Portão Chalke

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Planta do complexo dos palácios imperiais de Constantinopla.
Miniatura do Hipódromo de Constantinopla pelo miniaturista otomano Matrakçı Nasuh de 1536. A igreja de Cristo Chalkites, conhecida neste período como Arslan Hane, é o grande edifício abobadado vermelho-alaranjado com um terraço, à esquerda do prado florescente (o sítio do antigo Hipódromo) e à direita de Santa Sofia.

O Portão Chalke (em grego: Χαλκῆ Πύλη) foi a principal entrada cerimonial (vestíbulo) do Grande Palácio de Constantinopla durante o Império Bizantino. O nome, que significa "O Portão de Bronze", foi dado por causa dos portais de bronze ou de telhas douradas de bronze utilizadas no telhado.[1] O interior foi ricamente decorado com mármore e mosaicos, e a fachada exterior apresentou um número de estátuas. Os principais elementos do edifício eram um ícone de Cristo que se tornou o principal símbolo iconódulo durante a Iconoclastia, e uma capela dedicada a Cristo Chalkites que foi erigida no século X ao lado do portão. O portão em si parece ter sido demolido no século XIII, mas a capela sobreviveu até o século XIX.

História[editar | editar código-fonte]

A primeira estrutura foi erigida pelo arquiteto Etério durante o reinado do imperador Anastácio I Dicoro (r. 491–518) para celebrar a vitória na Guerra Isauriana (492-497).[2] Como grande parte do centro da cidade, a estrutura foi incendiada durante a revolta de Nika em 532 e foi subsequentemente reconstruída pelo imperador Justiniano I (r. 527–565).[3] Este edifício foi extensivamente descrito pelo historiador Procópio em seu De Aedificiis.[4] Nos séculos VII e VIII, o Chalke em si ou suas dependências tornaram-se uma prisão até o imperador Basílio I, o Macedônio (r. 867–886) repará-lo e transformá-lo em um tribunal.[5] [6]

O imperador Romano I Lecapeno (r. 920–944) anexou uma pequena capela dedicada a Cristo Chalkites (em grego: Χριστός Χαλκίτης) que foi posteriormente reconstruída em grande escala pelo imperador João I Tzimisces (r. 969–976), que dotou-a com relíquias e foi sepultado lá.[7] [8] Esta reconstrução foi facilitada pelo fato de que seu predecessor, Nicéforo II Focas (r. 963–969), tinha fechado o precinto do palácio com um novo muro de perímetro reduzido, para o qual o Chalke não era mais conectado. A portaria principal, despojada de suas portas de bronze pelo imperador Isaac II Ângelo durante seu primeiro reinado (1185–1195), não é mencionada em crônicas após ca. 1200.[9] A capela, contudo, sobreviveu muito tempo depois: é mencionada por peregrinos russos como estando em grande parte preservada no século XIV,[10] e na época otomana, as ruínas da capela eram conhecidas como Arslan Hane e funcionaram como um alojamento de feras.[11] Os restos da capela são retratados em desenhos do século XVIII, até sua demolição final em 1804.[5]

Descrição[editar | editar código-fonte]

Várias descrições literárias do portão sobreviveram. Procópio é a fonte mais antiga e mais proeminente, mas registros das estátuas decorativas da fachada também vem do Parastaseis syntomoi chronikai.[12] O portão estava no canto sudoeste do Augusteu, a principal praça cerimonial da cidade, com Santa Sofia ao norte e as Termas de Zeuxipo e o Hipódromo de Constantinopla a sul e oeste respectivamente.[13]

O Chalke de Justiniano era um edifício retangular, com quatro pilares de apoio envolvidos em uma cúpula central em pendículos, que por sua vez se apoiavam em quatro abóbadas de berço na forma típica bizantina. Os pilares do sul e norte eram um pouco menores do que os do leste e oeste.[14] A estrutura central era ligada por duas câmaras menores de ambos os lados para o sul e norte, cada qual com um teto abobadado.[15] A relação da igreja de Cristo Chalkites com o portão é incerta; Cyril Mango sugere que estava localizada a sua esquerda, mas também tem sido proposto que ela teria sido erigida sob a portaria em si.[16] Sabe-se que a capela situava-se em cima de uma plataforma elevada, e representações do século XVIII localizam-na a cerca de 100 metros ao sul do canto sudoeste de Santa Sofia.[5]

A decoração interior do vestíbulo é também descrita em Procópio: as paredes foram decoradas com placas de mármore multicolorido, enquanto os limites foram cobertos por mosaicos, que descreviam Justiniano e sua imperatriz Teodora flanqueados pelo senado, bem como pelas vitórias de Belisário nas guerras gótica e vândala e seu retorno triunfal portando despojos, com reis e reinos derrotados para seu imperador.[17]

Ícone celebrando o "Triunfo da Ortodoxia" e a restauração da adoração de ícones em 843. Santa Teodósia, uma mártir iconódula, a primeira à esquerda na linha de baixo, é representada com o ícone de Cristo Chalkites.[18]

