Café A Brasileira (Lisboa)

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A Brasileira em 1911, fotografada por Joshua Benoliel.

O Café A Brasileira, também conhecido como A Brasileira do Chiado é um café emblemático, fundado em 19 de Novembro de 1905, situado na Rua Garrett, n.º 120-122, junto ao Largo do Chiado, em Lisboa.

História de um Café[editar | editar código-fonte]

E, consequentemente, a Pátria portuguesa, pelo que respeita a criações civilizacionais, continuará na sua sonolência secular de Roldão aposentado...
E, consequentemente, Camões continuará muito sobranceiro á Brasileira e ao Martinho, embora o não erga muito acima da sua visinhança de charlatães aquele boçalissimo pedestal, que bem receio não simbolize, assim grosseiro e inexpressivo e pesado, a alma truncada e deprimida da Pátria que lho erigiu...

Hernâni Cidade,
in Inquérito à Vida Literária Portuguesa de Boavida Portugal,
Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1915, p. 279.


A Brasileira do Chiado vendia o "genuíno café do Brasil", produto muito pouco apreciado ou até evitado pelas donas de casa lisboetas naquela época. O estabelecimento foi fundado por Adriano Soares Teles do Vale [1] , nascido em Alvarenga (Arouca), concelho de Arouca, na Casa de Cimo d'Aldeia, que, ainda jovem, emigrou para o Brasil. Era pai de Inocêncio Galvão Teles. Lá, dedicou-se ao negócio do café, com o que enriqueceu nos finais do século XIX. Casou no Brasil com uma filha de fazendeiros do Estado de Minas Gerais, onde se dedicou à fundação de um estabelecimento comercial inicialmente chamado "Ao preço fixo", que incluía também casa de câmbios, e à produção agrícola, em particular de café, que importou para Portugal e, regressando a Portugal por motivos de saúde da mulher, que acabaria por cá falecer, criou uma rede de pontos de venda do café que produzia e importava do Brasil: as famosas "Brasileiras", espalhadas por Lisboa (Chiado e Rossio), Porto, Braga, Aveiro, Coimbra e Sevilha. Adriano Teles foi também um homem de cultura, com interesse pela música e pela pintura. Fundou a Banda de Alvarenga, financiando a compra dos seus primeiros instrumentos, e fez, da Brasileira do Chiado, o primeiro museu de arte moderna em Lisboa. No Brasil, ainda no séc. XIX, teve ainda passagem pela imprensa e pela política, tendo sido Vereador da Câmara da cidade onde casara e se estabelecera. Em 1908 faz uma remodelação, criando então a cafetaria.

Com as liberdades de reunião e associação proclamadas pela Implantação da República Portuguesa, a 5 de Outubro de 1910, e a instalação do Directório no Largo de São Carlos (entretanto rebaptizado Largo do Directório, precisamente no 1.º andar do edifício onde nasceu Fernando Pessoa), A Brasileira torna-se um dos cafés mais concorridos de Lisboa, devido à sua proximidade. Curiosamente, a família paterna de Fernando Pessoa é natural do concelho de Arouca, concelho natal do fundador do Café 'A Brasileira', Adriano Soares Teles do Vale, pois o poeta, pelo lado paterno, tem as suas raízes familiares no concelho de Arouca, nas freguesias do denominado «Fundo do Concelho» de Arouca.[2] [3] [4] .

A Brasileira e a Arte[editar | editar código-fonte]

Estátua de Fernando Pessoa de Lagoa Henriques, no exterior d'A Brasileira.

A partir dessa época A Brasileira tornou-se o cenário de inúmeras tertúlias intelectuais, artísticas e literárias. Por lá passaram os escritores e artistas, reunidos em torno da figura do poeta-general Henrique Rosa (tio adoptivo de Fernando Pessoa), que viriam a fundar a Revista Orpheu.

Em 1925 a Brasileira passa a expor onze telas de sete pintores portugueses da nova geração, que então frequentavam o café, selecionados por José Pacheko: Almada Negreiros, António Soares, Eduardo Viana, Jorge Barradas (com dois quadros cada), Bernardo Marques, Stuart Carvalhais e o próprio José Pacheko [5] . Este «museu» foi renovado em 1971, com onze novas telas de pintores da época: António Palolo, Carlos Calvet, Eduardo Nery, Fernando Azevedo, João Hogan, João Vieira, Joaquim Rodrigo, Manuel Baptista, Nikias Skapinakis, Noronha da Costa, e Vespeira.

Com toda a importância que teve na vida cultural do país, A Brasileira do Chiado mantém uma identidade muito própria, quer pela especificidade da sua decoração, quer pela simbologia que representa por se encontrar ligada a círculos de intelectuais, escritores e artistas de renome como Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Santa Rita Pintor, José Pacheko ou Abel Manta, entre muitos outros. A assiduidade de Fernando Pessoa motivou a inauguração, nos anos 80, da estátua em bronze da autoria de Lagoa Henriques, que representa o escritor sentado à mesa na esplanada do café.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • DIAS, Marina Tavares, Os Cafés de Lisboa, 2.ª ed., Lisboa: Quimera Editores, 1999.
  • MARTINS, Maria João, «Cafés de Lisboa: modo de amar» in O Sabor dos Cafés, Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2000, pp. 28-30.
  • PORTUGAL, Boavida, Inquérito à Vida Literária Portuguesa, Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1915.

Referências

  1. Adriano Soares Teles do Vale
  2. V. Raízes de Fernando Pessoa em Terras de Santa Maria, Maria Lucília Camacho Lopes Vianna Lencart, Águeda : Soberania do Povo, 1990, 191 pp.)
  3. O seu trisavô, José António Pereira d'Araujo e Sousa nasceu, na Casa do Castelo/Casa da Quinta do Castelo, em Fermêdo, Arouca, em 23 de Agosto de 1746.
  4. Origens familiares de Fernando Pessoa no concelho de Arouca, Área Metropolitana do Porto
  5. França, José Augusto – A arte em Portugal no século XX. Lisboa: Livraria Bertrand, 1991, p. 109-113

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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