Cegonha-branca

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Como ler uma caixa taxonómicaCegonha-branca
Dois adultos na Alemanha
Dois adultos na Alemanha
Estado de conservação
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Ciconiiformes
Família: Ciconiidae
Género: Ciconia
Espécie: C. ciconia
Nome binomial
Ciconia ciconia
(Linnaeus, 1758)
Distribuição geográfica
Distribuição e migração (aprox.)    Zona de reprodução   Zona de inverno                      Rotas de migração
Distribuição e migração (aprox.)
  Zona de reprodução
  Zona de inverno

                     Rotas de migração

Sinónimos

Ardea ciconia Linnaeus, 1758

A Cegonha-Branca (Ciconia ciconia) é uma ave de grande porte da família das Ciconiidae. A plumagem é maioritariamente branca, com preto nas asas. Os adultos têm longas patas vermelhas e bicos vermelhos longos e pontiagudos e medem uma média de 100–115 cm da ponta do bico até ao fim da cauda e 155–215 cm de envergadura de asas. As duas subespécies, que diferem ligeiramente em tamanho, acasalam na Europa (norte até à Finlândia), noroeste de África, sudoeste da Ásia (este para sul do Cazaquistão) e sul de África.

A Cegonha-Branca é uma ave migradora de longa distância, invernando em África desde a África subsariana até à África do Sul ou até mesmo no subcontinente indiano. Ao migrar entre a Europa e África a ave evita atravessar o Mar Mediterrâneo e faz o desvio pelo Levante a oriente ou por o Estreito de Gibraltar a ocidente, porque as térmicas de ar do qual a ave depende não se formam sobre a água.

Sendo uma ave carnívora, a Cegonha-Branca digere uma grande variedade de animais incluindo insectos, peixes, anfíbios, repteis, pequenos mamíferos e pequenas aves. Apanha a maior parte da sua comida do chão em zonas de baixa vegetação ou dentro de águas de pouca profundidade.

É um reprodutor monogâmico mas não emparelha para toda a vida. Ambos os membros do par constroem um ninho grande feito de paus que pode ser usado por vários anos. Em cada ano a fêmea põe uma ninhada de geralmente quatro ovos que eclodem de forma assíncrona 33-34 dias após terem sido colocados. Os dois adultos fazem turnos a incubar os ovos e ambos também alimentam as crias. As crias deixam os ninhos 58-64 dias depois de nascerem e continuam a ser alimentadas pelos adultos por mais um período de 7-20 dias.

A Cegonha-Branca foi catalogada como "Pouco Preocupante" pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN).1 Foi beneficiada com as atividades humanas durante a Idade Média como a limpeza das florestas, mas as mudanças nos métodos de cultivo e industrialização viram a sua população declinar e até desaparecer em algumas partes da Europa nos séculos XIX e XX. Programas de conservação e reintrodução pela Europa resultaram que a Cegonha-Branca voltasse a reproduzir nos Países Baixos, Bélgica, Suiça, Suécia e mesmo até em Portugal. Tem poucos predadores naturais mas abrigam vários tipos de parasitas; a sua plumagem é lar de várias espécies de piolhos e ácaros das penas e o seu enorme ninho é lar também de várias espécies de mesostigmata.

Esta ave ilustre tem dado origem a muitas lendas e contos em toda a sua gama, dos quais o mais conhecido é a história dos bebês que são trazidos pelas cegonhas.

Índice

Taxonomia e Evolução[editar]

A Cegonha-Branca é uma das espécies de aves originalmente descritas por Linnaeus na 10ª edição do seu livro de 1758 Systema Naturae,2 onde foi dado o nome binomial de Ardea ciconia. Foi reclassificado no novo género Ciconia pelo zoologista francês Mathurin Jacques Brisson em 1760.3 4 O género e o epíteto específico, cǐcōnia,5 foram originalmente gravados nos trabalhos de Horácio e Ovídio.6

Existem duas subespécies:

  • C. c. ciconia: as subespécies nominais descrita por Linnaeus em 1758, procria da Europa até ao noroeste e sul de África e no ocidente asiático e inverna principalmente em África a sul do Saara,7 mas também é possível encontrar aves na Índia.8
  • C. c. asiatica: descrita pelo naturalista russo Nikolai Severtzov em 1873. Procria no Turquistão e inverna desde o Irão até à India. Ligeiramente maior que as subespécies nominais.7 9

A família das cegonhas contém seis géneros divididos em três grupos: cegonha-de-bico-amarelo e as cegonhas da madeira (Mycteria e Anastomus), as cegonhas grandes (Ephippiorhynchus, Jaburu e Leptoptilos), e as cegonhas “típicas” (Ciconia). As cegonhas típicas incluem as cegonhas-brancas e seis outras espécies-taxon extantes,10 que são caracterizadas pelos longos bicos pontiagudos e por terem principalmente plumagem branca e preta.11 Os seus parentes mais próximos são a cegonha-branca-oriental (Ciconia boyciana) da Ásia Oriental, formalmente classificada como uma subespécie da cegonha-branca,7 e a Cegonha Maguari (C. maguari) da América do Sul. Relações evolutivas próximas dentro da Ciconia são sugeridas por comportamentos similares e, bioquimicamente, através de analises de sequências de genes e de Hibridização de DNA-DNA.12

Registo fóssil[editar]

Um fragmento fóssil Ciconia representando a parte final distal do úmero direito foi recuperado do Mioceno na ilha de Rusinga, Lago Victoria, Quénia.13 O fóssil com 24-6 milhões de anos poderia ter sido originado a partir de uma cegonha branca ou uma cegonha preta (C. Nigra), que são espécies com mais ou menos o mesmo tamanho e estrutura óssea similar. As camadas do Mioceno médio na ilha de Maboko renderam outros restos fósseis.13

Descrição[editar]

Em voo. A cegonha-branca voa com o pescoço esticado.