A decoração externa é comparativamente desconhecida, mas o Parastaseis syntomoi registra a existência de várias estátuas, provavelmente localizadas nos nichos acima da porta central.[19] Estas incluem o imperador Maurício I (r. 582–602) e sua esposa e filhos, uma par de estátuas de filósofos tomadas de Atenas, que estão com os braços esticados uma para a outra,[20] estátuas do imperador Zenão I (r. 474–491) e da imperatriz Ariadne[21] bem como quatro cabeças de górgonas do Artemision do Éfeso que "rodeavam Chalke com o sinal da cruz sobre elas".[22] O mesmo texto também registra que estátuas do imperador Maximiano (r. 285–305) e a dinastia de Teodósio I (r. 378–395) inteira estavam localizadas "nas proximidades", enquanto a exata localização da estátua da imperatriz Élia Pulquéria em relação ao edifício é incerta.[23] Cyril Mango, que estudou o problema do estatuário registrado no Parastaseis, concluiu que as referências vêm de um texto escrito em ca. 600 - em grande parte porque as imagens do imperador Maurício e sua família são susceptíveis de ter sobrevivido a sua derrubada e assassinado por Focas em 602.[24]

Ícone de Cristo Chalkites[editar | editar código-fonte]

Acima da entrada principal do Chalke situava-se um ícone de Cristo, o chamado Cristo Chalkites ("Cristo de Chalke").[5] As origens do ícone são obscuras: baseado na menção no Parasteseis, pode ter existido por ca. 600, mas não pode ser afirmada com toda a certeza.[25] Sua exibição proeminente na própria entrada do palácio imperial fez dele um dos principais símbolos religiosos da cidade.[26] Por conseguinte, a sua remoção, em 726 ou 730, pelo imperador Leão III, o Isáurio (r. 717–741), era ao mesmo tempo uma importante declaração política e uma faísca para distúrbios violentos na cidade, e marcou o início da proibição oficial de ícones no império. O ícone foi restaurado pela primeira vez pela imperatriz Irene em ca. 787, até que foi novamente removido por Leão V, o Armênio (r. 813–820) e substituído por uma simples cruz. Após a definitiva restauração da veneração de ícones em 843, um ícone em mosaico produzido pelo famoso monge e artista iconódulo Lázaro o substituiu.[27] [28]

A aparência exata do ícone é incerta: embora a primeira imagem tenha sido interpretada como um busto do tipo Cristo Pantocrator, referências bizantinas posteriores, tais como moedas de João III Vatatzes (r. 1221–1254) e o mosaico Deesis da Igreja Chora, usam o termo para representações de um Cristo em pé sobre um pedestal.[29] [30]

Referências

  1. Kazhdan 1991, p. 405
  2. Martindale 1980, p. 19
  3. Kazhdan 1991, p. 405-406
  4. Procópio 561, p. I.10.11-12
  5. a b c d Kazhdan 1991, p. 406
  6. Mango 1959, p. 34
  7. Mango 1959, p. 149
  8. Janin 1968, p. 529-530
  9. Mango 1959, p. 34-35
  10. Majeska 1984, p. 241-242
  11. Mango 1959, p. 149-169
  12. Cameron 1984, p. 48-51
  13. Kazhdan 1991, p. 232
  14. Procópio 561, p. I.10.12-14
  15. Procópio 561, p. I.10.13-14
  16. Mango 1959, p. 154
  17. Procópio 561, p. I.10.16-18
  18. Cormack 2000, p. 32; 91
  19. Mango 1959, p. 99-104
  20. Cameron 1984, p. 63
  21. Cameron 1984, p. 95
  22. Cameron 1984, p. 121; 159
  23. Cameron 1984, p. 159; 207-208
  24. Mango 1959, p. 102
  25. Mango 1959, p. 103; 108-112
  26. Cameron 1984, p. 175
  27. Kazhdan 1991, p. 406; 440
  28. Cormack 2000, p. 114
  29. Kazhdan 1991, p. 440
  30. Mango 1959, p. 135-142
  • Este artigo foi inicialmente traduzido do artigo da Wikipédia em inglês, cujo título é «Chalke», especificamente desta versão.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Cameron, Averil; Judith Herrin. Constantinople in the early eighth century: the Parastaseis syntomoi chronikai (introduction, translation, and commentary). [S.l.]: Brill Archive, 1984. ISBN 978-90-04-07010-3
  • Kazhdan, Alexander Petrovich. The Oxford Dictionary of Byzantium. Nova Iorque e Oxford: Oxford University Press, 1991. ISBN 0-19-504652-8
  • Janin, Raymond. Constantinople Byzantine. Développement urbaine et répertoire topographique. Paris: [s.n.], 1968.
  • Majeska, George P.. Russian Travelers to Constantinople in the Fourteenth and Fifteenth Centuries. [S.l.]: Dumbarton Oaks, 1984. ISBN 978-0-88402-101-8
  • Mango, Cyril. The Brazen House: A Study of the Vestibule of the Imperial Palace of Constantinople. Copenhagen: Universidade de Michigan, 1959.
  • Martindale, J. R.; Arnold Hugh Martin Jones. The Prosopography of the Later Roman Empire: Volume 2, AD 395-527. [S.l.]: Cambridge University Press, 1980. ISBN 0521201594