Capitães da Areia

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Capitães da Areia
Autor (es) Jorge Amado
Idioma Português
País Brasil
Linha de tempo da história Década de 1930
Espaço onde decorre a história Salvador (Bahia)
Lançamento 1937

Capitães da Areia é um romance de autoria do escritor brasileiro Jorge Amado, publicado em 1937. O livro retrata a vida de um grupo de menores abandonados, chamados de "Capitães da Areia", ambientado na cidade de Salvador dos anos 30

Histórico[editar | editar código-fonte]

Já em novembro de 1937 a obra foi perseguida pelo governo, sendo queimados em Salvador 808 exemplares em praça pública, junto a outros livros do autor e outros escritores, como José Lins do Rego, sob o pretexto de se tratar de objeto de propaganda comunista.[1]

No dia 8 de dezembro do mesmo ano a obra foi também uma das que foram apreendidas nas livrarias do Rio de Janeiro, sob a alegação de serem "nocivas à sociedade".[1]

Análise da obra[editar | editar código-fonte]

Havia no Brasil da década de 1930 uma visão de país "novo", que ainda não havia se realizado, como registrou Antonio Candido de Mello e Souza, ressaltando os autores da época aquilo que separava a nação dos países ricos.[2]

Vivia o Brasil um momento conturbado, em que se tomava consciência da chamada luta de classes, durante a ascensão ao poder de Getúlio Vargas; João Luiz Lafetá afirma que “A consciência da luta de classes, embora de forma confusa, penetra em todos os lugares - na literatura inclusive, e com uma profundidade que vai causar transformações importantes”.[2]

Buscava-se, então, a mudança social, ao contrário do momento literário anterior em que se enaltecia as qualidades do país, presente no movimento modernista; há um certo desencanto com a realidade, que a literatura passa a retratar de modo pessimista, mas fazendo-o de forma ativa, transformadora. No dizer de Lafetá, deu-se a "consciência pessimista do subdesenvolvimento".[2]

Nesse contexto, a obra de Amado pode ser qualificada como "social e proletária".[2]

Ambiência[editar | editar código-fonte]

Neste livro Jorge Amado retrata a vida nas ruas de Salvador, capital do estado brasileiro da Bahia, naquela época afetada por uma epidemia de bexiga (varíola); o aparato policial destinava-se à perseguição pura e simples dos menores infratores, encontrando mesmo prazer na tortura, sem qualquer senso de justiça.[3] Diante do ambiente hostil em que vivem, o grupo de meninos abandonados reage de forma também agressiva, mas de forma a encontrar nas ruas uma certa liberdade; tem por refúgio um velho trapiche (espécie de armazém) abandonado, numa das praias da capital baiana - de onde vem o nome do grupo.[4]

Esse trapiche é a única referência de "lar" que possuem; é onde se abrigam, se escondem, e vivem como família. Sua descrição ocupa lugar de destaque no início da obra. Ali constroem suas próprias regras, são os senhores e é objeto de investigação pelas autoridades, que desconhecem onde os mesmos se ocultam.[2]

Localizada na Cidade Baixa, parte da capital baiana onde está a zona portuária, é contudo na residencial e mais rica Cidade Alta que os menores realizam suas ações infratoras.[2]

Personagens[editar | editar código-fonte]

O grupo de menores abandonados que recebe o nome de Capitães da Areia traz em comum a pobreza, a vida insalubre, uma vaga revolta contra o mundo hostil, a liberdade que encontra nas ruas, a lealdade grupal e uma certa maturidade prematura que, contudo, cede lugar a rasgos de deslumbramento infantil ou à falta de uma mãe.[4]

A distinção dos garotos se dá na forma com que cada um deles lida com essa situação comum: Gato liga-se às prostitutas; Volta-Seca sonha com o cangaço; Sem-Pernas torna-se sarcástico e cruel; Pirulito busca a religiosidade; Professor busca os livros, planejava as estratégias; Pedro Bala arquiteta planos de roubos. Neles se adivinha o futuro que os espera: o gigolô em gato, o sacerdote em Pirulito, num fatalismo inevitável - e aqueles a quem Jorge Amado antevê a solução para tais casos de reação à realidade adversa: em professor e Pedro Bala, dá-se o encontro com a luta de classes e o ideal comunista.[4]

Enredo Enredacao[editar | editar código-fonte]

Gtk-paste.svg Aviso: Este artigo ou se(c)ção contém revelações sobre o enredo.

Sob a lua, num velho trapiche abandonado onde eles se abrigam, as crianças dormem. Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragorosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inúmeros veleiros carregados, alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das travessias marítimas. Aqui vinham encher os porões e atracavam nesta ponte de tábuas, hoje comidas. Antigamente diante do trapiche se estendia o mistério do mar-oceano, as noites diante dele eram de um verde escuro, quase negras, daquela cor misteriosa que é a cor do mar à noite. Hoje a noite é alva em frente ao trapiche. É que na sua frente se estende agora o Areal (...)

