Bertholletia excelsa

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Descrição da castanha-do-brasil em Scientific American Supplement, No. 598, junho 18, 1887

Descrição da castanha-do-brasil em Scientific American Supplement, No. 598, junho 18, 1887
Estado de conservação
Status iucn3.1 VU pt.svg
Vulnerável
Classificação científica
Reino: Plantae
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Magnoliopsida
Ordem: Ericales
Família: Lecythidaceae
Género: Bertholetia
Espécie: B. excelsa
Nome binomial
Bertholletia excelsa
Humb. & Bonpl.
Sinónimos
B. nobilis Miers

Barthollesia excelsa Silva Manso

A Bertholletia excelsa, popularmente conhecida como castanha-do-pará, castanha-do-acre, castanha-do-brasil, tocari e tururi é uma árvore de grande porte, muito abundante no norte do Brasil e na Bolívia, cujo fruto (ouriço) contém a castanha, que é sua semente[1] É uma árvore da família botânica Lecythidaceae, nativa da Floresta Amazônica.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

"Castanha" vem do grego kástanon, através do latim castanea[1] . "Tocari" vem do caraíba[2] . "Tururi" vem do termo tupi turu'ri[3] .

Nomenclatura[editar | editar código-fonte]

Apesar do seu nome em inglês, Brazil nut, o seu maior exportador não é o Brasil e sim a Bolívia, onde são chamadas de almendras. Isto se deve à drástica diminuição da espécie no Brasil, devida ao desmatamento. O nome em português se refere ao Pará, cuja extensão no período colonial incluía toda a Amazônia brasileira. Os acreanos - por serem os maiores produtores nacionais de castanha - referem-se a elas como "castanhas-do-acre". Alguns nomes indígenas são juvia, na região do Rio Orinoco e sapucaia, em outras regiões do Brasil.

Embora seja classificada pelos cozinheiros como uma castanha, os botanistas consideram a Bertholletia excelsa como uma semente, e não uma castanha, já que, nas castanhas e nozes, a casca se divide em duas metades, com a carne separando-se da casca.

Descrição[editar | editar código-fonte]

Castanha com casca

É um fruto com alto teor calórico e protéico, além disso contém o elemento selênio que combate os radicais livres e muitos estudos o recomendam para a prevenção do câncer (cancro).

É a única espécie do-gênero Bertholletia. Nativa das Guianas, Venezuela, Brasil (Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará e Rondônia), leste da Colômbia, leste do Peru e leste da Bolívia, ela ocorre em árvores espalhadas pelas grandes florestas às margens do Rio Amazonas, Rio Negro,Rio Orinoco, Rio Araguaia e Rio Tocantins. O gênero foi batizado em homenagem ao químico francês Claude Louis Berthollet.

Atualmente, é abundante apenas no Estado do Acre, no norte da Bolívia e no Suriname. Incluída na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais como vulnerável, o desmatamento é a ameaça a sua populações. Nas margens do Tocantins, foi derrubada para a construção de estradas e de uma barragem. No sul do Pará, por assentamentos de sem-terra. No Acre e no Pará, a criação de gado provoca sua morte, e a caça das cutias, que são os dispersores naturais de suas sementes, ameaça a formação de novos indivíduos.[4]

É altamente consumida pela população local in natura, torrada, ou na forma de farinhas, doces e sorvetes. Sua casca é muito resistente e requer grande esforço para ser extraída manualmente.

Características morfológicas[editar | editar código-fonte]

A Bertholletia excelsa é uma grande árvore, chegando a medir entre 30 e 50 metros de altura e 1 ou 2 metros de diâmetro no tronco; está entre as maiores árvores da Amazônia. Há registros de exemplares com mais de 50 metros de altura e diâmetro maior que 5 metros, no Pará.[5] Pode viver mais de 500 anos, e, de acordo com algumas autoridades frequentemente chega a viver 1.000 [6] ou 1.600 anos.[5]

Castanheira nas redondezas de Marabá.

Seu tronco é reto e permanece sem galhos por mais da metade do comprimento da árvore, com uma grande coroa emergindo sobre a folhagem das árvores vizinhas. Sua casca é acinzentada e suave.