A Cegonha-Branca é uma ave de grande porte. Tem um comprimento de 100-115 centímetros,nota 1 14 e uma altura de pé de 100-125 centímetros. A envergadura é 155–215 cm e o seu peso é 2,3-4,4 kg.15 Como todas as cegonhas, tem pernas longas, pescoço comprido, e um longo, reto, bico pontiagudo.10 Os sexos são idênticos na aparência, exceto que os machos são maiores que as fêmeas, em média,7 a plumagem é principalmente branca, com penas de voo negras nas asas; o preto é causado pelo pigmento melanina.16 As penas do peito são longas e formam um colar que é usado em alguns momentos da corte.17 A íris é castanha escura ou cinza, e a pele periorbital é preta. O adulto tem um bico vermelho brilhante e pernas vermelhas,7 a coloração das quais é derivada dos carotenóides ingeridos na alimentação. Em partes de Espanha, estudos têm mostrado que o pigmento é baseado em astaxantina obtido a partir de uma espécie introduzida de lagostim (Procambarus clarkii) e as cores brilhantes do bico vermelho mostram-se mesmo nos filhotes, em contraste com os bicos de jovens cegonhas brancas em qualquer outro local.18

Cabeça, pescoço e parte superior do corps de uma jovem cegonha-branca com um longo bico avermelhado na base desvanecendo para preto na ponta.
Um jovem adulto. Os bicos ficam progressivamente vermelhos a começar da base.

Como outras cegonhas, as asas são longas e amplas permitindo que a ave plane.19 Em voo o batimento das asas é lento e regular. Voa com o pescoço esticado para a frente com as suas patas estendidas muito para lá do fim da sua cauda pequena. Caminha a um ritmo lento e firme com o pescoço estendido. Em contraste, geralmente acotovela a cabeça entre os ombros enquanto descansa.20 A mudança de penas ainda não foi extensivamente estudada, mas aparentemente parece ocorrer durante todo o ano, no entanto as penas de voo primárias são substituídas durante a época de procriação.17

Após sair do ovo, a jovem cegonha-branca está parcialmente coberta com pequenas, escassas e esbranquiçadas penas interiores. Estas são substituídas cerca de uma semana depois por uma pelagem mais densa de penas interiores. Por três semanas, a jovem ave adquire escapulários pretos e penas de voo. Quando sai do ovo a cria tem patas de tom rosa que ficam acizentadas à medida que envelhece. O seu bico é preto com a ponta acastanhada.17 Na altura de empenar a plumagem da jovem ave é similar à do adulto no entanto as suas penas pretas estão muitas vezes tingidas de castanho. As pernas têm tons entre o castanho-vermelho ou laranja. O bico é também apresenta tons castanho-vermelho mas é tipicamente laranja ou vermelho com uma ponta mais preta,20 começando a ganhar a cor vermelha igual à dos adultos no verão seguinte embora as pontas de cor preta possam ainda persistir nalguns adultos. As jovens cegonhas adoptam a plumagem adulta no segundo verão.21

Espécies Similares[editar]

Dentro do seu género a Cegonha-Branca é muito distinta quando avistada do solo, mas à distância, em voo, pode no entanto ser confundida com muitas outras espécies com padrões de asas muito similares, como a Cegonha de Bico Amarelo, o Pelicano-Branco ou o Abutre do Egito.20 A Cegonha de Bico Amarelo é identificada por a sua cauda preta e um bico amarelo longo e ligeiramente curvado. A Cegonha-Branca tende a ser maior do que a Cegonha de Bico Amarelo.22 O Pelicano-Branco tem pernas mais curtas que não se estendem para lá da sua cauda, e voa com o pescoço retraído mantendo assim a cabeça junto do corpo, dando-lhe um perfil de voo diferente.23 Os Pelicanos têm também comportamentos diferentes, planando ordeiramente em bandos sincronizados, em vez dos grupos de indivíduos desorganizados dos bandos de Cegonhas-Brancas.24 O Abutre do Egito é muito mais pequeno, com uma longa cauda, pernas mais curtas e uma pequena cabeça tingida de amarelo num pescoço pequeno.25 O Grou-comum, que pode parecer branco e preto sob luz forte, mostra longas pernas e um pescoço maior durante o voo.26

Distribuição e Habitat[editar]

As raças nominais da Cegonha-Branca têm extensos, embora muito separados e repartidos, habitats de verão, agrupados entre a Península Ibérica e a oeste do norte de África e muito também na Europa central e de leste, com 25% da população mundial concentrada na Polónia,27 assim como em zonas do oeste asiático. A população asiática de cerca de 1450 aves está restrita a uma região da Ásia central entre o Mar de Aral e Xinjiang no oeste da China.28 29

Um bando alimentando-se na Turquia. As Cegonhas-Brancas evitam áreas de mato e arbustos altos.

A população de Xinjiang acredita-se ter ficado extinta por volta de 1980.30

As rotas de migração estenderam o alcance destas espécies para muitas zonas da Índia e de África. Algumas populações aderiram à rota de migração de leste, que atravessa Israel até à África central e de leste.31 32

Alguns registos de procriação na África do Sul são conhecidos desde 1933 em Calitzdorp e também é conhecido que cerca de 10 aves procriam desde os anos 90 algures em Bredasdorp.33 Uma pequena população de Cegonhas-Brancas inverna na Índia e acredita-se que derivem principalmente da população de C. c. asiática9 com bandos de 200 indivíduos observados nas migrações de primavera por volta de 1900 na zona do Vale de Kurram.34 No entanto, algumas aves anilhadas na Alemanha são recuperadas no oeste (Bikaner) e sul (Tirunelveli) da Índia.8 35 Um espécime atípico com orbita ocular vermelha, uma característica da Cegonha-Branca Oriental, foi registado36 acabando por ser requisitado um estudo mais aprofundado da população indiana.9 A norte da zona de procriação está uma passagem fora da zona normal de migração na Finlândia, Grã-Bretanha, Islândia, Irlanda, Noruega e Suécia e a oeste até aos Açores e Madeira. Recentemente a área expandiu-se até á zona oeste da Rússia.37 38

As zonas preferenciais da Cegonha-Branca para alimentação são os prados verdejantes, os campos agrícolas e as zonas húmidas baixas. Evita áreas cobertas de mato alto e com muito arbusto.39 Na área de Chernobyl no norte da Ucrânia, as populações de cegonha-branca diminuiram após o acidente nuclear de 1986 porque a terra foi substituída por arbusto de ramagem alta.40 Em algumas partes da Polónia, terras pobres em alimentação, forçaram as aves a procurar alimento em aterros sanitários desde 1999.41 As cegonhas brancas também foram avistadas forrageando em lixeiras no Médio Oriente, Norte da África e África do Sul.42

A cegonha branca procria em maior número em áreas de campos abertos, e particularmente gramíneas, molhadas ou periodicamente inundadas, e menos em áreas cobertas de vegetação mais alta, como florestas ou matagais.43 Fazem uso de pastagens, zonas húmidas e locais agrícolas durante o inverno em África.33 As cegonhas brancas foram provavelmente auxiliadas pelas actividades humanas durante a Idade Média em que zonas de florestas eram limpas e novos pastos e zonas de cultivo eram criadas, sendo encontradas em quase toda a Europa, procriando até no norte da Suécia.

