Calormânia

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Calormânia
País fantástico de As Crônicas de Nárnia
Pertencente ao mundo de Nárnia
Fundação: Ano 204 (no calendário narniano)
Capital: Tashbaan
Países vizinhos: Ao norte: Arquelândia
Ao leste: Oceano Oriental
Ao oeste: Terras agrestes do oeste
Governo: Monarquia
Gentílico: Calormano; calormana
Reis: Veja aqui

Calormânia é um país fictício criado pelo escritor irlandês C.S. Lewis para a série de livros infantis As Crônicas de Nárnia. Trata-se de um país ao sul da Arquelândia, separado deste último por um grande deserto. Possivelmente Lewis usou a palavra latina calor para criar o nome deste país.

País[editar | editar código-fonte]

A maior parte do país é de clima semi-árido, e seus acidentes geográficos mais significativos são um vulcão conhecido como Montanha Ardente de Lagur, e o Grande Deserto. O Grande Deserto está no norte do país e a dificuldade de atravessá-lo evitou que os agressivos governantes da Calormânia invadissem Arquelândia e Nárnia por séculos. Em O cavalo e seu menino, o território da Calormânia é descrito como um país muito maior em área comparado com seus vizinhos do norte, e sabe-se que seu exército sempre triunfa ao conquistar mais terras ou conter rebeliões, através de guerras com as quais nem Nárnia e Arquelândia estão envolvidos. A fronteira norte do império calormano estende-se desde as Montanhas Ocidentais até o Grande Oceano Oriental.

O Rio da Calormânia flui de leste a oeste pelo lado sul do Grande Deserto, e a capital do reino, Tashbaan, está localizada em uma ilha no seu delta. O rio está circundado em grande parte de sua extensão por granjas e ricas comunidades.

Na Calormânia mora Shasta, o protagonista de O cavalo e seu menino. A cidade de Azim Balda, localizada numa intersecção no centro do país, é um grande centro para viagens e comunicações.

C.S. Lewis, o autor das Crônicas, foi criticado porque este país possui muitas semelhanças com os países árabes islâmicos e em seus livros dize-se que seu deus (Tash) é um falso deus.

História[editar | editar código-fonte]

As origens da Calormânia e de seus habitantes não são esclarecidos durante as Crônicas. Segundo a cronologia narniana publicada por Walter Hooper, a Calormânia foi fundada por proscritos da Arquelândia que viajaram através do Grande Deserto até o sul aproximadamente 24 anos depois da fundação da Arquelândia. Mas segundo uma teoria alternativa, a Calormânia foi fundada pelos humanos que casualmente encontraram-se nesta terra provenientes do nosso mundo, chegando por uma porta desde o Oriente Médio (parecido ao guarda-roupa inglês em O leão, a feiticeira e o guarda-roupa), que posteriormente foi destruído para evitar a volta ao planeta Terra. Os calormanos falam uma variante do idioma inglês falado tanto por narnianos humanos e animais, fato que poderia apoiar este argumento; porém, Jadis também fala inglês. A aparência física dos antigos persas, mogois, e turcos otomanos identificados na cultura calormana, ou a origem da sua religião, não foram satisfatoriamente explicadas.

Ao longo do tempo transcorrido nas Crônicas de Nárnia, a Calormânia e Nárnia mantêm uma rivalidade na sua coexistência, embora geralmente pacífica. O cavalo e seu menino e A última batalha contêm descrições de complôs que se concentram na Calormânia, enquanto que os outros livros têm referências periféricas ou mínimas. Em O cavalo e seu menino, os protagonistas principais (entre eles, uma jovem pertencente à nobreza calormana) fogem da Calormânia em direção a Arquelândia e Nárnia, enquanto que o exército calormano sob as ordens do Príncipe Rabadash tenta invadir a Nárnia e raptar a rainha Susana da Nárnia para tomá-la como esposa. O pequeno exército calormano de 200 cavaleiros é reprimido na fronteira do Reino de Arquelândia. Em A última batalha, algum tipo de comércio e trânsito existem entre a Nárnia e a Calormânia, e uma invasão acertada pelos militares calormanos precipita o final do universo narniano.

Os calormanos são descritos como pessoas de pele morena e com bastante barba. As túnicas, turbantes e sapatos de madeira com uma ponta no dedo gordo do pé, são acessórios comuns de sua vestimenta. Além disso, a arma mais utilizada por eles é a cimitarra.

Os pálacios luxuosos estão presentes na capital Tashbaan. Os habitantes da Calormânia preservam com afinco tradições como falar através de poemas para homenagear seus antigos poetas. A veneração aos que possuem mais idade e a diferença absoluta no poder são caraterísticas da sociedade calormana. O poder e a riqueza determinam a classe e a posição social, e a escravidão é bem comum. A unidade monetária é o símbolo de uma meia lua. Os narnianos resistem aos calormanos pelos maus-tratos que estes últimos cometem contra os animais e escravos. Mas segundo os calormanos, os narnianos são considerados "bárbaros".

