Calçada portuguesa

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Calheta, Açores, A Minnie e o Rato Mickey
Rosácea sextavada com simetria
Calçada artística na Ericeira.
Amália Rodrigues, obra do mosaicista Miguel Gouveia
Calçada à portuguesa
Calçada portuguesa

A calçada portuguesa ou mosaico português (ou ainda pedra portuguesa no Brasil) é o nome consagrado de um determinado tipo de revestimento de piso utilizado especialmente na pavimentação de passeios, de espaços públicos, e espaços privados, de uma forma geral. Este tipo de passeio é muito utilizado em países lusófonos.

A calçada portuguesa resulta do calcetamento com pedras de formato irregular, geralmente em calcário branco e negro, que podem ser usadas para formar padrões decorativos ou mosaicos pelo contraste entre as pedras de distintas cores. As cores mais tradicionais são o preto e o branco, embora sejam populares também o castanho e o vermelho, azul cinza e amarelo. Em certas regiões brasileiras, porém, é possível encontrar pedras em azul e verde. Em Portugal, os trabalhadores especializados na colocação deste tipo de calçada são denominados mestres calceteiros.

O facto de a rocha mais comum para estabelecer o contraste seja de cor negra, faz com que se confunda a rocha mais utilizada, o calcário negro, com basalto. De facto, existe calcário de várias cores. O basalto apenas é utilizado nas ilhas, onde é abundante, sendo aí os desenhos executados em calcário branco. Quando é basalto, distingue-se pelo maior mate e pela sua maior irregularidade no corte, pois este é muito mais rijo. Simplesmente não é possível executar com o martelo, os detalhes técnicos dos motivos elaborados presentes na calçada lisboeta.

A calçada à portuguesa, tal como o nome indica, é originária de Portugal, tendo surgido tal como a conhecemos em meados do século XIX. Esta é amplamente utilizada no calcetamento das áreas pedonais, em parques, praças, pátios, etc. No Brasil, este foi um dos mais populares materiais utilizados pelo paisagismo do século XIX, devido à sua flexibilidade de montagem e de composição plástica. A sua aplicação pode ser apreciada em projetos como o do Largo de São Sebastião, construído em Manaus no ano de 1901 e que inspirou o famoso calçadão da Praia de Copacabana (uma obra de Roberto Burle Marx) ou nos espaços da antiga Avenida Central, ambos no Rio de Janeiro[1] .

História[editar | editar código-fonte]

Pormenor do "Monumento ao Calceiteiro", da autoria de Sérgio Stichini Lisboa, diante da Igreja de São Nicolau.

Apesar de os pavimentos calcetados terem surgido no reino por volta de 1500, a calçada à portuguesa, tal como a entendemos hoje, foi iniciada em meados do séc. XIX. A chamada "calçada à portuguesa", em calcário branco e negro, caracteriza-se pela forma irregular de aplicação das pedras. Todavia, o tipo de aplicação mais utilizado hoje, desde meados do séc. XX, designado por "calçada portuguesa", é aplicado com cubos, e tem um enquadramento diagonal. Calçada À portuguesa, e calçada portuguesa são coisas distintas.

A calçada começou em Portugal de forma direrente da que hoje é, mais desordenada. São as cartas régias de 20 de Agosto de 1498 e de 8 de Maio de 1500, assinadas pelo rei D. Manuel I de Portugal, que marcam o início do calcetamento das ruas de Lisboa, mais notavelmente o da Rua Nova dos Mercadores (antes Rua Nova dos Ferros). Nessa época, foi determinado que o material a utilizar deveria ser o granito da região do Porto, que, pelo transporte implicado, tornou a obra muito dispendiosa [2] . O objetivo seria que a Ganga, um rinoceronte branco, ricamente ornamentada, não sujasse de lama com o calcar das suas pesadas patas, o numeroso e longo cortejo, com figurantes aparatosamente engalanados com as novas riquezas e adornos vindas do oriente, que saía à rua em pleno inverno, aquando do seu aniversário a 21 de Janeiro. A comitiva ficava manifestamente suja, daí a decisaõ de calcetar as ruas do percurso como forma de dar resposta ao problema. Sendo a única vez no ano em que o rei se mostrava à população vem daí a expressão: "Quando o rei faz anos..."

O terramoto de 1755, a consequente destruição e reconstrução da cidade lisboeta, em moldes racionais mas de custos contidos, tornou a calçada algo improvável à época. Contudo, já no século seguinte, foi feita em Lisboa no ano de 1842, uma calçada calcária, muito mais próxima da que hoje mais conhecemos e continua a ser utilizada. O trabalho foi realizado por presidiários (chamados "grilhetas" na época), a mando do Governador de armas do Castelo de São Jorge, o tenente-general Eusébio Pinheiro Furtado. O desenho utilizado nesse pavimento foi de um traçado simples (tipo zig-zag) mas, para a época, a obra foi de certa forma insólita, tendo motivado cronistas portugueses a escrever sobre o assunto. Em O Arco de Sant'Ana, romance de Almeida Garrett, também essa calçada na encosta do mesmo castelo seria referida, tal como em Cristalizações, poema de Cesário Verde.