A Cegonha-branca é um visitante raro nas Ilhas Britânicas, á volta de 20 aves são avistadas todos os anos, sem haver registos de nidificação.44 Um par nidificou no topo da Igreja de St. Egidio em Edinburgo, Escócia em 1416.45

Um declínio da população começou no século XIX devido à industrialização e na mudança dos métodos de agricultura. Cegonhas-brancas já não nidificam em muitos países e as mais fortes concentrações da população no oeste são em Espanha, Ucrânia e Polónia. Na Península Ibérica as populações estão concentradas no sudoeste e também houve um decréscimo devido às práticas de agricultura.43 Um estudo publicado em 2005 descobriu que a região de Podhale nas zonas altas no sul da Polónia registou um influxo de cegonhas-brancas, que procriaram a primeira vez em 1931 e desde então têm nidificado progressivamente a altitudes cada vez mais altas chegando aos 890m em 1999. Os autores argumentaram que estava relacionado com o aquecimento global e também o influxo de outros animais e plantas para maiores altitudes.46 Cegonhas-brancas que agora chegam na primavera para procriar à província de Poznan, no oeste da Polónia, chegam cerca de 10 dias antes nos últimos vinte anos do século XX, do que em igual período no final do século XIX.47

Migração[editar]

Pesquisa sistemática sobre a migração desta ave se iniciou com o ornitologista alemão Johannes Thienemann, pioneiro na anilhagem de aves, que começou a desenhar estudos em 1906 no Observatório de Aves de Rossitten no istmo da Curlândia, no que foi a Prússia Oriental. Embora não passem muitas cegonhas junto a Rossitten, o observatório coordenava em larga escala a anilhagem das espécies através da Alemanha e em muitas partes da Europa. Entre 1906 e a 2ª Guerra Mundial cerca de 100.000 cegonhas-brancas foram anilhadas (sobretudo jovens), com cerca de 2000 recuperações de anilhas de Rossitten entre 1908 e 1954.48

Rotas[editar]

Um bando a agrupar-se sob Istambul. Os bandos de Cegonhas-brancas são desorganizados ao contrário de outras espécies em que os indivíduos planam ordeiramente em bandos sincronizados.

As Cegonhas-brancas voam para sul, das zonas de procriação de verão na Europa em Agosto e Setembro, na direcção de África.39 Lá, invernam na savana desde o Quénia e o Uganda até ao sul na Província do Cabo na África do Sul.49 Nestas áreas agrupam-se em grandes bandos que podem exceder o milhar de indivíduos.20 Alguns divergem para oeste para o Sudão ou Chade, chegando mesmo á Nigéria.31 Na primavera, as aves regressam para norte; há registos desde o Sudão ao Egito de Fevereiro a Abril.50 Chegam à Europa por volta de Março/Abril,39 depois de uma viagem que dura em média 49 dias. Por comparação, a viagem do Outono dura em média 26 dias. Ventos de cauda a favor e carência de água e alimento durante a viagem (as aves voam mais rápido sob regiões com escassez de recursos) aumentam a velocidade média.32

Para evitar uma longa travessia marítima sobre o Mediterrâneo, as aves da Europa central ou seguem na rota de migração de leste atravessando o Bósforo na Turquia, percorrendo o Levante, passando o deserto do Sahara e percorrendo o vale do Nilo na direcção para sul, ou seguem na direcção da rota oeste sob o Estreito de Gibraltar.51 Com estes "corredores" de migração recorrem à ajuda das térmicas permitindo às aves poupar energia.52 53 A rota leste é de longe a mais importante com 530.000 cegonhas-brancas usando-a anualmente, tornando-a na segunda espécie migrante mais comum no local (a seguir ao Tartaranhão-apívoro). Os bandos de aves de rapina, cegonhas-brancas e pelicanos brancos podem estender-se por 200 km.54 A rota de leste é o dobro da distância da rota de oeste mas as cegonhas demoram o mesmo tempo a chegar aos solos de inverno por ambas as rotas.55

As jovens cegonhas-brancas a primeira vez que partem para a sua rota de migração para sul, saem numa direcção já herdada mas se se deslocam devido às condições atmosféricas, são incapazes de compensar, acabando muitas vezes numa nova zona de inverno. Os adultos conseguem compensar com ventos fortes, ajustando a sua direcção, acabando nos locais de inverno habituais. Pela mesma razão, os migrantes da primavera, mesmo aqueles que se dispersaram dos seus locais de inverno, conseguem encontrar a rota de volta para os seus tradicionais locais de procriação.56 Uma experiência com aves novas criadas em cativeiro em Caliningrado e libertadas na ausência de cegonhas-brancas, mostrou que as aves aparentemente tinham o instinto de voar para sul, embora a dispersão na direcção fosse maior.57

Energia[editar]

Em migração sob Israel. As Cegonhas-brancas durante a migração usam a ascensão do ar termal para reduzir o esforço do voo de longa distância.

