filme rodado sem objectivos comerciais nem apoios financeiros, caracteriza-se pela sua simplicidade formal e por uma abordagem profunda de temas ilustrados por quem vive para dar vida: a sua personagem principal.

Obra de características experimentais, cujo género se situa entre a ficção e o documentário (docuficção), é o primeiro filme de uma trilogia intitulada Longes, sendo o segundo Derivas[1] e o terceiro Arribas (em desenvolvimento).

O filme teve estreia internacional no Festival de Veneza (Novos Territórios) em 2003.

Comercialmente, estreou em Portugal no cinema Quarteto,[2] em Lisboa, a 9 de Novembro de 2006, a 16 de Novembro, no cinema Palmeiras, em Oeiras, e ainda no cinema Quarto Crescente,[3] em Peniche, onde foi rodado.

Teve lançamento nos EUA, em Nova Iorque, no cinema QUAD, a 23 de Março de 2011, com exibições ulteriores noutras cidades.

Ficha sumária[editar | editar código-fonte]

  • Argumento: Ricardo Costa
  • Realização: Ricardo Costa
  • Produção: Ricardo Costa
  • Rodagem: Agosto / Setembro de 2001
  • Som: Dolby estéreo SR
  • Músicas: Manu Chao e Nuno Rebelo
  • Formato: 35 mm cor (de DVCpro)
  • Género: Docuficção
  • Duração: 78'
  • Distribuição nacional: Bosque Secreto (2006/2010)
  • Distribuibuidor: RC Filmes
  • Estreia nacional: 9 de Novembro de 2006 (Lisboa); 16 de Novembro (Oeiras); 2 de Dezembro (Peniche).
  • Lançamento internacional: 23 de Março de 2011 (Nova Iorque - QUAD)

Sinopse[editar | editar código-fonte]

«Passados mais de cinquenta anos, o protagonista acaba por descobrir a Maria José, criada em casa dos seus pais, que lhe contava histórias inverossímeis quando ele era criança, tinha ela uns dezoito. A jovem tornou-se anfitriã, é avó e bisavó, tem rugas profundas e o mar na alma. Vive em Peniche, terra de pescadores, no Bairro das Janelas do Mar,[4] feito de minúsculas casas caiadas erguidas à beira da falésia.

Desta vez ela conta a história da sua vida e, ao mesmo tempo, repete gestos ancestrais de quem vive para dar vida, para iluminar sonhos de infância. O olho da câmara percorre esses caminhos, recua e logo avança, desvelando situações de que muito se fala, como por exemplo as do 11 de Setembro desse mesmo ano. Os garotos com quem ela convive contam as coisas à sua maneira. Para isso basta uma navalha. Um serrote, um pau de vassoura, um molhe de canas, umas tantas bóias de redes de pesca, uns truques de magia é quanto basta.

Seduzidos pelo herói, o neto e o bisneto da Maria José participam assim, com alguns amigos, numa extraordinária aventura. Velhas brincadeiras. O intenso azul do mar. O Atlântico, incerto, rugindo por entre o esplendor das brumas. O tempo». (Cit.: sinopse do produtor).

Enquadramento histórico[editar | editar código-fonte]

Brumas é filmado num bairro de Peniche conhecido como o «Bairro do Visconde». Certos dos seus habitantes preferem chamar-lhe o «Bairro das Janelas do Mar». Trata-se, na sua origem, de um bairro de lata, um núcleo de construções clandestinas, habitado por pescadores pobres. Foi erguido na falésia, a umas escassas centenas de metros a poente de uma célebre fortaleza. Pouco a pouco, por iniciativa sua, esmerando-se, os residentes reconstruíram e melhoraram o bairro. Lá no alto da falésia, é hoje um pequeno exemplo de urbanismo que honra a paisagem.

É aí, nesse recanto discreto, entre branco e azul, que, passados mais de cinquenta anos, «o protagonista» conta ter descoberto a Maria José: mesmo ali, a meia dúzia de passos da casa dos seus pais. A meio caminho, entre um lugar e o outro, também virado para o mar, mantém-se erguida a tal fortaleza, o Forte de Peniche, que ele chegou a visitar em criança.

Durante muitos anos o forte foi uma prisão política de triste memória, onde alguns dos mais destacados opositores ao regime de Salazar passaram uma parte importante da sua vida, sofrendo torturas e humilhações.

