Charruas

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Text document with red question mark.svg
Este artigo ou secção contém uma ou mais fontes no fim do texto, mas nenhuma é citada no corpo do artigo, o que compromete a confiabilidade das informações. (desde maio de 2011)
Por favor, melhore este artigo introduzindo notas de rodapé citando as fontes, inserindo-as no corpo do texto quando necessário.
Charruas
Pintura de Jean-Baptiste Debret (1768-1848) retratando um charrua
População total

6 000

Regiões com população significativa
Argentina, Uruguai e Brasil
Línguas
línguas charruanas
Religiões

Os charruas ou charruás[1] eram índios que habitavam nos campos dos territórios atuais do Uruguai, do nordeste da Argentina (especialmente na Província de Entre Ríos) e do sul do Rio Grande do Sul, no Brasil.

Território ocupado[editar | editar código-fonte]

Rio Negro, nascendo no Brasil e seu trajeto no Uruguai até o Rio Uruguai

Inicialmente, ocupavam as duas margens do rio Uruguai, desde Itapeiu até o seu delta, mas, já em época colonial europeia, estenderam seus domínios até as costas do Paraná e ocuparam o Rio Grande do Sul. Localizaram-se na coxilha de Haedo, localizada ao sudoeste do Rio Grande do Sul, seguindo até o Rio Negro.

Em 1730, se aliaram aos minuanos, que vinham de além do Rio Uruguai e se estabeleceram nas terras próximas à Lagoa Mirim e à Lagoa dos Patos. Os guenoas ou guanoas eram charruas setentrionais. Os três povos têm suas origens na região da Patagônia, na Argentina (a região dos índios "patagões" ou "patagones").

Tipo físico[editar | editar código-fonte]

Eram altos, com uma média de 1,99 metros para os homens e 1,98 metros para as mulheres, de aspecto sério e taciturno, porte duro e feroz. Os homens apresentavam barba como distintivo varonil, na qual os caciques usavam engastadas como adorno pedras e - após o contato com produtos da civilização europeia - latas e vidros. A tatuagem no rosto consistia em três linhas que iam da raiz dos cabelos até a ponta do nariz e duas linhas transversais que iam de zigoma a zigoma. Para a guerra e festas, pintavam a mandíbula superior de branco.

Armas[editar | editar código-fonte]

Como armas usavam o arco, flecha com carcases, boleadeiras, funda e lança. As flechas tinham as pontas feitas de pedra lascada. Após o contato com os espanhóis, as boleadeiras, que eram atadas com corda de tucum, passaram a ser ligadas com tiras de couro.

Construções[editar | editar código-fonte]

As tendas charruas, primitivamente, eram feitas com quatro estacas e esteiras de palha no teto e nas paredes. Após o contato com os espanhóis, passaram a usar largos pedaços de couro e armas dos espanhóis e dos portugueses, como armas de fogo.

Hábitos[editar | editar código-fonte]

Não eram agricultores. A alimentação era caça e frutos e também foi modificada em contato com os espanhóis, passando os charruas a preferir a carne de cavalo. O uso do fumo e erva-mate adveio do contato com os brancos, pois não há vestígios anteriores desses costumes entre os charruas. Já em contato com os espanhóis, cobriam o corpo com uma camisa curta, sem mangas de pele curtida. No inverno, o pelo era aplicado pelo lado de dentro e no verão, ao contrário. As mulheres usavam uma saia de algodão até os joelhos. Não sabiam fiar nem tecer. Os panos de algodão que passaram a usar foram adquiridos em contato com os guaranis.

Eram polígamos. As mulheres cuidavam das tarefas domésticas e dos cavalos. O homem se dedicava à guerra e à caça. Faziam conselhos de família para decidir sobre assuntos de guerra ou outros interesses. Aprenderam a montar com os espanhóis, tornando-se exímios cavaleiros, hábeis na guerra e na caça. Em domínio espanhol, atacavam fazendas, raptavam as mulheres, castravam os meninos e os levavam como escravos, e matavam os homens adultos. Não praticavam o canibalismo, ao contrário dos tupis e guaranis não reduzidos. Os diversos grupos charruas falavam o que se convenciona chamar "línguas charruanas".