O governante da Calormânia é conhecido como "o Tisroc" e é considerado pelos calormanos como um descendente do deus Tash (a quem eles veneram, além de outros deuses e deusas). Ao se referirem ao Tisroc, os calormanos complementam a frase com o ditado "que ele viva para sempre". A hierarquia, abaixo do Tisroc, é composta pelos seus filhos (os príncipes), um Grão-Vizir, e a classe nobre (cujos integrantes são conhecidos como tarcaãs e tarcaínas). Os nobres têm um bracelete de ouro em um de seus braços, e seus matrimônios são arranjados durante a juventude. Debaixo deles estão os soldados do exército, os comerciantes e os camponeses, com os escravos (que são o degrau mais baixo na escala social). Os líderes calormanos são descritos como pessoas totalmente bélicas, e os Tisrocs geralmente têm o desejo de conquistar as terras bárbaras do norte (Nárnia e Arquelândia).

Poesia calormana[editar | editar código-fonte]

A poesia da Calormânia é sentenciosa e moralista, cheia de apotegmas (aforismos).[1]

Os calormanos menosprezam a poesia narniana argumentando que trata de assuntos como amor e guerra, e não sobre as "máximas úteis". Mas quando Shasta e Aravis ouvem pela primeira vez a poesia narniana (e talvez a arquelandesa também), eles a consideram muito mais emocionante. Os calormanos também apreciam a arte de narrar histórias, que segundo Lewis, forma parte da educação da nobreza. O cavalo falante Bri, mesmo não sendo adepto da maior parte dos usos e costumes calormanos, se entretém com Aravis quando ela conta uma história ao estilo da Calormânia.

Conceitos de liberdade e escravidão[editar | editar código-fonte]

Em O cavalo e seu menino, Lewis usa os valores culturais da Nárnia, Arquelândia e Calormânia para desenvolver um tema de liberdade em contraste com a escravidão.[2] Lewis descreve a cultura calormana como possuidora de um princípio no qual o fraco abre caminho ao poderoso:

Pois em Tashbaan só existe uma lei de trânsito: quem é menos importante tem de abrir caminho para quem é mais importante. A punição para o infrator é uma chicotada ou uma cacetada de cabo de lança.[3]

Ele também revela que a motivação para as tentativas de invasão calormanas a Arquelândia e Nárnia, é uma forma de não tolerar o pensamento dos países livres próximos da fronteira do império calormano, como é dito pelo Tisroc:

Esses pequenos países bárbaros que se proclamam livres (vale dizer, indolentes, caóticos, inúteis) são odiosos aos deuses e a todas as pessoas de discernimento.[1]

Ao contrário dos calormanos, os reis e rainhas de Nárnia e da Arquelândia, como líderes de um povo livre, tomam para si a responsabilidade pelo bem estar de seus súditos, como diz o Rei Luna para Shasta:

Pois ser rei é isto: ser o primeiro em todos os combates e o último em todas as retiradas. Quando houver fome no país (o que às vezes acontece nos anos piores), o rei deve alimentar-se frugalmente, e rir mais alto do que ninguém diante de uma refeição parca.[4]

Acusações de racismo[editar | editar código-fonte]

C.S. Lewis tem sido acusado de racismo, principalmente sobre o caso dos calormanos. O novelista Philip Pullman tem sido agressivo, chamando aos livros de 'descaradamente racistas',[5] e numa entrevista com The Observer, ele criticou o filme As Crônicas de Nárnia: o leão, a feiticeira e o guarda-roupa, dizendo que os livros contiveram "uma mistura mal-humorada de racismo, misoginia, etc.".[6]

Aravis (protagonista em O cavalo e seu menino) e as outras pessoas da Calormânia, são descritos com a caraterística de ter a pele escura, e os tarcaãs e tarcaínas, como Aravis, acostumavam se tingir o cabelo de cor carmesim. Eles também se parecem aos hindus e árabes de pele mais escura. Mas, pelo contrário, Shasta (protagonista em O cavalo e seu menino, oriundo da Arquelândia) e os narnianos são de pele branca, e observa-se que eles são membros da realeza de uma maneira um pouco atenuada, em relação com a antiga Realeza Inglesa. Quando já são adultos, Aravis e Shasta têm um filho de raça mista (mestiço).

