Cangaço

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Estátua do cangaceiro na entrada para Fazenda Nova (BR-104).

O Cangaço foi uma luta revolucionária nordetina brasileira dos seculos XIX e XX em busca de justiça e vingança pela falta de emprego, alimento e cidadania. Os cangaceiros vagavam pelas cidades causando o desordenamento da rotina dos camponeses. O cangaço se caracterizou por ter como principal líder o ex coronel da guarda nacional Virgulino Ferreira da Silva, Lampião .

O termo cangaço vem da palavra canga, sinonimo de jugo, e significa uma peça de madeira usada para prender junta de bois a carro ou arado.

Divisão[editar | editar código-fonte]

O Cangaço pode ser dividido em três subgrupos: os que prestavam serviços caracterizados para os latifundiários; os "satisfatórios", expressão de poder dos grandes fazendeiros; e os cangaceiros dependentes, com características de banditismo.

Os cangaceiros conheciam bem a Caatinga, e por isso, era tão fácil fugir das autoridades. Estavam sempre preparados para enfrentar todo o tipo de situação. Conheciam as plantas medicinais, as fontes de água, locais com alimento, rotas de fuga e lugares de difícil acesso.

O primeiro bando de cangaceiros que se tem conhecimento foi o de Jesuíno Alves de Melo Calado, "Jesuíno Brilhante", que agiu por volta de 1870, embora alguns historiadores atribuam a Lucas Evangelista o feito de ser o primeiro a agregar um grupo característico de cangaço,[1] nos arredores de Feira de Santana (em 1828), sendo ele preso junto com a sua quadrilha em 28 de Janeiro de 1848 por provocar durante vinte anos assaltos contra a população de Feira.[2] O último grupo cangaceiro famoso porém foi o de "Corisco" (Cristino Gomes da Silva Cleto), que foi assassinado em 25 de maio de 1940.

O cangaceiro mais famoso foi Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, que também denominado o "Senhor do Sertão" e "O Rei do Cangaço". Atuou durante as décadas de 20 e 30 em praticamente todos os estados do nordeste.

Por parte das autoridades, Lampião simbolizava a brutalidade, o mal, uma doença que precisava ser cortada. Para uma parte da população do sertão, ele encarnou valores como a bravura, o heroísmo e o senso da honra (semelhante ao que acontecia com o mexicano Pancho Villa).[3]

O cangaço teve o seu fim a partir da decisão do então Presidente da República, Getúlio Vargas, de eliminar todo e qualquer foco de desordem sobre o território nacional. O regime denominado Estado Novo incluiu Lampião e seus cangaceiros na categoria de extremistas. A sentença passou a ser matar todos os cangaceiros que não se rendessem.

No dia 28 de julho de 1938, na localidade de Angicos, no estado de Sergipe, Lampião finalmente foi apanhado em uma emboscada das autoridades, onde foi morto junto com sua mulher, Maria Bonita, e mais nove cangaceiros.

Os cangaceiros foram degolados e suas cabeças colocadas em aguardente e cal, para conservá-las. Foram expostas por todo o Nordeste e por onde eram levadas atraiam multidões.[4]

Este acontecimento veio a marcar o final do cangaço, pois, a partir da repercussão da morte de Virgulino, os chefes dos outros bandos existentes no Nordeste vieram a se entregar às autoridades policiais para não serem mortos.

História do Cangaço[editar | editar código-fonte]

Mapa de atuação do Cangaço.

Consta que o primeiro homem a agir como cangaceiro teria sido o Cabeleira, como era chamado José Gomes. Nascido em 1751, em Glória do Goitá, cidade da zona da mata pernambucana, ele aterrorizou sua região. Mas foi somente no final do século XIX que o cangaço ganhou força e prestígio, principalmente com Antonio Silvino, Lampião e Corisco.