O forte é uma presença dominante, sobranceira ao mar, do outro lado das arribas, mesmo em frente da casa da Maria José.

Havia no forte uma cela minúscula, chamada «o segredo», onde eram metidos os presos mais rebeldes.[5] «Havia, mesmo ao lado do «segredo», lugar de triste memória, um poço que rugia, soprava e cuspia das suas entranhas as boinas e os bonés dos presos, que se divertiam a atirá-los lá para dentro, como num sonho».[6] O poço dá para uma abóbada natural cavada na rocha por baixo da falésia. Quando uma onda mais forte entra nessa abóbada, o ar saí com violência. Consumado o sonho, são hoje as crianças – os heróis do filme – quem brinca no meio desse vento, que sopra das entranhas da terra.

Na ante-estreia, foi referido pelo autor do filme que este foi feito sem os habituais apoios financeiros do Estado, com ajuda de amigos, após uma paragem forçada de vários anos na sua actividade profissional. Mudanças associadas em Portugal à dramática quebra da produção independente a partir dos meados dos anos oitenta (ver: Cinema de Portugal) e o naufrágio de uma longa-metragem (Land of Stones) apoiada pelos fundos oficiais e pelo programa MEDIA da UE, que acabou por não ser produzida, explicarão em parte essa paragem. Em suma: Brumas terá sido um filme feito em condições ainda mais precárias, mais radicais, do que aquelas em que Ricardo Costa trabalhava quando iniciou a sua carreira (Avieiros e Mau Tempo, Marés e Mudança).

Filmado em 2001, concluído em 2003, exibido comercialmente em Portugal em 2006, cativo até Dezembro de 2010 por um contrato de distribuição «sem consequências», Brumas será retomado pelo produtor no início de 2011 para novo lançamento.

Ficha artística[editar | editar código-fonte]

  • Ricardo Costa (o protagonista)
  • Maria José (jovem criada e anciã)
  • Rudolfo (neto)
  • David (bisneto)
  • Beta (filha)
  • Isabel (filha)
  • Henrique (filho)
  • Paulo (filho)
  • Maria Velha (amiga)
  • Maria Joaquina (amiga)
  • Maria Bernardina (amiga)
  • Dias Lourenço (antigo prisioneiro)
  • Isaura (amiga do protagonista)
  • Luis Correia Peixoto (fotógrafo)
  • Silvina Nascimento (malabarista)
  • Lígia Pereira (operadora de som)
  • Escola de dança do Museu Municipal de Peniche (curso de Marta Lapa)
  • Habitantes e garotos do Bairro do Visconde
  • Escola n.º 1 de Peniche
  • Associação Juvenil de Peniche

Ficha técnica[editar | editar código-fonte]

  • Realizador: Ricardo Costa
  • Produção: Ricardo Costa
  • Assistente de realização e produção: Maria José Silva
  • Imagem: Ricardo Costa
  • Som: Ricardo Costa
  • Montagem: Ricardo Costa
  • Assistente de montagem: João Brandão
  • Montagem de bandas de som: Ricardo Sequeira
  • Misturas de som: Jean-Paul Loublier
  • Laboratórios de imagem: Concept e Tobis Portuguesa
  • Master de imagem e misturas dolby: Téletota (Paris)

Festivais[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Derivas
  2. Lisboa: Cinema Quarteto encerra por falta condições segurança - artigo no semanário Expresso, de 16 de Novembro de 2007
  3. Última Sessão: Já não há Cinema em Peniche - artigo no Jornal de Peniche, de 13 de Maio de 2009
  4. Reabilitação do Bairro do Visconde e sua integração na malha urbana – paper de Maria Alice Lobo em Pluris 2010
  5. Entrevista com António Dias Lourenço, antigo preso político.
  6. Ante-estreia de Brumas na Cinemateca Portuguesa.

Ver também[editar | editar código-fonte]



Ligações externas[editar | editar código-fonte]

press book (em inglês) francês e português)

  • Notíciade Ana Maria Ribeiro sobre o 60.º Festival Internacional de Cinema de Veneza – jornal Correio da Manhã - 01 Agosto 2003
  • Brumas no Festival de Veneza, artigo de Gabriela Ferreira em Artjornal.com - Outubro 2003
  • Brumasno jornal Alvorada (sobre a estreia em Veneza)
  • Brumas– notícia em TSF - 4 de Setembro 2003
  • Notícia (em inglês) no IndieWire sobre o Festival de Veneza de 2003