Após este primeiro acontecimento, foram concedidas verbas a Eusébio Furtado para que os seus homens pavimentassem toda a área da Praça do Rossio, uma das zonas mais conhecidas e mais centrais de Lisboa, numa extensão de 8 712 .

A calçada portuguesa rapidamente se espalhou por todo o país e pelas colónias, subjacente a um ideal de moda e de bom gosto, tendo-se apurado o sentido artístico, que foi aliado a um conceito de funcionalidade, originando autênticas obras-primas nas zonas pedonais. Daqui, bastou somente mais um passo, para que esta arte ultrapassasse fronteiras, sendo solicitados mestres calceteiros portugueses para executar e ensinar estes trabalhos no estrangeiro.

Em 1986, foi criada uma escola para calceteiros (a Escola de Calceteiros da Câmara Municipal de Lisboa), situada na Quinta do Conde dos Arcos. Da autoria de Sérgio Stichini, em Dezembro de 2006, foi inaugurado também um monumento ao calceteiro, sito na Rua da Vitória (baixa Pombalina), entre as Rua da Prata e Rua dos Douradores.

A técnica[editar | editar código-fonte]

Calceteiros a trabalhar, Lisboa (1907).
Vários tipos de aplicaçao de calçada.

Os calceteiros tiram partido do sistema de diaclases do calcário para, com o auxílio de um martelo, fazerem pequenos ajustes na forma da pedra, e utilizam moldes para marcar as zonas de diferentes cores, de forma a que repetem os motivos em sequência linear (frisos) ou nas duas dimensões do plano (padrões). A geometria do século XX demonstrou que há um número limitado de simetrias possíveis no plano: 7 para os frisos e 17 para os padrões. Um trabalho de jovens estudantes portugueses registou, nas calçadas de Lisboa, 5 frisos e 11 padrões, atestando a sua riqueza em simetrias.[3]

Destacam-se as técnicas de aplicação de calçada mais comuns: a antiga calçada à portuguesa, que se caracteriza pela forma irregular de aplicação das pedras (figura 1); o malhete, semelhante mas com mais espaço entre as pedras (figura 2); a calçada portuguesa clássica, que tem uma aplicação em diagonal, segundo um alinhamento de 45 graus com os muros ou lancis (figura 3); a calçada à fiada, com as pedras alinhadas em filas paralelas (figura 4); a calçada circular (figura 5); a calçada sextavada (figura 6); a calçada artística, que se caracteriza pela aplicação de pedras com formatos específicos e/ou pelo contraste de cores (figura 7); o Mar Largo (figura 8); o leque segmentado (figura 9); o leque florentino (figura 10); e o rabo de pavão (figura 11).[4]

Galeria de imagens[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. Largo de São Sebastião, Brasil Imperdivel
  2. História da Calçada.
  3. OLIVEIRA, Fernando Correia de. Folheto "Em Lisboa à descoberta da Ciência e da Tecnologia: vagueando pelas ruas". Pavilhão do Conhecimento Ciência Viva; Câmara Municipal de Lisboa, s.d.
  4. Prof. Ricardo Cunha Teixeira. Artigo no jornal Tribuna das Ilhas, A matemática dos antigos.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bairrada, Eduardo Martins. Empedrados artísticos de Lisboa: A arte da calçada-mosaico. Lisboa, M. Bairrada, 1986.
  • Hatoum, Milton. "Brasil Imperdível. Brasil. H. Milton"
  • Kraffner, Joachim. Die calçada portuguesa, das natursteinpflaster in den offentlichen freirãumen Lissabons: seine entwicklung und typen. Wien : Institut fur Landschaftsplanung und Ingenieurbiologie, Arbeiitsberech Ingenieurbiologie und Landschaftsbau, 2000.
  • Matos, Ernesto. Mesmo por baixo dos meus pés: uma viagem pela calçada portuguesa: Lisboa, Aveiro, Guimarães. Lisboa, E. Matos, 1999.
  • Matos, Ernesto. Calçada portuguesa: uma linguagem universal. Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 2001.
  • Matos, Ernesto. Lisboa das Calçadas. Colecção Olhar Lisboa, n.º 2. 2004.
  • Matos, Ernesto. Calçada portuguesa nos Açores: entre o céu e o horizonte / The portuguese stone pavement at the Azores: between the sky and the horizon. Terceira, BLU, 2006. ISBN 972-8864-17-5.
  • Rego, Victor Dias. Calçada artística nos passeios de Ponta Delgada. Açores, Criações Tur'Arte, 2000.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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