Bertholletia excelsa.jpg

A árvore é caducifólia, suas folhas, que medem de 20 centímetros a 35 cm de comprimento e 10 cm a 15 cm de largura, caem na estação seca.

Suas flores são pequenas, de uma coloração verde-esbranquiçada, em panículas de 5 centímetros a 10 cm de comprimento; cada flor tem um cálice caducifólio dividido em duas partes, com seis pétalas desiguais e diversos estames reunidos numa massa ampla em forma de capuz.

Fenologia[editar | editar código-fonte]

Floresce na passagem da estação seca para a chuvosa, o que no leste da Bacia Amazônica ocorre de setembro a fevereiro, com pico de outubro a dezembro. Perto de julho suas folhas caem, algumas ficam completamente sem folhas na estação seca. As flores são em grande número, e duram apenas um dia. Os frutos demoram de 12 a 15 meses para amadurecer, e caem principalmente em janeiro e fevereiro. As sementes, quando não tratadas, demoram de 12 a 18 meses para germinar, devido a sua casca espessa.[7] gg

Reprodução[editar | editar código-fonte]

As Bertholletia excelsa produzem fruto exclusivamente em matas virgens, já que florestas "não virgens" quase sempre carecem de orquidáceas, que são, indiretamente, responsáveis pela polinização das suas flores.[carece de fontes?] A Bertholletia excelsa têm sido colhidas em plantações (na Malásia e em Gana), porém a sua produção é baixa e, atualmente, não são viáveis economicamente.[8] [9] [10]

As flores amarelas da Bertholletia excelsa só podem ser polinizadas por um inseto suficientemente forte para levantar o "capuz" da flor e que tenha uma língua comprida o bastante para passar pela complexa espiral da flor, como é o caso das abelhas dos gêneros Bombus, Centris, Epicharis, Eulaema e Xylocopa. As orquídeas produzem um odor que atrai pequenas abelhas-da-orquídea (espécie Euglossa), de língua muito comprida, já que as abelhas-macho desta espécie precisam deste odor para atrair as fêmeas. A grande abelha-da-orquídea fêmea poliniza a Bertholletia excelsa. Sem a orquídea, as abelhas não cruzariam, e portanto a falta de abelhas significa que o fruto não é polinizado.

Fruto

Se tanto as orquídeas como as abelhas estiverem presentes, o fruto leva 14 meses para amadurecer após a polinização das flores. O fruto em si é uma grande cápsula de 10 centímetros a 15 centímetros de diâmetro que se assemelha ao endocarpo do côco no tamanho e pesa até dois quilogramas. Possui uma casca dura, semelhante à madeira, com uma espessura de 8 milímetros a 12 milímetros, e dentro estão de 8 a 24 sementes com cerca de cinco centímetros de comprimento dispostas como os gomos de uma laranja; não é, portanto, uma castanha no sentido biológico da palavra.

A cápsula contém um pequeno buraco em uma das pontas, que permite a grandes roedores como a cutia e, com menos frequência, os esquilos, roerem até abrir a cápsula. Eles comem, então, algumas das castanhas que encontram ali dentro e enterram as outras para uso posterior; algumas destas que foram enterradas acabam por germinar e produzem novas Bertholletia excelsa.

Fruto aberto

A maioria das sementes são "plantadas" pelas cutias em lugares escuros, e as jovens árvores acabam esperando por anos, em estado de hibernação, até que alguma árvore caia e a luz do sol possa alcançá-las. Micos já foram vistos abrindo os frutos da Bertholletia excelsa utilizando-se de uma pedra como uma bigorna.

Ecologia[editar | editar código-fonte]

Vive preferencialmente nas florestas de terra firme, e cresce apenas onde a estação seca é de 3 a 5 meses.

A densidade da espécia varia muito ao longo de toda a Amazônia, indo de 26 árvores reprodutivas por hectare a apenas um exemplar em 100 hectares. Cogita-se que alguns grupos de árvores devam sua existência a indígenas pré-colombianos.[11]

Produção[editar | editar código-fonte]

Cerca de 20 000 toneladas de Bertholletia excelsa são colhidas a cada ano, da qual a Bolívia responde por 50 por cento, o Brasil por 40 por cento e o Peru por 10 por cento (estimativas do ano 2000).[12] Em 1980, a produção anual era de cerca de 40 000 toneladas por ano somente no Brasil e, em 1970, o país registrou uma colheita de 104 487 toneladas de Bertholletia excelsa.[13]

A produção brasileira caiu a menos da metade entre 1970 e 1980, devido ao desmatamento da Amazônia.