As Cegonhas-brancas dependem da elevação dos ares térmicos para planarem e assim voarem por longas distâncias nas suas migrações anuais entre a Europa e a África Subsariana. Para muitos indivíduos, usar a rota mais curta levariam-nos a ter que atravessar o Mediterrâneo; no entanto, visto que os ares termais não se formam sobre água, geralmente desviam-se para terra para evitar os voos trans-Mediterranicos que requeriam um maior consumo de energia com o batimento das asas.58 Foi estimado que, por distância percorrida, o batimento de asas durante o voo metaboliza 23 vezes mais gordura corporal do que em voo planado.59 Assim, bandos em espiral conseguem subir sobre ar quente até aos 1200-1500m acima do solo (embora haja um registo no Sudão em que foram avistadas aves a uma altitude de 3300m).50

Longos voos acima de água podem ocasionalmente ocorrer. Uma jovem cegonha anilhada no ninho na Dinamarca subsequentemente apareceu na Inglaterra, onde permaneceu alguns dias. Foi vista mais tarde a voar sobre a Sicília, tendo chegado em más condições à Madeira três dias depois. A Madeira fica a 500 km de África e aproximadamente o dobro da distância do continente Europeu.60 Migração sobre o Médio Oriente pode ser dificultada pelos ventos khamsin trazendo dias nublados e tempestuosos impróprios para voar. Nestas situações, os bandos de cegonhas-brancas sentam-se no chão contra o tempo adverso, aguentando-se imóveis de frente para o vento.50

Comportamento[editar]

Um adulto no Quénia. As partes inferiores das suas patas são de uma cor branca por estarem cobertos com os seus excrementos; um exemplo de termorregulação por urohidrose.

A Cegonha-branca é uma ave gregária; bandos de milhares de indivíduos foram registados em rotas de migração e em zonas de invernação em África. Aves não-reprodutoras reúnem-se em grupos de 40-50 indivíduos durante a época de reprodução.20 A pequena Cegonha-de-Abdim de plumagem escura é muitas vezes encontrada em bandos de Cegonhas-brancas no sul de África.61 Casais de Cegonhas-brancas reúnem-se em pequenos grupos para caçar e colónias de ninhos foram também registados nalgumas áreas.62 No entanto, grupos entre as colónias de Cegonhas-brancas variam muito em tamanho e a estrutura social é mal definida; jovens cegonhas reprodutoras muitas vezes são restritas aos ninhos periféricos, enquanto cegonhas mais velhas obtêm maior sucesso de reprodução porque ocupam ninhos de melhor qualidade nos centros de colónias de reprodução.63

Estrutura social e coesão de grupo são mantidas por comportamentos altruístas como os cuidados pessoais. As Cegonhas-brancas exibem o seu comportamento exclusivamente junto á área do ninho. Aves de pé alisam as cabeças de aves sentadas, às vezes estes são os pais em preparação dos jovens, e por vezes os jovens alisam-se uns aos outros.64 Ao contrário de outras cegonhas, nunca adopta uma postura de asa-aberta, mas sabe-se que deixa cair as asas (mantendo-as longe do seu corpo com as penas primárias voltadas para baixo) quando tem a plumagem molhada.65

Os excrementos da Cegonha-branca, que contêm fezes e urina, são às vezes dirigidas às suas próprias patas fazendo com que fiquem com a aparência esbranquiçada.22 A evaporação que resulta daí proporciona arrefecimento. É denominado urohidrose.66 Aves que foram anilhadas podem por vezes ser afectadas pela acumulação de excrementos junto á anilha resultando em constrições e lesões para as patas.67

A Cegonha-branca também tem sido observada pelo uso de ferramentas apertando musgo no bico para escorrer água na boca das suas crias.68

Comunicação[editar]

O principal som da Cegonha branca adulta é um ruidoso bater de bico, que pode ser comparado ao disparo distante de uma metralhadora.

A ave faz este som ao abrir e fechar o seu bico muito rapidamente, pelo que o som do batimento é feito cada vez que o bico fecha. O ruído é amplificado pela bolsa da sua garganta, que actua como um ressonador. Usado numa variedade de interacções sociais, o bater do bico geralmente fica mais alto quanto mais longo, e tem ritmos distintos dependendo da situação – por exemplo, lento durante a copulação mas breve quando usado como chamamento de alarme. O único som vocal que as aves adultas produzem é um silvo fraco quase inaudível; no entanto, aves jovens conseguem produzir um silvo mais áspero, vários sons piando, ou uma espécie de miado de gato usado para pedir comida. Tal como os adultos, os mais novos também batem os bicos.69

A exibição "cima-baixo" é usado para um número de interações com outros membros da espécie. Aqui a cegonha rapidamente lança a sua cabeça para trás de modo que a sua coroa assente na suas costas antes de lentamente trazer a sua cabeça e o pescoço para a frente de novo, e isto é repetido por várias vezes. Esta exibição é usada como um cumprimento entre aves, pós-coito, e até como exibição de ameaça ou intimidação. Pares reprodutores são territoriais durante o verão e usam esta exibição, bem como agachado para a frente com as caudas erectas e as asas estendidas.70

Alimentação[editar]

Ciconia ciconia
O principal som da Cegonha branca adulta é um ruidoso bater de bico, que pode ser comparado ao disparo distante de uma metralhadora.

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As Cegonhas-brancas consomem uma grande variedade de presas animais. Preferem alimentar-se em prados dentro de aproximadamente 5 km do seu ninho e áreas em que a vegetação é curta e baixa de modo que as presas fiquem mais acessíveis.39 A sua dieta varia de acordo com a estação, local e disponibilidade das presas. Itens alimentares mais comuns incluem insectos (principalmente besouros, escaravelhos, grilos e gafanhotos), minhocas, repteis, anfíbios particularmente espécies de sapos como a Pelophylax kl. esculentus ou o Sapo-comum (Rana temporaria) e pequenos mamíferos como ratazanas, toupeiras e musaranhos. Menos comum, mas também comem ovos de aves e aves jovens, peixe, moluscos, crustáceos e escorpiões. Caçam principalmente durante o dia, engolindo por inteiro presas pequenas, mas matando e desfazendo presas maiores antes de engolir.62 Elásticos são confundidos com minhocas e consumido, por vezes resultando na obstrução fatal do trato digestivo.71

Nas aves que regressam à Letónia durante a primavera, verificou-se que para localizarem as suas presas, as rãs Moor (Rana arvalis), usam o som de acasalamento produzido por agregações de rãs do sexo masculino.72