Entre meados do século XIX e início do século XX, o Nordeste do Brasil viveu momentos difíceis, aterrorizado por grupos de homens que espalhavam o terror por onde andavam. Eles eram os cangaceiros, bandidos que abraçaram a vida nômade e irregular de malfeitores por motivos diversos. Alguns deles foram impelidos pelo despotismo das mulheres poderosas.

Lucas da Feira, ou Lucas Evangelista, agiu na região da cidade baiana de Feira de Santana entre 1828 e 1848. Ele e seu bando de mais de 30 homens roubavam viajantes e estupravam mulheres. Foi enforcado em 1849.[4]

Os cangaceiros conseguiram dominar o sertão durante muito tempo, pois eram protegidos de coronéis, que se utilizavam dos cangaceiros para cobrança de dívidas, entre outros serviços "sujos".

Um caso particular foi o de Januário Garcia Leal, o Sete Orelhas, que agiu no sudeste do Brasil, no início do século XIX, tendo sido considerado justiceiro e honrado por uns e cangaceiro por outros.

No sertão, consolidou-se uma forma de relação entre os grandes proprietários e seus vaqueiros.

A base desta relação era a fidelidade dos vaqueiros aos fazendeiros. O vaqueiro se disponibilizava a defender (de armas na mão) os interesses do patrão.

Como as rivalidades políticas eram grandes, havia muitos conflitos entre as poderosas famílias. E estas famílias se cercavam de jagunços com o intuito de se defender, formando assim verdadeiros exércitos. Porém, chegou o momento em que começaram a surgir os primeiros bandos armados, livres do controle dos fazendeiros.

Os coronéis gosta tinham poder suficiente para impedir a ação dos cangaceiros.

O cangaceiro - um deles, em especial, Lampião - tornou-se personagem do imaginário nacional, ora caracterizado como uma espécie de Robin Hood, que roubava dos ricos para dar aos pobres, ora caracterizado como uma figura pré-revolucionária, que questionava e subvertia a ordem social de sua época e região.

Alguns Cangaceiros[editar | editar código-fonte]

  1. Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião
  2. Massilon Benevides Leite
  3. Antônio Inácio, vulgo Moreno
  4. Ezequiel Ferreira da Silva, vulgo Beija-Flor
  5. Domingos dos Anjos, vulgo Serra do Uman
  6. Luiz Pedro do Retiro
  7. Hermínio Xavier, vulgo Chumbinho
  8. José de Souza, vulgo Tenente
  9. Laurindo Soares, vulgo Fiapo
  10. João Mariano, vulgo Andorinha
  11. Joaquim Mariano Antonio de Severia, vulgo Nevoeiro
  12. Antonio Romeiro
  13. Sabino Gomes
  14. Izaias Vieira, Vulgo Zabêlê
  15. Ignacio de Medeiros, vulgo Jurema
  16. Felix da Matta Redonda, vulgo Felix Caboge
  17. Heleno Caetano da Silva, vulgo Moreno
  18. João Donato, vulgo Gavião
  19. Pedro Gomes
  20. João Henrique
  21. Antonio Rosa
  22. Cornelio de Tal, vulgo Trovão
  23. José Lopes da Silva, vulgo Mormaço
  24. José Delphina
  25. João Cesario, vulgo Coqueiro
  26. Emiliano Novaes
  27. Manoel Antonio de França, vulgo Recruta
  28. Francisco Antonio da Silva, vulgo Cocada
  29. José e André de Sá, conhecidos por Marinheiros
  30. Genesio de Souza, vulgo Genesio Vaqueiro
  31. Vicente Feliciano, vulgo Vicente Preto
  32. José Benedicto
  33. Pedro de Quelé
  34. José de Generosa
  35. José de Angelica
  36. Ricardo da Silva, vulgo Pontaria
  37. Josias Vieira, vulgo Gato
  38. José ou Antonio de Oliveira, vulgo Menino
  39. José Luz, vulgo José de Souza, ou José Procopio
  40. Cypriano de Tal, vulgo Cypriano da Pedra
  41. José Alexandre, vulgo José Preto
  42. João Angelo de Oliveira, vulgo Vereda
  43. Firmino de Oliveira
  44. Pedro Ramos de Oliveira, vulgo Carrapeta
  45. Antonio dos Santos, vulgo Cobra Verde
  46. Damião de Tal, vulgo Chá Preto
  47. Virginio Fortunato
  48. Manoel Vieira da Silva, vulgo Lasca-Bomba
  49. Antonio Juvenal, vulgo Mergulhão
  50. José Pretinho
  51. João Basílio, vulgo Joca Basílio
  52. José Rachel, vulgo Papagaio
  53. Anisio Marculino, vulgo Gasolina
  54. Sebastião Valério da Silva, vulgo Canção
  55. Antonio Constância
  56. Camillo Domingo, vulgo Pirulito
  57. Laurindo Virgolino, vulgo Mangueira
  58. Miguel Gonçalves
  59. Horácio Novaes
  60. José Cipaúba
  61. José Cariry, vulgo Fortaleza
  62. Francelino Jaqueira
  63. João Canafitula
  64. Urbano Pinto
  65. Raymundo da Silva, vulgo Aragão
  66. Jesuino de Alves, vulgo Jesuino
  67. Pirão de Araújo, vulgo Viróte
  68. Rosemélen Sileveirinha, vulgo A Segunda Cangaceira
  69. Gilseclino da Rocha
  70. Virgilino de Tanhaçu - Bahia