Religião[editar | editar código-fonte]

Pouca informação se tem sobre sua religiosidade, mas, durante fartas libações, invocavam um ser superior que, algumas vezes, poderia se tornar visível. Aos médicos-feiticeiros, atribuíam o poder de curar doenças, transbordar os rios, parar as feras; também havia velhas que curavam chupando a pele nos lugares doloridos. O funeral era entregue a uma velha que se encarregava de descarnar os ossos e sepultar. As mulheres de parentesco mais próximo (esposas e filhas), na perda do familiar, amputavam-se uma falange, além de cravarem, em si mesmas, flechas que tinham pertencido ao morto. O costume de amputação de falange também é encontrado em povos primitivos da Indonésia.

O filho, quando havia a morte do pai, ocultava-se por dois dias em sua cabana; após isto, à noite, dirigia-se a outro índio que lhe trespassava com pedaços de taquara a pele do braço do punho até o ombro; após isto, saía nu no bosque; cavava um buraco no chão onde coubesse até o peito e ali passava a noite; pela manhã, voltava à cabana, onde lhe tiravam as taquaras e passava dois dias sem comer e beber; nos dez dias seguintes, os meninos da tribo lhe levavam água e aves de caça; ao final deste tempo, voltava ao convívio da tribo. O marido não aparentava dor pela morte da mulher nem o pai pela morte do filho.

Os últimos charruas[editar | editar código-fonte]

Foram assim chamados os quatro indígenas enviados a Paris "para estudos científicos", remanescentes da Batalha de Salsipuedes. Eram uma mulher e três homens. Seus nomes eram Senaqué, Tacuavé, Vaimaca e Guyunusa. Sabe-se que alguns percorreram a Europa em circos, em apresentação falaciosa, como antropófagos do novo continente. Entretanto, acredita-se que a etnia charrua pura não adentrara ao século XIX. As tribos ditas charruas vitimadas pela perseguição do recém-formado Uruguai eram compostas por indivíduos já com diferentes influências raciais e culturais.

Os charruas de hoje[editar | editar código-fonte]

São considerados desaparecidos como tribo, sem nunca terem sido catequizados ou civilizados. A etnia misturou-se às demais da região. Os uruguaios de hoje orgulham-se da ascendência charrua, que lhes teria fornecido seu caráter indômito e indomável. Na Argentina, ao nordeste, encontram-se traços de sua descendência na Província de Entre Ríos.

Mas, em 9 de novembro de 2007, após uma luta que já durava 172 anos, a Câmara Municipal de Porto Alegre realizou ato que reconhecia a comunidade charrua como povo indígena brasileiro.[2] Considerada extinta pela Fundação Nacional do Índio (Funai), a tribo charrua voltou a ser reconhecida em ato oficial da fundação em setembro de 2007. O evento foi organizado em conjunto pelas comissões de Direitos Humanos da Câmara Municipal, da Assembleia Legislativa e do Senado Federal.

Existem, hoje, cerca de seis mil charruas nos países que compõem o Mercosul. Só no Rio Grande do Sul, são mais de quatrocentos índios presentes nas localidades de Santo Ângelo, São Miguel das Missões e Porto Alegre.

Representações na cultura[editar | editar código-fonte]

  • Tabaré - poema épico escrito por Juan Zorrilla de San Martín exaltando as origens étnicas uruguaias (a exemplo do romance Iracema, no Brasil)
  • Abayubá - novela indigenista que exalta um legendário chefe desta tribo que ficou conhecido pela bravura na luta contra os conquistadores europeus em 1574.
Commons
O Commons possui imagens e outras mídias sobre Charruas

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 392.
  2. Câmara municipal de Porto Alegre. Disponível em http://www2.camarapoa.rs.gov.br/default.php?reg=2522&p_secao=56&di=2007-03-06. Acesso em 16 de agosto de 2014.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Enciclopédia Rio Grandense - Volume I . 1968. Ed Sulina (Porto Alegre)
  • CORDEIRO, Serafin . El Charrua . Editorial Mentor. (Montevideo)
  • Revista Pesquisa FAPESP, O DNA dos pampas, edição eletronica