A dieta das aves não reprodutoras é similar às das aves reprodutoras, mas os alimentos são mais frequentemente levados de áreas secas.73 Cegonhas-brancas no oeste da Índia têm sido observadas a perseguir uma espécie de antílope (Antilope cervicapra) para capturarem os insectos que estes incomodam ao caminhar.74 As cegonhas-brancas que invernam na Índia são muitas vezes vistas à procura de alimento juntamente com a Cegonha-de-pescoço-branco (Ciconia episcopus).75 O furto de alimentos foi registado na Índia; um roedor capturado por um Tartaranhão-dos-pauis foi roubado por uma cegonha-branca, enquanto que o Tartaranhão-caçador é conhecido por perturbar cegonhas-brancas enquanto estas procuram ratazanas em algumas zonas da Polónia.76 77

Reprodução e Longevidade[editar]

Ninhos num campanário em Salamanca, Espanha. As Cegonhas-brancas muitas vezes formam pequenas colónias de nidificação.
Um dos muitos ninhos construídos sobre plataformas feitas pelo homem, junto á Basílica de S. João, Selçuk, Província de Izmir, Turquia.

A Cegonha-branca reproduz em áreas de cultivo abertas com acesso a zonas húmidas, construindo um grande ninho de paus em árvores, edifícios ou plataformas especialmente construídas pelo homem.78 Cada ninho tem 1-2m em profundidade, 0,8 – 1,5m em diâmetro e 60–250 kg em peso.79 Os ninhos são construídos por colónias dispersas.63 Não são perseguidos porque são vistos como um bom presságio nidificando muitas vezes perto de habitações humanas; no sul da Europa, ninhos podem ser vistos em igrejas e outros edifícios. O ninho é usado ano após ano especialmente por machos mais velhos. Os machos chegam mais cedo na época e escolhem os ninhos. Ninhos maiores são associados com maior número de jovens mais fortes e aparentemente são procurados primeiro.80 A mudança de ninho é muitas vezes relacionada com a mudança de par e o insucesso de criar jovens no ano anterior. Entre as aves mais novas é muito provável que troquem de área de nidificação.81 Alguns pares foram observados a ocupar um ninho por uns dias antes de partirem, razões para tal ainda não foram explicadas.82

As Cegonhas brancas reutilizam os seus ninhos durante as estações de reprodução, trazendo materiais de ano para ano.

Os casais cumprimentam-se em movimentos de cabeça “cima-baixo”, abanando a cabeça enquanto estão agachados e batem com o bico enquanto atiram a cabeça para trás.7 Pares copulam frequentemente todo o mês antes dos ovos serem postos. A copulação de pares com alta-frequência é frequentemente associado com a competição de esperma e a copulação extra-par; no entanto, a copulação extra-par é pouco frequente nas cegonhas-brancas.83

Um par de cegonhas-brancas cria uma única ninhada por ano. A fêmea tipicamente põe quatro ovos, embora ninhadas de 1-7 ovos tenham sido registadas.69 Os ovos são brancos, mas muitas vezes aparentam-se amarelados e sujos devido à cobertura aglutinosa (ver Galeria abaixo). Medem 72,58 x 51,86mm,84 e pesam 96-129g,69 destes, 10,76g é casca.84 A incubação começa assim que o primeiro ovo é posto, assim a ninhada nasce assincronizada, começando 33-34 dias depois. O primeiro a nascer tem tipicamente um lado competitivo sobre os outros. As jovens crias mais fortes não são agressivas sobre as mais fracas, como noutras espécies, sendo que as crias pequenas e mais fracas são às vezes mortas pelos próprios pais.85 86 Este comportamento ocorre em tempos de escassez de comida para reduzir o tamanho da ninhada e assim aumentar a hipótese de sobrevivência das restantes crias. As crias de cegonha-branca não se atacam umas às outras, e o método de alimentação dos pais (dispondo largas quantidades de alimento ao mesmo tempo) significa que, directamente, as crias mais fortes não conseguem competir com as mais fracas por comida, por isso o infanticídio dos pais é uma forma eficiente de reduzir a ninhada. Apesar disso, é um comportamento pouco observado.85

A temperatura e o estado atmosférico na altura do nascimento é importante; temperaturas frias e tempo húmido aumenta a mortalidade das crias e reduz a taxa de sucesso de reprodução.43 De forma inesperada, estudos descobriram que crias que nascem tardiamente, tornam-se adultos que reproduzem mais do que aqueles que nasceram mais cedo.87 O peso das crias aumenta rapidamente nas primeiras semanas chegando a ter 3,4 kg em 45 dias. O tamanho do bico aumenta linearmente durante cerca de 50 dias.88 As jovens aves são alimentadas com minhocas e insectos, regurgitados pelos pais para o chão do ninho. As crias mais velhas chegam á boca dos pais para obter comida.89 As crias começam a voar 58-64 dias depois de terem nascido.90

As cegonhas-brancas geralmente começam a reproduzir-se com quatro anos de idade, no entanto alguns registos provam que a primeira reprodução pode acontecer aos dois anos de idade e até tão tarde como os sete anos.17

A cegonha-branca selvagem mais velha de que há registo viveu 39 anos depois de ser anilhada na Suiça,91 em cativeiro há aves que vivem mais de 35 anos.7

Muitas espécies nidificam regularmente nos ninhos das cegonhas-brancas. Como ocupantes regulares temos o Pardal-montês e o Estorninho-comum; residentes menos comuns incluem o Peneireiro-vulgar, Mocho-galego, Rolieiro-europeu, Alvéola-branca, Rabirruivo-preto, Gralha-de-nuca-cinzenta e o Pardal-espanhol.92

Doenças e Parasitas[editar]