71. José Alvez de Matos, vulgo, Vinte e Cinco. Foi o último cangaceiro a morrer, faleceu em Maceió em 2014, aos 97 anos.[5]

Cangaço na Cultura popular[editar | editar código-fonte]

Literatura de cordel[editar | editar código-fonte]

O cangaço é um dos principais temas mais explorados na literatura de cordel, onde o cangaceiro é retratado como herói.[6] Literatura de Cordel é, como qualquer outra forma artística, uma manifestação cultural. Por meio da escrita são transmitidas as cantigas, os poemas e as histórias do povo — pelo próprio povo. O nome de Cordel teve origem em Portugal, onde os livretos, antigamente, eram expostos em cordeis, como roupas no varal.

Livros[editar | editar código-fonte]

    • O Cabeleira, de Franklin Távora
    • Jurisdição dos Capitães – A História de Januário Garcia Leal e Seu Bando - Editora Del Rey, Belo Horizonte, 2001, Marcos Paulo de Souza Miranda.
    • Lampião e Maria bonita de Liliana Iacocca, Editora Ática
    • Flor de Romances Trágicos, de Luís da Câmara Cascudo, Editora Cátedra.
    • Lampião: herói ou bandido, de Antonio Amaury Correa de Araújo e Carlos Elydio Correa. São Paulo: Editora Claridade, 2009.

Filmes[editar | editar código-fonte]

Os primeiro filmes sobre o cangaço datam de meados dos de 1920 do início da 1930[7] . Entre as décadas de 1950 e 1960, os filmes brasileiros sobre cangaço são bastante influenciados pelos filmes de faroeste dos Estados Unidos, um deles foi O Cangaceiro (1953).[7] [8]

Histórias em quadrinhos[editar | editar código-fonte]

Na década de 1950, inspirado no sucesso de O Cangaceiro, o quadrinista Gedeone Malagola lança uma revista em quadrinhos sobre o fictício "Milton Ribeiro, O Cangaceiro", Milton Ribeiro é o nome do ator que interpretou o cangaceiro Galdino no filme de 1953, a diferença de Milton Ribeiro para Galdino, é que nos quadrinhos Milton é o herói.[9] . Em 1963, Mauricio de Sousa comandava o Suplemento Infanto-Juvenil do jornal Folha de São Paulo, Mauricio então pediu a Julio Shimamoto que criasse uma tira para o suplento, Shimamoto elaborou dois projetos: uma tira sobre cangaceiros e outra sobre gaúchos, no fim resolveu criar a tira Fidêncio, o gaúcho, na época, cangaceiros eram retratados como bandidos[10] .

