Cão de Fila de São Miguel

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Cão de Fila de São Miguel
Nome original Cão de Fila de São Miguel
Outros nomes Fila de São Miguel
Cão das Vacas
País de origem  Portugal
Características
Classificação e padrões
Federação Cinológica Internacional
Grupo 2 - Cães do tipo Pinscher e Schnauzer, Molossóides, Cães de Montanha Suíços e Cães Boieiros
Seção 2.1 Molossóides de tipo dogue - Molossóides
Estalão #340 - 20/06/2007

Originário da Ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores, o Cão de Fila de São Miguel faz parte do grupo das raças caninas insulares portuguesas, juntamente com o Barbado da Terceira e o actualmente extinto Cão de Fila da Terceira, estando formal e oficialmente reconhecida nas instâncias competentes nacionais e internacionais como uma raça individualizada.

De tipo molossóide, é uma raça de porte médio, de traços rústicos, dotada de grande inteligência, muito independente e auto-confiante, e de grande poder físico, configurando assim uma raça de perfil dominante. É ainda hoje, seguindo a tradição secular da e na sua ilha de origem, utilizada para a guarda e guia de gado bovino leiteiro.

História[editar | editar código-fonte]

Com o povoamento do Arquipélago dos Açores e o início da exploração das condições óptimas das ilhas para a criação de gado bovino, cedo se tornou clara a necessidade da presença de cães nas ilhas para ajudar à condução e defesa do gado, datando do século XVI a primeira referência à sua presença, nomeadamente na Ilha de São Miguel. Esses animais são reconhecidos como os precursores do Fila de São Miguel.

Embora a existência do Cão de Fila de São Miguel, como raça individualizada, esteja registada desde o início do século XIX, é apenas em 1982 que é iniciado o seu registo pela iniciativa de António José Amaral com a colaboração de Maria de Fátima Machado Mendes Cabral, médica veterinária, com o objectivo de criar um censo dos seus efectivos. O primeiro exemplar da raça registado oficialmente foi a cadela 'Corisca', uma perfeita representante da sua raça.

É também pela iniciativa destas mesmas duas pessoas que, em 1984, dois anos após o início do registo de indivíduos é publicado o primeiro estalão oficial. Em 1995 é proposto à Fédération Cynologique Internationale a homologação da raça, tendo sido finalmente reconhecida no ano de 2008.

Origem[editar | editar código-fonte]

A raça hoje conhecida como o Cão de Fila de São Miguel descende dos mastins e alões inicialmente levados para as ilhas dos Açores pelos primeiros colonos, vindos do continente. Mais tarde, e através do contacto com outros povos que aportavam e se estabeleciam nos Açores, o património genético da raça foi enriquecido com cruzamentos feitos com mastins ingleses, buldogues e dogues de Bordéus, até ao culminar do aparecimento da nova raça, de características morfológicas e temperamentais próprias plenamente definidas.

Para além das mencionadas, outras raças raças poderão fazer parte da ancestralidade do Fila de São Miguel, como o Cão de Santo Humberto, também conhecido como Bloodhound, e o Dogo Canário, raça espanhola oriunda das Ilhas Canárias, mas está ainda por demonstrar a verdadeira ligação - se existente - entre estas raças e o Fila de São Miguel.

Aparência[editar | editar código-fonte]

Doshi, um cachorro Fila de S. Miguel de três meses, com orelhas e rabo intactos

De porte médio, o Cão de Fila de São Miguel é um animal de traços fortes e rústicos, normalmente ligeiramente mais comprido que alto. A cabeça tem aspecto maciço, com dentição completa e uma dentada possante, e o pescoço é forte e direito, de comprimento médio, radicando de um tronco sólido e de peito largo. As patas são proporcionais ao corpo e ligeiramente afastadas. Possui uma musculatura forte e bem definida, sem se tornar pesada. A pelagem é curta e lisa e forte.