Efeitos da colheita[editar | editar código-fonte]

As Bertholletia excelsa destinadas ao comércio internacional vêm inteiramente da colheita selvagem, e não de plantações. Este modelo vem sendo estimulado como uma maneira de se gerar renda a partir de uma floresta tropical sem destruí-la. As castanhas são colhidas por trabalhadores migrantes conhecidos como "castanheiros".

A análise da idade das árvores nas áreas onde houve extração mostram que a colheita de moderada a intensa coleta tantas sementes que não resta um número suficiente para substituir as árvores mais antigas à medida que elas morrem. Sítios com menos atividades de colheita possuem mais árvores jovens, enquanto sítios com atividade intensa de colheita praticamente não as possuem.[14]

Experimentos estatísticos foram feitos para se determinar quais fatores ambientais podem estar contribuindo para a falta de árvores mais jovens. O fator mais consistente foi o nível de atividade de colheita em determinado sítio. Uma simulação por computador que previa o tamanho das árvores em que pessoas pegavam todas as castanhas coincidiu com o tamanho das árvores encontradas nos sítios onde havia uma colheita intensa das castanhas.

Iniciativas de preservação[editar | editar código-fonte]

Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, a preservação em áreas protegidas, governamentais ou corporativas, é insuficiente, e a tentativa de estabelecer populações novas tem fracassado.

As atividades mais bem sucedidas são as empreendidas por populações nativas, nas reservas extrativistas.[carece de fontes?]

Usos[editar | editar código-fonte]

Alimentação[editar | editar código-fonte]

Semente da Bertholletia excelsa após a remoção da casca

As Bertholletia excelsa possuem 18% de proteína, 13% de carboidratos e 69% de gordura. A proporção de gorduras é de, aproximadamente, 25% de gorduras saturadas, 41% de monoinsaturadas e 34% de poliinsaturadas.[15] Possuem um gosto um tanto terroso, muito apreciado em vários países. O conteúdo de gordura saturada das Bertholletia excelsa está entre o mais alto de todas as castanhas e nozes, superando até mesmo o da macadâmia. Devido ao gosto forte resultante, as Bertholletia excelsa podem subtituir frequentemente macadâmias ou mesmo o coco em receitas. Bertholletia excelsa retiradas de suas cascas tornam-se rançosas rapidamente. As castanhas também podem ser esmagadas para se obter óleo.

Nutricionalmente, as Bertholletia excelsa são ricas em selênio, embora a quantidade de selênio varie consideravelmente.[16] São também uma boa fonte de magnésio e tiamina. Algumas pesquisas indicaram que o consumo de selênio está relacionado com uma redução no risco de câncer de próstata.[17] Isto levou alguns analistas a recomendarem o consumo de Bertholletia excelsa como uma medida preventiva..[18] Estudos subsequentes sobre o efeito do selênio no câncer de próstata foram inconclusivos.[19]

Óleo da Castanha [editar | editar código-fonte]

O óleo de castanha do Brasil é extraído das sementes secas, geralmente por prensagem à frio. O Óleo de castanha do Brasil prensado a frio tem um odor agradável, amarelo. A composição de ácido graxos é constituído por ácido palmítico (14-16%), ácido esteárico (6-10%), ácido oleico (29-48%), ácido linoleico (30 - 47). As características físicas são densidade (0,914-0,917), ponto de fusão (0-4 ° C), o valor de saponificação (193-202), o valor de iodo (94-106) e insaponificável ​​(0,5 a 1%).[20]

Medicinal[editar | editar código-fonte]

O chá da casca da Bertholletia excelsa é usado na Amazônia para tratamento do fígado, e a infusão de suas sementes para problemas estomacais.

Por seu conteúdo em selênio, a castanha é antioxidante.

Seu óleo é usado como umidificador da pele.[21]

Outros usos[editar | editar código-fonte]

Assim como no uso alimentar, o óleo extraído da Bertholletia excelsa também é usado como lubrificante em relógios, para se fazer tintas para artistas plásticos e na indústria de cosméticos.

