Caganato Ávaro

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Caganato Ávaro
Caganato Ávaro
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567 – 804 Frankish Empire 481 to 814-pt.svg
 
Coat of Arms of the Bulgarian Empire.PNG
Localização de Caganato Ávaro
Tribos túrquicas e eslavas nos Balcãs no final do século VII
Continente Europa
Região Balcãs
Capital Não especificada
Língua oficial Túrquico ávaro
Religião Tengriismo
Governo Caganato
Khagan
 • 562-602 Baian I
Período histórico Idade Média
 • 567 Fundação
 • 804 Dissolução

O Caganato Ávaro foi uma confederação altamente organizada de povos turcos nômades, um caganato, fundado pelos ávaros no início da Idade Média. Os ávaros, por sua vez, eram uma confederação de tribos eurasianas que emigraram das estepes da Ásia Central. Ele foi fundado na região dos Cárpatos em 567 e perdurou até 804.

História[editar | editar código-fonte]

Chegada na Europa[editar | editar código-fonte]

Os ávaros chegaram na região ao norte do Cáucaso em 557 e enviaram uma embaixada a Constantinopla, o primeiro contato com o Império Bizantino. Em troca de ouro, eles concordaram em subjugar as "gentes selvagens" em nome dos bizantinos. Eles conquistaram e incorporaram várias tribos nômades nesta época - os protobúlgaros das tribos cutrigur, onogur e utigur e os sabires - e derrotaram os eslavos da tribo dos antes. Já em 562, os ávaros controlavam as estepes ao norte do Mar Negro e a região do baixo Danúbio[1] . Quando chegaram aos Balcãs, os ávaros formavam um grupo heterogêneo de aproximadamente 20 000 cavaleiros e suas famílias[2] .

Depois que o imperador bizantino Justiniano I (r. 527-565) os subornou, eles avançaram em direção noroeste, invadindo a Germânia. Porém, os francos interromperam o avanço às margens do rio Elba. Buscando pastos para o seu gado, os ávaro inicialmente exigiram terras ao sul do rio Danúbio (a região onde hoje está a Bulgária), mas os bizantinos se recusaram[3] e utilizaram seus contatos com os gokturks, antigos mestres dos ávaros, para dissuadi-los. Desta forma, os ávaros voltaram sua atenção para a planície dos Cárpatos e para as defesas naturais que ela apresentava[4] . Porém, a região já era ocupada na época pelos gépidas. Em 567, os ávaros assinaram uma aliança com os lombardos, inimigos deles, e, juntos, os dois povos invadiram e destruíram a maior parte do nascente Reino Gépida. Os ávaros então persuadiram os lombardos a se mudarem para a região norte da Itália (onde eles fundariam um reino que duraria muitos séculos), a última migração em massa de povos germânicos do Período das Migrações.

Continuando a vitoriosa política externa de lançar os vários povos bárbaros uns contra os outros, os bizantinos convenceram os ávaros a atacarem os esclavenos da Cítia Menor, uma terra rica em espólios e que jamais havia sido conquistada antes[5] . Após terem devastado a maior parte da região, os ávaros retornaram para a Panônia, mas não antes de muitos dos súditos do khagan terem desertado para o lado bizantino. Por volta de 600, os ávaros haviam fundado um império nômade que se estendia da região de Nórica (atual Áustria) no ocidente até as estepe pôntica-caspiana no oriente, governando diversos povos.

580-670:Período inicial[editar | editar código-fonte]

Evolução territorial do Caganato Ávaro
Em 550, antes da chegada dos ávaros.
Em 550, antes da chegada dos ávaros.
Em 680, no auge da expansão territorial.
Em 680, no auge da expansão territorial.
Em 800, às vésperas da destruição.
Em 800, às vésperas da destruição.
Os ávaros estão em AMARELO.

