Cavalo marinho (folguedo)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de Cavalo Marinho (folguedo))
Ir para: navegação, pesquisa
O boi, elemento constante na vida rural, integra o auto do Cavalo Marinho

O Cavalo Marinho é um folguedo cênico brasileiro, típico da Zona da Mata Setentrional de Pernambuco, Alagoas e agreste da Paraíba. O auto integra o ciclo de festejos natalinos, e presta homenagem aos Reis Magos. As apresentações se processam ao som da orquestra conhecida como banco, composta de rabeca, ganzá, pandeiro, bage de taboca e zabumbas.O folguedo possui 76 personagens (figuras), sendo divididas em Três categorias humanas, fantásticas e animais. Entre as humanas estão o Capitão, Mateus, Bastião, Mestre Ambrosio, Soldado da Guarita, Mané do baile, Valentão, Pisa Pilão, Barre Rua. Nas fantásticas estão Caboclo de Urubá, Parece mas não é, Morte, Diabo, Babau, Jaraguá. E os animais são Boi, Ema, Cavalo, Onça e Burra. Uma apresentação com todas as figuras pode ter duração de oito horas seguidas. Acontecem entre julho e janeiro, com destaque para os dias de natal, ano-novo e dia de reis. No decorrer da apresentação, os brincantes - tradicionalmente todos homens - assumem diferentes papéis, mediante a troca de roupa ou de máscara, com exceção dos negros Bastião e Mateus, que permanecem os mesmos durante todo o espetáculo. O auto reúne encenações, coreografias, improvisos e toadas, além de uma série de danças tradicionais, tais como o coco, o mergulhão e a dança de São Gonçalo.

O espetáculo é narrado através da linguagem falada, da declamação de loas e toadas - como são conhecidas as estrofes poéticas que integram o enredo. Os personagens, de modo geral, interagem com o público presente, sobretudo Mateus e Bastião, que, constantes em todos os atos, tecem comentários satíricos sobre a apresentação em si, sobre os indivíduos do público, ou sobre quaisquer outros assuntos. Assemelha-se ao reisado, ao bumba-meu-boi e a outros folguedos brasileiros, bem como certas manifestações populares cênicas de Portugal, como o boi fingido e a nau-catarineta. Os brincantes, na execução do festejo, dão vivas a Jesus, à Virgem Maria, a São Gonçalo e aos santos de devoção do dono da casa onde se processa a apresentação. A essas manifestações de religiosidade católica agregam-se os pontos em honra à Jurema, entoados pelo Caboclo, e certos elementos do Xangô do Nordeste.

Os personagens do auto refletem a sociedade colonial da Zona da Mata Nordestina: Mateus e Bastião, que trazem o rosto pintado de preto, representam a forte presença negra na empresa açucareira; o capitão, montado em seu cavalo, representa o grande latifundiário, dono do engenho; o soldado, subserviente ao capitão, é o elemento opressor a serviço do poder político; os galantes e as damas aludem à faustosa aristocracia que se desenvolveu em torno da cultura da cana. Outros personagens incluem o Caboclo - entidade catimbozeira que canta hinos em homenagem à Jurema -, o boi, a Catirina, esposa simultânea de Mateus e Sebastião, o Empata-samba, o Matuto da Goma, a Véia do bambu.

Musicalidade[editar | editar código-fonte]

O grupo de músicos que acompanha a brincadeira do inicio ao fim é conhecido como banco. Eles tocam os instrumentos e cantam as toadas. Além de cantar eles também são participantes dos momentos dramáticos, interagindo com as figuras. Eles podem fazer isso sentados, respondendo as figuras da roda, ou se levantando e indo ao centro da roda, mas em grupo. O mínimo de participantes admitidos para se brincar são quatro, porem não há limite de integrantes. A formação mínima consiste de um rabequista, um bagista, um panderista e um mineirista. Eles sentam em um longo banco de madeira e, provavelmente, daí que veio o nome deles. Sempre há o que puxa as toadas, que é o responsável pela estrofe, e os que acompanham, respondendo os versos ou os repetindo. O que puxa as toadas é o que tem liberdade para improvisar.[1]

Personagens[editar | editar código-fonte]