Estalão Oficial[editar | editar código-fonte]

Os dados aqui transcritos estão conforme o estalão oficial da raça publicado pelo Clube Português de Canicultura[1] e reconhecido pela Fédération Cynologique Internationale.[2]

Embora ainda sejam reconhecidos no estalão oficial o corte de rabo e orelhas, por alterações introduzidas na legislação portuguesa,[nota 1] quaisquer amputações que alterem o aspecto de um animal carecem de autorização médico-veterinária, justificativa da sua necessidade, sendo o corte de orelhas terminantemente proibido e o corte de caudas um acto a ser praticado por ou sob vigilância de médico veterinário. Dadas estas disposições, será de entender que os estalões oficiais que ainda observam amputações estéticas sejam revistos de modo a afastar essas práticas.

Cabeça[editar | editar código-fonte]

Forte, de aspecto quadrado. Eixos longitudinais superiores crânio-faciais paralelos.

Região craniana[editar | editar código-fonte]
  • Crânio: Largo, ligeiramente abaulado, protuberância occipital pouco aparente.
  • Chanfradura Nasal (Stop): Pronunciada.
Região facial[editar | editar código-fonte]
  • Trufa: Larga e de cor negra.
  • Chanfro: Recto, ligeiramente abaulado, de comprimento um pouco inferior ao comprimento do crânio.
  • Lábios: Bem pigmentados, sobrepostos, rasgados, firmes, de perfil inferior ligeiramente curvo.
  • Maxilas: Muito fortes, bem desenvolvidas. Com boa oposição.
  • Dentes: Dentição completa com fecho em tesoura ou em pinça.
  • Olhos: Ovais, expressivos, ligeiramente encovados, castanhos escuros, horizontais, tamanho médio.
  • Orelhas: Inserção acima da média. Quando não cortadas são de tamanho médio triangulares e pendentes mas ligeiramente afastadas da face. São correntemente cortadas em redondo.

Pescoço[editar | editar código-fonte]

Com boa ligação, direito, forte e de comprimento médio. Não tem barbela.

Tronco[editar | editar código-fonte]

Forte, musculado, com peitoral amplo.

  • Peito: Largo e descido.
  • Dorso: Direito.
  • Lombo: De comprimento médio largo e bem musculado.
  • Garupa: De comprimento médio em relação ao corpo, ligeiramente predominante em relação ao garrote.
  • Linha inferior: Perfil inferior ascendente, ventres e flancos proporcionais ao corpo.

Cauda[editar | editar código-fonte]

Inserção alta, grossa. Encurtada pela 2ª ou 3ª vértebra ou inteira de tamanho médio e ligeiramente encurvada.

Membros[editar | editar código-fonte]

Membros anteriores[editar | editar código-fonte]

Fortes, medianamente afastados e direitos.

  • Espáduas: Ângulo escapulo-úmeral ligeiramente aberto.
  • Braços: Fortes de comprimento médio, bem musculados.
  • Antebraços: Grossos e bem musculados.
  • Carpos: Grossos.
  • Metacarpos: Grossos, de comprimento médio.
  • Mãos: Ovais, com dedos e unhas fortes.
Membros posteriores[editar | editar código-fonte]

Fortes, medianamente afastados.

  • Coxas: Compridas, musculadas, com ângulo coxo-femoral aberto.
  • Pernas: De comprimento médio, musculadas.
  • Metatarsos: De comprimento médio. Pode apresentar presunhos.
  • Pés: Ovais, com dedos fortes não muito curvados. Unhas fortes.

Andamentos[editar | editar código-fonte]

Fáceis e soltos. Em movimento o posterior é ligeiramente bamboleante.

Pele[editar | editar código-fonte]

Grossa e pigmentada.

Pelagem[editar | editar código-fonte]

Pêlo[editar | editar código-fonte]

Curto, liso, denso, com textura forte, ligeiramente franjado na cauda, região anal e posteriores.

Colorações[editar | editar código-fonte]

Fulvo, cinzento ou amarelo, nas tonalidades claro e escuro, devendo ser sempre raiado e podendo ter malha branca na região frontal e mento-peitoral, podendo ser manalvo, pedalvo ou quadralvo.