A indústria cosmética emprega o óleo de castanha por suas propriedades anti-radicais livres , antioxidantes e hidratantes nas formulações anti-aging prevenindo o envelhecimento cutâneo e é considerado um dos melhores condicionadores para cabelos danificados e desidratados .[22]


A madeira das Bertholletia excelsa é de excelente qualidade, porém a sua extração está proibida por lei nos três países produtores (Brasil, Bolívia e Peru). A extração ilegal de madeira e a abertura de clareiras representa uma ameaça contínua.[23]

O efeito castanha-do-brasil, no qual itens maiores misturados em um mesmo recipiente com itens menores (por exemplo, Bertholletia excelsa misturadas com amendoins) tendem a subir ao topo, recebeu o nome desta espécie.

Radioactividade[editar | editar código-fonte]

As Bertholletia excelsa podem conter pequenas quantidades de rádio, um material radioativo. Embora a quantidade seja muito pequena, cerca de 1–7 pCi/g (40–260 Bq/kg), e a maior parte não fique retida no corpo, ela é mil vezes mais alta do que em outros alimentos. De acordo com as Universidades Associadas de Oak Ridge, isto não se deve a níveis elevados de rádio no solo, mas sim ao extremamente extenso sistema de raízes da árvore.[24]

Referências

  1. a b FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.365
  2. FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.1 685
  3. FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.1 729
  4. IUCN Red List
  5. a b Árvores Gigantescas da Terra e as Maiores Assinaladas no Brasil
  6. Harvesting nuts, improving lives in Brazil, Bruno Taitson, WWF, 18 Jan 2007
  7. New York Botanical Garden: The Lecythidaceae Pages
  8. Brazil Nut Plantations
  9. The Brazil Nut (Bertholletia excelsa)
  10. The Brazil Nut Tree: More than just nuts
  11. New York Botanical Garden: The lecythidaceae Pages
  12. Economic Viability of Brazil Nut Trading in Peru Chris Collinson et al, University of Greenwich
  13. The Brazil Nut Industry — Past, Present, and Future, Scott A. Mori, The New York Botanical Garden
  14. Sustainability in a nut shell (abstract), Jonathan Silvertown, Department of Biological Sciences, The Open University
  15. Smith, N. et al 1992. Tropical forests and their crops. Comstock Publishing, NY. (citado em Lorenzi, Harri e Matos, Francisco José de Abreu, Plantas medicinais no Brasil: nativas e exóticas cultivadas, Nova Odessa, SP: Insituto Plantarum, 2002. ISBN 85-86174-18-6)
  16. Chang, Jacqueline C.; Walter H. Gutenmann, Charlotte M. Reid, Donald J. Lisk. (1995). "Selenium content of Brazil nuts from two geographic locations in Brazil". Chemosphere 30 (4): 801-802. 0045-6535.
  17. Klein EA, Thompson IM, Lippman SM, Goodman PJ, Albanes D, Taylor PR, Coltman C., "SELECT: the next prostate cancer prevention trial. Selenum and Vitamin E Cancer Prevention Trial.", J Urol. 2001 Oct;166(4):1311-5. [PMID 11547064]
  18. Cancer Decisions Newsletter Archive, Selenium, Brazil Nuts and Prostate Cancer, [1] last accessed 8 March 2007
  19. Peters U, Foster CB, Chatterjee N, Schatzkin A, Reding D, Andriole GL, Crawford ED, Sturup S, Chanock SJ, Hayes RB. "Serum selenium and risk of prostate cancer-a nested case-control study." Am J Clin Nutr. 2007 Jan;85(1):209-17. [PMID 17209198]
  20. Paranussbaum
  21. Lorenzi, Harri e Matos, Francisco José de Abreu, Plantas medicinais no Brasil: nativas e exóticas cultivadas, Nova Odessa, SP: Insituto Plantarum, 2002. ISBN 85-86174-18-6
  22. [2],Comunicado Técnico, 11 Setembro 2014
  23. Activists Trapped by Loggers in Amazon, Greenpeace, 18 October 2007
  24. Radioactivity of Brazil nuts. http://www.orau.org/PTP/collection/consumer%20products/brazilnuts.htm

Fontes[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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