Por volta de 580, o khagan Baian I consolidou a supremacia militar dos ávaros sobre os huno-búlgaros, eslavos e germânicos[6] . Quando o Império Bizantino não conseguia pagar tributo ou contratar os mercenários ávaros, eles invadiam as terras imperiais. De acordo com Menandro, Baian comandou um exército de 10 000 cutrigures e saqueou a Dalmácia em 568, efetivamente cortando a ligação por terra entre Constantinopla e o norte da Itália e o ocidente. Em 582, os ávaros capturaram Sirmio, uma importante fortaleza na antiga província romana da Panônia. Quando os bizantinos se recusaram a aumentar os tributos, uma exigência do filho e sucessor de Baian, Baian II, os ávaros avançaram e capturaram também Singiduno e Viminácio, todas cidades às margens do Danúbio e parte das defesas da limes Moesiae. Os ávaros, contudo, sofreram alguns reveses durante as campanhas de Maurício nos Balcãs durante a década de 590. Após terem sido derrotados em seu próprio território, alguns ávaros desertaram para os bizantinos em 602[7] , mas o imperador Maurício decidiu que o exército não deveria voltar pra casa, como era o costume, e que deveria invernar ao norte do Danúbio. Uma revolta irrompeu e deu aos ávaros um respiro que eles desesperadamente precisavam. A guerra civil que se seguiu incitou a retomada das hostilidades com o Império Sassânida no oriente e, depois de 615, os ávaros novamente estavam livres para atacar os Balcãs. Eles tentaram uma invasão no norte da Itália em 610 e conseguiram arrancar dos bizantinos pagamentos que chegavam ao total de 200 000 solidii em ouro e mercadorias antes de 626[8] .

Em 626, o cerco de Constantinopla por uma força conjunta ávaro-sassânida fracassou e o prestígio e poder dos ávaros declinou a partir daí. Os bizantinos e os francos relatam uma guerra entre eles e seus clientes eslavos a oeste, os wends[9] . Na década de 630, Samo, o governante do primeiro estado eslavo conhecido, a "União Tribal [ou reino ou império] de Samo", aumentou sua autoridade sobre os territórios a norte e oeste do Caganato às custas dos ávaros[a]

Na mesma época do reinado de Samo, o grande cã da Bulgária Kubrat, do clã Dulo, liderou uma revolta vitoriosa contra a autoridade ávara sobre a planície panônica, fundando o que os bizantinos costumavam de chamar "Antiga Grande Bulgária". A guerra civil, possivelmente um conflito sucessório na Onoguria entre os partidos ávaro-cutrigur de um lado e as forças utigures de Kubrat do outro, durou de 631-632. O poder ávaro-cutrigur foi destruído e os ávaros passaram para o jugo da "Patria Onoguria" ("Terra dos Onogures") - a Antiga Grande Bulgária. O cronista Fredegário relatou que 9 000 búlgaros buscaram asilo fugindo para a Baviera, apenas para serem massacrados pelo rei franco Dagoberto I. Alguns permaneceram na Onoguria, porém, e ficaram conhecidos como "cozariques" (que ainda estavam na região da Transilvânia na época de Menumorut). Após a morte de Kubrat, uma nova luta pelo poder irrompeu. O grupo que estava na região oriental da Onoguria migrou para norte do Volga e fundou um estado, a Bulgária do Volga. Os que ficaram para trás, entre a Transilvânia e a região da moderna Ucrânia, foram assimilados pelos cazares.

670-720: Período intermediário[editar | editar código-fonte]

O cã Kubrat morreu em 665 e foi sucedido pelo cã Batbaian da Bulgária. Em 670, os cazares haviam destruído a unidade da confederação búlgara, obrigando uma parte dos búlgaros utigures a migrar para o ocidente. A "Chronicon Pictum" relata 677 como sendo o ano em que o grupo étnico "húngaro" (búlgaros onogures) terem se estabelecido definitivamente na Panônia. Este novo elemento étnico (com seus característicos cabelos presos em rabos-de-cavalo, sabres curvos de corte único e arcos largos e simétricos) é a principal característica do período ávaro-búlgaro (670-720). Um grupo de búlgaros onogures, liderados pelo cã Kuber, derrotou os ávaros em Sirmio e marchou para o sul, se assentando na região da Macedônia. Outro grupo de búlgaros onogures e utigures, liderados pelo cã Asparuch (o pai do cã Tervel), já tinha se estabelecido de forma definitiva nos Balcãs entre 679 e 681 e fundou o Primeiro Império Búlgaro. Embora o Caganato Ávaro tenha diminuído à metade de seu tamanho original, ele consolidou seu controle sobre as partes centras da região do médio Danúbio e estendeu sua esfera de influência para o ocidente, até a planície vienense. Com a morte de Samo (658), algumas tribos eslavas novamente caíram sob o jugo dos ávaros. Novos centros regionais emergiram, como os de Ozora e Igar (condado de Fehér, na moderna Hungria), e reforçaram a base de poder ávara. Contudo, a maior parte dos Balcãs agora estava nas mãos dos eslavos, uma vez que nem os bizantinos e nem os ávaros foram capazes de reafirmar sua posição na região.