Capitão Marinho: arquétipo do chefe político local ou proprietário de terras. Apresenta-se, em geral, de terno e chapéu branco, embora outras indumentárias possam ser utilizadas. Vem montado no cavalo Marinho, de onde advém o nome do folguedo, embora também apresente-se à pé, em certos momentos do auto.
Bastião e Mateus: negros bufões que dividem a mesma mulher, Catirina. São presença constante em diversos folguedos brasileiros, como o maracatu rural, reisado e bumba-meu-boi. Trajam um chapéu cônico coberto de fitas coloridas, blusas estampadas com motivos florais e cores berrantes e uma grossa armação feita de palhas de bananeiras ao redor dos quadris. Tal ornamento de palhas, aliás, é recorrente em outras manifestações teatrais populares do Nordeste brasileiro, a exemplo do auto do Nego Fugido, da cidade baiana de Santo Amaro, e seria uma reminiscência da camuflagem usada pelos escravos na fuga do cativeiro. Apresentam-se com os rostos pintados de preto.
Galantes e Damas: figuras aristocráticas convidas ao baile pelo Capitão Marinho. Seus trajes são ricamente decorados com fitas e espelhos e exibem amplas cabeleiras. Ao se apresentarem no auto, portam arcos decorados e executam a dança das fitas, folguedo de origem européia que representa a hierarquia racial presente na sociedade açucareira.
Caboclo juremeiro: entidade sobrenatural que cultua a Jurema Sagrada. Apresenta-se portando cocares e cachimbos, apetrechos essenciais à prática do Catimbó, de que se utiliza para a cura do boi.

Enredo[editar | editar código-fonte]

O Arlequim

A trama do cavalo-marinho gravita em torno do baile, que será oferecido pelo Capitão Marinho em honra dos Santos Reis do Oriente, e para o qual foram convidados os galantes e as damas. O capitão organiza não só baile, mas também preside todo o folguedo, comanda a brincadeira através do toque do apito. Para organizar o terreiro onde ocorrerá a festa, Marinho contrata dois negros, Mateus e Bastião, personagens bufões responsáveis, em grande parte, pela comicidade do folguedo. Ambos carregam junto a si a bexiga, bexiga do boi curtido, que percutem contra o corpo para auxiliar na musicalidade. Mateus e Bastião, entretanto, se sublevam, e passam a se dizer donos do terreiro. O capitão Marinho convoca então o Soldado da guarita, que utiliza-se da força para restabelecer a ordem. Quando a situação parece estar normalizada, surge o Empata-samba, arquétipo do homem "valentão" que, como sugere o nome, impede a festividade de prosseguir.

A apresentação atinge o seu clímax com a chegada dos galantes e das damas, que realizam a dança dos arcos. Esta modalidade de dança coreografada apresenta visíveis semelhanças com a dança de São Gonçalo - uma espécie de baile devocional de origem portuguesa ainda praticado em diversos estados brasileiros, sobretudo no Nordeste. Os galantes, em pares ou em círculo, seguram nas pontas dos arcos de madeira enfeitados de fitas, realizando, então, complexas coreografias. No fim do baile, o boi surge, e é repartido.

Em Pernambuco os grupos de cavalo-marinho estão concentrados numa região pequena, formada basicamente pelas cidades: Condado, Aliança, Ferreiros, Camutanga, Itambé, Itaquitinga e Goiana. E na Paraíba estão localizados nas cidades de Pedras de Fogo, Bayeux e João Pessoa.

Alguns Grupos e Mestres

Cavalo Marinho do Mestre Zé de Bibi, Mestre Zé de Bibi (Glória do Goitá - PE), onde se encontra o primeiro e único museu do cavalo marinho do Brasil; Cavalo Marinho Estrela de Ouro, Mestre Biu Alexandre (Condado - PE); Cavalo Marinho Estrela Brilhante, Mestre Antonio Teles (Condado - PE); Cavalo Marinho Boi Pintado, Mestre Grimário (Aliança - PE); Cavalo Marinho Mestre Batista, Mestre Mariano Teles (Aliança - PE); Cavalo Marinho Estrela do Oriente, Mestre Inácio Lucindo (Camutanga - PE); Cavalo Marinho Boi Maneiro, Mestre Pedro Luiz (Itambé - PE); Cavalo Marinho Boi Brasileiro, Mestre Biu Roque (Itaquitinga - PE); Cavalo Marinho Boi de Ouro, Mestre João Araujo (Pedras de Fogo - PB); Cavalo Marinho Boi Matuto, Família Salustiano (Olinda - PE), Cavalo Marinho do Bairro dos Novais, Mestre João e Pirralhinho (João Pessoa - Pb).

Fontes[editar | editar código-fonte]