Capitães da areia.

Retrata os meninos como moleques atrevidos, malandros, espertos, famintos, ladrões, agressivos, falsos, soltos de língua, carentes de afetos, de instrução e de comida. O livro é dividido em três partes. Antes delas, no entanto, vem uma sequência de pseudo-reportagens, que caracterizam-nos e mostram diversas visões sobre o caso.

Primeira Parte: Sob a lua, num velho trapiche abandonado[editar | editar código-fonte]

Subdividida em 10 capítulos, a primeira parte apresenta o local em que as ações transcorrerão. Um trapiche (ou armazém abandonado), à beira-mar, que no passado fora um local movimentado e agora está sujo e infestado de ratos. Fora frequentado inicialmente pela marginália, até ser tomado pelo bando dos Capitães da Areia. "Sob a Lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem. Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragosas, ora vinham se bater mansamente. A água passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inumeros veleiros carregados, alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das travessias maritimas. Aqui vinham encher os porões e atracavam nesta ponte de tábuas, hoje comidas. Antigamente diante do trapiche se estendia o mistério do mar-oceano, as noites diante dele eram um verde-escuro, quase negras, daquela cor misteriosa que é a cor do mar à noite." Ao contrário de outros grupos espalhados pela cidade, os Capitães da Areia têm um líder, seguem normas e, principalmente, obedecem a um chefe que cumpre o papel de "manter um lar" para as crianças que ali vivem. Pedro Bala, quase naturalmente surge como um líder e tem o papel de harmonizar, manter a ordem e, de certa maneira, ensiná-los a agir sob certas circunstâncias. Com quinze anos, audaz, ativo e conhecedor de todos os recantos da cidade, é marcado por uma cicatriz e por seus cabelos loiros. Poucos lhe conheceram a mãe, e o pai "morrera num balaço". Para firmar a liderança, Pedro Bala destituiu o caboclo Raimundo, após uma luta pelo "poder". O ápice da primeira parte vem em dois momentos: quando os meninos se envolvem com um carrossel mambembe que chegou na cidade, e experimentam as sensações infantis; e quando a varíola ataca a cidade e acaba eliminando um deles, Almiro, apesar da tentativa do padre José Pedro em ajudá-los, e tendo grandes embaraços por causa disso...

Segunda parte: Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos[editar | editar código-fonte]

A segunda parte, "Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos", surge uma história de amor quando a menina Dora torna-se a primeira "Capitã da Areia", e mesmo que inicialmente os garotos tentem tomá-la a força, ela se torna como mãe e irmã para todos. A homossexualidade é comum no grupo, mesmo que em dado momento Pedro Bala tente impedi-la de continuar, e todos eles costumam "derrubar negrinhas" na orla (ou seja, estupravam as moças que tinham a imprudência de cortar caminho pela praia à noite). Mas Professor e Pedro bala se apaixonam por ela, e Dora se apaixona por Pedro Bala. Quando Pedro e ela são capturados (ela em pouco tempo passa a roubar como um dos meninos), eles são muito castigados, respectivamente no Reformatório e no Orfanato. Quando escapam, muito enfraquecidos, se amam pela primeira vez na praia e ela morre, marcando o começo do fim para os principais membros do grupo.

Terceira parte: Canção da Bahia, Canção da Liberdade[editar | editar código-fonte]

Mostra a desintegração dos líderes. Sem-Pernas se mata antes de ser capturado pela polícia que odeia; Professor parte para o Rio de Janeiro onde torna-se um pintor de sucesso, entristecido com a morte de Dora; Gato se torna um malandro de verdade, abandonando eventualmente sua amante Dalva, e passando por Ilhéus; Pirulito se torna padre; Padre José Pedro finalmente consegue uma paróquia no interior, e vai para lá ajudar os desgarrados do rebanho do Sertão; Volta Seca se torna um cangaceiro do grupo de Lampião e mata mais de 60 soldados antes de ser capturado e condenado; João Grande torna-se marinheiro; Querido-de-Deus continua sua vida de capoeirista e malandro; Pedro Bala, cada vez mais fascinado com as histórias de seu pai sindicalista, vai se envolvendo com os doqueiros e finalmente os Capitães da Areia ajudam numa greve. Pedro Bala abandona a liderança do grupo,transferindo-a para Barandão, mas antes os transforma numa espécie de grupo de choque. Assim Pedro Bala deixa de ser o líder dos Capitães da Areia e se torna um líder revolucionário comunista.