Os ninhos de cegonhas-brancas são habitats para um grupo de pequenos artrópodes, particularmente durante os meses mais quentes, depois das aves terem chegado para reproduzir. Nidificando durante anos sucessivos, as cegonhas trazem mais material para o seu ninho, acabando por acumular camadas de material orgânico. Não apenas os seus corpos tendem a regular a temperatura dentro do ninho, mas excremento, restos de comida, penas e fragmentos de pele fornecem alimentação para uma grande e diversa população de ácaros mesostigmata. Uma inspecção a doze ninhos encontrou 13,352 indivíduos de 34 espécies, sendo o mais comum os Macrocheles merdarius, M. robustulus, Uroobovella pyriformis e Trichouropoda orbicularis, que juntos representam 85% de todos os espécimes encontrados. Alimentam-se de ovos e larvas de insectos e de nemátodas, que são abundantes no lixo do ninho. Estes ácaros são dispersos pelos besouros coprophilous, muitos da família Scarabaeidae, ou em excremento trazido pelas cegonhas durante a construção dos ninhos. Ácaros parasitas não existem, provavelmente por serem controlados por espécies predadoras. O impacto da população de ácaros não é claro, os ácaros podem ter um papel em suprimir organismos prejudiciais (e, portanto, serem benéficos), ou podem ter um efeito adverso sob as crias de cegonha.93 94

As próprias aves abrigam espécies pertencendo a mais de quatro gerações de ácaros das penas.95 Estes ácaros, incluindo Freyanopterolichus pelargicus96 97 e Pelargolichus didactylus,97 vivem nos fungos criados nas penas. Os fungos que aparecem na plumagem podem-se alimentar da queratina ou do óleo das penas exteriores.98 Malófagos como o Colpocephalum zebra são geralmente descobertos nas asas e o Neophilopterus incompletus em qualquer outra parte do corpo da ave.99

A cegonha-branca também transporta vários tipos de parasitas internos, incluindo o Toxoplasma gondii100 e parasitas intestinais do género Giardia.101 Um estudo em 120 carcaças de cegonhas-brancas na Alemanha resultou na descoberta de oito espécies de Trematoda, quatro espécies de Cestoda e pelo menos três espécies de nematoda.102 Uma espécie, Chaunocephalus ferox, causou lesões na parede do pequeno intestino num número de aves em centros de reabilitação espanhóis, sendo associado com a perda de peso. É um patógeno reconhecido e a causa de morbidez na Cegonha-de-Bico-Aberto-Indiana (Anastomus oscitans).103

O Vírus do oeste do Nilo é uma infecção que é transmitida entre aves por mosquitos.104 As aves migratórias têm aparentemente um papel importante na propagação do vírus,105 no entanto a ecologia permanece pouco conhecida.106 Em agosto de 1998, um bando migratório de aproximadamente 1200 cegonhas-brancas, desviaram-se da rota na sua viagem para sul, tendo ficado em Eilat, no sul de Israel. O bando entrou em stress e foi reportado que regressou à sua rota migratória normal, acabando por morrer um número de aves. Uma estirpe virulenta do Vírus do oeste do Nilo foi encontrado no cérebro de 11 jovens adultos mortos. Outras cegonhas-brancas subsequentemente testadas em Israel mostraram anticorpos do vírus.107 Em 2008 três jovens cegonhas-brancas de um parque natural polaco, mostraram resultados seropositivos indicado exposição ao vírus, mas o contexto ou existência do vírus nesse pais não é muito claro.108

Conservação[editar]

Resultados dos censos de 2004/05 da Cegonha-branca na Europa (números em pares reprodutores).

O declínio da população da cegonha-branca deveu-se á industrialização e às mudanças nas práticas da agricultura (principalmente a drenagem de zonas húmidas e da conversão de prados para culturas como o milho) começando no século XIX: o último indivíduo em estado selvagem na Bélgica foi visto em 1895, na Suécia em 1955, na Suiça em 1950 e na Holanda em 1991. No entanto, têm sido reintroduzidas em muitas regiões.109 Foi catalogada como "Pouco Preocupante" pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) desde 1994 depois de ter sido avaliada em "Espécie quase ameaçada" em 1988.1

Uma plataforma feita pelo homem na Polónia, construída como uma medida de conservação e para prevenir que as cegonhas cortem o abastecimento de electricidade nidificando nos postes. Três jovens cegonhas estão no topo do ninho e dois pardais-monteses empoleirados de lado no ninho.

A cegonha-branca é uma das espécies em que o Acordo para a Conservação das Aves Aquáticas Migratórias Afro-Euroasiáticas (AEWA) se aplica.110 As partes do acordo são obrigadas a envolverem-se numa ampla gama de estratégias de conservação descritas num plano de acção pormenorizado. O plano destina-se a abordar questões fundamentais como as espécies e a conservação dos habitats, a gestão das atividades humanas, pesquisa, educação e sua implementação.111

As principais ameaças da cegonha-branca continuam a ser a constante perda de áreas húmidas, as colisões com as linhas de alta tensão e o uso de poluentes orgânicos persistentes (como o DDT) usados para combater o Gafanhoto-do-deserto em África. A caça ilegal em rotas de migração e nas zonas de inverno também é motivo de ameaça às populações.7

Uma grande população de cegonhas-brancas procria na Europa central e de leste. Nos censos de 2004/5, havia 52500 pares na Polónia, 30000 pares na Ucrânia, 20000 na Bielorrússia, 13000 na Lituânia (a densidade mais alta desta espécie, conhecida em todo o mundo), 10700 pares na Letónia e 10200 na Rússia. Havia à volta de 5500 pares na Roménia, 5300 na Hungria e 4956 pares reprodutores na Bulgária.112 Na Alemanha, a maioria dos 4482 pares encontrados estavam na região de leste, especialmente nos estados de Brandemburgo e Mecklemburgo-Pomerânia (1296 e 863 pares em 2008, respectivamente).113

Aparte de Espanha e Portugal (33217 pares e 7684114 115 pares em 2004/5 respectivamente), populações no sul e do oeste da Europa são geralmente muito menos estáveis; por exemplo, a população dinamarquesa decresceu para apenas três pares em 2005. Na zona leste do Mediterrâneo, a Turquia tem uma população de 6195 pares e a Grécia 2139 pares. No oeste europeu a cegonha-branca permanece uma ave rara apesar dos esforços de conservação. Em 2004 a França tinha apenas 973 pares e a Holanda 528 pares.112

No inicio dos anos 80, a população caiu para apenas nove pares na zona alta do vale do Reno, uma área que durante séculos foi muito identificada com a cegonha-branca. Os esforços de conservação aumentaram com sucesso a população de aves para 270 pares (em 2008), largamente devido às acções da Associação para a Protecção e Reintrodução de Cegonhas na Alsácia e Lorraine.116

