Bule de chá de Russell

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O bule de chá de Russell, eventualmente chamado de bule celestial, é uma analogia criada pelo filósofo Bertrand Russell (1872–1970) que tem por finalidade mostrar que a dificuldade de desmentir uma hipótese não torna esta verdadeira, e que não compete a quem duvida desmenti-la, mas quem acredita nela é que deve provar sua veracidade. Num artigo chamado "Existe um Deus?",[1] Russell escreveu:

Cquote1.svg Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados – em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá de porcelana girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada. Cquote2.svg

Uso contemporâneo[editar | editar código-fonte]

Em seu livro O Capelão do Diabo, de 2003, Richard Dawkins desenvolveu esta analogia do bule de chá celestial:

"A razão da religião reagir contra esta ideia, ao contrário da crença no Bule de Chá de Russell, é porque a religião é poderosa, influente, se autoexime e sistematicamente é passada para crianças que são jovens demais para se defenderem sozinhas. Crianças não são compelidas a passar seus anos de alfabetização lendo livros insanos sobre bules de chá. Escolas públicas não excluem crianças cujo pais preferem formatos diferentes de bule. Os crentes no bule de chá não ameaçam com a morte quem não crê no bule, quem duvida do bule ou quem blasfema contra o bule. Mães não aconselham seus filhos a se casarem com mulheres que creem no bule de chá celestial, tal como todos os seus parentes se casaram. Pessoas que misturam leite no chá não têm suas pernas quebradas por quem prefere o chá puro."

Em seus livros O Capelão do Diabo e Deus, um Delírio, Dawkins usa o bule de chá como uma analogia de um argumento contra o que ele chamou de "conciliação agnóstica". Se a ciência não tem nenhuma maneira de estabelecer a existência ou a não-existência de Deus, acreditar ou não acreditar é uma questão de gosto para o conciliador agnóstico. Então, acreditar ou não acreditar merece o mesmo respeito. Dawkins apresenta o bule de chá como uma redução ao absurdo dessa posição: se agnosticismo respeita igualmente a crença e a não crença num ser supremo, então deve respeitar igualmente a crença no bule de chá celestial, já que a existência do bule é cientificamente tão plausível quanto a existência de um ser supremo.[2]

Peter Atkins disse que o ponto principal do Bule de Chá de Russell é mostrar que um cientista não pode provar a negação, e então a Navalha de Occam demanda que a teoria mais simples (na qual não há ser supremo) deve prevalecer à teoria mais complexa (que há um ser supremo). Argumento análogo é apresentado por Carl Sagan mediante a estória O Dragão em Minha Garagem conforme relatada em O Mundo Assombrado pelos Demônios: "Sua incapacidade de invalidar a minha hipótese não é, de forma alguma, a mesma coisa de provar que ela é verdadeira."

O conceito do bule de chá de Russell tem sido explorado com humor, mais explicitamente do que paródias como a do Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível ou do Monstro do Espaguete Voador.

Referências

Ver também[editar | editar código-fonte]