Personagens[editar | editar código-fonte]

  • Pedro Bala, o líder, uma espécie de pai para os garotos, mesmo sendo tão jovem quanto os outros, e depois descobre ser filho de um líder sindical morto durante uma greve;
  • Volta Seca, afilhado de Lampião, tem ódio das autoridades e tem o desejo de se tornar cangaceiro;
  • Professor (João José), grande amigo de Pedro Bala partilhando amor pela mesma moça que o seu amigo, rapaz sonhador e mediador do grupo Capitães da Areia, sendo essencialmente conselheiro de Pedro B.; Lê e desenha vorazmente, sendo muito talentoso; ao final do livro, vai para o Rio de Janeiro pintar e ficou conhecido por isso. Essa sua ida proporcionou ao mundo a história do seu grupo de crianças de rua;
  • Gato, que com seu jeito malandro acaba conquistando uma prostituta, Dalva;
  • Boa-Vida, era um malandro, adorava Querido-de-deus, ia para as festas conquistando prostitutas;
  • Sem-Pernas, o garoto coxo que serve de espião se fingindo de órfão desamparado (em uma das casas que vai é bem acolhido, mas trai a família ainda assim, mesmo sem querer fazê-lo de verdade); provavelmente a criança mais carenciada de afeto no grupo;
  • João Grande, o "negro bom" como diz Pedro Bala, segundo em comando; porte físico forte e corajoso;
  • Querido-de-Deus, um capoeirista que é apenas amigo do grupo;
  • Dora, era a "mãe" de todos do trapiche, é amada por Professor e por Pedro Bala. Fica doente e antes de morrer teve relações sexuais com Pedro Bala. Professor diz que Dora, ao morrer, vira uma estrela no céu;
  • Caboclo Raimundo, era lider dos Capitães da Areia antes de Pedro Bala, foi ele que cortou o rosto de Pedro Bala, mas logo vai embora do grupo;
  • Padre José Pedro, amigo dos Capitães da Areia e que procura fazer Daqueles meninos homens de bem e crentes em Deus;
  • João-de-Adão, estivador, negro, forte e antigo grevista. Através dele Pedro Bala soube do pai;
  • Barandão, nomeado chefe do grupo depois que Pedro Bala partiu para o grupo dos Índios Maloqueiros de Aracaju, onde tenta organizá-los como os Capitães da Areia.
  • Almiro, morreu de Bexiga;
  • Pirulito, grande fé cristã, o único que prestava atenção nos dizeres religiosos do Padre José Pedro, seu destino foi o celibato;
  • Loiro, pai de Pedro Bala, lider nas greves antigas ao lado de João de Adão;
  • Zé Fuinha, irmão de Dora;
  • Ezequiel, chefe de outro grupo de meninos mendigos;
  • Alberto, estudante que se torna amigos dos Capitães da Areia.

Obras derivadas[editar | editar código-fonte]

Em 1968 a obra foi levada ao cinema por Hall Barthet. Em 1987 Adolfo Moreira Cavalcante escreveu o cordel "Pedro Bala, o chefe dos Capitães da Areia", onde reconta com críticas sociais a saga do líder dos meninos abandonados, dizendo que Amado "...baseou-se em fatos muito reais, no menor abandonado, verdadeiros marginais."[5]

Em 1989, a Rede Bandeirantes adaptou o romance numa minissérie de 10 capítulos, escrita por José Louzeiro.

Em 2011 estreou nos cinemas o filme Capitães da Areia por Cecília Amado, neta de Jorge Amado que realizou o filme em homenagem ao avô.

Referências

  1. a b CARNEIRO, Maria Luiza Tucci.. O Estado Novo, o Dops e a ideologia dasegurança nacional. In: REPENSANDO o Estado Novo / Dulce Pandolfi,organizadora. Rio de Janeiro. [S.l.]: Fundação Getulio Vargas, 1999. p. 327-340.
  2. a b c d e f Sandra Regina Frangiotti de Almeida. O ESPAÇO ROMANESCO EM CAPITÃES DA AREIA Anais do Encontro de Estudos Literários e Literatura Brasileira Contemporânea do Norte do Paraná. Visitado em novembro de 2011.
  3. Biancardi et allii (s/d). Capitães da Areia: Marginalidade e Coletividade Revista Univen, 10. Visitado em novembro de 2011.
  4. a b c Michelle Valois. Entre o visível e o lisível em Capitães da Areia: o dialogismo vislumbrado na materialidade do texto Revista ao Pé da Letra, vol. 205.1. Visitado em novembro de 2011.
  5. Ilana Selzer Goldstein (2002). Uma Leitura Antropológica de Jorge Amado: dinâmicas e representações da identidade nacional Diálogos Latinoamericanos, número 5, Universidade de Aahrus (Dinamarca), pp. 109-133. Visitado em novembro 2011.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]