A reintrodução de aves criadas em zoos estancou novos declínios na Itália, Holanda e na Suíça. Havia 601 pares reprodutores na Arménia e cerca de 700 pares na Holanda (em 2008),117 e alguns pares também reproduzem na África do Sul, tipicamente colonos recentes da população invernante.7 Na Polónia, postes eléctricos têm sido modificados, e às vezes os ninhos são movidos de um poste eléctrico para plataformas feitas pelo homem.79 A introdução de zoos-criadores de aves na Holanda foi seguido por programas de alimentação e de construção de ninhos por voluntários.117 Programas similares de reintrodução foram implementados também na Suécia,118 e na Suíça,119 onde 175 pares reprodutores foram registados em 2000.120 A viabilidade a longo prazo da população na Suíça é incerta, pois as taxas de sucesso de reprodução são baixas, e a alimentação suplementar não parece ser benéfica.119

Portugal[editar]

O "Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal" atribuiu o estatuto de conservação "Pouco Preocupante" à população portuguesa nidificante de Cegonha-branca.121

Ninho de Cegonhas-brancas em Silves (Portugal), Portugal.

Em Portugal, a cegonha-branca é uma das duas espécies nidificantes do Género Ciconia. Mais comum do que a sua congénere cegonha-preta (Ciconia nigra), a cegonha-branca é uma ave com uma presença fortemente enraizada na cultura portuguesa, sendo um elemento característico da paisagem em muitas regiões do país e uma espécie normalmente admirada e respeitada pela grande maioria da população.121

Mais comum no sul do país do que no norte e centro de Portugal, a cegonha-branca é presença constante nas searas e pousios alentejanos e nos arrozais que subsistem em Portugal, tendo-se assistido nos últimos anos a um aumento acentuado do número de efectivos que ocorrem no nosso país, ao longo de todo o ano. Esta recuperação deve-se provavelmente ao efeito conjugado de diversos de factores. Por um lado, o fim de um período de seca de várias décadas nas suas áreas de invernada africanas e à proliferação de uma espécie exótica invasora, o Lagostim-vermelho do Louisiana (Procambarus clarkii), que na Península Ibérica passou a constituir a base da sua dieta em várias regiões. Este crustáceo, permitiu que muitas centenas de cegonha-brancas passassem a residir em Portugal, evitando a mortalidade associada à migração e invernada na África subsariana. Por outro lado, aos esforços de conservação dirigidos à espécie nas duas últimas décadas, designadamente a sua estrita protecção, à sensibilidade ambiental do público em geral relativamente a esta espécie e ao esforço coordenado do ICNB, dos agentes sociais e económicos (com destaque para companhias de distribuição e transporte de electricidade) e das organizações não-governamentais de ambiente.121

Em 2004 teve lugar o IV censo internacional da cegonha-branca Ciconia ciconia. No âmbito deste censo foi prospectado o território português, tendo-se contado todos os ninhos desta espécie. Foi registada a nidificação de cegonhas-brancas em 14 dos 18 distritos do continente português, num total de 7684 ninhos. De notar que 85% dos ninhos se encontram a sul do rio Tejo com maior incidência nos distritos de Beja, Portalegre, Évora, Setúbal e Santarém.115

Dos dez concelhos com maior número de ninhos apenas um se encontra no distrito de Santarém (Benavente, 5º lugar), todos os outros pertencem aos distritos de Beja, Évora e Setúbal.115

Associações Culturais[editar]

"Der Klapperstorch" (A Cegonha), pintura de Carl Spitzweg (1808–1885).

Devido ao seu grande tamanho, ser predadora de espécies nocivas e nidificar perto de zonas residenciais humanas e nos telhados, a cegonha-branca tem uma presença imponente, acabando por ter um impacto na cultura e no folclore humano.60 No Antigo Egito estava associada com, e tinha um hieróglifo para, a Ba ou "alma".122 A palavra hebraica para cegonha-branca é chasidah (חסידה), que significa "misericordioso" ou "bondoso".123 As mitologias grega e romana usavam as cegonhas como modelos de devoção, e acreditava-se que não envelheciam nem morriam, mas sim voam para ilhas e transformavam-se em humanos. A ave é protagonista em duas Fábulas de Esopo: "A Raposa e a Cegonha" e "O Agricultor e a Cegonha".124 As cegonhas também foram imaginadas a cuidar dos seus pais idosos, alimentando-os e até mesmo a transportá-los, nos livros infantis eram usadas como um modelo de valores filiais. Uma lei grega chamada Pelargonia, (pelargos para cegonha, do grego antigo), exige que os cidadãos cuidem dos seus pais idosos.7 Os gregos afirmavam que matar uma cegonha poderia ser punido com a pena de morte.125 Foi alegadamente protegida na Antiga Tessália porque caçava cobras, e amplamente considerada como sendo a "ave branca" de Virgílio.126 Os escritores romanos escreviam que a cegonha-branca chegava na primavera, alertando os agricultores para começarem a plantar as suas vinhas.127

Os seguidores do Islão veneravam as cegonhas porque elas faziam uma peregrinação anual a Meca nas suas migrações.128

Alguns dos primeiros entendimentos sobre a migração de aves foram iniciadas pelo interesse nas cegonhas-brancas; Pfeilstorch (alemão para “cegonha de flecha”, termo dado a cegonhas feridas por flechas enquanto invernam em África) eram encontradas na Europa com flechas africanas no corpo. Um conhecido exemplo dessas cegonhas foi uma encontrada no verão de 1822 na cidade alemã de Klütz em Mecklemburgo sendo feita uma amostra de taxidermia completa ao espécime com o ornamento da flecha africana incluído. Encontra-se agora na Universidade de Rostock.129

As cegonhas não têm medo dos humanos, se não forem perturbadas, e nidificam muitas vezes em edifícios na Europa. Na Alemanha, acredita-se que a presença de um ninho numa casa é uma protecção contra os incêndios. Foram também protegidas porque acreditava-se que tinham almas humanas.130 Residentes alemães e holandeses encorajavam as cegonhas a nidificar nas suas casas, por vezes construindo de propósito plataformas altas, para trazer boa sorte.123 Polacos, lituanos e ucranianos acreditavam que as cegonhas traziam harmonia para a família em cuja propriedade elas nidificavam.131

A cegonha-branca é motivo popular de selos postais sendo presença em mais de 120 selos de mais de 60 entidades editoras de selos.132 É a ave nacional da Lituânia,133 e foi a mascote polaca na Expo 2000 em Hannover.134

No século XIX, pensava-se que as cegonhas apenas viviam em países que tinham a República como forma de governo.135

O poeta polaco Cyprian Kamil Norwid menciona as cegonhas no seu poema Moja piosnka (II) ("A Minha Canção (II)"):136

"Para a terra onde é um travesti grande

Prejudicar um ninho de cegonha numa árvore de pêra, Possam as cegonhas servir todos nós...