A crítica contra o racismo baseia-se em uma apresentação dos calormanos como inimigos de Aslam e Nárnia.[7] Os calormanos são descritos pelos anões renegados como "moreninhos", que é a única expressão intolerante utilizada por indivíduos totalmente lerdos (em A última batalha). Os calormanos vivem em um deserto; usam turbantes e sapatos pontiagudos; seus nobres se chamam tarcaãs (Tarcaã significa cavalheiro na cultura turca pre-islâmica); estão armados con cimitarras, e utilizam o símbolo de uma meia lua como dinheiro. Estas descrições se podem comparar com a vestimenta histórica dos povos do Oriente Médio e regiões da Ásia, de cuja apariência física possivelmente se basearam os calormanos. Eles também cumprem com uma série de estereótipos, tais como crueldade, cobiça, covardia, traição, preguiça, tendência à "indulgência bruta", e escravocracia. Mas apesar disso, eles foram elogiados pelas suas narrações de contos.

A religião calormana não parece ser baseada em nenhuma das religiões monoteístas que são comumente praticadas nestas regiões, como o islã (embora existem semelhanças com as religiões árabes antes da época de Maomé). Ao contrário disto, os calormanos são politeístas e adoram a uma grande quantidade de deuses, entre eles Tash (vocábulo que em turco significa "pedra"), retratado como um estereótipo satânico, que exige sacrifícios humanos de seus seguidores. A religião dos calormanos provavelmente se baseou em aquelas religiões dos cananeus e cartagineses,[carece de fontes?] que também pediam sacrifícios humanos, e foi qualificado como demoníaco em The Everlasting Man de G. K. Chesterton, um livro que Lewis admirava. A natureza calormana (com bastante capacidade comercial) também se baseou na representação de Cartago dada por Chesterton. Porém, no sentido estritamente literário, a representação da religião calormana pode ter afinidade à imagem fantasma do islã que se encontra nos romances medievais. Também existem aspectos da cultura calormana, tais como o clima e as características físicas, que se asemelham aos da Índia (como por exemplo: os braços múltiplos de Tash -parecido às representações de deuses indianos- ou o nome de Shasta, que é compartilhado com uma deidade indiana).[carece de fontes?] Partes da cultura também parecem ter se baseado na representação da Babilônia dada por E. Nesbit (tais como "Tisroc" como o nome do governante, adicionando a frase "que viva para siempre" quando se fala sobre este rei).

As Crónicas têm um "sabor" típico da era vitoriana do Reino Unido, que esteve de moda durante a vida do autor. Acerca dele, Kyrie O'Connor escreveu: "No seu tempo, quiçá as pessoas pensaram que era divertido zombar de outras culturas. Portanto, leiam história e perguntem sobre isso; mas lembrem que a pessoa que escreveu esta história era também un ser humano mais."[8] As acusações de racismo podem ser notóriamente mitigadas com uma imagem positiva de dois calormanos por parte de Lewis, quando a falta de racismo amostra-se a eles por parte da nobreza narniana.[9] Em O cavalo e seu menino, a protagonista feminina Aravis é uma calormana nobre que é aceita de todo coração por arquelandeses e narnianos, chegando a se casar com Cor (Shasta), um príncipe de um grupo étnico mais "europeu", uma declaração progressista e audaz de Lewis em um momento em que as relações mistas não eram muito comuns nem muito aceitas, como tem sido até alguns anos atrás. Em A Última Batalha, Emeth (um calormano) é considerado por Aslam como uma pessoa digna, independentemente da sua cor de pele, apesar de que era um adorador de Tash.[10] De fato, Lewis diz em A última batalha que aqueles que adoram a Tash e que são virtuosos, são (de fato) adoradores de Aslam, e os que são imorais e que adoram a Aslam, na verdade são (de fato) adoradores de Tash.

Fonte[editar | editar código-fonte]

  • Este artigo foi inicialmente traduzido do artigo da Wikipédia em inglês, cujo título é «Calormen».

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b Lewis. The Horse and His Boy. [S.l.: s.n.]. Capítulo: ch.VIII: In the House of the Tisroc.
  2. Rogers. The World According to Narnia. [S.l.: s.n.]. 114–116 pp.
  3. Lewis. The Horse and His Boy. [S.l.: s.n.]. Capítulo: ch.IV: Shasta Falls in with the Narnians.
  4. Lewis, Clive Staple. Crônicas de Nárnia - volume único, As. [S.l.]: Martins Fontes, 2006. ISBN 85-336-2210-4.
  5. Ezard. «Narnia books attacked as racist and sexist».
  6. «Pullman attacks Narnia film plans», BBC News.
  7. Hensher. «Don't let your children go to Narnia: C.S. Lewis's books are racist and misogynist».
  8. O'Connor. «Lewis' prejudices tarnish fifth 'Narnia' book».
  9. Predefinição:Citar publicação
  10. Ford. Companion to Narnia. [S.l.: s.n.].

Ligações externas[editar | editar código-fonte]