Altura e peso[editar | editar código-fonte]

Machos[editar | editar código-fonte]
  • Altura ao garrote: 50 a 60 cm
  • Peso: 25 a 35 kg
Fêmeas[editar | editar código-fonte]
  • Altura ao garrote: 48 a 58 cm
  • Peso: 20 a 30 kg.

Temperamento[editar | editar código-fonte]

Raça de uma inteligência viva e aguçada, com grande facilidade em aprender, a força de carácter do Cão de Fila de São Miguel, aliada a uma desconfiança perante estranhos instintiva a todo o guarda por vocação, pode ser facilmente confundida com agressividade, mas esconde uma índole meiga para com aqueles com quem lida de perto, sem no entanto deixar de ser um guardião tenaz e corajoso de quem o trata. A lealdade à sua família humana é extrema.

Com ainda mais ênfase dada a natureza dominante da raça, a educação e sociabilização dos cachorros deve serve feita desde o nascimento, expondo os animais gradualmente a novas situações e estímulos, de modo a potenciar o desenvolvimento de indivíduos equilibrados e aptos a conviver com seres humanos e outros animais.

Não é uma raça adequada a iniciantes, dada a sua natureza dominante, ainda mais potenciada pela sua pujança física e carácter vincadamente independente e autónomo.

Saúde e manutenção[editar | editar código-fonte]

Saúde[editar | editar código-fonte]

Sendo uma raça rústica, possui uma saúde robusta e não existem registos até à data que levem a crer que exista alguma patologia a que a raça seja especificamente atreita por razões genéticas. A esperança média de vida desta raça está calculada nos 12 anos.

Manutenção[editar | editar código-fonte]

A mesma rusticidade que dá a saúde vigorosa à raça também a torna uma raça carente de pouca manutenção, num sentido estreito. O pêlo curto e duro poderá ser escovado ocasionalmente e banhos serão esporádicos. Uma alimentação sã e equilibrada proporcionará aos cachorros em desenvolvimento o necessário para se tornarem adultos saudáveis e o mesmo regime será o suficiente para assegurar a saúde em adulto.

Função[editar | editar código-fonte]

Cão pastor por tradição e excelência, a sua aptidão natural para o gado bovino pode, com o devido treino, ser canalizada para a guarda de cavalos e outros ruminantes de menor porte como ovelhas e cabras. Quando não canalizado para a pastorícia, o Cão de Fila de São Miguel deu já provas da sua aptidão para a caça grossa, como a do javali e do veado.

Mais recentemente, o Cão de Fila de São Miguel encontrou lugar nas forças de segurança pública - Polícia de Segurança Pública e Guarda Nacional Republicana - como elemento nas equipas cinotécnicas. O seu temperamento forte e protector é também valorizado como cão de defesa pessoal.

Treino[editar | editar código-fonte]

Mesmo como animal de companhia, um Cão de Fila de São Miguel deve ter a oportunidade de ter uma tarefa a desempenhar. Um treino consciencioso é sempre um meio simples e eficaz de estreitar a relação entre a família humana e o animal, ao mesmo tempo que proporcionará exercício físico e mental necessários à formação e desenvolvimento de um animal bem equilibrado.

No entanto, dadas as características intrínsecas da raça, treinar um exemplar do Cão de Fila de São Miguel é uma tarefa que se pode demonstrar bastante desafiante para alguém que tenha pouca experiência com cães. Sendo uma raça muito inteligente e dominante, não responderá bem ao uso da força. Uma socialização plena é recomendada.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Clube Português de Canicultura - Estalão Oficial da Raça (PDF). Racas.cpc.pt.
  2. FCI - Fédération Cynologique Internationale: Estalão Oficial da Raça (DOC). Fci.be.

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. Ver a redacção do Decreto-Lei N.º 315/2003, de 12 de Dezembro, que veio alterar e actualizar o anterior Decreto-Lei N.º 276/2001, de 17 de Outubro, no seu arigo 18º.

Ver também[editar | editar código-fonte]


Ligações externas[editar | editar código-fonte]