Estou com saudades de casa, Senhor!.."


Na Europa, dizia-se que as cegonhas puniam a fêmea infiel ao seu companheiro. Outro costume que persistiu até meados do século XVI, a opinião das cegonhas deveria ser levada em conta em caso de condenação à morte. Se uma delas viesse a pousar na borda da fonte perto da qual se tinha armado o cadafalso, ou se ela voasse incessantemente ao redor da árvore na qual se realizaria o enforcamento, o condenado seria agraciado, porque pensava-se que o julgamento teria algum defeito, denunciado pela cegonha, que, de certa forma, fazia-se de mensageira da vontade divina.137

Na Inglaterra medieval, as cegonhas estavam associadas com o adultério, possivelmente inspirado pelos seus rituais de acasalamento. A postura natural da ave (leia-se vaidosa) era ligada ao atributo da presunção.138

As Cegonhas e os Recém-Nascidos[editar]

Supostos atributos filiais da cegonha.139 Tradução: "Aqueles rapazes observam uma grande ave chamada Cegonha. A cegonha é uma ave muito afectiva, aquela que vêem transporta um parente mais velho nas costas. A velha ave perdeu as suas asas e não consegue voar. Crianças, isto deve ensiná-las a serem sempre obedientes e bondosos para os vossos pais."

De acordo com a lenda do norte europeu, a cegonha é responsável por trazer os bebés para os novos pais. A lenda é muito antiga, mas foi popularizada no século XIX pelo conto de Hans Christian Andersen "As Cegonhas".128 O folclore alemão afirma que as cegonhas encontravam os bebés em caves e pântanos e traziam-nos para as suas famílias num cesto às costas ou pendurados no bico. Estas caves continham as adebarsteine ou as "cegonhas de pedra". Os bebés eram então dados às mães ou largados pela chaminé. As famílias teriam de notificar quando queriam crianças, colocando doces para a cegonha no parapeito da janela.123 A partir daí o folclore espalhou-se por todo o mundo mesmo para países como as Filipinas ou na América do Sul.123

Na Mitologia eslava pensava-se que as cegonhas transportavam as almas de Iriy (paraíso) para a Terra no verão e na primavera.140 Esta crença ainda persiste na cultura moderna "folk" de muitos países eslavos, numa história simplificada que "as cegonhas transportam as crianças para o mundo".141 Os eslavos acreditavam que as cegonhas traziam boa sorte e matando uma acabaria por trazer infortúnio.142

Poster da curta-metragem Party Cloudy (Pixar, 2009).

Um longo estudo que mostra uma correlação espúria entre o número de ninhos e o número de nascimentos humanos, é muito usado para ensinar estatísticas básicas, como um exemplo para destacar que a correlação não indica necessariamente causalidade.143 144

O mito de trazer recém-nascidos aparece em diferentes formas na história. Às crianças dos escravos afro-americanos era-lhes dito que as crianças brancas eram trazidas por cegonhas enquanto as crianças negras nasciam de ovos dos búteos.145

O psicanalista Marvin Margolis sugere a natureza duradoura da fábula da cegonha do recém-nascido, porque está ligada à abordagem e a uma necessidade psicológica, na medida em que alivia o desconforto de discutir sexo e procriação com as crianças. As aves foram sempre associadas como símbolos maternais de deusas pagãs como Juno ou o Espírito Santo, e a cegonha pode bem ter sido escolhida pela sua plumagem (simboliza pureza), tamanho (suficientemente grande para transportar um bebé) e voo a alta altitude (para voar entre a Terra e o Paraíso).123

A fábula e a sua relação como o mundo das crianças foi discutida por Sigmund Freud123 e Carl Jung.146 De facto, Jung recorda que a ele próprio contaram a história quando nasceu a sua irmã.147

A ligação tradicional com os recém-nascidos continua desde então com o seu uso em publicidade a muitos produtos como as fraldas ou ao nascimento de crianças.123

Também houve aspectos negativos do folclore sobre as cegonhas; um conto polaco relata que Deus fez a plumagem branca da cegonha-branca, enquanto o Diabo lhe deu as asas pretas, embutindo-a com impulsos positivos e negativos. Também foram associadas com o nascimento de crianças deficientes, em que se contava que a cegonha tinha deixado cair a criança no percurso para a família, ou como uma vingança por más acções no passado. Uma mãe acamada por volta da altura do parto dizia-se que tinha sido “mordida” por uma cegonha.123 Na Dinamarca, dizia-se que as cegonhas lançavam um filhote fora do ninho e, em seguida, um ovo em anos sucessivos.123

Cinema[editar]

Recentemente uma curta-metragem da Pixar, distribuida pela Walt Disney Pictures, Party Cloudy (2009) (em Portugal "Parcialmente Nublado") fala sobre a ligação da cegonha com os recém-nascidos. Conta a história de uma solitária nuvem cinzenta chamada Gus que tem a tarefa de criar os animais que são bonitos, mas não tão fofinhos, como crocodilos, porco-espinho ou tubarões, e da sua companheira cegonha, de nome Peck, que é a encarregue de entregar os bebés. As criações de Gus são verdadeiras obras de arte, mas para Peck, não são mais do que entregas. À medida que as criações de Gus ficam mais "indisciplinadas", o trabalho de Peck vai ficando cada vez mais difícil.148 149 150

Galeria[editar]

Notas

  1. Por convenção, o comprimento é medido a partir da ponta do bico até a ponta da cauda de uma ave morta (ou pele) deitado com as costas para baixo.

Referências

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