No início do século VIII, uma nova cultura arqueológica apareceu na região dos Cárpatos, a cultura do "grifo e do cacho". Alguns acadêmicos (como a teoria da "dupla conquista" do arqueólogo Gyula Lászlo) tentam atribuir o fato à chegada de novos colonos, como os primeiros magiares, mas o tema ainda gera controvérsias. Os arqueólogos húngaros Laszló Makkai e András Móczy atribuem esta cultura à evolução interna dos ávaros resultante da integração dos emigrantes búlgaros da geração anterior (a da década de 670): "...a cultura material — arte, roupas, equipamentos, armas — do final do período ávaro-búlgaro evoluíram autonomamente a partir destas novas fundações". Muitas regiões que haviam sido importantes centros do Caganato perderam importância enquanto novas emergiram. É importante notar que, embora elementos da cultura material ávara possam ser encontrados por toda a região norte dos Balcãs, eles provavelmente representam a presença de eslavos independentes que adotaram costumes ávaros[10] .

720-804: Declínio e colapso[editar | editar código-fonte]

O gradual declínio do poder ávaro acelerou-se para uma destruição total no espaço de uma década. Uma série de campanhas francas na década de 790 lideradas por Carlos Magno terminaram com a conquista do Caganato Ávaro e anexação da maior parte da Panônia, até pelo menos o rio Tisza. A ocupação ávara terminou quando uma força eslavo-croata, liderada pelo príncipe Vojnomir da Croácia Panônica, e apoiada pelos francos, lançou um contra-ataque em 791[11] [12] . A ofensiva foi um sucesso e os ávaros foram expulsos da Croácia Panônica[12] . Carlos Magno conquistou outra grande vitória contra os ávaros em 796[13] .

A canção "De Pippini regis Victoria Avarica" celebrando a derrota dos ávaros pelas mãos de Pepino da Itália em 796 ainda existe. Os francos batizaram muitos ávaros e os integraram no Império Franco (...(sc. Avaros) autem, qui obediebant fidei et baptismum sunt consecuti...). Em 804, o Primeiro Império Búlgaro conquistou a Transilvânia, a porção sudeste do território ávaro, e a região sudeste da Panônia até o médio Danúbio e muitos ávaros se tornaram súditos dos búlgaros. Os francos então transformaram as terras ávaras sob seu controle numa marca militar. A metade oriental desta marca foi então concedida ao príncipe eslavo Pribina, que fundou o Principado de Balaton em 840. A outra metade da chamada Awarenmark continuou a existir até 871, quando foi anexada pelas marcas da Caríntia e Oriental.

Após a queda do Caganato Ávaro, o nome "ávaro" e a auto-identidade étnica que ele carregava desapareceram no espaço de uma geração. Uma presença ávara na Panônia é certa em 871, mas, daí em diante, o nome deixou de ser utilizado pelos cronistas: "Se mostrou impossível manter a identidade ávara após as instituições e as grandes aspirações de suas tradições terem fracassado"[14] . Os ávaros já vinham se misturando com os muito mais numerosos eslavos por gerações e eles posteriormente cairiam sob o jugo de potências estrangeiras, como os francos, os búlgaros e da Grande Morávia[15] . Na metade do século IX, tudo o que restava do estado ávaro havia desaparecido e os ávaros da região conhecida como solitudo avarorum (atualmente chamada de Alföld) desapareceram como "povo" em três gerações. Eles lentamente se mesclaram com os eslavos para criar um povo bilíngue turco-eslavo que foi dominado pelos francos e foi este povo que os magiares encontraram no final do século IX quando invadiram a região[16] .