Em 1974, o brasileiro Jô Oliveira publicou a história "A Guerra do Reino Divino" na revista italiana Alterlinus, dois anos depois a editora brasileira Codecri (mesma editora responsável por O Pasquim) publicou a obra no país.[11] A arte do Jô é bastante influênciada pelos cordeis e é considerada a primeira graphic novel brasileira.[12] Apesar de ser um tema brasileiro, o tema também é explorado por autores de outros países como o belga Hermann que escreveu e desenhou a revista Caatinga (publicada no Brasil pela Editora Globo)[13] , ou também o italiano Hugo Pratt ("La macumba du Gringo").

Outros autores retrataram o Cangaço como Danilo Beyruth (Bando de Dois),[14] Flávio Luiz( O Cabra),[15] Wilson Vieira, Eugênio Colonnese e Mozart Couto (Cangaceiros - Homens de Couro #1),[16] .


Algumas aventuras de Corto Maltese de Hugo Pratt envolveu cangaceiros. As ediçõe 3, 4 e 5 de Mister No da Sergio Bonelli Editore mostrou cangaceiros[17] . Na edição 573 de Zagor, também da Bonelli, o herói encontra com cangaceiros em Salvador, Bahia[18] , um personagem real participa da história, Lucas da Feira[19] .

Ver também[editar | editar código-fonte]

Seara Vermelha, de Jorge Amado

Referências

  1. Lampião Aceso
  2. Transcrição do interrogatório de Lucas da Feira
  3. Klévisson. Lampião. [S.l.]: hedra, 2000. 9788587328076.
  4. a b Cavalcante, Messias Soares. A verdadeira história da cachaça. São Paulo: Sá Editora, 2011. 608p. ISBN 9788588193628
  5. Dayane Laet (16/06/2014). "25", último cangaceiro do bando de Lampião é sepultado em Maceió Dayane Laet. Visitado em 20/06/2014.
  6. Mark J. Curran. História do Brasil em cordel. [S.l.]: EdUSP, 1998. 61 pp. 9788531404061.
  7. a b Luiz Zanin Oricchio (16 de outubro de 2010). O cangaço está em toda parte O Estado de São Paulo.
  8. AnnaLice Dell Vecchio (20 de dezembro de 2010). Um faroeste à moda do cangaço Gazeta do Povo.
  9. Franco de Rosa. (Outubro 2008). "Wizmania (2ª versão) #6 - Homenagem a Gedeone Malagola, uma lenda dos gibis brasileiros" (em português): 56 a 59. São Paulo: Panini Comics. ISSN 16795598 16795598
  10. O Gaúcho, antes de tudo um aventureiro Universo HQ.
  11. Ota e Francisco Ucha (janeiro de 2011). "Jornal da ABI #362 - A Cronologia dos Quadrinhos - Parte 2"
  12. Sidney Gusman. A Guerra do Reino Divino Universo HQ.
  13. Sidney Gusman. Caatinga Universo HQ.
  14. Sidney Gusman (9 de setembro de 2010). Bando de dois, de Danilo Beyruth, sai pela Zarabatana Universo HQ.
  15. Paulo Ramos (9 de dezembro de 2010). Cabra macho, sim, senhor UOL.
  16. Marcelo Naranjo, sobre o Press release (26 de agosto de 2004). Homens de Couro é o novo álbum do CLUQ Universo HQ.
  17. [http://www.texbr.com/misterno/italia/serieregular/de001a100.htm Mister No Itália Série Regular - de 001 a 100] Portal TexBR.
  18. Sertão uBC Fumetti.
  19. Zagor Extra #119 HQManiacs (11/08/2014).

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Cangaço