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ O destino do império de Samo após a sua morte é incerto e geralmente se assume que ele tenha desaparecido. Achados arqueológicos demonstram que os ávaros retomaram seus antigos territórios (até, pelo menos, a parte sul da moderna Eslováquia) e iniciaram uma relação simbiótica com os eslavos, enquanto que, ao norte do território ávaro, a população era puramente da tribo eslava dos wends. A primeira notícia específica sobre os eslavos e ávaros nesta região era a existência, no final do século VIII, de principados morávios e nítrios (veja Grande Morávia), que lutavam contra os ávaros, e a derrota do caganato para as forças de Carlos Magno em 799 ou 802-803.

Referências

  1. Walter Pohl, "Conceptions of Ethnicity in Early Medieval Studies", Debating the Middle Ages: Issues and Readings, ed. Lester K. Little and Barbara H. Rosenwein, (Blackwell), 1998, pp 13-24) p. 18 (On-line text).
  2. Curta, Florin. The Making of the Slavs: History and Archaeology of the Lower Danube Region, c. 500–700. Cambridge: Cambridge University Press, 2001. ISBN 0-521-80202-4.
  3. Evans, James Allan Stewart. The Emperor Justinian And The Byzantine Empire. [S.l.]: Greenwood Publishing Group, 2005. p. xxxv. ISBN 9780313325823 Página visitada em 2013-01-24.
  4. History of Transylvania, Volume I. László Makkai, András Mócsy. Columbia University Press. 2001
  5. Florin Curta. The Making of the Slavs
  6. Pohl 1998:18.
  7. Walter Pohl, Die Awaren (Munich) 2.ed.2002., page 158.
  8. Walter Pohl, Die Awaren (Munich) 1.ed.1988.
  9. Curta, Florin. The Making of the Slavs: History and Archaeology of the Lower Danube Region, c. 500–700. Cambridge: Cambridge University Press, 2001. ISBN 0-521-80202-4.
  10. László Makkai and András Mócsy, editors, 2001. History of Transylvania, II.4 "The period of Avar rule"
  11. Sinor, Denis. The Cambridge history of early Inner Asia. New York: Cambridge University Press, 1990. p. 219. ISBN 0-521-24304-1
  12. a b Dvornik, Francis. The Slavs: their early history and civilization. [S.l.]: American Academy of Arts and Sciences, 1959. p. 69.
  13. Fine, John Van Antwerp. The early medieval Balkans: a critical survey from the sixth to the late twelfth century. [S.l.]: University of Michigan Press, 1991. p. 78. ISBN 0-472-08149-7
  14. Pohl 1998:19.
  15. The early medieval Balkans. John Fine, Jr
  16. András Róna-Tas, Hungarians and Europe in the early Middle Ages: an introduction to early Hungarian history, Central European University Press, 1999, p. 264

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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  • Curta, Florin. The Making of the Slavs: History and Archaeology of the Lower Danube Region, c. 500–700. Cambridge: Cambridge University Press, 2001. ISBN 0-521-80202-4.
  • Dvornik, Francis. The Slavs: their early history and civilization. [S.l.]: American Academy of Arts and Sciences, 1959. p. 69.
  • Evans, James Allan Stewart. The Emperor Justinian And The Byzantine Empire. [S.l.]: Greenwood Publishing Group, 2005. p. xxxv. ISBN 9780313325823 Página visitada em 2013-01-24.
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  • László Makkai & András Mócsy, editors, 2001. History of Transylvania, II.4, "The period of Avar rule"
  • Walter Pohl, "Conceptions of Ethnicity in Early Medieval Studies", Debating the Middle Ages: Issues and Readings, ed. Lester K. Little and Barbara H. Rosenwein, (Blackwell), 1998, pp 13-24) p. 18 (On-line text).
  • András Róna-Tas, Hungarians and Europe in the early Middle Ages: an introduction to early Hungarian history, Central European University Press, 1999.
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